Arquivo | junho, 2017

OS GOLPISTAS E A VERGONHA SELETIVA

25 jun

Eu não me lembro de uma coleção de seres lamentáveis do calibre deste governo desde a “Era Sarney”. Nem mesmo os incompetentes espantalhos falsamente neoliberais do homem com “aquilo roxo” são páreo para os pigmeus morais que ora dizem que nos governam. Um conjunto de nulidades mal ajambrado, cuja única capacidade notória é a de promover negociatas, chicanas e barganhas.

 

E é na condição de “comerciantes” que eles fingem governar, enquanto rifam sem piedade o patrimônio nacional, material e imaterial. Dos recursos minerais à mão de obra, dos direitos sociais, humanos e trabalhistas à produção cultural, passando pelos aspectos imateriais como a imagem e a identidade de nosso país, tudo é pasto. E as transnacionais se refestelam nessa orgia em que o dinheiro público banca a dilapidação de uma nação que ainda ontem aspirava à soberania.

 

Esta semana, o pigmeu mor arrastou sua carcaça em uma viagem de resultados duvidosos, oferecendo suas pechinchas à Rússia e à Noruega. Nem vou entrar no mérito das gafes atrozes cometidas por esse dublê de mordomo que se apossou da presidência na base do golpe. Basta dizer que, nem ele e nem sua equipe tem a menor noção de como funciona a diplomacia brasileira ou de como se portar perante qualquer chefe de estado.

 

Caberia perguntar o que leva um sujeito que abriu incognitamente as Olimpíadas, devido ao pavor de ser vaiado em rede mundial, que colocou o exército na rua por não tolerar ser desafiado por manifestações populares, que distribuiu mancheias de benesses para evitar o assédio da imprensa; o que leva um indivíduo desses a submeter-se ao desdém e ao tratamento frio dos governantes de outros países e ao escárnio de seus jornalistas, para ainda fingir que isso é uma vitória e que tudo transcorre na maior das normalidades.

 

O que o golpista esperava desta viagem? Será que pensou ser festejado e aclamado como estadista? Logo ele, que nem sequer de geografia entende. Será que pretendia vender-se como salvador do Brasil? Logo ele, que foi à Europa rifar nossas vidas por uns poucos dinheiros.

 

Eu não sei o que ele esperava, mas posso perceber o que conseguiu entre uma gafe e outra. Mostrou a um público mais vasto que não passa mesmo de um ocupante ilegítimo da presidência, guindado ao poder por um golpe administrativo de qualidade duvidosa e apoiado por uma súcia de gente sem noção de isonomia nem de soberania. Tornou público e notório o que temos denunciado desde aquele dia fatídico de abril de 2016.

 

E então, como uma reação em cadeia, à medida que as gafes e os chás de cadeira se sucediam, as redes sociais passaram a ecoar desde as piadas mais vulgares até os protestos de indignação mais veementes. Houve alguns, e não foram poucos, que expressaram ter “vergonha de ser brasileiro”, a esses reservo meu mais profundo desprezo. Prefiro os fabricantes de memes aos indignados de ocasião.

 

Que o golpista nos cobre de vergonha ao expor o país ao ridículo com sua mera existência, isso eu não discuto. O que não posso concordar é que atrelemos a autoestima de nossa condição nacional a um sujeitinho desse naipe. A única vergonha que nos cabe, nesse caso, é a de não defenestrá-lo do poder da maneira que merece.

 

Imagino que se realmente a indignação e a “vergonha” fossem sinceras, deveriam estender-se à atuação pregressa de quem apoiou um golpe de estado contra um governo que estava longe de ser perfeito, mas que ao menos era legítimo. Aos que se revoltaram de modo histriônico contra uma corrupção suposta e deletéria, mas hoje se calam perante o desmando, a chantagem e a negociata escancarada. Aos que, por despeito e preconceitos, preferiram arruinar o país a dividi-lo irmãmente com o resto de nós meros cidadãos.

 

A vergonha, como se pode constatar, assim como a indignação, tem caráter seletivo e encobre a hipocrisia de quem se considera mais cidadão que os outros. Vivemos em uma sociedade híbrida, em que castas e classes sociais convivem na exclusão. E em que a consciência de si supera a necessidade de “nós”.

 

A casta branca, de sobrenomes e origens coloniais, que ocupa vastas parcelas do Judiciário, de modo quase vitalício e hereditário, também transforma os estados da federação em sucedâneos das capitanias, exercendo o poder local e elegendo seus membros menos inteligentes para o Legislativo, a fim de que representem seus interesses. Nesse sentido, quando falamos em classes, temos a percepção errônea de que a nossa sociedade é suficientemente moderna para conseguir superar esses impasses e gerar uma luta genuína de classes conscientes de si e para si. Ledo engano.

 

Para que as classes sociais adquirissem esse nível de autonomia, precisaríamos superar o pensamento de casta, que ainda relega os pobres (não brancos em sua maioria) à subserviência dos piores e mais degradantes empregos, sempre servindo aos abastados, quando não totalmente excluídos do espaço social real e metafórico.

 

Fala-se tanto em classe média e em empreendedorismo que dá náuseas, mas a classe média que eu conheci nas últimas décadas não tem perfil empreendedor, ao contrário: matam-se por cursar profissões que “façam dinheiro” em detrimento da sociedade, ou viram concurseiros profissionais na expectativa de conseguir um lugar no serviço público e nunca mais trabalhar de verdade. E pensam que a sociedade lhes deve isso porque sua autoimagem emula uma superioridade na pirâmide social que inexiste na vida real. Empreendedor mesmo é o pobre, que cria suas oportunidades a despeito de um sistema que o quer dócil, submisso e invisível.

 

Em meio a essa miscelânea social, que não decide se finalmente ingressa na modernidade classista ou nos mantém para sempre nas relações herdadas dos tempos coloniais, vicejam narrativas de sucesso e meritocracia engendradas na mais pura fantasia. Sujeitos que sempre viveram no privilégio, elegem-se para cargos públicos com discursos enfatizando seu “trabalho” embora jamais tenham trabalhado de verdade, passando a vida a “negociar” sua trajetória nas altas rodas com o dinheiro dos outros. E não faltam aí discursos e narrativas valorizando as origens desses medalhões bem sucedidos à custa do erário público.

 

Nesse caldo de cultura patriarcal, racista, misógino e nepotista não estranha que o golpista se veja como a encarnação do Brasil, de certa forma ele representa bem a casta parasita a que pertence. Só se esqueceram do resto de nós, pretendendo governar um país sem povo. A vergonha seletiva, como se vê, rende seus frutos: quem até hoje ainda se refere à Presidenta Legitimamente Eleita como “anta”, cala-se convenientemente sobre o golpista e atribui a vergonha à nação e não a quem de direito.

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COMO EU ME TORNEI CIDADàBRASILEIRA

17 jun

No dia 09 de fevereiro de 1974, aos meus nove anos de idade, embarquei em um avião rumo ao Brasil. Chovia a cântaros em Montevideo e poucos familiares foram nos despedir no aeroporto. Minha mãe não queria despedidas e a amargura que a assolava passou despercebida para mim, na novidade da viagem.

 

Meu pai viera a São Paulo de ônibus em setembro do ano anterior, para arrumar trabalho e preparar a nossa perspectiva no novo país. Era uma viagem de trinta e seis horas em ônibus que minha mãe preferiu não enfrentar com duas crianças. Sendo assim, sacrificou uma parte do pouco dinheiro que nos garantiria um recomeço e comprou as passagens de avião.

 

Sobre o que nos levou a emigrar só posso afirmar que foi um conjunto particular de circunstâncias. A crise do petróleo, que se abateu de modo maciço sobre o Uruguay, por ser um país pequeno, deixando oportunidades muito limitadas para operários especializados como meus pais. O recrudescimento da ditadura que (por causa da pequenez do país) era vivenciado de maneira cada vez ameaçadora por todos nós.

 

Os brasileiros comuns de então, espalhados por cidades populosas ou em lugares longe das notícias, podiam passar anos sem ser confrontados com a existência de uma ditadura. Esse era um luxo que os uruguaios desconhecíamos, a cada dia boletins das Forças Conjuntas eram transmitidos em cadeias de rádio e televisão, informando sobre sua luta contra a “sedição”. Listas de quem estava sendo preso eram divulgadas quase todos os dias (ou ao menos é assim que parece a partir das minhas memórias infantis) e, vez por outra, havia algum conhecido.

 

Quando o marido da nossa vizinha Cuca (Maria de Los Angeles) foi preso e seu nome apareceu no comunicado noturno, minha mãe saiu à rua para chorar com as outras vizinhas. Era um rapaz simpático, estudante de arquitetura e com um filho recém-nascido. Havia meu primo Adolfo, de quem já falei neste blog, e o clima era tão pesado que parecia (aos meus olhos infantis) que era sempre noite ou chuva.

 

Então, quando desembarcamos em São Paulo, era um nunca acabar de surpresas. Tudo era tão imenso, rápido e cheio de gente. Os cheiros da cidade eram agressivos e a miséria se espalhava pelos viadutos e praças. Minha mãe costumava sentir-se culpada vendo as crianças nas ruas, enquanto a cidade nos oferecia oportunidades limitadíssimas, mas ainda assim concretas.

 

E logo da chegada, já ingressamos com a solicitação da Modelo 19, que era uma carteira de identidade que nos permitiria a permanência definitiva em território brasileiro. E caímos nas mãos dos despachantes e da burocracia. Um nunca acabar de papéis, certidões, exames, vacinas, que se prolongou por oito anos.

 

Perdi a conta de quantas vezes renovei a vacina internacional. Sempre faltava algum papel e eram sempre os mesmos papéis que remetíamos a Brasília, sem resultado. Mesmo quando a fábrica em que meu pai trabalhava se mudou para Jundiaí e nós com ela, precisávamos continuar indo a São Paulo para manter a papelada rodando.

 

Do prédio do DOPS, no Parque Dom Pedro, tenho lembranças escassas. Só fui descobrir muitos anos depois que ali se torturava presos políticos, só me lembro de que era mal cuidado, escuro, com um clima sufocante e barulhento. Os funcionários eram esmolambados, com barbas por fazer e fedendo a cigarro, e não consigo lembrar se jamais vi alguma mulher por lá nos anos 70.

 

Em um determinado momento foi requerido, junto ao exame médico, testes de sangue para sífilis, para minha mãe e eu. Na época eu acabara de completar quinze anos e ainda brincava de stop com minhas colegas da escola. Não consigo esquecer o constrangimento de minha mãe (uma pessoa tão séria em todos os sentidos) com aquela suspeição de doença venérea e ainda por cima me envolvendo. Ela perguntou ao despachante o porquê de eu ter que fazer o teste sendo tão jovem e o cara (na maior grosseria) afirmou que no Brasil as meninas de quinze anos já eram sexualmente ativas.

 

E eu creio (não me lembro ao certo) que esse foi um divisor de águas. Quando um novo ofício de Brasília chegou solicitando pela enésima vez um mesmo documento de alfândega, minha mãe juntou uns dinheiros, comprou uma passagem de ônibus e foi para Brasília ver o que estava acontecendo. Desceu do ônibus lá, foi até o Ministério da Justiça, pediu para falar com algum funcionário e mostrou um saco de cartas e protocolos, todos se referindo ao mesmo documento durante mais de três anos, e conseguiu com esse gesto “desentocar” nosso requerimento.

 

Somente muitos anos depois consegui avaliar o tanto de desespero e de coragem que foi preciso para minha mãe fazer aquela viagem sozinha, sem conhecer ninguém e tendo que voltar de ônibus no mesmo dia de Brasília a Jundiaí. Mas o processo andou e por volta de 1982 conseguimos nossos RG’s modelo 19, que eram azuis e nos permitiam residir no Brasil pelo resto da vida. Embora houvesse limitações aos nossos direitos, respiramos aliviados por um ano ou dois.

 

E então veio Ibrahim Abi Akel e sua nova Lei de Estrangeiros, com recadastramentos periódicos e uma série de outros constrangimentos que visavam barrar a imigração chinesa, mas acabavam atingindo a todos nós.

 

Em algum momento por volta de 1985 eu me enchi de ser estrangeira e perguntei aos meus pais se eles topariam pedir a cidadania brasileira, uma vez que (após uma década) não havia mais para onde voltar. Nada, nada, ao menos nos livraria dos recadastramentos e da ameaça de perseguição que sentíamos dos comunicados da Polícia Federal. Anos depois, já mais consciente do modo como as coisas funcionam no Brasil, acabamos aprendendo a não levar tão a sério as ameaças dos noticiários, mas naquele momento ainda acreditávamos que a deportação era um fato possível nos estertores da ditadura.

 

E foi a minha vez, era uma época em que não existia internet, nem celulares e os postos da polícia federal no interior serviam apenas para questões burocráticas menores, por isso peguei o Cometa e desci na rodoviária nova de São Paulo (tão imensa!!!) e fui ao posto da polícia feminina e perguntei como chegar ao prédio novo da polícia federal. Era assim que fazíamos quando queríamos descobrir um endereço em São Paulo, ou perguntávamos à polícia feminina ou (se estivéssemos na rua) aos “Romeu e Julieta” que eram duplas de policiais (um homem e uma mulher) que faziam a ronda a pé no Centro ajudando as pessoas a se localizar. No meu caso, a moça puxou um brochurão com endereços e ônibus e me indicou como ir de metrô à República e chegar ao prédio novo.

 

E eu fui. Na recepção perguntei como fazia para me naturalizar brasileira e fui encaminhada a um cubículo andares acima, onde dois policiais me deram uma lista de documentos e informações que teria que apresentar. Ainda brincaram muito se eu sabia o que estava fazendo.

Aliás, até hoje, tantos anos depois, ainda ouço piadas sobre a “burrice” de virar cidadã brasileira e confesso que me constrange ver tanta gente que faz pouco do próprio país. Não sou uma pessoa patriota, quando se é desenraizado na infância fica difícil pertencer a qualquer lugar e eu aprendi a respeitar igualmente qualquer lugar que me permita existir. Mas nunca me arrependi de ter tomado essa iniciativa, aqui construí minha vida, encontrei meu ofício de historiadora, um amor para toda a vida e minha própria família. Saí no lucro, como dizem.

 

Para encerrar, após a entrada dos papéis, levou mais um ano para viabilizar nossa nova cidadania (sempre a burocracia!!!). Em 07 de fevereiro de 1987 (apenas dois dias antes de completar treze anos do meu desembarque) recebi um telegrama padrão do Ministério da Justiça, que dizia o seguinte:

“TENHO O PRAZER DE INFORMAR QUE ASSINEI ATO DE DECLARAÇAO DE IGUALDADE DE DIREITOS PT FAÇO VOTOS QUE CONTINUE A AJUDAR, COM SEU TRABALHO, O NOSSO PAIS PT PAULO BROSSARD”

 

Em 26 de maio de 1987 foi emitido meu primeiro RG como cidadã brasileira, que eu exibi orgulhosamente à assistente social do SAE da UNICAMP ao pedir uma bolsa de trabalho para estudantes carentes em meu primeiro ano na Universidade. Aquele fevereiro de 1987 que me trouxe a notícia da cidadania, também foi o mês em que após a segunda chamada do vestibular, pude fazer minha matrícula e correr atrás dos meus sonhos. Hoje já se vão trinta anos e uma vida e ainda me lembro da expectativa e da esperança daqueles tempos.

 

Para mim, a cidadania é algo conquistado e não negociável. Quando me pedem satisfações devido à minha militância ou querem saber quais as minhas intenções ao socializar sistematicamente o conhecimento que adquiri na Universidade, tudo o que posso dizer é que ainda estou ajudando. E vou ajudar enquanto puder.

JATINHOS

15 jun

Não são apenas os políticos brasileiros que adoram viajar em jatinhos de terceiros. Autoridades dos três poderes, de primeiro e segundo escalão frequentemente são acusadas de prevaricar com a iniciativa privada em viagens suspeitas. E sempre dá em nada.

 

Quando não estão embarcando nos jatinhos de grandes empresários, costumam atormentar a Força Aérea para ter caronas gratuitas em seus aviões. Aparentemente são pessoas “boas demais” para pagar uma passagem e viajar como o mais comum dos mortais. E também viajam muito.

 

Eu estou em vias de completar cinquenta e três anos e posso afirmar que viajei de avião sete vezes em toda a minha vida. A maior parte no período dos governos petistas, quando as passagens passaram a ser mais acessíveis, embora nem tanto assim. Mas muitas autoridades brasileiras viajam de avião do mesmo jeito que eu ligo a máquina de lavar, a cada três dias.

 

A promiscuidade dessas “caronas” nem sequer fica no âmbito da privacidade. É comum ver fotos e outras evidências desses contatos pouco republicanos sendo divulgadas em redes sociais e na imprensa “amiga”. Como uma grande e simpática família feliz.

 

Neste momento aziago (para dizer o mínimo) em que o golpe de Estado atinge uma voracidade pantagruélica, engolindo instituições, direitos, nosso futuro e os sonhos e esperanças das próximas gerações, vemos a devassa realizada entre autoridades que se digladiam. E como não poderiam faltar, denúncias de voos em jatinhos particulares atingindo uma boa parte dos envolvidos. Políticos, gestores, juízes, ministros e golpistas em geral em algum momento privaram da intimidade dos hoje delatores (e de tantos outros), em voos locais ou internacionais.

 

Autoridades que recebem salários cheios de “penduricalhos” varando anos e anos acima do teto constitucional, que pressionam para receber aumentos muito acima da média do que o resto de nós cidadãos comuns recebe, e que ainda por cima percebem seus privilégios como direitos, enquanto nos esfolam vivos para continuar se regalando nos jatinhos dos poderosos do mercado econômico.

 

Se uma devassa tivesse qualquer possibilidade de ser empreendida, eu poderia propor que se começasse afastando os usuários de jatinhos. Que cada vez que um infeliz se candidatasse a qualquer posto nos três poderes (eletivo ou concursado), fosse feita uma análise e indeferidos sumariamente os usuários de jatinhos. Que ao votar, levássemos em conta esse tipo de promiscuidade, antes de compactuar com o nepotismo e o patrimonialismo que historicamente caracterizam a política brasileira.

 

E que as autoridades brasileiras passassem a usar aviões comuns, como o resto dos cidadãos, pagando do próprio bolso (sem auxílio público algum) suas passagens e restringindo sua circulação geográfica ao estritamente necessário. A partir daí, quem sabe, outras “mordomias” poderiam ser repensadas e talvez estivéssemos mais perto de ter “servidores” públicos ao invés de parasitas do Estado. Mas é claro que, no mundo real, o mais provável é que os privilégios cresçam enquanto o golpista espalha nosso dinheiro para angariar apoios.

 

Ironias à parte, fica aqui a sugestão para que algum blogueiro mais antenado comece o levantamento dos “usuários de jatinho” antes das próximas eleições. Garanto que as informações surgidas seriam de utilidade pública indiscutível. Sempre é um começo…

FEMINISMO E LEGADOS

8 jun

No segundo semestre de 1991 fiz minha primeira disciplina no Mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Era precisamente a disciplina da minha orientadora, a saudosa Professora Eni de Mesquita Samara, referência obrigatória nos Estudos de Gênero. Profissional eclética, Eni reunia em torno de si uma variada fauna de orientandos que ia desde os estudos sobre Família Escrava (que era o meu caso) até Relações de Gênero e História das Mulheres.

 

Guardo ótimas lembranças das acaloradas discussões sobre bibliografia, documentos e conceitos, sempre levadas com bom humor e seriedade acadêmica. Eu já era feminista de um jeito meio acanhado e difuso porque não conseguia me situar no meio “chique” da USP, com minhas origens operárias. As plataformas defendidas por várias das minhas colegas eram tão diferentes da realidade de três gerações da minha família, que frequentemente me sentia deslocada nesse meio. Mas aprendi com minha orientadora a diferenciar quem era feminista de fato de quem o era apenas de discurso.

 

A Professora Eni era cirúrgica em seus comentários e não tinha meias palavras. Mais de uma vez a vi defendendo a remuneração correta para todo e qualquer tipo de trabalho feminino e os direitos inclusive das empregadas domésticas, o que naqueles tempos era considerado uma excentricidade e hoje (em seu meio social) uma traição. Além de seu combate ao “parasitismo” praticado por dondocas e patricinhas, que pareciam pensar que os homens tinham a obrigação de sustentá-las.

 

Se alguém dissesse à Professora Eni que, em pleno 2017, uma acadêmica respeitada seria levada aos tribunais por uma ex-orientanda e humilhada publicamente pelos esbirros da ignorância e do fundamentalismo, quem sabe como teria reagido. Uma coisa é certa, ela jamais teria ficado parada vendo essa mixórdia de pensamento conservador, intolerância e cerceamento de direitos. Provavelmente estaria na linha de frente no combate ao obscurantismo e à perseguição que ora ocorre.

 

Tristes dias vivemos, mas não apenas tristes, frustrantes, infelizes e odientos também. Quando a ignorância, em seu sentido mais lato, espalha-se como um incêndio devastador, apoiada pela intolerância e pelo fundamentalismo. São dias em que uma postura crítica pode custar uma carreira e quem arbitra isso é quem menos tem condição ou legitimidade, uma vez que a inviolabilidade da cátedra é uma tradição universitária medieval.

 

Ainda me lembro de uma discussão da historiografia hispano-americana sobre misoginia, que classificava o “marianismo” (culto à virgem Maria) como uma forma de discurso regulador na dominação patriarcal. Eram outros tempos, a graduação não era relâmpago nas instituições particulares e nos programas de pós havia uma compreensão tácita de que estávamos analisando discursos e não crenças. Tive mais de uma colega católica que sabia perceber perfeitamente a diferença entre analisar criticamente os discursos da ideologia religiosa, produzidos nas instâncias do poder clerical a serviço do domínio social, e questionar a própria fé.

 

A sociedade ficou mais rasa. Com o crescimento do fundamentalismo religioso é muito difícil fazer alguém muito jovem entender as nuances conceituais de uma discussão qualquer, quanto mais uma densa discussão acadêmica. A interpretação e aceitação literal dos textos impede que uma parte razoável dos jovens estudantes desenvolva sua capacidade intelectual plena e gera situações chocantes e constrangedoras.

 

Eu aprendi com Eni de Mesquita Samara que o Feminismo vai muito além das feministas. Que um debate acadêmico se dá a partir da compreensão em profundidade dos textos produzidos pela historiografia e para isso é necessário um domínio cada vez maior da análise e desconstrução dos discursos e das narrativas. Também aprendi que personalizar as discussões e usar exceções como argumento é um recurso da pobreza intelectual que não consegue se aprofundar o mínimo necessário para entender um texto teórico.

 

Os estudos envolvendo Gênero, Família e História das Mulheres têm mais de três décadas de vivência no mundo acadêmico brasileiro e no âmbito internacional datam da primeira metade do século XX com Simone de Beauvoir. E não foram tempos fáceis, mesmo entre uma parte considerável dos marxistas levou tempo demais para que essas linhas de estudo fossem toleradas, precisou surgir o trabalho da Professora Heleyeth Saffioti para reconciliar as duas tendências. E mesmo assim muitos acadêmicos ortodoxos ainda torcem o nariz e relativizam a importância desses estudos.

 

E para quem pensa que são textos de um panfletarismo apaixonado, repletos de invectivas e anátemas contra o machismo, a religião e os “hômi”, deixem-me dizer que estão redondamente enganados. São textos densos, estudos de Demografia Histórica, Geografia Humana, Sociologia e História, repletos de tabelas e planilhas analisando os números do gênero, da violência, da natalidade, da mortalidade e do impacto das ideologias de dominação na trajetória das mulheres em diferentes locais e épocas.

 

São textos que mergulham no universo documental através de várias abordagens teóricas e metodológicas e dialogam com a produção internacional em termos de igualdade, embora isso nada signifique para a indigência intelectual de algum vereador campineiro arauto da “nova” onda conservadora. Tenho o maior respeito pela produção intelectual dos GT’s de Gênero ligados à ANPUH (Associação Nacional de Professores Universitários de História), que em mais de vinte anos de existência conseguiram mapear as questões da opressão e da violência e desmascarar os discursos produzidos na política, na religião e na medicina para excluir as mulheres de sua cidadania plena. Não estamos falando aqui de nenhum grupo de estudantes que desnuda os seios em praça pública e sim das carreiras acadêmicas de algumas das intelectuais mais sólidas de nosso país.

 

Ativismo feminista é uma necessidade em uma sociedade que elege mentecaptos apoiados pelo poder econômico para as casas legislativas e permite que algumas instâncias do Judiciário “concursem” uma casta de tecnocratas movidos a decoreba e sem qualquer capacidade cultural relevante. A ofensiva do neo-pentecostalismo, em sua voracidade por cargos públicos, ameaça superlativamente os direitos reprodutivos femininos e nossa própria integridade física, uma vez que sua visão moral binária limitada está sempre pensando em “castigos” para tudo o que não se enquadre em sua tosca visão de mundo. Ser feminista é resistir a essas forças esmagadoras para que nossas filhas e netas tenham perspectivas na vida e para que a memória de nossas lutas não se perca.

 

Mas somente uma leitura rasa, tosca e ignorante poderia confundir o debate acadêmico com “doutrinação” ou “assédio”. Do vereador campineiro que conseguiu aprovar uma moção de repúdio a Simone de Beauvoir (em nome da família tradicional), passando pelos delirantes defensores de que ensinar sobre a igualdade de gênero nas escolas vai obrigar nossos filhos a “virar gays”, até a pobreza intelectual e a indigência mental de alguns alunos de pós que não sabem ler um texto acadêmico ou analisar um discurso, nosso país mergulha nas águas profundas da intolerância e do obscurantismo. E corremos o risco de regredir um século em nossos direitos devido a essa maré neo-conservadora (que de novo só tem a tecnologia).

 

A memória e o legado de pesquisadoras sérias e exímias professoras como Eni de Mesquita Samara e Heleyeth Saffioti nos cobram uma postura. As nossas companheiras na linha de frente do debate acadêmico não podem ficar sozinhas. Precisamos apoiar e reverberar nossa indignação com essa tentativa infame e canalha de desqualificar os Estudos de Gênero e a Universidade propriamente dita.

 

Mas, acima de tudo, precisamos desmascarar os manipuladores que passam a vida divulgando estereótipos negativos sobre as feministas. As minhas professoras na USP e na UNICAMP eram mulheres que não abriam mão de ter amor em suas vidas, que tinham filhos e lutavam por eles. Que, mesmo quando sozinhas, não faziam juízos de valor ou caráter sobre a vida pessoal de suas alunas.

 

Minha filha nasceu enquanto eu cursava o doutorado. E, nos anos que se seguiram, sempre que precisei ir à USP para participar de algum congresso, banca ou qualquer outra atividade acadêmica, eram as minhas professoras feministas que mais ficavam felizes de ver as fotos que esta mãe coruja não parava de tirar. Eni de Mesquita Samara e Maria Helena Capelato até me passaram um “sabão” bem humorado, entre gargalhadas, na única ocasião em que apareci sem um álbum recente de fotos, porque o deixara com a minha mãe para mostrar às vizinhas.

 

Não somos espantalhos mal-amados nem passamos a vida movidas pelo ódio e a inveja às genitálias masculinas. Somos mulheres trabalhadoras que queremos equidade total de direitos para todos sem exceção, para nós, para a comunidade LGBT, para indígenas e quilombolas, para pobres e remediados. Queremos que o nosso quinhão na cidadania não seja uma concessão paternalista e sim um direito inalienável.

 

Queremos que nossa cidadania seja plena e que não esteja sujeita ao arbítrio dos fanáticos religiosos e nem dos interesses econômicos escusos que dominam as casas legisladoras.

Nós que estamos na casa dos cinquenta anos, somos a terceira geração de lutadoras e precisamos manter o legado para as que virão. Por isso eu apoio Marlene de Fáveri e defendo seu direito à inviolabilidade da cátedra. Porque um dia Eni de Mesquita Samara me abriu as portas da USP e apoiou meus estudos muito antes das cotas sociais.

CACHORROS VELHOS

4 jun

Quando eu estava crescendo, na segunda metade dos anos 60 e mesmo durante a década seguinte, não se viam cachorros velhos. E nem mesmo tantas raças quanto vemos hoje: a maior parte dos nossos conhecidos eram vira-latas ou pastores. “Perros falderos”, aquelas raças pequenas que vivem enroscando-se nas pernas das mulheres eram mais raros, mas ainda presenciei a coqueluche dos pequineses no fim dos anos 70.

 

A expectativa de vida dos cães, por aqueles tempos, não passava de dez anos. Havia muito menos vacinas e os serviços veterinários eram raros e caros nas cidades. A ênfase estava na pecuária e os cães domésticos ainda não se haviam tornado um objeto de consumo.

 

E eles se tornaram mesmo um objeto de consumo. Abundam raças que mais parecem pelúcias e bonecos e recebem cuidados que jamais sonharíamos trinta anos atrás. E há todo um comércio de comidas, utensílios e acessórios, como se ao invés de um amigo canino, estivéssemos dando vazão a mais uma desculpa para o consumismo desbragado.

 

De uns anos para cá, tenho visto cada vez mais focinhos brancos e patinhas vacilantes. E pessoas que cuidam e dedicam boa parte de seu cotidiano a manter confortáveis aqueles que foram seus amigos por anos a fio. Eu mesma passei algo em torno de três anos preparando comida especial, medicando e pajeando nosso saudoso Biscoito, que nos acompanhou por incomparáveis dezesseis anos.

 

Talvez seja por isso que quando vejo um desses velhinhos aquecendo seus ossinhos ao sol ou passeando cambaleante com seu dono, às vezes tão idoso quanto ele, fico emocionada. Os espanhóis costumam dizer que “el perro viejo sabe más por viejo que por perro”, ou seja que os cachorros velhos tem a experiência muito mais que o instinto. E quanta vida, paciência e resignação existem no olhar de um cachorro velho, quanto carinho e quanta carência!

 

Biscoito, em seus últimos tempos, não tinha a mesma disposição de sair correndo e pulando e fazendo festas, então se deixava ficar quietinho (deitado ou sentado) e apenas balançava o rabo ritmadamente quando nos via. E olhava como que pedindo alguns momentos da nossa atenção e uns cafunés, de quebra. E, claro, sempre soltava seu cheirinho de felicidade quando podia aninhar-se para dormir no sossego, ouvindo nossas vozes.

 

Cachorros velhos são como soldados sobreviventes de uma guerra que não acabou, sua presença é sempre um aviso do que nos espera. E é evidente que do mesmo modo que existem pessoas que abandonam filhotes, também existem pessoas que jogam na rua os velhinhos doentes, cegos ou “imprestáveis” para suas expectativas. Afinal, se existe quem abandona um cachorro que cresceu demais para um apartamento, por que não existiria quem abandona um idoso que não pode mais acompanhar o ritmo de sua vida?

 

É por essas e outras que eu não me surpreenderia se algum “ousado empreendedor” resolvesse abrir uma rede de lares para caninos idosos. Já existem “creches” caninas, daí para a abertura de asilos é um passo. E é provável que isso seja visto como uma solução perfeita por muita gente.

 

E não teremos aprendido nada, nem sobre a vida e nem sobre lealdade ou decência.

 

Estaremos aplicando aos nossos amigos caninos, a mesma lógica que o sistema nos obriga a aplicar aos nossos parentes idosos. É sempre a praticidade capitalista se sobrepondo às necessidades humanas ou caninas. Daycares, asilos ou clínicas existem porque a sociedade não nos deixa alternativa entre cuidar de quem amamos e trabalhar para sobreviver.

 

Nem todos os idosos internados hoje estão abandonados. Há famílias que se sacrificam para pagar os custos extorsivos de tratamento nas clínicas e nunca desistem e nem os abandonam. Lembrem-se disso quando as reformas passarem e a nenhum de nós ou nossos filhos for dada a alternativa de envelhecer com dignidade, rodeados por quem amamos, rumo a uma boa morte.

 

Viver para trabalhar e consumir, e morrer sem estorvar não são um destino. Nenhum de nós nasceu para ser carne de especulação. Não deveríamos extrapolar nossa lógica social doente para nossos amigos caninos.