A CIDADANIA E O POVO DO ABISMO

11 fev

Recentemente comentava em família que o cotidiano no Brasil está parecendo um daqueles romances do Dickens. Com as notícias se sucedendo com a regularidade e o melodrama do folhetim e aqueles tipos humanos surrados de sempre. Entre os meus amigos do Facebook tenho uma variada fauna de Estellas, Pips, Mr. Pickwicks, Doras e Stephen Blackpools; meu marido tem ao menos dois clientes que relembram Mr. Micawber e estamos sendo governados por uma quadrilha composta por Fagin, Thomas Gradgrind, Stirforth, Bill Sikes, Uriah Heep e Mr. Murdstone. Isso para ficar no mais óbvio.

 

Brinquei dizendo que não gostaria que passássemos de Dickens para Zola, ao que me foi respondido que pior que o Germinal seria se evoluíssemos para Jack London n’O Povo do Abismo. E essas analogias me deixaram pensando sobre como temos a tendência a catalogar os tipos humanos a partir de referências pessoais que nem sempre são intercambiáveis. Fiquei imaginando quantos dos meus jovens amigos da internet terão lido qualquer desses autores.

 

Para você que está meio que “boiando” e com preguiça de usar o Google já adianto que as personagens que citei acima estão presentes em Tempos Difíceis, Grandes Esperanças, Oliver Twist, David Coperfield e Pickwick Papers. Todos romances de Charles Dickens, prolífico escritor vitoriano que sensibilizou os leitores do Reino Unido com as mais variadas dimensões da miséria econômica e humana. Alguns de seus romances surgiram primeiro em forma de folhetins, que se tornaram muito populares, caindo no gosto inclusive das classes mais abastadas, e depois foram comercializados como livros convencionais.

 

Suas personagens são sempre tragadas por um mundo de adversidades, povoado por gente mesquinha, perigosa e por vezes francamente abjeta, e são obrigados a superar os obstáculos mais cruéis em seu processo de redenção. Há heroísmo, abnegação e a possibilidade de crescimento humano se você é um protagonista dickensiano, mas para isso terá que enfrentar sofrimentos atrozes e colocar à prova toda a sua fibra e seu caráter. Você pode chegar ao final da história em cacos, que ainda assim sairá engrandecido, o que já não se pode dizer da vasta fauna de miseráveis de espírito e bandidos que deverá enfrentar.

 

Já o Germinal de Emile Zola é um sólido romance naturalista, na linha dos irmãos Goncourt, ou seus equivalentes aqui no Brasil, Aluísio e Arthur Azevedo. Trata das peripécias dos mineiros de carvão na França do século XIX e das pavorosas consequências de uma greve levada ao limite quase revolucionário. Reflete a miséria sem redenção e suas personagens mais heroicas vivem situações sem saída, a não ser a Revolução ou a morte.

 

O Povo do Abismo, entretanto, não é um romance e sim o relatório de uma experiência antropológica levada a cabo por Jack London na Inglaterra vitoriana. O escritor socialista resolveu vivenciar a pobreza urbana já narrada por Dickens e nos mostra os meandros da exclusão e da miséria presentes nas fímbrias do entorno urbano resultante da Revolução Industrial. É um daqueles livros que são mais citados que lidos.

 

E como a nossa situação pode ser comparável a esse universo vitoriano de miséria, exploração e sofrimento?

 

Vivemos no limiar da convulsão social. As medidas implantadas pelo governo golpista são alarmantes em curto prazo, catastróficas em médio prazo e suicidas em termos de possibilidade de futuro. A destruição das políticas sociais e trabalhistas ameaça jogar o país de volta aos termos da relação capital/trabalho do século XIX.

 

Nesse sentido, subjacente à verborragia dos comentaristas televisivos, que não se cansam de esconder as informações relevantes para evitar ser confrontados com a irresponsabilidade de promover o caos que possibilitou golpe, encontra-se uma tendência insidiosa de demonização do meio intelectual. Uma celebração da mediocridade em programações deploráveis e com a promoção de subcelebridades asininas, que opinam sobre o que não sabem e fiscalizam lutos, genitálias e direitos alheios como se oráculos fossem. E, como se não bastasse, as redes sociais reverberam a opinião dos que mal sabem decifrar um texto, mas se arrogam ao direito de ditar e impor suas idiossincrasias religiosas e políticas ao coletivo da sociedade.

 

Todo esse lastimável caldo de cultura está produzindo ódio, violência e ignorância, de uma maneira que tende a tornar-se insanável na medida em que as pessoas que detém o conhecimento necessário para empreender análises sociais e históricas desta crise, e propor soluções, estão sendo solapadas, demonizadas e excluídas do diálogo social por propostas de leis estapafúrdias de censura. Às favas a República, a Democracia, os Direitos Humanos e a Cidadania!!! O loteamento dos três poderes do Estado republicano entre latifundiários, fundamentalistas religiosos, estafetas dos banqueiros e capachos das corporações transnacionais nunca esteve mais distante do ideal de cidadania plena.

 

Como se houvesse um abismo separando a população em dois extremos cresce o ativismo de uma extrema direita histriônica, sem projeto e que se promove a partir da disseminação do ódio ao diferente e da perseguição às minorias. Sempre que tentamos travar algum diálogo ou desenvolver argumentações sobre a situação social encontramos ouvidos moucos, chavões tolos e a mais rasa subserviência aos modelos de análise social da já superada Guerra Fria. Seria cômico se não fosse trágico e assustador.

 

A cada dia os noticiários divulgam ou escondem uma nova reviravolta ou peripécia que nos aproxima da miséria, da falta de perspectiva, da ausência de aposentadoria, da perda dos mais elementares direitos trabalhistas, da desumanização da sociedade. Quanto tempo levará de Dickens a Jack London eu nem imagino, mas não vejo sinais de que vá surgir algum movimento sensato que possa desarmar a bomba-relógio da convulsão social. Ao contrário, as instituições preparam-se para o enfrentamento fortalecendo as instâncias da repressão.

 

E a cidadania?

 

Evaporou.  Eleitores votam em um Executivo progressista porque percebem a melhora em seus meios de vida, mas votam em um Legislativo abjetamente conservador porque não querem aceitar de modo algum como iguais em direitos os cidadãos que são diferentes na forma. E esse Legislativo viciado de rancores sociais e religiosos destrói qualquer chance de futuro para o país.

 

E o grosso da população liga? Nem um pouco, preferem a miséria com seus deuses excludentes do que a prosperidade convivendo com inclusão social. Racismo, homofobia, xenofobia e machismo são a base que mantém no poder essa renca de sujeitinhos medíocres, lastimáveis e lombrosianos que promoveram o golpe.

 

E aqui estou eu de novo clamando no deserto. Publicando em um blog e compartilhando no Facebook para atingir, quando muito, duzentos leitores. E sendo a louca da palestra.

 

Mas tudo bem, antes a loucura racional que a sanidade alucinada que nos rodeia. Afinal. de nada adianta argumentar que os conceitos não podem e nem devem ser usados fora de seu significado original. A neurolinguística e outras panaceias da pós-modernidade vem ressignificando palavras, conceitos e realidades à nossa revelia.

 

Neste mundinho canhestro produzido pela autoajuda e os reality shows, a valorização da mediocridade reina em nome de um relativismo cultural, que se pretende liberal. Então chamamos de fascistas todo e qualquer autoritário, reacionário ou conservador, mesmo que sejam na verdade protofascistas ou nem isso. Relativizamos e nivelamos a linguagem ao alcance do espectador médio, de medo de não ser compreendidos, de não poder transmitir “nossa mensagem”.

 

E temos pavor de ser acerbamente criticados por tentar elevar o nível intelectual de qualquer debate. A Direita mantém uma cruzada secular de perseguição ao pensamento racional e ao cultivo do conhecimento entre as classes mais pobres. Nossos rednecks tupiniquins nada devem aos seus congêneres do Cinturão da Bíblia estadunidense.

 

Palavras e conceitos caem em desuso ou são toscamente ressignificados para adequar-se ao caldo de cultura de ódio e pobreza verbal que assola as redes sociais e a vida real. Não admira que a consciência de classe tenha sido esmagada em seu nascedouro por um século de perseguição implacável ou que a cidadania jamais tenha se concretizado, escamoteada por regimes que dizem ser o que não são.

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2 Respostas to “A CIDADANIA E O POVO DO ABISMO”

  1. Gorki Girlad fevereiro 14, 2017 às 12:55 am #

    O único livro do Dickens que li foi David Copperfield,o que causou bastante estranheza em alguns alunos da minha escola, todos pensavam que eu estava lendo a bíblia ou a biografia do mágico, mas é bem verdade que a edição da cosac chama atenção pelo tamanho. Esse ano eu completo 18 anos e irei tirar o meu titulo de eleitor, sou cristão e me identifico com o pensamento da direita e fico um pouco perdido no meio de tanta falsidade e mentira. Eu acho que a gente vive em um momento de delicadeza em nosso país e que tem que haver dialogo e muito questionamento, e acima de tudo respeito. Eu admiro muito escritores como Dickens, que jogam luz nesse lado sombrio da sociedade conservadora e hipócrita, fala com extrema sensibilidade de pessoas que são boas e por um erro da vida ou por uma decisão precipitada viram pecadores para a sociedade de uma hora para outra, como se tudo que ela fosse antes não valesse nada, um exemplo claro é a história da Emily no livro.
    Gosto de ver seus vídeos no YouTube e apesar de não concordar com tudo eu admiro seu trabalho, muito obrigado por compartilhar seu conhecimento que é muito vasto, é difícil encontrar gente seria por ai.

    • annagicelle fevereiro 14, 2017 às 10:31 am #

      Obrigada por sua mensagem 🙂 De fato, nós vivemos um momento muito crítico em relação à tolerância e convivência dos seres humanos, mas não é necessariamente algo novo. Dickens denunciava isso na sociedade do século XIX e Cícero na Roma Antiga. Você, sendo cristão, deve lembrar que Jesus, em Mateus, também se insurgiu contra a hipocrisia dos fariseus e conclamou em várias passagens à tolerância com os pecadores porque ninguém está livre de cometer erros. Buda, mais de mil anos antes de Jesus já criticava esses comportamentos. A humanidade, infelizmente, parece não aprender nem com seus textos místicos e nem com sua experiência histórica. A mentira é algo que existe desde sempre e precisamos evitar que ela se torne natural. Eu acredito que a tolerância implica em respeitar mesmo quando não se concorda com o pensamento dos outros, e respeitar implica em aceitar a existência sem tentar “transformar” o outro em uma cópia de si e sem desejar castigos nem mortes horríveis para quem não pensa e nem vive como nós. É difícil porque as pessoas estão cheias de rancor e o respeito requer que se jogue fora esse tipo de sentimento. Torço mesmo para que consigamos superar esta etapa e viver minimamente em paz. Boa sorte!

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