VOCABULÁRIO E DICIONÁRIOS

31 maio

Só há uma coisa que me apavora mais do que um hispanoparlante arriscando um portunhol e é um lusoparlante enrolando um espanhês. Ao longo das décadas de convivência com as duas línguas, tenho percebido a generalização dos dois lados da fronteira de que “quem fala uma pode perfeitamente hablar la otra porque são línguas irmãs, parecidas en sus estructuras, e fáceis de aprender. E com que frequência tive meus ouvidos torturados por argentinos e uruguaios ensaiando um português espanholado e brasileiros falando um espanhol digno dos Idiomas Luxemburgo (cujo slogan “transformando poliglotas em trogloditas” foi um dos momentos mais brilhantes dos Sobrinhos do Athayde).

 

Em 1975 estávamos com visitas do Uruguai em casa, lá no Ipiranga, e uma vizinha muito expedita resolveu enrolar uma panela de brigadeiros e oferecer às nossas convidadas. Quem resiste a um brigadeiro caseiro bem-feitinho? Ninguém mesmo, só que lá pelas tantas, uma das moças comentou:

 

– Está exquisito!!!

 

E foi o que bastou para criar um incidente que nunca mais foi esclarecido. De nada bastou explicar que a palavra em espanhol tinha um significado completamente diferente. Como a vizinha em questão era uma pessoa bastante ignorante, não nos acreditou e ficou com essa mágoa durante anos, mesmo que tivesse continuado a amizade.

 

Porque “exquisito” em espanhol significa sublime, delicioso e é o maior elogio que se pode fazer a um cozinheiro. Ao passo que, para significar esquisito (na região do Rio da Prata) usa-se “raro” ao invés de “extraño”. Embora “raro” também designe o que tem caráter esporádico ou intermitente, “extraño” é usado muito mais para o que é desconhecido, do que para o que é esquisito.

 

Sentiram o drama?

 

Vou além, um jovem amigo meu que viajou recentemente por terras espanholas, ficou inconsolável ao descobrir que quando perguntava pelo “rango” ninguém entendia que se tratava de comida. É claro que vai daí a arrogância da juventude de pensar que uma gíria tão específica seria compreendida em um país com uma língua diferente. Mas ele parecia não querer entender que a mera existência de uma palavra “rango” em espanhol não lhe dava o direito de esperar ou exigir ser entendido.

 

Sim, porque a palavra “rango” em espanhol designa a estirpe nobre. Quando dizemos que alguém “és duquesa por rango própio” significa que essa pessoa é duquesa por ser filha de um duque e não por ter casado com um. Quem tem “rango” tem estirpe ou ascendência nobre, é um distintivo social.

 

Agora imagine o infeliz entrando em um restaurante de Madri ou Barcelona perguntando pelo rango…

 

Há muitos outros exemplos que poderiam ser usados, mas suponho que esses dois são um bom ponto de partida para o meu argumento. Para aprender uma língua não basta saber sua estrutura ou seu fraseado, como lidar com pronomes e conjunções ou como conjugar verbos. O vocabulário é tão importante quanto qualquer outra instância linguística.

 

Mas, por desgraça da modernidade, há um encolhimento significativo na capacidade dos estudantes e ainda mais dos adultos para aquisição de vocabulário. As pessoas se acomodam com algumas centenas de palavras que lhes bastam para movimentar-se em seu próprio círculo social e só incorporam as palavras que podem compartilhar com seus contatos próximos, como gírias televisivas e neologismos tecnológicos. Quando leem um livro ou um texto e esbarram em palavras desconhecidas, empacam e não tem o saudável hábito de empregar dicionários.

 

Qualquer pessoa que tenha um repertório de palavras mais elaborado passa por esnobe e é francamente hostilizada na maioria dos ambientes. Para manter um rol de amizades e conviver com parentes sem ser estigmatizados, muitos jovens optam por permanecer na zona de conforto do vocabulário comum.  E, em consequência, acabam tendo um péssimo domínio de seu próprio idioma, o que se reflete perfeitamente na hora de aprender ou adquirir o mínimo domínio em uma língua estrangeira.

 

Um vocabulário pobre limita a capacidade de expressão dos próprios pensamentos e sentimentos. Embrutece, poda, restringe, incapacita a compreensão de si, do mundo e dos outros. Por isso fica tão fácil induzir comportamentos massivos na sociedade contemporânea.

 

Se eu tivesse a capacidade de influenciar ao menos algumas dúzias de pessoas, aconselharia bons dicionários. Convencionais, de sinônimos, enciclopédicos, dicionários são uma das mais sensacionais criações do intelecto humano. E muito além da consulta, servem também para quem deseja enriquecer o vocabulário e entender melhor o mundo que nos rodeia.

 

Se devemos partir de algum ponto para reverter o descalabro em que se transformou a nossa sociedade, um bom dicionário é um excelente ponto de partida. Já que o diálogo necessário para refrear os níveis alarmantes de violência, que nos cercam, precisa ser inteligível para as partes e passível de ser decodificado de acordo com as experiências sociais e pessoais de cada um. Não basta entender a língua falada, é preciso expandir a mente domando as palavras que dão forma aos pensamentos e designam objetos, conceitos, sentimentos, sonhos e esperanças.

 

Para melhorar nossas comunicações e diminuir a violência social tanto física quanto verbal. Para conciliar os mundos que nos cercam. Para viver uma existência plena.

 

E no dia em que conseguirmos o domínio efetivo dos meandros e ritmos de nossa própria língua, aí estaremos prontos para não assassinar as línguas dos outros, no mínimo. Até lá, cuidado para não pedir “rango” em um restaurante de Montevideo, Madri ou Buenos Aires, ou para elogiar qualquer comida no Brasil usando o termo “exquisito”. Nem sempre as pessoas tem flexibilidade ou paciência nessas horas.

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