DIALOGAR COM A DIREITA?

29 mar

Leio e ouço frequentemente, daquelas “lideranças” trotskistas de sempre, que a esquerda precisa fazer autocrítica, que precisa sair dos meios acadêmicos e das redes sociais e reencontrar as bases. Confesso que concordo em parte, mas tenho uma imensa preguiça de gente que exige o que não faz. Não vejo nenhum dos “protagonistas” de 2013 desculpando-se por ter entregado as ruas de mão-beijada à direita mais asquerosa do país, e nem lamentando ter apoiado e promovido a demonização do PT, na esperança de colher pífios triunfos eleitorais.

 

De qualquer modo, exortações para que se dialogue com a direita, e se “esclareça” aos ignaros porque a nossa posição é a mais iluminada, são o que não falta nas redes sociais. Pessoas mandando as outras estudarem História ou tentando impor suas interpretações sobre a sociedade, a ciência e política são frequentes nos dois lados do espectro. Talvez a esquerda seja mais polida e menos vulgar e ignorante que a direita, mas ainda assim todos nós (e eu me incluo nisso) passamos uma boa parte do tempo tentando ensinar aos outros como viver e como pensar.

 

E aí é que está um erro bastante crasso que atinge os dois lados. Estamos nos extremos do espectro ideológico e estamos ignorando o “centro”, que inclui não apenas os moderados, mas também os indiferentes e os indecisos, que eventualmente podem escolher qualquer dos dois lados porque não tem ideologia alguma e atendem a interesses absolutamente pragmáticos. Nós da esquerda perdemos um tempo precioso tentando dialogar com pessoas que não querem ouvir, que não podem e nem querem ser convencidas de nada e que querem (na maior parte do tempo) reduzir-nos ao silêncio na base do grito.

 

Por que qualquer pessoa minimamente inteligente perderia tempo tentando conversar com quem defende monarquia, intervenção militar, tortura, ódio às minorias e mordaças nos meios escolares? Quem acredita que os comunistas estão batendo à porta e que o Brasil precisa de “valores” familiares e religiosos, inclusive que será necessário matar esquerdistas, feministas, gays e pobres porque são todos bandidos, está muito além de qualquer diálogo. Ouvir e ler esse tipo de asneiras proferidas aos gritos, em maiúsculas, assassinando o vernáculo e abusando do calão mais ordinário, é uma prova de resistência que vai arruinando a nossa saúde, enquanto esses ignaros se sentem triunfantes.

 

Mas quem se dirige à grande maioria silenciosa, que vive e trabalha sofridamente e está fora do burburinho das redes sociais e da política? Essa multidão é que define eleições e ora pende à direita ou à esquerda, conforme a pauta discutida, mas não abraça nenhuma ideologia política conscientemente, embora siga padres e pastores. Essa maioria que espera salvadores milenaristas e entrega sua confiança a líderes carismáticos sem pensar nas consequências.

 

Conversar e dialogar requer que se ouça mais do que se fale, a princípio, para entender como as pessoas pensam e o porquê de suas atitudes, requer menos fascínio pelo som da própria voz e menos pretensão de ensinar. É preciso paciência para parar em filas, em praças, em comércios e estar disposto a dar o benefício da dúvida e aceitar quando os argumentos das pessoas simples são mais sensatos e reais que os nossos. É necessário adequar a fala para ter a certeza de ser compreendido e para não humilhar ou melindrar quem vem de outras experiências sociais e culturais.

 

E, não menos importante, dialogar requer admitir que a outra parte abriga uma identidade própria, um ethos construído sob as mais diversas circunstâncias, que precisa ser respeitado para que nos repeitem e confiem em nossas intenções.

 

Nos anos 90, um amigo anarquista contava a seguinte história, chegando a uma favela (naquela época não se chamavam comunidades) para promover uma atividade junto à sociedade de moradores, fez-se a roda e as necessidades das pessoas foram ouvidas, debatidas e traçaram-se planos para atividades futuras. Já no final, uma senhora aproxima-se do meu amigo e agradece dizendo que gostou muito de poder falar sobre as reais necessidades do bairro e que esse grupo de jovens era muito melhor que o pessoal que vinha, falava e falava sobre “o tal de troço”, deixava os panfletinhos e depois ia embora. Meu amigo perguntou sobre os tais panfletos e ela acabou procurando e mostrando um apanhado de frases de Trotsky, distribuído por aquele mesmo pessoal de sempre.

 

O “troço” virou a nossa piada particular em casa durante mais de uma década. E seus seguidores também. Especialmente aqueles que deixam crescer o cavanhaque e usam óculos redondos e se juntam como boybands.

 

Por essas e outras é que eu não acredito em autocrítica. Quem discursa ao invés de dialogar e quem usa uma retórica auto-recorrente, somente entendida por seus pares, dificilmente tem capacidade para indicar os defeitos dos outros porque não percebe sequer os próprios. Mas acredito firmemente na necessidade de “desencastelar” nossa militância e parar de falar para nós mesmos e nossos amigos.

 

Se não queremos a eleição de um proto-fascista defensor da tortura e do genocídio dos pobres, precisamos conversar cada vez mais com as pessoas no âmbito social e entender a causa da ascensão desse tipo de aberração. Precisamos ter argumentos claros e sem barroquismos para oferecer a quem está preocupado muito mais com ter comida na mesa e poder pagar as contas do que com os direitos das minorias. Em um momento em que a sociedade afunda no obscurantismo e na miséria promovidos pelo golpe, algumas lutas pontuais são luxos diante do emergencial.

 

Não é que o pobre seja contra os Direitos Humanos, a maioria silenciosa só não vê tudo isso sair do papel e reverter em alguma melhoria para suas mazelas. A abstração de algumas de nossas discussões não tem qualquer relação com a vida real dessa maioria e nós não percebemos porque nosso patamar de luta muitas vezes já superou o essencial e o básico. Precisamos reaprender a ouvir e a falar e a lutar.

 

Mas também precisamos abandonar de vez as “tretas” pautadas pela mídia e pelos ideólogos dessa direita extremista que pensa que pode vencer na base do clichê, da frase feita e do grito, sem apresentar argumentos ou projeto de país. O Brasil é grande e cheio de possibilidades, não podemos deixar que o processo massacrante de desmonte da democracia, promovido pelos golpistas, nos apequene a ponto de perder de vista que o que realmente importa são as pessoas. É hora de deixar essa direita e seus sequazes falando sozinhos e ir cuidar do que realmente interessa.

 

Como dizia César Isella:

 

                                 “Te digo hermano que entiendas que hacer la Revolución

                                   no és juntar dós o trés locos, cuatro balas y um cañón,

                                   te digo hermano que entiendas que és tiempo

                                   de hacer la Revolución, pero empieza por vós mismo

                                   y después seremos dós, diez, cien, mil, mi país…”

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