A MASCULINIDADE QUE ASSASSINA

31 maio

Há alguns meses apareceu em meu pacote de televisão por assinatura um canal chamado TNT Séries. Especializado em reprises, me deu a oportunidade de rever Criminal Intent, Rizzoli & Isles, The Mentalist e todos os CSI. É a companhia perfeita para as manhãs de faxina ou para o tempo despendido na cozinha.

 

Foi nesse canal que descobri a série Major Crimes, que me deixou perplexa em um primeiro momento ao apresentar a mesma delegacia e os mesmos detetives de The Closer, mas sem a Kyra (mis’scarlett) Sedgwick. Com o desenrolar das temporadas acabei descobrindo que uma série era desdobramento da outra e consegui me situar na trama. E destrinchar tramas é tão bom para afastar o Alzheimer quanto os jogos de tabuleiro.

 

Houve um episódio que vem a calhar para o momento em que vivemos. Ao investigar o cadáver de uma moça barbaramente espancada e estuprada, a equipe descobriu uma postagem em um chat sobre fantasias sexuais, em que a vítima fornecia o roteiro para a própria violação. Investigação vem e vai e descobre-se que outra pessoa é quem fez a postagem em nome dela e um dos integrantes do chat pensou que seria uma boa ideia arrombar sua porta e brutalizá-la seguindo as instruções ali explicitadas.

 

Imagine o pavor da vítima com um estranho invadindo sua casa e praticando tais atos de violência. É lógico que ela reagiu, a situação escalou e acabou em seu assassinato. Nada mais previsível em uma série policial.

 

Mas, e é aí que os autores parecem ter percebido a insanidade da violência de gênero que nos rodeia, a investigação leva à descoberta de que quem postou as mensagens foi um ex-namorado. Inconformado com o rompimento devido a uma discussão que degenerou em violência, o miserável pensou que se ela fosse estuprada, acabaria percebendo que ele nem era tão violento assim e voltaria aos seus braços, arrependida de tê-lo descartado. O psicopata, em sua lógica egoísta e insensível jamais sequer entendeu que não se impõe uma violência desse nível a ninguém em nome de um suposto amor.

 

Estamos rodeadas de psicopatas que recebem o aplauso da sociedade herdeira do patriarcalismo abrâmico. Estupros corretivos são corriqueiros em boa parte do planeta. E a violência de gênero cresce na medida em que a masculinidade se vê fragilizada pelo caráter esmagador do capitalismo pós-moderno.

 

Não é apenas que os papéis sociais femininos impostos desde priscas eras relutam em ser superados. É, principalmente, que a masculinidade se sente constantemente ameaçada e precisa reafirmar-se à custa de nossas carnes humilhadas. Tanto portas adentro de muitos lares, quanto ao vivo em cores nos produtos da indústria cultural.

 

Preocupa-me imensamente o crescimento, entre adolescentes e jovens, de uma percepção de masculinidade que só se realiza a partir da subjugação do outro. A nova geração deveria ser melhor do que nós e, no entanto, há um quase culto ao deputado caricato que não sabe se expressar a não ser em termos violentos e abusivos. A internet se transformou no quintal da violência verbal desses aprendizes de torturadores, não admira então que sub-celebridades a procura de audiência encenem atos de violência simbólica, destinados a esse público microcéfalo.

 

A cada dia, mais e mais homens incapazes de conviver com a igualdade de gênero atravessam a fronteira da violência simbólica para a física. E mais mulheres são agredidas, humilhadas ou assassinadas. E como elas também o são gays, lésbicas, travestis, transexuais e toda sorte de ser humano que evoque de forma minimamente visível qualquer gênero que não seja o masculino.

 

Urge discutir violência de gênero nas escolas. Desde o menino que beija à força uma ou mais meninas no maternal até o bando de adolescentes que espanca um colega gay, precisamos humanizar o ensino e discutir essa masculinidade que só se realiza na subjugação do outro. E para ontem.

 

Mas cada vez podemos menos…

 

Uma ofensiva para silenciar professores está em curso. Patrocinada por fanáticos religiosos de todos os espectros do cristianismo, e desenvolvida por funcionários públicos que desonram o Estado Laico, essa censura asquerosa se espalha pelo país. E nos calam aos gritos.

 

E queimam livros. E humilham professores. E agridem alunos que não se adéquam a seus estereótipos religiosos.

 

E a violência aumenta, legitimada por uma interpretação canhestra das escrituras e promovida por um simulacro de parlamento que atende aos interesses mais escusos. Retirando nossos direitos e liberdades um a um, até que só nos reste vestir a burca e nunca mais sair de casa. Ou pior…

 

E agora? Apenas reagir ou começar a agir e tomar a ofensiva? Quem sabe?

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