O DOUTOR BEN CARSON E A REFORMA DO ENSINO MÉDIO

19 fev

Ben Carson é um laureado psiquiatra e neurocirurgião pediátrico estadunidense. Formado em Yale, dirigiu departamentos em instituições de prestígio como o Hospital John Hopkins, uma das referências em termos de ensino e pesquisa de excelência nos Estados Unidos. Foi responsável pela cirurgia mundialmente famosa que separou gêmeos siameses ligados pela cabeça em 1987.

 

Conservador e filiado ao Partido Republicano, esteve cotado para disputar a indicação como candidato à presidência por esse partido, nas últimas três eleições ocorridas em seu país. Escritor bastante bem sucedido na área de memórias de autoajuda, Carson teve sua vida transformada em filme e é considerado uma referência do “sonho americano”. E é aí que começam os problemas.

 

Um detalhe, Ben Carson vem de família simples. Filho de um pastor batista, hoje pertence às hostes da Igreja Adventista do Sétimo Dia. E por isso defende com unhas e dentes o Criacionismo e acredita que o Universo tem menos de dez mil anos.

 

A primeira vez que ouvi uma entrevista sua, meu cérebro se recusou a processar que uma pessoa conseguisse formar-se em medicina e especializar-se em modalidades com elevado grau de complexidade e continuasse negando os mais elementares conhecimentos de Biologia, Geologia e Astronomia. Passei a considerar com extremas ressalvas a universidade (tão prestigiada!) que lhe concedeu diplomas e títulos, bem como o sistema que lhe permite lecionar e ser referência em sua área. E ainda mais a sociedade acrítica que o celebra como um triunfo da “meritocracia”.

 

Sim, porque o doutor Ben Carson é o perfeito garoto propaganda que agrada os conservadores por seus valores cristãos e os liberais por sua trajetória vitoriosa escalando os degraus do mérito capitalista. É alguém que “venceu por seu próprio esforço” e “permaneceu fiel à sua fé” mesmo quando os conhecimentos mais básicos escolares em Ciências desafiam a força da mitologia que defende. É mais uma daquelas exceções muito bem calculadas que reforçam o sonho capitalista e jogam seu grupo social de origem em uma espiral de culpa por não conseguir realizar uma trajetória de mérito como a sua.

 

E, sendo negro, é o álibi perfeito para que os republicanos racistas (e outros tantos) possam apregoar sua própria “isenção” ao tolerá-lo no partido e a excelência do sistema que lhe permitiu “chegar tão longe”. É um “token” à vista de toda a sociedade, a exceção que confirma a regra.

 

Ben Carson engoliu a isca, o anzol e a chumbada da meritocracia e a defende em livros autolaudatórios. E não se envergonha de ir à frente das câmeras para oferecer uma explicação pseudocientífica para sua mitologia cristã primitiva. E eu pergunto: dá para ser um cirurgião brilhante e um perfeito ignorante ao mesmo tempo?

 

Dá sim, porque Ben Carson é o resultado de um sistema de ensino compartimentado, que permite que os conselhos escolares determinem o peso e o conteúdo de disciplinas obrigatórias ou eletivas de acordo com as idiossincrasias da comunidade a que servem; que permite que os alunos se especializem já no colegial, abrindo mão de uma educação mais universal e limitando suas escolhas para agradar a formação requerida pelo “mercado”; que oferece acesso a universidades claramente segregadas socialmente.

 

Em outras palavras, Ben Carson é o sonho dos defensores da infame reforma do Ensino Médio promovida pelo governo golpista do Brasil e dos partidários do igualmente infame projeto Escola sem Partido. É um médico brilhante (ponto para o mercado), um alienado político que defende o grupo social que oprime seus companheiros de origem e um defensor ignorante da anti-ciência (ponto para os fanáticos religiosos). É um cidadão exemplar premiado e condecorado que não ameaça o sistema vigente, mas que (ao contrário) defende o crescimento do obscurantismo e da ignorância ao propagandeá-los como parte de seu sucesso.

 

Esse tipo de ensino, que querem nos impor, é o responsável nos Estados Unidos pela manutenção das desigualdades porque sua formação pobre e socialmente segmentada é que abastece o mercado com uma reserva permanente de trabalhadores, mantendo os salários baixos, impedindo a organização e a luta por direitos trabalhistas elementares e promovendo a ignorância em tudo que não seja útil ou necessário ao desempenho profissional.

 

Nos projetos tupiniquins, como não poderia deixar de ser, existem agravantes monstruosos:

  1. A demonização dos professores e sua consequente desvalorização e perseguição.
  2. A perpetuação do racismo impedindo que as matérias ligadas ao conhecimento das origens africanas de uma parte significativa da população se incorporem ao ensino obrigatório.
  3. A perpetuação do machismo ao perseguir as discussões sobre gênero, sexualidade e planejamento familiar.
  4. O aumento da intolerância ao permitir que apenas as matrizes cristãs se manifestem na educação, jogando no lixo o Estado Laico e promovendo a perseguição das religiões de matriz africana e daqueles que não professam religião alguma.

 

O que estamos vendo é o desmantelamento de um sistema educacional, que já era precário, e a promoção de uma “reforma” que se destina à destruição sistemática de direitos e conquistas sociais históricos. A celebração da ignorância e da intolerância como elementos indispensáveis para sobreviver nessa nova ordem sociopolítica que ameaça mergulhar o país em índices sociais e econômicos de quarto mundo. O Brasil parece destinado a voltar a patamares de segregação e opressão sociais similares aos do início do século XX, eliminando cem anos de lutas em um uma canetada golpista.

 

Sinceramente, o tempo para discutir reformas e projetos está ficando escasso e o tempo para resistir e lutar está ficando urgente. Como faremos isso é a pergunta que me tira o sono e a saúde. A apatia que nos rodeia então…

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4 Respostas to “O DOUTOR BEN CARSON E A REFORMA DO ENSINO MÉDIO”

  1. Douglas fevereiro 19, 2017 às 5:00 pm #

    Boa tarde =). Primeiramente, fora Temer.

    Ótima análise. No meu estado, em torno de um ano atrás, a assembleia legislativa barrou uma proposta que buscava incluir no currículo escolar uma preocupação com a questão de gênero e sexualidade. A principal justificativa que os conservadores utilizaram foi de que a proposta era uma “imposição da ideologia de gênero”. A ideia que os deputados direitistas tinham sobre a proposta era paranoica, até mesmo esquizofrênica, como se uma população em situação precária tivesse o mesmo poder que os homens brancos e abastados que, em sua maioria, ocupam o congresso e as assembleias dos estados. O que chama a atenção, no entanto, é o perfil dos eleitores de alguns dos porta-vozes da direita conservadora que desejava manter longe da escola as questões de gênero. Um dos deputados estaduais é um sujeito de vinte e poucos anos, bem sucedido entre o eleitorado jovem e de classe média. São pessoas que, teoricamente, embora na prática não seja bem assim, tiveram acesso à educação e à informação de qualidade suficientes para compreender o país violento em que vivem e a importância de discutir gênero e sexualidade nas escolas como forma de diminuir o preconceito que há na sociedade em relação à população LGBT. E há mais um aspecto: uma parte considerável do eleitorado dessa direita “jovem” sequer é religiosa, o que parece ser um paradoxo inexplicável. Isso só mostra que, tal como exposto pela senhora, a educação crítica e a consciência democrática passam longe até mesmo dos grupos sociais que teoricamente tiveram acesso a uma educação de maior qualidade. Fico pensando qual será o resultado de se especializar e tecnicizar o ensino básico para a qualidade do debate público, que mesmo com ensino obrigatório de História, Sociologia e Filosofia já vai muito mal.

    É assustador pensar que essa corja ultraconservadora racista, homofóbica e machista pode decidir como será o ensino do país, inclusive em termos curriculares. Fico imaginando que tipo de coisas terei de ensinar aos alunos quando me formar, ou que tipo de coisas não poderei ensinar, vide os projetos como Escola sem Partido…

    De qualquer forma, parabéns pelo texto e pelo trabalho realizado aqui na internet; constitui um pontinho de luz e raciocínio crítico no meio de tanta barbárie que se vê na internet. Um abraço e uma ótima semana =)

    • annagicelle fevereiro 19, 2017 às 9:05 pm #

      Obrigada por sua mensagem tão gentil, Douglas 🙂 Ótima semana e um grande abraço 🙂

  2. Eromildo Cruz fevereiro 19, 2017 às 10:24 pm #

    Mais um impecável e excelente texto professora Alaniz!
    Parece-me, o medo de uma sociedade dinâmica com possibilidade de sofrer mudanças leva os conservadores a construir correntes com elos fortes para puxar a sociedade para o modelo conservador americano. Ainda acredito que a nossa débil democracia será capaz de nos impulsionar num outro sentido a partir das eleiçao de 2018.
    Trabalhos como o seu esclarecedor, de conteúdo profundo, é significativo para despertar o pensar e a análise desse projeto em curso patrocinado pelo atual governo conservador do Brasil. Seu texto joga luz sobre a conjuntura que estamos vivendo.
    OBRIGADO!

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