STALINGRADO E O CINE WINDSOR

14 mar

“A memória, esse reagente dos desgraçados, anima até as pedras do passado e dulcifica todas as amarguras sofridas, só para aniquilar o homem pela consciência das suas faltas e para destruir na sua alma a fé no futuro, tornando-lhe o passado mais doce e benéfico, e unicamente capaz de o sustentar ainda na vida.” (Gorki, Máximo. Os vagabundos. p.91)

 

Em algum momento entre 1993 e 1994, meu marido e eu fomos pela última vez ao Cine Windsor. Para quem não se lembra, ficava na esquina da General Osório com a Regente Feijó, de cara para o Fórum. Hoje o Fórum foi transferido para a Cidade Judiciária e o cine virou mais uma dessas sofríveis igrejas evangélicas.

 

Havia sido um cinema imponente e ainda guardava tristes vestígios da antiga glória, traços de veludo aqui e ali, e a decadência espalhando-se a olhos vistos. Logo depois dessa nossa ida, passou a exibir filmes “eróticos” de qualidade duvidosa e enfrentou maus bocados até ser absorvido, como tantos outros do velho centro, pela avalanche dos templos. Hoje as pessoas preferem as salas de exibição em Shoppings, mas eu tenho lembranças muito boas dos velhos cinemas de Campinas.

 

Stalingrado era o filme que queríamos assistir. Um obscuro filme alemão, de narrativa realista, lenta e deliberada. A sala quase vazia como sempre acontecia quando o circuito comercial trazia um filme europeu por engano.

 

Estávamos absortos assistindo quando captei movimento com a visão periférica e percebi vários ratos correndo pelos cantos e logo abaixo da tela. Eu estava de bermuda e, por um momento, fiquei com medo de ser mordida e ter que gastar um dinheiro, que não tínhamos, em antibióticos. Mas o filme era tão bom que acabei erguendo as pernas e colocando no colo do meu marido e esquecendo a presença constante dos roedores.

 

Ao longo dos anos, aquele momento rendeu piadas intermináveis. Éramos jovens, casados há pouco tempo, “sem um puto no bolso” nem nos passou pela cabeça deixar o cinema, já que havíamos gasto nossos cobres nas entradas. E olha que eu ainda pagava meia-entrada com a minha carteirinha do mestrado da USP.

 

Era uma época em que juntávamos moedas ao longo da semana para comer um cachorro quente aos sábados no Salsichia perto da Prefeitura; encontrávamos os amigos no Pastelão, barzinho próximo ao Pátio dos Leões da PUCC, para discutir a revolução; no dia a dia dividíamos irmãmente uma marmitex do seu vale refeição porque ele trabalhava perto de casa. Cada viagem a São Paulo para fazer as disciplinas do mestrado era uma acrobacia econômica. O cinema era nosso luxo.

 

Stalingrado (que em português recebeu o subtítulo de Batalha Final) foi mais que um filme para mim. Passei aquela sessão no Windsor, que cheirava a mofo, ouvindo os guinchos dos ratos e abraçada ao meu marido, feliz da vida de poder assistir a um filme daqueles e não ter que aturar mais alguma bomba do Schwarznegger. Teria preferido que a exibição fosse em algum cine clube, mas não dava para reclamar.

 

Nos anos que se seguiram, a lembrança desse dia feliz sempre permaneceu ligada ao filme. E nunca mais o vi. Não sei se chegou a ser exibido na televisão ou se ainda existem cópias em DVD por aí.

 

Recentemente, a HBO começou a exibir uma produção russa homônima. Um filme que, ao meu olhar, pareceu desonesto na comparação com o outro; com filtro de cor que romantiza a imagem; retardo de quadros que não chega a ser câmera lenta, mas que cria uma impressão de tempo irreal que beira o melodrama; bem como uma estilização da violência que banaliza os mais atrozes crimes de guerra. Um retrato do cinema de bilheteria quando pretensioso.

 

Já perdi a conta das vezes em que me animei pensando tratar-se do velho filme e acabei maldizendo mentalmente os programadores da TV a cabo. Mas, talvez seja melhor assim, afinal, quem sabe se assistindo novamente, depois de tantos anos, eu venha a descobrir que não era tão bom e acabe estragando a lembrança de um dia tão feliz… Quem sabe?

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6 Respostas to “STALINGRADO E O CINE WINDSOR”

  1. Paulo Pinheiro Machado março 14, 2017 às 5:41 am #

    O filme está no youtube, partilhado em pedaços. É mesmo muito bom. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=lnNGu-HMOv8

  2. Paulo Pinheiro Machado março 14, 2017 às 5:45 am #

    Mas também há outro filme alemão mais recente, dividido em três partes, “ataque”, “caldeirão” e “morte”, É impressionante, este é documentário com depoimentos de soldados e civis, de ambos os lados.

  3. José Pedro Soares Santos março 15, 2017 às 6:03 pm #

    Profa. Gicelle, como seus textos são fantásticos, espero poder tela em minha banca, um dia! Abraços!

    • annagicelle março 15, 2017 às 6:27 pm #

      Fico honrada pela menção 🙂 boa sorte em seus estudos 🙂

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