O ESTUPRO CORRETIVO

1 mar

Ontem, não sei se por descuido ou se procede a afirmação de que se trata de um caso de reincidência, passou a circular no Facebook a repostagem de uma notícia publicada no jornal O Estado de São Paulo, em julho de 2015. A notícia dava conta que um ex-aluno da UNESP estava criando sites e postando conteúdo violentamente misógino com apologia ao estupro. À época o caso chegou até a ser investigado pelas vias institucionais e sabe-se lá que fim teve.

 

Vez por outra, quase sempre em início de semestre, quando novos alunos estão chegando às universidades públicas, alguém resuscita essas postagens, quero crer que por indignação, mas me parece que isso é apenas um álibi para justificar a divulgação desse conteúdo ultrajante. Apostando na tendência da grande maioria que reposta sem ler, acabam dando visibilidade muito maior ao autor dessas barbaridades e constrangendo a nós, mulheres, que temos que conviver diariamente com a misoginia e a violência (física ou institucional) de uma sociedade tão arraigadamente patriarcal. O carnaval sendo um feriado que favorece a desatenção, páginas e blogs sérios acabam caindo nesse tipo de armadilha.

 

Você pode até olhar e dizer “essa é uma notícia velha, não importa mais”, mas basta descer e ler o cortejo de comentários asquerosos que cada repostagem gera, para perceber que nada é feito ao acaso. Há um alimento constante da misoginia e da apologia ao estupro corretivo como uma maneira de lidar com as mulheres que não são “para casar”. Lésbicas, feministas, comunistas e universitárias em geral são os alvos de quem sonha com mulheres subservientes e satisfeitas em lugares sociais controlados.

 

A assustadora onipresença do estupro em todas as classes sociais, dirigido a mulheres de todas as idades e a crianças também, é tratada pelas autoridades e pelos meios de comunicação como a exceção da regra, como um mero sintoma da falta de segurança, que desapareceria caso houvesse uma presença maior da repressão policial. O estuprador é visto sempre como um estranho portando uma faca em um beco, evita-se falar em padrastos, tios, colegas de estudo e de profissão, chefes ou qualquer outro “conhecido”. Responsabiliza-se a cultura televisiva e publicitária com sua nudez excessiva e sua ênfase no sexo, tratam-se os casos de modo individual como aberrações, ignorando-se deliberadamente que o ato de estuprar é um ato de poder e não de sexo.

 

Dentro desse abuso constante, que visa “domesticar” as mulheres pelo medo, o estupro corretivo é uma das facetas mais cruéis. Parceiro inseparável das “limpezas étnicas”, esse ato de violência misógina atravessou os tempos na esteira das expansões imperiais, do colonialismo e das fraturas sociais irreconciliáveis do patriarcado. É a solução sempre proposta por homenzinhos mesquinhos, que não tem capacidade para lidar com sociedades mais igualitárias e que são covardes o suficiente para delegar esse tipo de crueldade a exércitos, milícias religiosas e capangas.

 

A apologia do estupro corretivo na internet beira a doença mental. Pirralhos inseguros, incapazes de lidar com meninas e mulheres com vontade própria e direitos civis, sonham com “mostrar a elas quem manda” e jogam suas fantasias doentias na rede, valendo-se do anonimato. Nisso são secundados por fundamentalistas religiosos e sádicos defensores da tortura, que se elegem para os legislativos das três instâncias e defendem a volta da “moral e da família”.

 

Institucionalmente, salvo raras e honrosas exceções, não encontramos respaldo e nem acolhimento quando denunciamos esse tipo de ódio. Autoridades minimizam as consequências e as causas e tendem a individualizar os crimes, criando “monstros” de fácil assimilação midiática, separados do contexto social que os alimenta. Maníacos geograficamente denominados e delimitados, que desviam a atenção dos abusadores que existem portas adentro dos lares. Mas, claro, se o padrasto, tio, pai ou avô abusador for pobre e não-branco, pode tornar-se notícia nos vespertinos sensacionalistas como o “monstro” da vez.

 

E é exatamente essa falta de perspectiva ou de soluções plausíveis que me leva a defender a formação de milícias femininas como as das mães italianas que lutaram contra os traficantes nos anos 70-80 e das mulheres hindus que reprimem o que a polícia insiste em ignorar. Porque toda vez que passo de carro ao anoitecer (ou muito cedo) e vejo uma mocinha sozinha em um ponto de ônibus meu coração se aperta, ou quando vejo meninas e meninos voltando da escola ou indo à mercearia sem um adulto por perto. Desejaria sair do meu caminho e acompanhá-los para que cheguem em segurança, mas raramente tenho tempo ou disponibilidade para isso.

 

Adoraria que todas essas escritoras e atrizes feministas brancas ricas do primeiro mundo, que acumulam fortunas nababescas, criassem uma fundação e angariassem fundos para financiar grupos de mulheres que possam fazer segurança nos bairros aqui e em qualquer parte do planeta em que isso se torne necessário. Utopia? Claro que sim, uma das tantas que defendo.

 

Mas quero deixar bem claro que, embora eu seja visceralmente contra pegar em armas para conseguir a justiça social que tanto precisamos, não duvidaria um segundo sequer de sair às ruas com um porrete e desancar de porrada os quarentões que assediam meninas de doze anos, os “mauricinhos” que dos seus carros constrangem estudantes e trabalhadoras nos pontos de ônibus, os frequentadores de “festas de peão” e outros eventos similares que se arrogam o direito de impor seus ataques físicos a qualquer mulher que estiver sozinha, bem como desentocar de suas pocilgas os internautas que se escondem atrás de uma tela para incentivar as barbaridades que são covardes demais para cometer.

 

E espero não estar sozinha…

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