Arquivo | maio, 2017

A MASCULINIDADE QUE ASSASSINA

31 maio

Há alguns meses apareceu em meu pacote de televisão por assinatura um canal chamado TNT Séries. Especializado em reprises, me deu a oportunidade de rever Criminal Intent, Rizzoli & Isles, The Mentalist e todos os CSI. É a companhia perfeita para as manhãs de faxina ou para o tempo despendido na cozinha.

 

Foi nesse canal que descobri a série Major Crimes, que me deixou perplexa em um primeiro momento ao apresentar a mesma delegacia e os mesmos detetives de The Closer, mas sem a Kyra (mis’scarlett) Sedgwick. Com o desenrolar das temporadas acabei descobrindo que uma série era desdobramento da outra e consegui me situar na trama. E destrinchar tramas é tão bom para afastar o Alzheimer quanto os jogos de tabuleiro.

 

Houve um episódio que vem a calhar para o momento em que vivemos. Ao investigar o cadáver de uma moça barbaramente espancada e estuprada, a equipe descobriu uma postagem em um chat sobre fantasias sexuais, em que a vítima fornecia o roteiro para a própria violação. Investigação vem e vai e descobre-se que outra pessoa é quem fez a postagem em nome dela e um dos integrantes do chat pensou que seria uma boa ideia arrombar sua porta e brutalizá-la seguindo as instruções ali explicitadas.

 

Imagine o pavor da vítima com um estranho invadindo sua casa e praticando tais atos de violência. É lógico que ela reagiu, a situação escalou e acabou em seu assassinato. Nada mais previsível em uma série policial.

 

Mas, e é aí que os autores parecem ter percebido a insanidade da violência de gênero que nos rodeia, a investigação leva à descoberta de que quem postou as mensagens foi um ex-namorado. Inconformado com o rompimento devido a uma discussão que degenerou em violência, o miserável pensou que se ela fosse estuprada, acabaria percebendo que ele nem era tão violento assim e voltaria aos seus braços, arrependida de tê-lo descartado. O psicopata, em sua lógica egoísta e insensível jamais sequer entendeu que não se impõe uma violência desse nível a ninguém em nome de um suposto amor.

 

Estamos rodeadas de psicopatas que recebem o aplauso da sociedade herdeira do patriarcalismo abrâmico. Estupros corretivos são corriqueiros em boa parte do planeta. E a violência de gênero cresce na medida em que a masculinidade se vê fragilizada pelo caráter esmagador do capitalismo pós-moderno.

 

Não é apenas que os papéis sociais femininos impostos desde priscas eras relutam em ser superados. É, principalmente, que a masculinidade se sente constantemente ameaçada e precisa reafirmar-se à custa de nossas carnes humilhadas. Tanto portas adentro de muitos lares, quanto ao vivo em cores nos produtos da indústria cultural.

 

Preocupa-me imensamente o crescimento, entre adolescentes e jovens, de uma percepção de masculinidade que só se realiza a partir da subjugação do outro. A nova geração deveria ser melhor do que nós e, no entanto, há um quase culto ao deputado caricato que não sabe se expressar a não ser em termos violentos e abusivos. A internet se transformou no quintal da violência verbal desses aprendizes de torturadores, não admira então que sub-celebridades a procura de audiência encenem atos de violência simbólica, destinados a esse público microcéfalo.

 

A cada dia, mais e mais homens incapazes de conviver com a igualdade de gênero atravessam a fronteira da violência simbólica para a física. E mais mulheres são agredidas, humilhadas ou assassinadas. E como elas também o são gays, lésbicas, travestis, transexuais e toda sorte de ser humano que evoque de forma minimamente visível qualquer gênero que não seja o masculino.

 

Urge discutir violência de gênero nas escolas. Desde o menino que beija à força uma ou mais meninas no maternal até o bando de adolescentes que espanca um colega gay, precisamos humanizar o ensino e discutir essa masculinidade que só se realiza na subjugação do outro. E para ontem.

 

Mas cada vez podemos menos…

 

Uma ofensiva para silenciar professores está em curso. Patrocinada por fanáticos religiosos de todos os espectros do cristianismo, e desenvolvida por funcionários públicos que desonram o Estado Laico, essa censura asquerosa se espalha pelo país. E nos calam aos gritos.

 

E queimam livros. E humilham professores. E agridem alunos que não se adéquam a seus estereótipos religiosos.

 

E a violência aumenta, legitimada por uma interpretação canhestra das escrituras e promovida por um simulacro de parlamento que atende aos interesses mais escusos. Retirando nossos direitos e liberdades um a um, até que só nos reste vestir a burca e nunca mais sair de casa. Ou pior…

 

E agora? Apenas reagir ou começar a agir e tomar a ofensiva? Quem sabe?

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VOCABULÁRIO E DICIONÁRIOS

31 maio

Só há uma coisa que me apavora mais do que um hispanoparlante arriscando um portunhol e é um lusoparlante enrolando um espanhês. Ao longo das décadas de convivência com as duas línguas, tenho percebido a generalização dos dois lados da fronteira de que “quem fala uma pode perfeitamente hablar la otra porque são línguas irmãs, parecidas en sus estructuras, e fáceis de aprender. E com que frequência tive meus ouvidos torturados por argentinos e uruguaios ensaiando um português espanholado e brasileiros falando um espanhol digno dos Idiomas Luxemburgo (cujo slogan “transformando poliglotas em trogloditas” foi um dos momentos mais brilhantes dos Sobrinhos do Athayde).

 

Em 1975 estávamos com visitas do Uruguai em casa, lá no Ipiranga, e uma vizinha muito expedita resolveu enrolar uma panela de brigadeiros e oferecer às nossas convidadas. Quem resiste a um brigadeiro caseiro bem-feitinho? Ninguém mesmo, só que lá pelas tantas, uma das moças comentou:

 

– Está exquisito!!!

 

E foi o que bastou para criar um incidente que nunca mais foi esclarecido. De nada bastou explicar que a palavra em espanhol tinha um significado completamente diferente. Como a vizinha em questão era uma pessoa bastante ignorante, não nos acreditou e ficou com essa mágoa durante anos, mesmo que tivesse continuado a amizade.

 

Porque “exquisito” em espanhol significa sublime, delicioso e é o maior elogio que se pode fazer a um cozinheiro. Ao passo que, para significar esquisito (na região do Rio da Prata) usa-se “raro” ao invés de “extraño”. Embora “raro” também designe o que tem caráter esporádico ou intermitente, “extraño” é usado muito mais para o que é desconhecido, do que para o que é esquisito.

 

Sentiram o drama?

 

Vou além, um jovem amigo meu que viajou recentemente por terras espanholas, ficou inconsolável ao descobrir que quando perguntava pelo “rango” ninguém entendia que se tratava de comida. É claro que vai daí a arrogância da juventude de pensar que uma gíria tão específica seria compreendida em um país com uma língua diferente. Mas ele parecia não querer entender que a mera existência de uma palavra “rango” em espanhol não lhe dava o direito de esperar ou exigir ser entendido.

 

Sim, porque a palavra “rango” em espanhol designa a estirpe nobre. Quando dizemos que alguém “és duquesa por rango própio” significa que essa pessoa é duquesa por ser filha de um duque e não por ter casado com um. Quem tem “rango” tem estirpe ou ascendência nobre, é um distintivo social.

 

Agora imagine o infeliz entrando em um restaurante de Madri ou Barcelona perguntando pelo rango…

 

Há muitos outros exemplos que poderiam ser usados, mas suponho que esses dois são um bom ponto de partida para o meu argumento. Para aprender uma língua não basta saber sua estrutura ou seu fraseado, como lidar com pronomes e conjunções ou como conjugar verbos. O vocabulário é tão importante quanto qualquer outra instância linguística.

 

Mas, por desgraça da modernidade, há um encolhimento significativo na capacidade dos estudantes e ainda mais dos adultos para aquisição de vocabulário. As pessoas se acomodam com algumas centenas de palavras que lhes bastam para movimentar-se em seu próprio círculo social e só incorporam as palavras que podem compartilhar com seus contatos próximos, como gírias televisivas e neologismos tecnológicos. Quando leem um livro ou um texto e esbarram em palavras desconhecidas, empacam e não tem o saudável hábito de empregar dicionários.

 

Qualquer pessoa que tenha um repertório de palavras mais elaborado passa por esnobe e é francamente hostilizada na maioria dos ambientes. Para manter um rol de amizades e conviver com parentes sem ser estigmatizados, muitos jovens optam por permanecer na zona de conforto do vocabulário comum.  E, em consequência, acabam tendo um péssimo domínio de seu próprio idioma, o que se reflete perfeitamente na hora de aprender ou adquirir o mínimo domínio em uma língua estrangeira.

 

Um vocabulário pobre limita a capacidade de expressão dos próprios pensamentos e sentimentos. Embrutece, poda, restringe, incapacita a compreensão de si, do mundo e dos outros. Por isso fica tão fácil induzir comportamentos massivos na sociedade contemporânea.

 

Se eu tivesse a capacidade de influenciar ao menos algumas dúzias de pessoas, aconselharia bons dicionários. Convencionais, de sinônimos, enciclopédicos, dicionários são uma das mais sensacionais criações do intelecto humano. E muito além da consulta, servem também para quem deseja enriquecer o vocabulário e entender melhor o mundo que nos rodeia.

 

Se devemos partir de algum ponto para reverter o descalabro em que se transformou a nossa sociedade, um bom dicionário é um excelente ponto de partida. Já que o diálogo necessário para refrear os níveis alarmantes de violência, que nos cercam, precisa ser inteligível para as partes e passível de ser decodificado de acordo com as experiências sociais e pessoais de cada um. Não basta entender a língua falada, é preciso expandir a mente domando as palavras que dão forma aos pensamentos e designam objetos, conceitos, sentimentos, sonhos e esperanças.

 

Para melhorar nossas comunicações e diminuir a violência social tanto física quanto verbal. Para conciliar os mundos que nos cercam. Para viver uma existência plena.

 

E no dia em que conseguirmos o domínio efetivo dos meandros e ritmos de nossa própria língua, aí estaremos prontos para não assassinar as línguas dos outros, no mínimo. Até lá, cuidado para não pedir “rango” em um restaurante de Montevideo, Madri ou Buenos Aires, ou para elogiar qualquer comida no Brasil usando o termo “exquisito”. Nem sempre as pessoas tem flexibilidade ou paciência nessas horas.

A IMPOSSÍVEL FOTO DO FUZILAMENTO DE LORCA E A DESINFORMAÇÃO NO MUNDO DOS MEMES

24 maio

Federico García Lorca foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, mas foi também um incansável pesquisador da cultura de seu povo e um divulgador do teatro popular e um ativista por demais interessante. Inteiramente avesso a qualquer tipo de violência física, Lorca dedicou seu fervor republicano a um ativismo cultural itinerante. Uma parte considerável de seus poemas e obras teatrais dialoga diretamente com as tradições de crítica e contestação populares e desnuda uma Espanha violenta, ignorante e fratricida, permeada por uma religiosidade opressora e uma classe dominante despótica.

Lorca-Marcelle-Auclair

Em agosto de 1936, logo depois do início da Guerra Civil Espanhola, o poeta foi arrestado, a partir de uma ordem escrita das autoridades franquistas e foi fuzilado na madrugada de 18 para 19 do mesmo mês. As circunstâncias do assassinato de Lorca permaneceram obscuras durante décadas, seu corpo nunca foi encontrado e, somente recentemente, documentos provando a autoria e a procedência das ordens superiores para sua morte vieram a luz. As circunstâncias do encobrimento desse assassinato foram exaustivamente pesquisadas por Ian Gibson, autor de farto material sobre Lorca.

Por essas e outras é que fiquei muito surpresa ao ver uma foto circulando pela internet como sendo do fuzilamento do poeta. Não apenas por tratar-se de uma impossibilidade histórica, uma vez que o fuzilamento ocorreu de madrugada, em surdina e sem testemunhas. Mas, principalmente, por tratar-se de uma imagem visivelmente pousada, heroica, quase cinematográfica de uma pessoa que nem sequer tinha o mesmo tipo físico de Lorca.

falso fusilamento de Lorca

No mundo dos memes a veracidade das imagens pouco importa, o que realmente interessa é a mensagem que se passa. Então, se a imagem for suficientemente impactante para estimular as reações emocionais desejadas, tanto melhor, nada significando sua falsidade. As frases de efeito mascaram a pouca solidez de um mundo virtual alucinado.

É assim que se constrói a pós-verdade? Talvez. Mas efetivamente é assim que se cria o consenso em cima de mentiras.

Afinal, o aspecto mais monstruoso do assassinato de Lorca é exatamente seu caráter clandestino e criminoso. Os franquistas não tiveram a coragem e nem decência de prendê-lo abertamente como fizeram com outros tantos intelectuais. Ele foi arrastado para a prisão em surdina e depois de assassinado foi jogado em alguma vala comum ou sepultado em local desconhecido para impedir que sua memória fosse respeitada.

O fato de Federico ser homossexual era considerado inadmissível no mundo católico franquista e esse foi um dos fatores que precipitou sua eliminação. A covardia das autoridades espanholas, que durante décadas se recusaram a assumir qualquer responsabilidade nesse crime e nada fizeram para localizar seus restos mortais e devolvê-los à família, figura na galeria da infâmia da humanidade. Bem como a recusa de admitir que o poeta não representava qualquer perigo físico aos falangistas e foi assassinado por motivos torpes ligados ao machismo patriarcal.

É evidente que se você não é historiador, não pertence ao mundo cultural ibero-americano e nem ao espectro das esquerdas comunistas e/ou anarquistas, você não tem a obrigação de conhecer todas estas circunstâncias. Muitos de nós já repostamos hoaxes e caímos na sedução dos memes bombásticos alguma vez na vida. Mas, agora que você sabe, dá para imaginar que esse meme pode criticar ditaduras, mas é um insulto à memória de Federico García Lorca.

FAREWELL LORD BRETT SINCLAIR

23 maio

Hoje era para ser um dia feliz, temos aniversário na família. E, ao abrir a internet, junto ao cortejo de misérias diárias da nossa política, descubro que Roger Moore se foi. E com ele se foi minha primeira paixonite de pré-adolescente.

 

Os tempos em que ficava até tarde acordada para vê-lo aparecer como Lord Brett Sinclair, ao lado de Tony Curtis na série Persuaders exibida pela extinta TV Tupi. Os anos 70, quando fazíamos fila na porta do Cine Marabá de Jundiaí toda vez que estreava um novo filme de James Bond. E, de uns tempos para cá, desfrutar de rever esses mesmos filmes ruins na TV, junto ao meu marido, e apreciar seu estilo leve e cavalheiresco de atuar.

 

Porque Roger Moore foi o mais cavalheiro dos James Bonds, o mais divertido, o menos afeito à pancadaria e o mais elegante. Seus filmes são muito mais paródias que filmes de aventuras, e sua interpretação irônica coloca o ridículo agente nada secreto na categoria dos clowns mais que dos heróis. Impecável.

 

No entanto, foi sua ação como embaixador da UNICEF e seu modo discreto de lidar com a fama que sempre me agradaram. Sua disposição para representar papéis como o paraquedista badass gay de O cruzeiro das loucas e conferir dignidade a um papel que era para ser uma mera ponta. Seu modo irônico de desdenhar da própria carreira, dando razão aos críticos que o chamavam de canastrão.

 

E do mesmo modo que Vincent Price, Peter O’Toole e Christopher Lee, Roger Moore pertencia à estirpe dos grandes canastrões. Daqueles canastrões imensos, que se tornam Cult e carregam legiões de fãs, mesmo depois que se vão. Agora só restou Michael Caine…

 

Que vá em paz e que a terra lhe seja leve e que as novas gerações apreciem seus filmes e séries. Uma parte da minha adolescência vai-se com ele. E eu que raramente escrevo obituários porque prefiro celebrar as pessoas em vida, aqui me despeço mais da minha juventude do que do homem em si.

A FALÁCIA DESTE “FORA TEMER”

21 maio

Desculpem-me se não saio à rua quando aquela emissora manda. Já gritei muito pela saída do golpista no ano passado, quando o processo de impeachment da nossa presidenta legitimamente eleita ainda estava rolando, quando fazia realmente sentido e urgência. Depois do golpe, o significado dos gestos e das falas mudou e precisamos prestar mais atenção antes de sair para as ruas novamente.

 

As passeatas de que participei não tiveram uma cobertura simpática dessa emissora, ao contrário, houve mentiras, omissões e menosprezo, no melhor estilo que caracteriza o que seus âncoras e repórteres chamam de jornalismo. Defender a democracia e a Constituição, denunciando o golpe e a demonização da política, promovida por essa e outras instâncias da mídia, era considerado maluquice de gente Humanas ou má-fé de sindicalistas. Em meu entendimento, gritar Fora Temer, sem gritar Volta Dilma é aceitar a legitimação do golpe.

 

Fomos derrotados, nossa presidenta foi cassada e deposta mediante um circo estapafúrdio promovido por grupos de interesses escusos e secundado por integrantes de todos os três poderes, gente sem escrúpulos e sem ética que batia no peito clamando honestidade, enquanto sonegava e recebia polpudas propinas. Até hoje não existe uma única evidência concreta de desonestidade ou má-fé de Dilma Rousseff, apenas boatos, insinuações e subentendidos, martelados sem parar por uma mídia sem ética, que precisa justificar o estrago que causou. E passamos a ser hostilizados e perseguidos pelas reformas golpistas e pelo “surgimento” de uma juventude direitista tosca, ignorante e belicosa, que acredita ter vencido, sem perceber que as reformas tornarão suas vidas impossíveis tanto quanto as nossas.

 

A questão que se apresenta agora é o porquê dessa emissora, da noite para o dia, depois de ter promovido a ascensão do que havia de mais podre nos subterrâneos da política e do funcionalismo no país, resolveria aderir e patrocinar o Fora Temer. Depois de ter passado os últimos quatro anos falseando seus noticiários e empregando jornalistas de capacidade duvidosa e comentaristas invejosos e ressentidos. Depois de ter manipulado a crise a seu bel prazer, para atender seus próprios interesses, agora está do nosso lado???

 

Aos que vão sair hoje (gritando Fora Temer, Diretas Já) sou obrigada a lembrar que nem a tal emissora, nem o STF, nem o Congresso e muito menos os sólidos interesses econômicos internacionais envolvidos no golpe tem qualquer interesse em eleições diretas nem agora e nem em 2018. Eu não vou sair saltitando para ajudar todos esses interesses espúrios a promover a subida ao poder de um FHC ou uma Carmem Lúcia, mediante um colégio eleitoral integrado pela banda mais podre do Congresso em décadas. É claro que eu quero que o golpista seja deposto e preso e pague por seu cinismo, sua covardia e suas traições, mas não ao preço de legitimar seu governo mediante uma saída constitucional.

 

Afinal, já distorceram e reinterpretaram tanto a Constituição para consolidar este golpe abjeto, que parece nada mais importar contanto que o país continue a manter os lucros da “gente de bem”. E, por favor, não tenham quaisquer dúvidas de que tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos nada tem a ver com pruridos de honestidade ou revolta contra a corrupção. Sempre se tratou de quem, quanto e como se lucra neste país, às custas de um Estado patrimonialista, nepotista e patriarcal, herança colonial que nos exclui até hoje.

 

Nesse sentido, não importa se acrescentamos Diretas Já ou Volta Dilma ao Fora Temer, os donos da bola não tem qualquer intenção de atender às nossas reivindicações, uma vez que o grosso da população permanece indiferente. O Fora Temer hoje serve apenas como terapia para uns e outros e como massa de manobra para legitimar a nova etapa do golpe, que visa remover o incômodo e vergonhoso Temer do poder e colocar ali algo mais palatável aos que mandam e desmandam no mercado. De modo algum haverá uma solução vinda da emissora em questão, que seja minimamente positiva para o país e nos devolva a dignidade e os direitos tomados pelo golpe. Jamais.

 

E já que o papel que nos sobrou é o de emular a “banda do Titanic” enquanto nossas vidas afundam, eu prefiro afundar gritando Volta Dilma. Não apenas por ser essa a única opção possível e honrosa para esta embrulhada rocambolesca, mas também por ser essa a única maneira de permanecer fiel ao que sempre fui. Sou uma comunista sem partido e nenhum partido me manipula e nem me silencia de acordo com sua conveniência.

 

Se é para acompanhar o Fora Temer com reivindicações que não serão ouvidas, então eu quero que o STF anule o impeachment diante dos sinais visíveis de fraude e de golpe. Eu quero que Dilma Rousseff seja devolvida a seu lugar de direito e que, aí sim, ela que é a única com legitimidade, encaminhe uma emenda à Constituição promovendo eleições gerais e diretas. E que seja Dilma que passe a faixa a quem quer que seja eleito.

 

Mas nem se houvesse essa solução legítima eu tenho ilusões de que o país entraria nos eixos, afinal, a maior parte da população, que continua vivendo como se não houvesse golpe e nem reformas, ainda poderia votar um “salvador da pátria” sem projeto, sem causa e sem vergonha na cara, que continuaria nosso mergulho nesse abismo de vergonha e miséria. A emissora em questão conta exatamente com isso para que as “aparências” de democracia sejam mantidas, enquanto nos tomam a saúde, o futuro e a esperança.

 

O que fazer, então????

 

Esquecemos tudo para viver em uma sociedade de aparências tão ao gosto do sistema capitalista? Promovemos uma Revolução sem povo? Continuamos legitimando o sistema com a nossa existência, participando na esperança de mudar?

 

Não são perguntas retóricas, acredito que se encontrarmos a resposta de modo coletivo, poderemos estruturar uma sociedade mais equânime. Desistir, derrubar ou tentar mudar de dentro são as três opções que se apresentam visíveis. Se alguém tiver outra que não envolva “salvadores”, ditaduras ou regressão às estruturas fascistas do século passado, por favor, explique-se e ajude porque eu já não sei para onde correr.

DELENDA BRASILIS

5 maio

Confesso que, a cada dia que passa, considero mais difícil (diante do noticiário que a grande mídia omite) entender qual é o projeto das classes dominantes para o Brasil. Não é que eu deixe de perceber aonde tudo isso nos leva, longe disso, minha dificuldade é conseguir aceitar que existe alguma inteligência coordenando esta rota suicida. E que essa inteligência queira viver em um país aniquilado.

 

Era tão ruim assim quando os índices sociais estavam altos? Era tão terrível quando nossa economia nos colocava nas grandes mesas de decisão do poder mundial? Era tão pavoroso quando o país parecia que estava se encaminhando lentamente para pertencer a todos?

 

Ou tudo não passa de uma vingança rancorosa e não existe plano de futuro algum? Será que devo aceitar que essa súcia de congressistas, administradores, banqueiros, financistas, industriais e outros tantos golpistas (brancos, velhos e cristãos) sacrificaria um país inteiro para garantir a si e seus descendentes um futuro de rentismo parasitário, inútil e nababesco? Será que devo ver uma geração inteira ficar sem futuro para que essa quadrilha de inúteis viva em um luxo estúpido e se banqueteie nas entranhas do poder?

 

Tenho oscilado entre a tristeza e a raiva por meses, entre a impotência e a revolta, entre o desânimo e a desesperança. É como se estivesse no camarote assistindo a uma política de terra arrasada similar à que os czares russos usaram contra Napoleão. E o que vejo é a mesma indiferença de quem queimava as colheitas para não dar comida ao inimigo, sem se importar de estar matando de fome o próprio povo.

 

Porque os parasitas não tem povo, e sim servos. Os parasitas não lideram, apenas se prendem ao poder como sanguessugas e absorvem tudo o que podem até transformar a sociedade em uma carcaça exaurida. Os parasitas não se sentem responsáveis por ninguém, nem mesmo por seus descendentes, que herdarão as ruínas de sua inépcia.

 

São psicopatas narcisistas. Envergam roupas de grifes e embolsam salários inconstitucionais enquanto acumulam fortunas em benefícios indevidos e condenam a população ao desemprego, ao subemprego com jornadas de século XIX, ao trabalho escravo no meio rural e à total ausência de futuro, uma vez que nenhum de nós vai poder se aposentar. E é a isso que querem nos reduzir.

 

E a grande imprensa se cala enquanto recebe polpudos subsídios. Afora honrosas exceções, não se vê crítica ou análise criteriosa das implicações que as medidas tomadas pelo governo golpista e ilegítimo (amparadas por um Congresso fisiológico e um Judiciário carcomido pelo vício das castas) podem acarretar ao país e à sociedade. Ao contrário, os grandes conglomerados de mídia atuam como agressivos marqueteiros dos vampiros de Brasília.

 

O futuro nos foi roubado, assim como a democracia capenga que tanto nos custou. O que vemos hoje é uma somatória abjeta de arbitrariedades, que não tem legitimidade e nem mesmo objetivo, a não ser nos esmagar. E estão conseguindo.

 

Nossos protestos são omitidos dos noticiários, ou tratados de maneira dúbia para que o resto da população nem perceba que existe uma resistência ao golpe. O golpe é negado ou ridicularizado. A grande maioria da população permanece indiferente, e não tem como perceber as implicações de cada nova notícia estarrecedora, porque os âncoras e repórteres lhe oferecem a taça de veneno como se fosse um prêmio.

 

Delenda Brasilis, o Brasil deve ser destruído. Para quem? Com que objetivo?

 

Se é assim, então, que seja…

 

Mas eu, que não sou cristã e não tenho obrigação alguma de oferecer a outra face a quem me agride ou humilha, deixo aqui a minha maldição impotente. É pouco, mas é de coração:

 

Que todos e cada um dos apoiadores, promotores e organizadores deste golpe, assim como os defensores das medidas que nos esmagam, seja maldito, que a comida lhes seja sempre amarga, que os pesadelos os acossem noite após noite, que jamais recebam carícias (nem mesmo compradas), que o medo aprisione suas mentes, que o descanso lhes seja negado, que sejam abandonados por aqueles a quem mais amam e que suas terras, seus bens e suas fortunas se tornem estéreis, assim como seus corpos e suas vidas.