Arquivo | abril, 2017

O IMPOSITIVO DA DOMINAÇÃO NA LINGUAGEM

10 abr

Quem é que já não viu o pronome espanhol de tratamento usted traduzido como “você” ou como “senhor” ou “senhora”? Pois é, nada mais absurdo que transformar um pronome absolutamente formal em algo familiar como o “você”. A outra forma “senhor(a)” estaria mais correta, mas ainda assim muito longe de refletir o original.

 

Afinal, o uso do usted implica em deixar claro que se respeita o interlocutor, seja por sua idade, seja por sua importância social ou pessoal, seja simplesmente por não se ter intimidade para usar o tu espanhol ou o vos rioplatense. Nesse sentido, o uso do “você” na tradução está mais do que incorreto, refletindo um aprendizado amadorístico da língua ou uma incapacidade para apreender as nuances do tratamento social. Ainda bem que só vemos esse uso em repórteres e tradutores amadores.

 

Mas deixem-me refletir um pouco sobre o meu incômodo com o uso do “senhor(a)” tão familiar aos falantes de Língua Portuguesa. Historicamente, essa forma de tratamento nada mais é do que a reafirmação de nosso passado escravocrata. Do mesmo modo que em espanhol “Don” e “doña” remetem ao poderio senhorial.

 

Senhor(a) é quem possui não importando que sejam rebanhos, propriedades, dinheiro ou escravos. Daí o uso de senhorio para especificar quem aluga um imóvel, palavra que historicamente implica em posse ou domínio. São palavras que possuem a carga de uma colonização de vários séculos.

 

São palavras que hoje passam por expressar o respeito aos mais velhos, mas que carregam em si toda a força da dominação, da propriedade e dos preconceitos sociais mais retrógrados. Afinal, quem é que podia ser senhor(a) nos séculos XVI a XIX? Os resquícios dessa mentalidade de jugo ainda nos acompanham na linguagem, apenas despidos de sua crua brutalidade e criando novas hierarquias.

 

À vasta gama de fórmulas de tratamento formais, agregamos a cada dia a nossa incapacidade para pensar um mundo de iguais. Doutor, Sua Excelência, Vossa Excelência, Meritíssimo, Excelentíssimo e outras atrocidades linguísticas que refletem nossa subserviência às hierarquias e nossa necessidade de estabelecer barreiras entre os que são “alguém” e os que nem sequer “são”. E quanta vaidade acompanha os que conseguem acrescentar títulos ao próprio nome!!!

 

Lá pelo fim do milênio passado um aluno me chamou de “dona” em plena faculdade e eu falei sem pensar: “por favor, eu não sou dona nem do meu nariz, não me chamem assim”. Os outros alunos riram e uma jovem perguntou como deveriam me chamar então, ao que acabei respondendo que usassem meu nome, que eu não me importava com o uso do você, desde que eles me respeitassem como pessoa e como professora. Só faltou o mundo cair…

 

Muitos de meus colegas docentes consideraram uma barbaridade a minha insistência em repudiar “dona”, “senhora” ou, o ainda pior, “doutora”. Vários deles viviam para encontrar reconhecimento pessoal nesses tratamentos elitistas, que impunham uma distância e um abismo entre suas pessoas e as dos alunos. A Direção chegou a me informar que a importância da hierarquia era um ponto inegociável na disciplina do estabelecimento.

 

E deixaram isso bem claro nos anos que se seguiram tratando os professores como mão de obra barata e descartável e impondo coordenadores com veleidades de domínio. O tratamento aos professores, nesse estabelecimento de ensino, era tão acintoso que, em breve, vários alunos passaram a nos maltratar também. Como é que poderiam respeitar quem viam sendo humilhado cotidianamente, se sua visão de mundo implicava na adulação do poder pelo poder?

 

Não foi o uso do você que permitiu que os alunos falassem alto ignorando minhas aulas ou entrassem e saíssem da sala como se fosse um mercado persa, porque isso acontecia também com professores apegados à hierarquia e ciosos dos pronomes de tratamento. Foi o total descaso da instituição e sua cotidiana rotina de maltratar sistematicamente os professores, no afã do lucro fácil e rápido, a um ponto em que até os auxiliares, que amargavam a mesma exploração que nós, acabavam sentindo-se “melhores” e nos tratavam com condescendência. Perdi quase uma década de vida tentando dialogar e mostrar o quanto aquele ambiente era tóxico exatamente porque professores, alunos e funcionários endossavam a hierarquia e a dominação, em vão.

 

Adquirir o direito de ser chamada de senhora pelo casamento, de doutora pelo desempenho acadêmico ou de dona pela idade não fez com que minha vida se tornasse mais significativa aos olhos do sistema. Aqui estou eu fora do mercado de trabalho e invisível pelos mesmos motivos (idade, estado civil e excesso de titulação acadêmica) que me renderam esses tratamentos “respeitosos”.  E nunca paro de pensar na inutilidade e na vaidade que vai implícita em quem exige ser assim tratado.

 

A linguagem reflete a opressão social, às vezes de maneira brutalmente explícita, às vezes através de nuances irônicas que mostram que não somos nada. Meu eu comunista se arrepia e quase vomita ao ver como as pessoas se sentem à vontade com a subserviência que certas formas de tratamento exigem. Minha aspiração a viver em um mundo de iguais está cada dia mais distante.

 

Sinto falta de encontrar em português um pronome que possa ser realmente a tradução adequada de usted, do mesmo modo que sinto falta de uma linguagem que não reproduza as desigualdades, os preconceitos e as hierarquias caquéticas do viver colonial. Não que eu considere o espanhol menos opressivo, seja em sua forma original ou naquelas usadas na América Latina, nesse sentido o problema é a sociedade e as línguas apenas a refletem. Mas alguns pronomes, em ambas as línguas, tem sabor mais libertador que outros.

 

Ustedes qué piensan? O que vocês acham? O que vossas senhorias pensam? (sentiram o drama?).

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