CACHORROS VELHOS

4 jun

Quando eu estava crescendo, na segunda metade dos anos 60 e mesmo durante a década seguinte, não se viam cachorros velhos. E nem mesmo tantas raças quanto vemos hoje: a maior parte dos nossos conhecidos eram vira-latas ou pastores. “Perros falderos”, aquelas raças pequenas que vivem enroscando-se nas pernas das mulheres eram mais raros, mas ainda presenciei a coqueluche dos pequineses no fim dos anos 70.

 

A expectativa de vida dos cães, por aqueles tempos, não passava de dez anos. Havia muito menos vacinas e os serviços veterinários eram raros e caros nas cidades. A ênfase estava na pecuária e os cães domésticos ainda não se haviam tornado um objeto de consumo.

 

E eles se tornaram mesmo um objeto de consumo. Abundam raças que mais parecem pelúcias e bonecos e recebem cuidados que jamais sonharíamos trinta anos atrás. E há todo um comércio de comidas, utensílios e acessórios, como se ao invés de um amigo canino, estivéssemos dando vazão a mais uma desculpa para o consumismo desbragado.

 

De uns anos para cá, tenho visto cada vez mais focinhos brancos e patinhas vacilantes. E pessoas que cuidam e dedicam boa parte de seu cotidiano a manter confortáveis aqueles que foram seus amigos por anos a fio. Eu mesma passei algo em torno de três anos preparando comida especial, medicando e pajeando nosso saudoso Biscoito, que nos acompanhou por incomparáveis dezesseis anos.

 

Talvez seja por isso que quando vejo um desses velhinhos aquecendo seus ossinhos ao sol ou passeando cambaleante com seu dono, às vezes tão idoso quanto ele, fico emocionada. Os espanhóis costumam dizer que “el perro viejo sabe más por viejo que por perro”, ou seja que os cachorros velhos tem a experiência muito mais que o instinto. E quanta vida, paciência e resignação existem no olhar de um cachorro velho, quanto carinho e quanta carência!

 

Biscoito, em seus últimos tempos, não tinha a mesma disposição de sair correndo e pulando e fazendo festas, então se deixava ficar quietinho (deitado ou sentado) e apenas balançava o rabo ritmadamente quando nos via. E olhava como que pedindo alguns momentos da nossa atenção e uns cafunés, de quebra. E, claro, sempre soltava seu cheirinho de felicidade quando podia aninhar-se para dormir no sossego, ouvindo nossas vozes.

 

Cachorros velhos são como soldados sobreviventes de uma guerra que não acabou, sua presença é sempre um aviso do que nos espera. E é evidente que do mesmo modo que existem pessoas que abandonam filhotes, também existem pessoas que jogam na rua os velhinhos doentes, cegos ou “imprestáveis” para suas expectativas. Afinal, se existe quem abandona um cachorro que cresceu demais para um apartamento, por que não existiria quem abandona um idoso que não pode mais acompanhar o ritmo de sua vida?

 

É por essas e outras que eu não me surpreenderia se algum “ousado empreendedor” resolvesse abrir uma rede de lares para caninos idosos. Já existem “creches” caninas, daí para a abertura de asilos é um passo. E é provável que isso seja visto como uma solução perfeita por muita gente.

 

E não teremos aprendido nada, nem sobre a vida e nem sobre lealdade ou decência.

 

Estaremos aplicando aos nossos amigos caninos, a mesma lógica que o sistema nos obriga a aplicar aos nossos parentes idosos. É sempre a praticidade capitalista se sobrepondo às necessidades humanas ou caninas. Daycares, asilos ou clínicas existem porque a sociedade não nos deixa alternativa entre cuidar de quem amamos e trabalhar para sobreviver.

 

Nem todos os idosos internados hoje estão abandonados. Há famílias que se sacrificam para pagar os custos extorsivos de tratamento nas clínicas e nunca desistem e nem os abandonam. Lembrem-se disso quando as reformas passarem e a nenhum de nós ou nossos filhos for dada a alternativa de envelhecer com dignidade, rodeados por quem amamos, rumo a uma boa morte.

 

Viver para trabalhar e consumir, e morrer sem estorvar não são um destino. Nenhum de nós nasceu para ser carne de especulação. Não deveríamos extrapolar nossa lógica social doente para nossos amigos caninos.

 

 

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