O CONCEITO DE “WHITE TRASH” E A PALAVRA COM “N”

2 mar

O uso político da semântica gera fenômenos de exclusão, de constrangimento, de reivindicação, de resistência e de enfrentamento. Tão antiga e revolucionária quanto as ferramentas e o polegar opositor, a linguagem nos define como espécie e com ela definimos tudo que conhecemos, experimentamos e refletimos. E, claro, entendendo política como a arte de negociar para viver em sociedade, para muito além do meio partidário e estatal, semântica e linguagem nos definem em termos de origem e lugar social.

 

Para o historiador, seja ele marxista ou ligado à variedade de campos da Nova História, a importância do estudo das palavras, e dos conceitos ligados a elas, é parte integrante das pesquisas sobre cultura e sociedade. Saber identificar quando a linguagem se constitui em legitimadora da opressão e da exclusão, e quando ela está sendo usada como mecanismo contestador, aprofunda as análises econômicas e sociais. Os termos em que uma sociedade se pensa e se autodefine, bem como aos “outros”, dizem muito mais de si do que seus monumentos.

 

Para quem estuda a escravidão no Brasil é comum ser confrontado com a bibliografia produzida nos Estados Unidos, devido à semelhança das trajetórias (e às diferenças também) e ao impacto social e histórico com que esse fenômeno marcou e ainda marca as sociedades locais. O impacto econômico do pós-abolição, o racismo e a exclusão, bem como as discussões sobre as ações afirmativas, nos mostram que temos muito em comum com outras sociedades de origens escravagistas. E a discussão sobre a semântica avança nesse sentido a olhos vistos.

 

A expressão white trash é traduzida normalmente como “lixo branco” e se refere a um grupo específico da população estadunidense, decorrente da estratificação social e dos processos econômicos ligados ao sistema de plantation largamente empregado no sul escravagista dos Estados Unidos. Para quem ainda não sabe, plantation é a realização do trinômio latifúndio-monocultura-escravidão no âmbito da economia regional e é a estrutura que possibilitou os grandes ciclos de monoculturas no Brasil, no Caribe e nos Estados Unidos. Seu auge ocorreu nos séculos XVIII e XIX e sua decadência acompanha o declínio do tráfico transatlântico e os processos de abolição ao longo das Américas.

 

Durante a vigência das plantations a sociedade não era dividida apenas entre senhores e escravos, como o senso comum parece acreditar. Para que essas grandes propriedades funcionassem e pudessem subsistir, a existência de várias camadas sociais de libertos, brancos pobres e agregados de todos os tipos era vitalmente necessária. Essas pessoas realizavam os trabalhos mais arriscados e plantavam as culturas de subsistência, sendo às vezes responsáveis por sua comercialização e seu transporte.

 

Mas, mesmo mais de um século após seu declínio, nós herdamos as estruturas sociais e linguísticas profundamente marcadas por esse processo econômico tão brutal. No caso dos Estados Unidos, a categoria social dos “livres pobres” vem sendo chamada de “lixo branco” desde a primeira metade do século XIX e esse tom pejorativo cresce sempre que o confronto social aumenta. Raivosamente independentes e entrincheirados em suas origens brancas, por contraposição aos “senhores” que praticavam largamente a miscigenação como meio de dominação, os “white trash” são diferentes dos “rednecks” ou caipiras.

 

Redneck significa literalmente “pescoço vermelho” e denomina o trabalhador ou o habitante do campo, por oposição ao citadino. Embora muitos deles nem cheguem a ser pequenos proprietários, seu lugar no trabalho agrícola está definido dentro do sistema econômico. A oposição campoXcidade nesse sentido, se dá muito mais por questões de percepção cultural.

 

White trash, entretanto, denomina aqueles grupos que foram excluídos do sistema econômico mesmo na vigência da escravidão, que se concentraram em guetos raciais e linguísticos, vivendo às margens da economia e da sociedade. Em certas regiões, inclusive, conhecidas como bolsões miseráveis do Cinturão da Bíblia, mantiveram a “pureza” racial à custa da endogamia, gerando ainda mais preconceito por parte da sociedade urbana mais moderna. Os que, premidos pela miséria, migraram para os meios urbanos sem perspectiva nem qualificação, vivem no subemprego e constituem o exército de reserva do capitalismo; já os que ficaram em seus remotos locais de origem vivem precariamente de terras exauridas, caça e alimentam o tráfico “cozinhando” metanfetaminas.

 

Mas, muito além disso, o termo “lixo branco” traduz o desprezo de uma sociedade em que o utilitarismo, a meritocracia e o capacitismo excluem qualquer um que seja “menos”. Vistos ao longo do século XIX como descartáveis coadjuvantes da relação senhor-escravo, no pós-abolição costumavam ser mais pobres que os próprios libertos, gerando assim maior hostilidade racial. E, até hoje, são os que ainda usam a palavra com “n”.

 

Niger é o termo mais pejorativo e ultrajante existente nos Estados Unidos, a ponto de ter caído em desuso nas últimas décadas, graças ao ativismo incansável dos movimentos de direitos civis e consciência negra. Denomina o lugar de submissão, exclusão e desprezo dos afro-americanos na estrutura social derivada do pós-abolição. Significa que, mesmo mais de um século e meio depois, esse grupo social ainda é visto como inferior e sua humanidade é questionada.

 

A palavra com “n”, como o termo passou a ser designado, pode vir a ser abolida do uso coloquial da língua, mas a fratura social que ela expõe permanece.

 

O racismo da “única gota”, política vigente durante parte do século XX em vários estados outrora pertencentes à Confederação, considera que basta um ancestral negro, mesmo que seja o único e esteja a cinco gerações atrás, para que se considere a pessoa negra ou mestiça. É um instrumento de segregação racial porque foi associado às leis que proibiam os casamentos inter-raciais e impediam o acesso dos afrodescendentes a empregos, lazer e moradias em regiões específicas das cidades e do campo. E criou um impedimento intransponível para o desenvolvimento de uma consciência efetiva de classe.

 

Afinal, a garantia de “pureza” racial dos white trash, mesmo que ocupando o mesmo lugar econômico que muitos negros, tornava-os diferenciados. “Ao menos não somos negros” era o mantra de aceitação da miséria, da exclusão e do preconceito. Recrudescendo o racismo e impedindo a formação de uma consciência mínima sobre o consenso da exploração capitalista.

 

Hoje, uma parte dos habitantes dos Estados Unidos indigna-se e repudia o uso da palavra com “n”, mas não se acanha de continuar usando o termo “lixo branco” com todas as implicações acumuladas ao longo do tempo. A representação estereotipada dos casamentos endogâmicos sempre acompanha as anedotas sobre “caipiras que transam com suas irmãs” e a caracterizações de serial killers na indústria do entretenimento frequentemente recorre a esse grupo social isolado nos bolsões miseráveis tanto urbanos quanto rurais. Eles não despertam qualquer tipo de empatia.

 

Com o advento dos reality shows, famílias vivendo nas montanhas, nos pântanos ou nos últimos degraus da cadeia social tem sido retratadas para o deleite dos “sofisticados” habitantes urbanos. Em programas de gosto duvidoso e através de estereótipos toscos de fácil assimilação, a América Profunda (ressalvando o ego dos nossos vizinhos do Norte que pensam que o continente lhes pertence) mostrou a sua cara e recebeu o escárnio nacional e internacional. Obesos ou esqueléticos, desdentados, feios, de higiene duvidosa e modos chocantes, eles tomaram de assalto a programação dos canais a cabo.

 

E se viram, e se juntaram e saíram da toca e votaram em Donald Trump…

 

Para bom entendedor…

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