Arquivo | março, 2017

DIALOGAR COM A DIREITA?

29 mar

Leio e ouço frequentemente, daquelas “lideranças” trotskistas de sempre, que a esquerda precisa fazer autocrítica, que precisa sair dos meios acadêmicos e das redes sociais e reencontrar as bases. Confesso que concordo em parte, mas tenho uma imensa preguiça de gente que exige o que não faz. Não vejo nenhum dos “protagonistas” de 2013 desculpando-se por ter entregado as ruas de mão-beijada à direita mais asquerosa do país, e nem lamentando ter apoiado e promovido a demonização do PT, na esperança de colher pífios triunfos eleitorais.

 

De qualquer modo, exortações para que se dialogue com a direita, e se “esclareça” aos ignaros porque a nossa posição é a mais iluminada, são o que não falta nas redes sociais. Pessoas mandando as outras estudarem História ou tentando impor suas interpretações sobre a sociedade, a ciência e política são frequentes nos dois lados do espectro. Talvez a esquerda seja mais polida e menos vulgar e ignorante que a direita, mas ainda assim todos nós (e eu me incluo nisso) passamos uma boa parte do tempo tentando ensinar aos outros como viver e como pensar.

 

E aí é que está um erro bastante crasso que atinge os dois lados. Estamos nos extremos do espectro ideológico e estamos ignorando o “centro”, que inclui não apenas os moderados, mas também os indiferentes e os indecisos, que eventualmente podem escolher qualquer dos dois lados porque não tem ideologia alguma e atendem a interesses absolutamente pragmáticos. Nós da esquerda perdemos um tempo precioso tentando dialogar com pessoas que não querem ouvir, que não podem e nem querem ser convencidas de nada e que querem (na maior parte do tempo) reduzir-nos ao silêncio na base do grito.

 

Por que qualquer pessoa minimamente inteligente perderia tempo tentando conversar com quem defende monarquia, intervenção militar, tortura, ódio às minorias e mordaças nos meios escolares? Quem acredita que os comunistas estão batendo à porta e que o Brasil precisa de “valores” familiares e religiosos, inclusive que será necessário matar esquerdistas, feministas, gays e pobres porque são todos bandidos, está muito além de qualquer diálogo. Ouvir e ler esse tipo de asneiras proferidas aos gritos, em maiúsculas, assassinando o vernáculo e abusando do calão mais ordinário, é uma prova de resistência que vai arruinando a nossa saúde, enquanto esses ignaros se sentem triunfantes.

 

Mas quem se dirige à grande maioria silenciosa, que vive e trabalha sofridamente e está fora do burburinho das redes sociais e da política? Essa multidão é que define eleições e ora pende à direita ou à esquerda, conforme a pauta discutida, mas não abraça nenhuma ideologia política conscientemente, embora siga padres e pastores. Essa maioria que espera salvadores milenaristas e entrega sua confiança a líderes carismáticos sem pensar nas consequências.

 

Conversar e dialogar requer que se ouça mais do que se fale, a princípio, para entender como as pessoas pensam e o porquê de suas atitudes, requer menos fascínio pelo som da própria voz e menos pretensão de ensinar. É preciso paciência para parar em filas, em praças, em comércios e estar disposto a dar o benefício da dúvida e aceitar quando os argumentos das pessoas simples são mais sensatos e reais que os nossos. É necessário adequar a fala para ter a certeza de ser compreendido e para não humilhar ou melindrar quem vem de outras experiências sociais e culturais.

 

E, não menos importante, dialogar requer admitir que a outra parte abriga uma identidade própria, um ethos construído sob as mais diversas circunstâncias, que precisa ser respeitado para que nos repeitem e confiem em nossas intenções.

 

Nos anos 90, um amigo anarquista contava a seguinte história, chegando a uma favela (naquela época não se chamavam comunidades) para promover uma atividade junto à sociedade de moradores, fez-se a roda e as necessidades das pessoas foram ouvidas, debatidas e traçaram-se planos para atividades futuras. Já no final, uma senhora aproxima-se do meu amigo e agradece dizendo que gostou muito de poder falar sobre as reais necessidades do bairro e que esse grupo de jovens era muito melhor que o pessoal que vinha, falava e falava sobre “o tal de troço”, deixava os panfletinhos e depois ia embora. Meu amigo perguntou sobre os tais panfletos e ela acabou procurando e mostrando um apanhado de frases de Trotsky, distribuído por aquele mesmo pessoal de sempre.

 

O “troço” virou a nossa piada particular em casa durante mais de uma década. E seus seguidores também. Especialmente aqueles que deixam crescer o cavanhaque e usam óculos redondos e se juntam como boybands.

 

Por essas e outras é que eu não acredito em autocrítica. Quem discursa ao invés de dialogar e quem usa uma retórica auto-recorrente, somente entendida por seus pares, dificilmente tem capacidade para indicar os defeitos dos outros porque não percebe sequer os próprios. Mas acredito firmemente na necessidade de “desencastelar” nossa militância e parar de falar para nós mesmos e nossos amigos.

 

Se não queremos a eleição de um proto-fascista defensor da tortura e do genocídio dos pobres, precisamos conversar cada vez mais com as pessoas no âmbito social e entender a causa da ascensão desse tipo de aberração. Precisamos ter argumentos claros e sem barroquismos para oferecer a quem está preocupado muito mais com ter comida na mesa e poder pagar as contas do que com os direitos das minorias. Em um momento em que a sociedade afunda no obscurantismo e na miséria promovidos pelo golpe, algumas lutas pontuais são luxos diante do emergencial.

 

Não é que o pobre seja contra os Direitos Humanos, a maioria silenciosa só não vê tudo isso sair do papel e reverter em alguma melhoria para suas mazelas. A abstração de algumas de nossas discussões não tem qualquer relação com a vida real dessa maioria e nós não percebemos porque nosso patamar de luta muitas vezes já superou o essencial e o básico. Precisamos reaprender a ouvir e a falar e a lutar.

 

Mas também precisamos abandonar de vez as “tretas” pautadas pela mídia e pelos ideólogos dessa direita extremista que pensa que pode vencer na base do clichê, da frase feita e do grito, sem apresentar argumentos ou projeto de país. O Brasil é grande e cheio de possibilidades, não podemos deixar que o processo massacrante de desmonte da democracia, promovido pelos golpistas, nos apequene a ponto de perder de vista que o que realmente importa são as pessoas. É hora de deixar essa direita e seus sequazes falando sozinhos e ir cuidar do que realmente interessa.

 

Como dizia César Isella:

 

                                 “Te digo hermano que entiendas que hacer la Revolución

                                   no és juntar dós o trés locos, cuatro balas y um cañón,

                                   te digo hermano que entiendas que és tiempo

                                   de hacer la Revolución, pero empieza por vós mismo

                                   y después seremos dós, diez, cien, mil, mi país…”

O PROTESTO POPULAR E UMA SINGELA POLCA

26 mar

Tenho muita preguiça dos sindicatos e movimentos estudantis que acreditam ter inventado o protesto popular no Brasil. Estamos no ano em que se comemora o centenário da Greve Geral de 1917, a greve anarquista, tão significativa que aconteceu, inclusive, vários meses antes que a Revolução Russa. E mesmo assim, alguns movimentos sociais ainda teimam em apropriar-se da memória dos trabalhadores.

 

O protesto popular não é um fenômeno da História Contemporânea, como muitos parecem acreditar. Por volta do século quarto antes da Era Comum, os plebeus romanos se reuniam no Concilium Plebis (Conselho da Plebe), um tipo de assembleia popular que em tempos de miséria e fome acabava degenerando em motins. Os patrícios da República de Roma eram obrigados a negociar com a plebe e a aceitar seus tribunos.

 

Durante o período medieval, os motins do pão eram comuns na Europa e são (segundo E. P. Thompson) os precursores da organização dos trabalhadores nas revoltas cartistas e do próprio movimento operário inglês. No Brasil, as revoltas populares acompanham todo o período que vai do fim do século XVIII até 1935. O povo se reúne, quase sempre, quando a miséria e a carestia são tais que periclitam a sobrevivência objetiva.

 

Os protestos e greves populares nem sempre culminam em revolta, mas são um lembrete constante aos donos do poder de que existem limites na tolerância à exploração.

 

E a música é parte integrante da cultura popular do protesto. Das baladas irlandesas ao folk de Woodie Guthrie, de José Martí a Violeta Parra, uma vertente musicar poderosa tem embalado e empurrado marchas e assembleias, quando não confrontos. O poder da música nessas horas reside na transmissão das mensagens e no diálogo com as origens populares dos movimentos.

 

Eu cresci em um lar politizado em que a música popular de protesto me acompanhou desde cedo. O folclore da América Latina ocupa minhas preferências musicais tanto quanto Pink Floyd, Jethro Tull ou Cartola e Adoniran Barbosa. E fico feliz que assim seja porque, à medida que envelheço, trata-se das minhas raízes e já é suficientemente difícil ser estrangeiro, que dirá perder os referenciais de origem.

 

É por isso que hoje trago a vocês esta pequena joia em formato de polca. Interpretada pela dupla folclórica uruguaia Los Olimareños e composta pelo inesquecível Víctor Lima, também originário das margens do rio Olimar. No esconda la mano foi lançada no longplay Quiero a la sombra de um ala de 1966 e eu me lembro de já saber a letra inteira aos meus sete ou oito anos, assim como de tantas outras canções igualmente importantes para a minha formação. Talvez aos ouvidos brasileiros soe um pouco tosca, mas esse tipo de música é um gosto adquirido.

 

Mas é interessante ressaltar que, na hora de protestar contra seu atual governo, algum argentino tenha recorrido a esta singela polca uruguaia para retratar uma realidade que perdura.

 

Los Olimareños não eram cantaurores, embora tivessem cometido algumas composições ao longo de suas carreiras, mas contavam com a possibilidade de gravar excelentes compositores como Ruben Lena, José Carbajal “el zabalero” e Víctor Lima. Eu gosto particularmente de várias zambas e cielos de Víctor Lima, tão lírico e preciso, representativo de toda uma geração. Pepe Guerra e Bráulio Lopez (Los Olimareños) perseguidos e exilados pela ditadura são uma referência de infância que me marcou demais.

 

Alguns anos atrás, lendo uma obra de Eduardo Galeano, descobri que os militares esmigalharam a mão de Bráulio Lopez para que não voltasse a tocar e que mesmo assim ele se recuperou e continuou tocando o violão tendo que superar dores horríveis. É dessas e outras histórias que as lutas populares se constroem e por isso vencemos, mesmo quando derrotados.

 

 

PEQUEÑA NARRATIVA SOBRE LA REALIDAD NEOLIBERAL

23 mar

Sem susto que o texto vai em português mesmo. Utilizei o espanhol no título para remeter ao breve estudo de caso que pretendo realizar aqui. Trata-se da Espanha e por isso a licença poética.

 

Quantos ainda se lembram da crise financeira de 2008? Vários dos mais importantes bancos de investimentos “bombaram” carteiras de títulos imobiliários (com baixíssimas perspectivas de resgate) e os venderam a outros bancos menores, que os venderam a seus correntistas, que não sabiam em que estavam investindo. Pessoas de classe média na Europa e nos EUA hipotecaram suas casas para investir nessas carteiras de títulos podres porque a promessa de remuneração era muito sedutora, embora totalmente fictícia.

 

Os executivos que repassaram esses títulos aos bancos e os gerentes de contas que os venderam a seus correntistas embolsaram bônus milionários de produtividade. Fortunas absolutamente voláteis mudaram de mãos durante uns dois ou três anos. Em 2008 a bolha estourou, bancos faliram, os governos tiveram que socorrer a economia que ameaçava um efeito dominó semelhante ao de 1929, mas ninguém pensou em indenizar os correntistas. Eles investiram em um mercado de alto risco, sem sequer saber do que tratava (confiando em seus gerentes e contadores) e perderam seu dinheiro, suas casas e seus futuros.

 

Um dos casos mais dramáticos foi o da Espanha, que por conta disso caiu nas garras da tróika da União Europeia e mergulhou em um nunca acabar de misérias.

 

Um dos fenômenos mais impactantes foi o dos suicídios. Aposentados, pais de família que chegaram a matar os próprios filhos e depois se suicidar, casais de idosos, várias centenas em um período de menos de dois anos (fenômeno que se alastrou pela Europa e pelos EUA alcançando o número de dez mil suicídios nesse período). Era um tormento ligar o noticiário da TVE e ouvir os dramas cotidianos de famílias jogadas na rua e suicídios dos mais grotescos.

 

E então a classe média indignada saiu às ruas para protestar e protestou e muitos de nós repostamos seus protestos porque nos pareciam justos, afinal, era uma crise do capitalismo e as pessoas estavam sendo esfoladas vivas para continuar sustentando o sistema e os privilégios de sempre. E vieram as eleições e os indignado elegeram Mariano Rajoy…

 

Mariano Rajoy, garboso expoente da mais arbitrária direita “papamissas”, hipócrita e farisaica, ligada à Opus dei (isso lembra alguém?). Mariano Rajoy, envolvido em escândalos de corrupção e defensor anacrônico do franquismo. Eleito pelos indignados para consertar a Espanha, Rajoy aproveitou para desmantelar a seguridade social e implantar quanta barbaridade a tróika exigisse, em troca de financiamento que jamais chegou ao povo espanhol, mas que enriqueceu a seus asseclas e manteve o “financeirismo”, relegando a conta à população trabalhadora.

 

E assim a Espanha se apequenou mais e mais. No rastro da indignação surgiu o Podemos, partido que se diz de esquerda mas é incapaz de formar uma coalizão com o PSOE, a Izquierda Unida, Esquerra Republicana de Catalunya e outros tantos partidos menores de esquerda e centro-esquerda. Assim, o PP de Rajoy se mantém no poder após impasses que chegaram a durar mais de um semestre.

 

E vale esse registro todo porque devemos pensar que a agenda neoliberal não ganha eleições, não é compatível com regimes democráticos e nem sequer é compatível com as constituições da maioria dos países civilizados. A agenda neoliberal vem sendo insidiosamente imposta na rabeira das crises econômicas e institucionais. Imposta a governos dóceis por organismos internacionais, como é o caso da Espanha, ou por governos ilegítimos e golpistas, a despeito da vontade popular, como é o nosso caso.

 

Sempre travestida de programa de salvação nacional, como castigo para governos de esquerda que “esbanjam” orçamento com seguridade social, essa agenda pode ser imposta pelos grandes bancos, pelas agências de fomento ou pelas classificatórias. Ou pode ser abraçada por uma súcia de congressistas mercenários dispostos a sangrar o erário público até a exaustão, e depois voltar a seus feudos regionais, como se nenhuma responsabilidade lhes coubesse na miséria que assolará o país. Sacripantas que chamam seus privilégios de “direitos” e a seguridade social de “privilégio”.

 

Parasitas capazes de imolar três gerações inteiras de cidadãos no altar do neoliberalismo, em troca de suas trinta moedas de prata. E o fazem debochando de nós cidadãos, amparados por uma mídia rancorosa cheia de “gusanos” e por uma casta judiciária narcisista. E há quem festeje…

 

Delenda Lula, delenda PT, delenda Brasil de todos nós…

STALINGRADO E O CINE WINDSOR

14 mar

“A memória, esse reagente dos desgraçados, anima até as pedras do passado e dulcifica todas as amarguras sofridas, só para aniquilar o homem pela consciência das suas faltas e para destruir na sua alma a fé no futuro, tornando-lhe o passado mais doce e benéfico, e unicamente capaz de o sustentar ainda na vida.” (Gorki, Máximo. Os vagabundos. p.91)

 

Em algum momento entre 1993 e 1994, meu marido e eu fomos pela última vez ao Cine Windsor. Para quem não se lembra, ficava na esquina da General Osório com a Regente Feijó, de cara para o Fórum. Hoje o Fórum foi transferido para a Cidade Judiciária e o cine virou mais uma dessas sofríveis igrejas evangélicas.

 

Havia sido um cinema imponente e ainda guardava tristes vestígios da antiga glória, traços de veludo aqui e ali, e a decadência espalhando-se a olhos vistos. Logo depois dessa nossa ida, passou a exibir filmes “eróticos” de qualidade duvidosa e enfrentou maus bocados até ser absorvido, como tantos outros do velho centro, pela avalanche dos templos. Hoje as pessoas preferem as salas de exibição em Shoppings, mas eu tenho lembranças muito boas dos velhos cinemas de Campinas.

 

Stalingrado era o filme que queríamos assistir. Um obscuro filme alemão, de narrativa realista, lenta e deliberada. A sala quase vazia como sempre acontecia quando o circuito comercial trazia um filme europeu por engano.

 

Estávamos absortos assistindo quando captei movimento com a visão periférica e percebi vários ratos correndo pelos cantos e logo abaixo da tela. Eu estava de bermuda e, por um momento, fiquei com medo de ser mordida e ter que gastar um dinheiro, que não tínhamos, em antibióticos. Mas o filme era tão bom que acabei erguendo as pernas e colocando no colo do meu marido e esquecendo a presença constante dos roedores.

 

Ao longo dos anos, aquele momento rendeu piadas intermináveis. Éramos jovens, casados há pouco tempo, “sem um puto no bolso” nem nos passou pela cabeça deixar o cinema, já que havíamos gasto nossos cobres nas entradas. E olha que eu ainda pagava meia-entrada com a minha carteirinha do mestrado da USP.

 

Era uma época em que juntávamos moedas ao longo da semana para comer um cachorro quente aos sábados no Salsichia perto da Prefeitura; encontrávamos os amigos no Pastelão, barzinho próximo ao Pátio dos Leões da PUCC, para discutir a revolução; no dia a dia dividíamos irmãmente uma marmitex do seu vale refeição porque ele trabalhava perto de casa. Cada viagem a São Paulo para fazer as disciplinas do mestrado era uma acrobacia econômica. O cinema era nosso luxo.

 

Stalingrado (que em português recebeu o subtítulo de Batalha Final) foi mais que um filme para mim. Passei aquela sessão no Windsor, que cheirava a mofo, ouvindo os guinchos dos ratos e abraçada ao meu marido, feliz da vida de poder assistir a um filme daqueles e não ter que aturar mais alguma bomba do Schwarznegger. Teria preferido que a exibição fosse em algum cine clube, mas não dava para reclamar.

 

Nos anos que se seguiram, a lembrança desse dia feliz sempre permaneceu ligada ao filme. E nunca mais o vi. Não sei se chegou a ser exibido na televisão ou se ainda existem cópias em DVD por aí.

 

Recentemente, a HBO começou a exibir uma produção russa homônima. Um filme que, ao meu olhar, pareceu desonesto na comparação com o outro; com filtro de cor que romantiza a imagem; retardo de quadros que não chega a ser câmera lenta, mas que cria uma impressão de tempo irreal que beira o melodrama; bem como uma estilização da violência que banaliza os mais atrozes crimes de guerra. Um retrato do cinema de bilheteria quando pretensioso.

 

Já perdi a conta das vezes em que me animei pensando tratar-se do velho filme e acabei maldizendo mentalmente os programadores da TV a cabo. Mas, talvez seja melhor assim, afinal, quem sabe se assistindo novamente, depois de tantos anos, eu venha a descobrir que não era tão bom e acabe estragando a lembrança de um dia tão feliz… Quem sabe?

CARTA ABERTA AO “COLEGA” KARNAL

11 mar

Prezado:

Antes de mais nada, devo dizer que não lhe desejo mal e nem vou integrar a multidão de “aldeões com tochas” que ora se forma para lhe tomar satisfações senão pelo seu rol de amizades, ao menos pela divulgação de uma eventual parceria com gente profundamente indigesta.

Peço encarecidamente que me desculpe o atrevimento de chamá-lo de colega, afinal, eu sou pouco mais que uma dona de casa com uma caixinha bem sortida de diplomas e certificados guardada na biblioteca, cujo trabalho na área de História não alcançou a excelência suficiente para que possa ombrear consigo pelos corredores acadêmicos.

De acordo com o projeto de reconhecimento da nossa profissão, mesmo com toda a minha dedicação, ainda assim jamais poderei intitular-me historiadora ou sequer professora, uma vez que não tenho o abrigo de uma grande instituição de ensino que responda por mim e por meu trabalho.

Tudo o que tenho é meu nome, um cérebro de segunda (mas que está tinindo ainda) e um par de braços bastante robustos que jamais tiveram receio do trabalho. Também tenho uma vida dedicada a defender os ideais que visam transformar a humanidade em melhores “companheiros de viagem”.

Isso mesmo, eu sou comunista desde criancinha e já lhe vi várias vezes fazendo troça ironicamente daqueles que acreditam em utopias e que tomam partido na política, nos meios acadêmicos e na vida. Já lhe vi, também, todo prosa defendendo a “neutralidade” que se acredita acima do bem e do mal, como se isso fosse possível na vida real e no mundo concreto.

Admiro sua erudição adquirida em uma vida resguardada, em que os estudos somente lhe exigiram sacrifícios intelectuais e não físicos e pessoais. Admiro sua realização pessoal e profissional em um mundo em que a “meritocracia” lhe reservou as oportunidades que são negadas a tantos de nós.

Não lhe invejo e digo isso com toda sinceridade porque, dentro do que me propus na vida, sou uma pessoa extremamente bem realizada, sem dinheiro, mas muito feliz com minhas conquistas simplezinhas de mulher.

Não lhe invejo porque a celebridade sempre tem implícito o momento da queda e do escárnio e, do mesmo jeito que não desejo isso para nenhum de meus amigos ou desafetos, também não lhe desejo o mau bocado que está prestes a passar por conta da foto publicada em sua rede social.

A neutralidade que se considera acima do bem e do mal é como a mulher de César, que não basta ser honesta, tem que parecer honesta. Quando se escolhe uma posição de vestal em relação à política partidária, posar ao lado deste ou daquele expoente (de qualquer dos lados) é um luxo proibido. Quanto mais tecer encômios de amizade a indivíduos diretamente responsáveis pelo descalabro golpista em que se encontra nosso país.

Hoje, ao abrir meu Facebook voltando da caminhada matutina, deparei-me com choro e ranger de dentes, comentários apocalípticos daqueles que correm para descurtir sua página e gente augurando sua derrocada do mundo das celebridades intelectuais.

E fico pensando que, embora eu não tenha simpatia por suas escolhas políticas e suas posturas seletivas, ainda assim respeito-o pelas suas capacidades intelectuais, que são visíveis. E não me parece correto que o trabalho de qualquer professor seja avaliado apenas a partir de indicativos tão rasos como “amizades” ou “posturas públicas”.

A indignação de uma centena de meus amigos de Facebook não ameaça seu lugar na UNICAMP e muito menos vai se refletir em um prejuízo para sua obra no mercado editorial ou na procura por suas palestras, verdade seja dita. Meu medo é dos que vão passar a lhe elogiar a partir dessa foto.

Afinal, seu amigo em questão, consegue empolgar e arrastar o que há de pior em termos de proto-fascistas, ignorantes, misóginos, racistas e xenófobos, em uma procissão digna de perecer na Nau dos Insensatos. E esse tipo de pessoa vai curtir sua página por conta da foto e vai cobrar que suas postagens sejam de acordo e, quando não forem, certamente não vão ter a elegância e a largueza para apreciar a divergência. Temo por sua sanidade tendo que lidar com o ódio que esse naipe de indivíduos é capaz de veicular, mediante o assassínio da civilidade e da língua pátria.

E digo mais, eu o respeito mais agora quando visivelmente escolheu um lado, do que quando se pavoneava troçando do resto de nós refugiando-se em um humanismo renascentista patético e anacrônico.

Bem-vindo ao mundo real e receba minhas cordiais saudações daqui do chão da História,

abraços,

Anna.

MEMENTO MORI

8 mar

Hoje eu não quero e não vou falar sobre mulheres. A cultura das efemérides é um ranço que cheira a almanaque e é a desculpa perfeita para centrar a indignação ou a admiração em um único dia e ignorar solenemente os homenageados durante o resto do ano. E flores não podem ressarcir negligência, humilhações e desamor.

Hoje eu quero expressar minha tristeza e minha desesperança diante da nossa impotência para frear a ignorância e a banalidade do mal. Vivemos em um país que se encaminha a passos largos para uma solução totalitária e não conseguimos mais atravessar a couraça de mentiras criminosamente construída pelos formadores de opinião. Não existe mais diálogo.

Ontem, 07 de março de 2017, meu marido recebeu por engano um comentário em que um de seus clientes o caracterizava (em uma rede social) como “meu advogado ateu e petista doente”. O indivíduo em questão havia mandado uma mensagem com um “chamado” em defesa da Pátria, que era proto-fascista para dizer o mínimo. Quando meu marido respondeu alegando a necessidade de defesa da Constituição, o sujeito fez seu comentário desprezível ao encaminhar essa resposta (que era privada) a um de seus contatos.

Entretanto, como tanta gente com acesso a tecnologia, mas pouca capacidade para entender como funciona, mandou-a ao nosso número por engano. E eu me pergunto: o que Freud diria desse tipo de “engano”? Deduzam vocês mesmos…

Mas a pergunta que mais me persegue é: como é que um cliente de mais de quinze anos, que tinha acesso à nossa casa, além do escritório, e com quem conversávamos repetidamente, poderia ter passado esse tempo todo sem ouvir sequer um único de nossos argumentos e nos desprezando dessa forma?

“Petista doente” expressa a total incompreensão e ignorância sobre como funciona o campo progressista da nossa sociedade. Todos os que nos conhecem sabem que meu marido é anarquista há pelo menos trinta anos; que eu sou comunista desde sempre e que temos uma atuação comedida, mas constante, nas lutas sociais e nem sempre favorável ao PT. A nossa defesa intransigente da estrutura republicana, da Constituição e do mandato de Dilma Rousseff nos colocou em uma situação em que viramos o alvo dos radicais tanto de esquerda quanto de direita.

Temos uma vizinha que não nos olha na cara desde 2014 porque pintamos o muro de casa de vermelho, mas também temos colegas anarquistas que nos crucificaram junto ao movimento por termos escolhido defender o Estado de Direito contra o golpe político e a barbárie canalha que se lhe seguiu. E agora esse senhor, que pensávamos conhecer, revela que nunca nos estimou a ponto de ouvir nossos argumentos com um mínimo de respeito. Que em algum momento, tolo e crédulo, se deixou envolver pela manipulação odienta dos meios de comunicação e abandonou a sanidade no altar do ressentimento medíocre e invejoso que alimenta o antipetismo.

Para além do escárnio da mensagem, que nos expunha a uma terceira pessoa que nem nos conhece, foi o uso do termo “ateu” como caracterização pejorativa que mais me doeu. Demonstrando um preconceito que beira a intolerância, o indivíduo em questão parece ter deixado de lado tudo o que somos para concentrar-se no fato de que vivemos perfeitamente bem sem deuses. Eu perguntaria o porquê disso ainda incomodar tanto esse tipo de pessoa, mas essa é outra discussão.

O aumento desses incidentes me preocupa. Não tenho como dissociá-lo do crescimento na aceitação de um certo candidato defensor da tortura, do autoritarismo e da perseguição às minorias e aos direitos humanos. E muito menos ignorar o crescimento da virulência cotidiana entre os que defendem o fim da democracia.

Eu não tenho mais ilusões. Estamos nos encaminhando, a olhos vistos, na direção de eleger um proto-fascista travestido de patriota e que prega a eliminação física e a tortura de quem não pensa como ele. E quem concorda não são eventuais skinheads neonazistas ou muito menos carolas da Opus dei, quem concorda são nossos vizinhos e as pessoas que nos conhecem há décadas, mas que não nos veem mais como “gente”.

Então, ao invés de debates sociológicos sobre “pós-verdades” e autocríticas miseráveis, o campo progressista da sociedade brasileira deveria estar fortalecendo candidaturas para o legislativo. Precisamos de pessoas sensatas, minimamente inteligentes, tolerantes e com um mínimo de capital cultural para reverter as barbaridades com que a atual legislatura está destruindo nossas vidas e nossas possibilidades de futuro. Mas, acima de tudo, precisamos de um Congresso progressista porque o Executivo está em vias de ser capturado por projetos autoritários e totalitários e precisamos de barricadas em todos os locais possíveis.

Afinal, mesmo na eventualidade de Lula chegar a 2018 vivo e solto e conseguir ganhar a eleição, precisaremos de um Congresso que o ajude a consertar o estrago praticado pelos golpistas. É de bom alvitre lembrar que Dilma não conseguiu governar a partir de 2013, trancada por uma legislatura que visava apeá-la do poder a qualquer custo. O Judiciário por si só já será oposição suficiente, sem ter que ainda aturar um Congresso retrógrado, ignorante e belicoso.

Por isso, aos que me mandarem flores hoje (reais, virtuais ou metafóricas), sugiro que atentem para a hipocrisia contida no gesto de homenagear as mulheres enquanto caminham para eleger aqueles que defendem nosso total apagamento como indivíduos, quando não nossa eliminação física. De nós feministas, comunistas, progressistas, da comunidade LGBT, dos indígenas e de tudo o que signifique diversidade e diferença. Dos movimentos sociais organizados na luta por direitos civis, inclusão e direitos humanos, das ideias que questionem o patriarcado cristão e branco, de tudo enfim que signifique liberdade, igualdade e fraternidade.

É um risco eminente e eu não quero ter que deixar essa mixórdia como herança às próximas gerações.

O CONCEITO DE “WHITE TRASH” E A PALAVRA COM “N”

2 mar

O uso político da semântica gera fenômenos de exclusão, de constrangimento, de reivindicação, de resistência e de enfrentamento. Tão antiga e revolucionária quanto as ferramentas e o polegar opositor, a linguagem nos define como espécie e com ela definimos tudo que conhecemos, experimentamos e refletimos. E, claro, entendendo política como a arte de negociar para viver em sociedade, para muito além do meio partidário e estatal, semântica e linguagem nos definem em termos de origem e lugar social.

 

Para o historiador, seja ele marxista ou ligado à variedade de campos da Nova História, a importância do estudo das palavras, e dos conceitos ligados a elas, é parte integrante das pesquisas sobre cultura e sociedade. Saber identificar quando a linguagem se constitui em legitimadora da opressão e da exclusão, e quando ela está sendo usada como mecanismo contestador, aprofunda as análises econômicas e sociais. Os termos em que uma sociedade se pensa e se autodefine, bem como aos “outros”, dizem muito mais de si do que seus monumentos.

 

Para quem estuda a escravidão no Brasil é comum ser confrontado com a bibliografia produzida nos Estados Unidos, devido à semelhança das trajetórias (e às diferenças também) e ao impacto social e histórico com que esse fenômeno marcou e ainda marca as sociedades locais. O impacto econômico do pós-abolição, o racismo e a exclusão, bem como as discussões sobre as ações afirmativas, nos mostram que temos muito em comum com outras sociedades de origens escravagistas. E a discussão sobre a semântica avança nesse sentido a olhos vistos.

 

A expressão white trash é traduzida normalmente como “lixo branco” e se refere a um grupo específico da população estadunidense, decorrente da estratificação social e dos processos econômicos ligados ao sistema de plantation largamente empregado no sul escravagista dos Estados Unidos. Para quem ainda não sabe, plantation é a realização do trinômio latifúndio-monocultura-escravidão no âmbito da economia regional e é a estrutura que possibilitou os grandes ciclos de monoculturas no Brasil, no Caribe e nos Estados Unidos. Seu auge ocorreu nos séculos XVIII e XIX e sua decadência acompanha o declínio do tráfico transatlântico e os processos de abolição ao longo das Américas.

 

Durante a vigência das plantations a sociedade não era dividida apenas entre senhores e escravos, como o senso comum parece acreditar. Para que essas grandes propriedades funcionassem e pudessem subsistir, a existência de várias camadas sociais de libertos, brancos pobres e agregados de todos os tipos era vitalmente necessária. Essas pessoas realizavam os trabalhos mais arriscados e plantavam as culturas de subsistência, sendo às vezes responsáveis por sua comercialização e seu transporte.

 

Mas, mesmo mais de um século após seu declínio, nós herdamos as estruturas sociais e linguísticas profundamente marcadas por esse processo econômico tão brutal. No caso dos Estados Unidos, a categoria social dos “livres pobres” vem sendo chamada de “lixo branco” desde a primeira metade do século XIX e esse tom pejorativo cresce sempre que o confronto social aumenta. Raivosamente independentes e entrincheirados em suas origens brancas, por contraposição aos “senhores” que praticavam largamente a miscigenação como meio de dominação, os “white trash” são diferentes dos “rednecks” ou caipiras.

 

Redneck significa literalmente “pescoço vermelho” e denomina o trabalhador ou o habitante do campo, por oposição ao citadino. Embora muitos deles nem cheguem a ser pequenos proprietários, seu lugar no trabalho agrícola está definido dentro do sistema econômico. A oposição campoXcidade nesse sentido, se dá muito mais por questões de percepção cultural.

 

White trash, entretanto, denomina aqueles grupos que foram excluídos do sistema econômico mesmo na vigência da escravidão, que se concentraram em guetos raciais e linguísticos, vivendo às margens da economia e da sociedade. Em certas regiões, inclusive, conhecidas como bolsões miseráveis do Cinturão da Bíblia, mantiveram a “pureza” racial à custa da endogamia, gerando ainda mais preconceito por parte da sociedade urbana mais moderna. Os que, premidos pela miséria, migraram para os meios urbanos sem perspectiva nem qualificação, vivem no subemprego e constituem o exército de reserva do capitalismo; já os que ficaram em seus remotos locais de origem vivem precariamente de terras exauridas, caça e alimentam o tráfico “cozinhando” metanfetaminas.

 

Mas, muito além disso, o termo “lixo branco” traduz o desprezo de uma sociedade em que o utilitarismo, a meritocracia e o capacitismo excluem qualquer um que seja “menos”. Vistos ao longo do século XIX como descartáveis coadjuvantes da relação senhor-escravo, no pós-abolição costumavam ser mais pobres que os próprios libertos, gerando assim maior hostilidade racial. E, até hoje, são os que ainda usam a palavra com “n”.

 

Niger é o termo mais pejorativo e ultrajante existente nos Estados Unidos, a ponto de ter caído em desuso nas últimas décadas, graças ao ativismo incansável dos movimentos de direitos civis e consciência negra. Denomina o lugar de submissão, exclusão e desprezo dos afro-americanos na estrutura social derivada do pós-abolição. Significa que, mesmo mais de um século e meio depois, esse grupo social ainda é visto como inferior e sua humanidade é questionada.

 

A palavra com “n”, como o termo passou a ser designado, pode vir a ser abolida do uso coloquial da língua, mas a fratura social que ela expõe permanece.

 

O racismo da “única gota”, política vigente durante parte do século XX em vários estados outrora pertencentes à Confederação, considera que basta um ancestral negro, mesmo que seja o único e esteja a cinco gerações atrás, para que se considere a pessoa negra ou mestiça. É um instrumento de segregação racial porque foi associado às leis que proibiam os casamentos inter-raciais e impediam o acesso dos afrodescendentes a empregos, lazer e moradias em regiões específicas das cidades e do campo. E criou um impedimento intransponível para o desenvolvimento de uma consciência efetiva de classe.

 

Afinal, a garantia de “pureza” racial dos white trash, mesmo que ocupando o mesmo lugar econômico que muitos negros, tornava-os diferenciados. “Ao menos não somos negros” era o mantra de aceitação da miséria, da exclusão e do preconceito. Recrudescendo o racismo e impedindo a formação de uma consciência mínima sobre o consenso da exploração capitalista.

 

Hoje, uma parte dos habitantes dos Estados Unidos indigna-se e repudia o uso da palavra com “n”, mas não se acanha de continuar usando o termo “lixo branco” com todas as implicações acumuladas ao longo do tempo. A representação estereotipada dos casamentos endogâmicos sempre acompanha as anedotas sobre “caipiras que transam com suas irmãs” e a caracterizações de serial killers na indústria do entretenimento frequentemente recorre a esse grupo social isolado nos bolsões miseráveis tanto urbanos quanto rurais. Eles não despertam qualquer tipo de empatia.

 

Com o advento dos reality shows, famílias vivendo nas montanhas, nos pântanos ou nos últimos degraus da cadeia social tem sido retratadas para o deleite dos “sofisticados” habitantes urbanos. Em programas de gosto duvidoso e através de estereótipos toscos de fácil assimilação, a América Profunda (ressalvando o ego dos nossos vizinhos do Norte que pensam que o continente lhes pertence) mostrou a sua cara e recebeu o escárnio nacional e internacional. Obesos ou esqueléticos, desdentados, feios, de higiene duvidosa e modos chocantes, eles tomaram de assalto a programação dos canais a cabo.

 

E se viram, e se juntaram e saíram da toca e votaram em Donald Trump…

 

Para bom entendedor…