Arquivo | julho, 2017

O ANACRONISMO DE CONSIDERAR JESUS COMO SENDO CRISTÃO

28 jul

Ao leitor cabe um aviso, este é um modesto e ligeiro ensaio de análise da narrativa documental das escrituras judaico-cristãs. Não é um texto acadêmico porque está redigido de maneira a privilegiar o raciocínio analítico em detrimento das normas técnicas vigentes. E também não é um daqueles textos leves e líricos que costumo produzir para abordar temas complexos de maneira simples e agradável.

 

A premissa deste texto é retomar uma afirmação que foi muito criticada e massacrada quando produzi os polêmicos vídeos sobre as circularidades culturais entre Jesus e outras narrativas míticas e sobre a composição dos evangelhos cristãos (canônicos e apócrifos). Afirmava eu, nessas ocasiões, que Jesus não foi cristão e sim um reformista radical do Judaísmo, que foi na fé judaica que Jesus formulou seus postulados e confirmou seu batismo, tendo sido o Cristianismo uma construção narrativa posterior à sua morte. Isso, é claro, se for aceita a premissa de que Jesus teve uma existência humana concreta e que as narrativas sobre seus dias na terra são verazes e não uma coletânea de histórias com influências culturais e regionais complexas.

 

Devo começar, portanto, analisando o conceito de anacronismo. O anacronismo é considerado um dos maiores problemas para qualquer análise do passado e consiste em projetar percepções do presente em épocas em que essas mesmas percepções não existiam. É preciso dominar minimamente a trajetória histórica das ideias, dos conceitos, dos modelos de sociedades, dos instrumentos e até das matérias primas, para evitar situá-los erradamente no tempo e comprometer a análise histórica.

 

Cabe lembrar que, para o público leigo, o acesso a complexos textos acadêmicos é impossibilitado pelas circunstâncias da vida e da educação. A sociedade em geral aufere seus conhecimentos sobre História a partir do material didático, dos divulgadores (na maior parte jornalistas), dos documentaristas e da indústria cultural (cinema, quadrinhos, literatura ligeira). Nesses veículos de divulgação, a simplificação efetuada para tornar os processos históricos inteligíveis aos leigos é responsável pela proliferação dos anacronismos mais variados.

 

E nem estou falando aqui de coisas óbvias como filmes que mostram centuriões romanos usando relógios e roupas de tecidos sintéticos na França medieval ou catapultas medievais em batalhas da Grécia Clássica, esses são anacronismos tão idiotas que chegam a ser risíveis. Os mais perigosos são exatamente aqueles que fixam no público a impressão de que as pessoas do passado pensavam como nós e se nos pareciam fisicamente. O anacronismo dos egípcios e judeus brancos de olhos claros em tempos pré-cristãos ou do amor romântico (nos termos do século XIX) em períodos anteriores são falsidades que criam a ilusão de que o tempo não passa de uma sucessão de estilos de roupa e tecnologias e que as pessoas permanecem sempre as mesmas.

 

O trato ligeiro e superficial dado à temporalidade e à historicidade pela indústria cultural induz a acreditar que as ideias, os modos de sentir, de pensar, de se expressar podem ser intercambiados entre épocas e lugares diferentes, sem que isso seja um erro ou um problema. Mal sabem essas pessoas que, se houvesse realmente a possibilidade da viagem no tempo e elas conseguissem viajar para o Brasil do século XVI ou XVII, não conseguiriam entender a língua falada e nem a escrita, tal transformação que estas sofreram com o tempo. E, do mesmo modo, um diálogo com aqueles primeiros colonizadores esbarraria na ausência de referências culturais em comum e nas diferenças civilizatórias de etiqueta e praxes sociais.

 

E isso cria um problema imenso para nós que estudamos a História a partir de premissas científicas e acadêmicas, porque dificulta sobremaneira explicar ao leigo que o padrão de aparência e vivência ocidental e eurocêntrica não é aplicável como premissa de análise em qualquer outra época ou lugar. Que quando os pintores do Quattrocento retratavam Jesus com a aparência europeizada, estavam expressando um aspecto da criação artística que não correspondia à realidade histórica. Nesse sentido, as criações dos movimentos artísticos e da indústria cultural (em qualquer de seus veículos) não podem ser entendidas como afirmações de acontecimentos históricos ou míticos, mas sim como a interpretação pessoal de cada artista e da cultura de sua época.

 

É essencial entender, mesmo em se tratando de leitores leigos, que a passagem do tempo e as ações humanas nessa temporalidade são os objetos de estudo da História. Nesse sentido, para que a ação humana tenha historicidade, ela deve ser analisada em seu tempo, em sua época, dentro dos parâmetros materiais e intelectuais desse período específico. Não se poderia esperar que uma narrativa mítica da Antiguidade Clássica dialogasse com a Mecânica Quântica do século XX.

 

E não se pode atribuir aos seres humanos de vinte séculos atrás, ideias que não existiam quando eles andaram sobre o planeta. Foi seguindo essa linha de raciocínio, absolutamente óbvia para qualquer historiador solidamente formado, que argumentei e ainda argumento que é impossível referir-se a Jesus como sendo cristão, uma vez que o Cristianismo como corpus documental e ideário religioso ainda não existia enquanto ele esteve vivo. E isso é fácil de demonstrar, não apenas devido à idade dos evangelhos, mas também ao seu conteúdo.

 

É interessante começar pelo termo cristo que passou a adjetivar o nome de Jesus postumamente. Trata-se de um termo que não se origina nem do hebraico e nem do aramaico, as duas línguas que geográfica e temporalmente teriam feito parte do cotidiano do nazareno. Cristo vem do grego e significa ungido, tendo passado ao latim com o sentido de redentor ou messias.

 

E, embora existam trechos de manuscritos em aramaico que remetem aos evangelhos canônicos, o que mais se encontra na língua original são as histórias apócrifas, não aceitas nem pela igreja romana e nem pelas denominações protestantes. Os manuscritos mais antigos dos evangelhos canônicos são referidos como redigidos em grego e posteriormente, quando da consolidação da igreja romana, traduzidos para o latim. Embora muito semelhantes na estrutura, há diferenças no modo como esses quatro evangelhos narram Jesus e essas diferenças podem ser atribuídas ao fato de serem provenientes de pessoas de diferentes estratos sociais, escrevendo em momentos diferentes durante um período que vai do ano 70 ao ano 105 da era comum.

 

E como é que os evangelistas narram Jesus? Podemos, a partir dos formatos e das estruturas narrativas, entender como ele se enquadrava em sua sociedade? Podemos identificar nos evangelistas alguma ideia de como Jesus se via em relação ao seu ideário religioso?

 

Há uma lógica na narrativa, que insere Jesus no mundo judaico com absoluta convicção por parte dos evangelistas. Desde o momento em que se estabelece sua genealogia como pertencendo à linhagem da Casa de David, passando pela referência constante à realização das profecias bíblicas na pessoa de Jesus, até o momento em que se reivindica sua condição de messias. Todos os momentos marcantes na estrutura do texto procuram legitimar o nazareno como o filho do deus hebraico e o mensageiro do reino.

 

E está lá, para quem se der ao trabalho de ler, em Mateus, 5, 17-20:

 

“Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento. Eu garanto a vocês: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem sequer uma letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu. Com efeito, eu lhes garanto: se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu.”

 

Essa passagem pode ser interpretada como uma declaração mais do que radical de fé judaica. Jesus arroga a si o papel de restaurador da aliança com deus, através do cumprimento incondicional das leis mosaicas. E não para por aí, em um trecho posterior ainda exorta seus seguidores a considerar a expiação não apenas dos pecados materiais contra os mandamentos, mas também dos desejos pecaminosos.

 

Se, por um lado, ele promete o reino para os humildes e os sofredores, por outro ele ameaça com violência os hipócritas e praticantes de rituais vazios. Em sua pregação, Jesus renega o comércio no templo (mesmo que isso fizesse parte da sociabilidade urbana) e insiste para que os hebreus se purifiquem, alegando que a chegada do reino está próxima e que ele (junto a seu pai) procederá ao julgamento dos ímpios e dos falsos. Oferece um modelo de vida em que a lei e os profetas devem ser seguidos à risca e até as últimas consequências, para que o reino se realize.

 

Mas em momento algum ele diz que está fundando uma nova fé, pelo contrário, em toda a sua pregação ele se insere na tradição judaica e a radicaliza, como outros tantos iluminados que lhe foram contemporâneos. E, alegando que seu reino não é deste mundo, exorta a uma vida de expiação e ao afastamento dos pecados mundanos. Acreditando ser o messias das profecias, Jesus leva até o fim o sacrifício, na expectativa de que o reino se concretize.

 

Constantemente arguido sobre situações concretas, o nazareno oferece suas interpretações sobre as escrituras como qualquer outro rabi diante de questionamentos práticos. Discursando para os grupos de seguidores e as multidões estranhas, em seu caminho em direção a Jerusalém, Jesus ora usa parábolas e histórias edificantes, que transmitem sua mensagem, ora responde a essas perguntas diretas com sua leitura original e radical das escrituras. E procura recuperar o despojamento presente na Torá, quando a tradição mandava perdoar as dívidas e cultivar a adoração de Javé sem artifícios.

 

Nesse sentido, é sintomático o episódio dos fariseus maliciosos que (querendo indispor Jesus com o Templo e as autoridades temporais) perguntam diretamente sobre a licitude dos impostos devidos a César. A Judéia ocupada pagava seus tributos ao Império Romano e fora transformada em mera província com governadores coniventes com a ocupação, que provocavam a ira e a revolta do povo. E Jesus se insurge contra a armadilha semântica e pergunta de quem é o rosto cunhado na moeda circulante, ao que é respondido tratar-se de César e, então, ele sentencia: “Pois devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. (Mateus, 22, 21.)

 

E isso vem sendo interpretado, nas Bíblias romanas, como uma afirmação de que o reino de deus não é deste mundo, e que por isso o dinheiro não lhe diz respeito. Efetivamente, Jesus exorta seus seguidores a abandonar não apenas os meios materiais, como também qualquer preocupação com família ou sobrevivência, indicando que o poder de deus proverá e determinará o destino de todos e cada um. Sua interpretação radical prega um abandono total da civilidade mundana em benefício de uma viagem interior de purificação, não apenas para renovar a aliança, mas sim para cumpri-la em face do fim que se aproxima.

 

O Jesus que nos é narrado nos evangelhos acredita firmemente que realizando as profecias, o reino de deus descerá na terra e o julgamento será realizado. Entretanto, após sua morte, mesmo para os que acreditaram em sua ressurreição, o reino não chega e nem o fim dos tempos. E mais, à medida que seus discípulos saem em missão de pregação, a mensagem se modifica.

 

A realização do reino tem que ser jogada sempre para o futuro, uma vez que o tempo de vida das pessoas se passa sem que novos sinais apareçam. E é quando surge Paulo de Tarso, um perseguidor de hereges convertido ao ideário de Jesus, que começa o processo de transformação da dissidência do nazareno no que hoje conhecemos como Cristianismo. Paulo vence os escrúpulos dos discípulos e começa a pregar para os gentios, afastando a palavra de Jesus de vez do Judaísmo.

 

Paulo, assim como toda uma nova leva de pregadores, quando arguidos sobre situações concretas, por não terem conhecido Jesus, interpretam seus ensinamentos a partir de si. E é relativamente fácil imaginar que, nesses tempos em que a oralidade é o veículo de expressão, as parábolas de Jesus sendo repetidas de boca em boca, sofreram acréscimos e interpretações de cada narrador. Assim como, quando inquiridos sobre situações que o nazareno não previu, os discípulos tiveram que dar um passo à frente e deduzir como Jesus teria pensado em relação a mais de um assunto.

 

As epístolas ou cartas, que (junto com a narrativa dos atos dos apóstolos) completam o Novo Testamento, deixam claro que Paulo e os novos discípulos, que nem mesmo conheceram Jesus, estavam tomando iniciativas para organizar seu culto e seus seguidores. E é assim que, ao fixar na escrita as tradições orais sobre Jesus, os evangelhos que posteriormente seriam considerados canônicos, surgem em grego. Ao contrário da rica tradição encontrada nas cavernas do Mar Morto somente no século XX e até hoje considerada apócrifa, que foi produzida em aramaico e recupera vozes das mais variadas e narrativas inclusive sobre a infância do nazareno e sobre sua família.

 

As orações e rituais que são atribuídos a Jesus foram interpretados de várias maneiras, dando lugar ao surgimento de várias tradições diferenciadas de Cristianismo. É por isso que temos os católicos romanos, os católicos ortodoxos (gregos, russos e armênios), os cristãos coptas, os protestantes tradicionais (luteranos, calvinistas, presbiterianos e metodistas, entre outros) e os evangélicos pentecostais e neopentecostais, que já ultrapassam as quinhentas denominações. Muitos desses últimos nem sequer se atém aos evangelhos, localizando suas pregações muito mais nos livros de Moisés que nos de Jesus.

 

Alguém poderia argumentar sobre a futilidade de questionar o uso do termo cristão para referir-se a Jesus, uma vez que seus seguidores o veem como o fundador do Cristianismo. E é aí exatamente que entra o papel do historiador, um tanto quixotesco, um tanto utópico, de se insurgir contra o senso comum banalizado, que leva as pessoas a reproduzir premissas equivocadas como se fossem fatos. Existe uma imensa diferença entre Jesus ter dado início a uma tradição de dissidência que veio a transformar-se no Cristianismo décadas após sua morte e entre ele ter sido cristão por profissão de fé.

 

A precisão e a prolixidade na análise dos conceitos nos obrigam a denunciar o anacronismo dessas visões simplistas. E não apenas porque o discurso dos vulgarizadores da narrativa religiosa induz os fiéis a pensar que sua fé está acima da História, mas também porque nessa trajetória obscurantista estão a um passo de considerar-se acima da lei e da sociedade. A alienação social gerada pela ausência de leitura crítica de sua própria fé conduz à credulidade e ao fanatismo que flagelam os processos civilizatórios e erodem a solidariedade humana com o diferente.

 

Uma visão histórica da composição dos textos considerados sagrados por qualquer religião auxilia à sua compreensão por outras ciências também, como a Antropologia e a Filosofia. Assim podemos entender as circularidades culturais e o intercâmbio de símbolos e rituais entre povos próximos ou distantes, mediante diálogo surgido da convivência ou mediante imposição surgida da invasão e do domínio político. E podemos constatar que essas mudanças ocorrem ao longo do tempo, incorporando novos significados, novos símbolos, absorvendo as transformações sofridas por cada sociedade.

 

Nesse sentido, alguns protestarão perguntando: qual o objetivo de seguir uma religião senão para acreditar que ela é a verdadeira e a única possível, imutável ao longo do tempo? Pois bem, poderíamos responder que essa visão absoluta é anacrônica diante do estágio em que se encontra o conhecimento humano; que ela induz à intolerância, à prepotência e à opressão dos que pensam ou sentem de modo diferente; que é uma expectativa limitadora e alienante diante das possibilidades da Vida e do Universo. Entretanto, diante da obtusidade induzida pelo senso comum banalizado, é provável que nossas palavras fossem repelidas sem conseguir penetrar os muros erguidos pelo fanatismo.

 

“E pur si mouve”…

 

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AS MENINAS DO LAPA

22 jul

Amaral Lpa

 

Eu não sabia que era uma “menina do Lapa” até o dia em que Raquel Glezer entrou porta adentro da sala de Eni de Mesquita Samara e deu de cara comigo e Cristiane Fernandes Lopes (hoje Cristiane Veiga) recebendo orientações. E disse “ah, você está com as meninas do Lapa, precisamos enviar uma carta a esse homem, agradecendo a qualidade das orientandas que nos manda”. E aí a Eni soltou aquela gargalhada sonora e inesquecível e nós ficamos ali meio constrangidas, meio orgulhosas de saber como nos viam na USP.

 

Até então, o que eu mais adorava na “fefelech” (FFLCH – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) era o anonimato, poder andar pelos corredores com a impressão de que ninguém ligava ou sabia quem eu era. Diferente do “ifich” (IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP, onde foucaultianos e thompsonianos rosnavam uns para os outros pelos corredores, como troçara um dia do Paulo Miceli. Sempre pensei na USP como muito menos claustrofóbica que a UNICAMP e a comparação das duas experiências me fazia sentir mais afortunada e completa.

 

Conheci o Professor José Roberto do Amaral Lapa no segundo semestre de graduação, em 1987, era um homem simples, com um senso de humor delicioso e uma vocação e capacidade para a docência como poucos. Jamais o vi dizendo a alguém “você está errado” ou “esse seu texto é fraco”, ele lia com paciência qualquer besteira que nós escrevíamos e depois dizia algo como “que interessante, isso me lembra o texto tal de (e aí se seguia alguma referência), por que você não dá uma olhada? pode ser que ajude a organizar suas ideias”. E essa era a deixa para que nós fossemos estudar mais, qualquer aluno com um mínimo de inteligência corria para o texto indicado e percebia o quanto ainda tinha que aprender.

 

Nós, que éramos as “crias” de seu Centro de Memória, costumávamos referir-nos a ele apenas como “o Professor”. E todos sabíamos de quem se tratava, aos outros docentes chamávamos familiarmente por seus nomes, mas o Lapa era toda uma instituição. Suponho que ele devia achar muita graça em toda aquela deferência, sendo a pessoa despojada que era.

 

E tivemos muitos professores incríveis. Leila Algranti, Silvia Lara, Célia Marinho e “Mara” Trevisan, tão seguras e dominando vastas bibliografias que eu me sentia minúscula em sua presença. Sidney Chalhoub, Paulo Miceli, Michael Hall e Bob Slenes, que nos ensinaram a destrinchar textos e classificar autores, enquanto nos encantavam com suas aulas. Denise Bottmann e Marco Aurélio Garcia (que perdemos esta semana), cuja erudição e aulas impecáveis marcaram minha memória para sempre. Por sorte, em todo o tempo de graduação, encontramos apenas três professores autenticamente medíocres e dois verdadeiros picaretas.

 

Mas o Lapa era um caso único. As lições mais marcantes para a profissão e para a vida, que aprendi com ele, eu nem percebi que estava aprendendo. Ele moldou meu perfil de pesquisadora ao dosar as responsabilidades que me passava como bolsista de pesquisa e ao confiar em meu trabalho, sempre incentivando meu aprimoramento.

 

Era um senhor baixinho, com uma voz rica de simpatia humana, que nos acolhia sob suas asas paternais e nos brindava com suas histórias e experiências. E era um pária no “ifich”, visto pelos outros acadêmicos como uma figura folclórica de conteúdo local e sempre preterido (ele e seus orientandos) nas seleções de mestrado e doutorado. Mas não perdia o pique e não nos abandonava, e foi por isso que tantos de nós acabamos fazendo a pós-graduação na USP.

 

Quando eu terminei a graduação e prestei a seleção de mestrado na UNICAMP, minha pesquisa já tinha dois anos e um cadastro na FAPESP, mas a politicagem do departamento fez com que as duas vagas na linha de pesquisa de Escravidão e Trabalho Livre fossem para duas pessoas que mal tinham projeto, mas que tinham os orientadores “certos”. Depois de formada, essa não foi a última vez que o “ifich” me bateu com a porta na cara, das mais recentes prefiro nem comentar. Mas diante da recusa do departamento, o Professor me encaminhou imediatamente à USP e em seis meses eu já estava matriculada no programa de mestrado da “fefelech”.

 

Regina Célia Galante Spagnol e eu fomos as primeiras. Nos anos que se seguiram acredito que o Professor Lapa encaminhou mais meia dúzia de pesquisadores recusados pela UNICAMP que a USP aproveitou e acolheu. Sabe-se lá o porquê, a maioria de nós éramos mulheres, daí o “meninas do Lapa” que a Raquel Glezer usou com a pontinha de malícia de seu humor peculiar.

 

Nos anos que se seguiram, continuei frequentando o Centro de Memória e sendo incluída nos eventos, graças à deferência que o Professor dedicava ao meu trabalho. Quando concluí o mestrado, foi através dele que publiquei minha dissertação na coleção Campiniana. E tive a honra de ter minha pesquisa mencionada em seus últimos livros.

 

Numa das últimas vezes que o vi, íamos do Centro de Memória à Faculdade de Educação para um evento e eu estava ansiosa para contar sobre os avanços da minha pesquisa de doutorado, mas o conversa tomou um rumo inteiramente diferente. O Professor me perguntou preocupado se eu tinha babá e eu fui obrigada a rir, afinal não tínhamos nem onde cair mortos, quanto mais esses luxos, contei-lhe sobre as peripécias de revezamento que incluíam meu marido, minha mãe e até minha sogra, para que eu pudesse “tocar” o doutorado. E ele me falou do netinho pequeno, que morava em sua casa e que a esposa cuidava, estava escandalizado por uma série de reportagens sobre uma babá flagrada espaçando um bebê.

 

Depois disso, o contato ia e vinha esporadicamente porque eu estava subjugada pelo trabalho, a casa e a tese. Um dia, o telefone tocou cedo demais e o recado na secretária eletrônica me informava que o Professor se fora repentinamente. Tanta coisa ficou por dizer…

 

Nunca lhe agradeci o suficiente por tudo o que fez por mim. Por sua acolhida generosa, suas lições inestimáveis e a grandeza com que me encaminhou na carreira docente. Suponho que as palavras que eu não disse ficaram implícitas no trato das nossas conversas e que ele entendia, a seu modo, o meu constrangimento e a minha admiração.

 

Hoje, depois que o mercado me descartou e a internet me proporcionou a experiência de ter mais alunos em quatro anos do que teria em décadas de docência formal, ainda me sinto (com muita honra) uma “menina do Lapa” e ainda quero ser como ele quando crescer.

CACO ANTIBES NA PREFEITURA

21 jul

Lá pelos anos 90, quando o dinheiro havia sumido e a TV por assinatura era para poucos, assistíamos ao Sai de Baixo por pura falta de opção. Um amontoado de personagens caricatas, como é característico do humor considerado popular, que debochavam abertamente de domésticas, porteiros e quem mais fosse. A programação repetida e pobre ou focada nos esportes das outras emissoras era de acabar com a paciência e, no final, acabávamos assistindo esse “humorístico” mesmo sem grandes entusiasmos.

 

Caco Antibes, vivido por Miguel Falabella, era um aristocrata “venido a menos” (como dizemos em espanhol), decadente, arrogante, sarcástico e que não trabalhava em hipótese alguma, vivendo de golpes e à custa da família da esposa. Nem vou falar da Magda, a esposa, que era um insulto a todas nós mulheres e um estereótipo dos mais vis. O bordão favorito do Caco começava com “pobre” e daí se seguia alguma assertiva crítica, proferida com um esgar de desprezo e raiva.

 

Uma noite de domingo, Caco Antibes disse: “pobre não pode ver um bebê nascendo que já sai fazendo sapatinho de tricô e roupinha de crochê, uma cafonice, odeio pobre”, seguido da mesma ladainha de sempre, desejando a morte ou o sumiço dos pobres que tanto lhe ofendiam e incomodavam. E para mim foi a conta. Nunca mais assisti.

 

Durante uma boa parte da minha vida, tricotei mantinhas e sapatinhos para os bebês que chegavam, quer fossem da família, quer fossem dos amigos mais próximos. Era uma maneira de expressar que aquele bebê era bem-vindo e que seria muito amado por todos nós. Só parei recentemente porque as pessoas hoje são “cool” demais para entender esse tipo de gesto.

 

Quem nunca foi pobre ou viveu essa vida de família que caracterizava as pequenas comunidades do século passado, não tem a capacidade para entender nem imaginar esses nadas. Esses pequenos gestos de compartilhar tradições e costumes. A vizinha que benze as crianças quando estão doentes ou não, os rituais de passagem do nascimento à morte, os casamentos simples com lanchinhos de “boi ralado”.

 

Toda uma realidade de gente simples, mas trabalhadora, de lutas sem fim para pagar as contas, de tristezas e alegrias partilhadas. De comemorar tudo com comida simples e remetendo às nossas origens. De festejar a vida, ora em torno da igreja, ora em torno da família.

 

Para personagens como Caco Antibes, acostumado a ter a Riviera Francesa e Manhattan como referência, a vida suburbana dos pobres era uma cafonice imperdoável. Para alguém obcecado em ter e gastar grandes quantidades de dinheiro em luxos e ostentações, os sacrifícios e as dificuldades dos mais pobres não passavam de material para deboche e sarcasmo. A insensibilidade da personagem não refletia apenas sua ignorância, mas também sua ânsia por algum tipo de eugenia que a livrasse de ter que dividir o planeta com os pobres que tanto abominava.

 

Eu parei de assistir ao programa porque aquele comentário tornou Caco Antibes real. Ele deixou de ser uma personagem caricata de um imbecil decadente para tornar-se um tipo de ser humano que eu já havia encontrado mais de uma vez. E não era engraçado, não para mim.

 

Para quem vive no luxo e na opulência das alturas sociais, todos os pobres são sujos, todos os pobres são bêbados ou vagabundos que devem ser obrigados a trabalhar. Para quem acredita que sua “cultura” é a única possível, torna-se impossível decifrar a riqueza e a variedade de comportamentos, costumes e tradições, vindos de muitas partes do Brasil e do mundo, que os pobres compartilham. Para quem acredita que seu deusinho mesquinho, acostumado com suas hipocrisias de igreja, o colocou no mundo para ser superior aos outros, é fácil acreditar que a solução para as questões sociais é eliminar os pobres.

 

Hoje, Caco Antibes foi instalado na prefeitura da maior cidade do Brasil pelo povo simples que ele sempre abominou. E empreendeu uma cruzada cruel para eliminar os pobres das ruas, tirando-lhes cobertores e colchões, negando-lhes o acesso à comida, acordando-os com jatos de água fria nas geladas manhãs de inverno. Caco Antibes quer que os pobres morram e agora ele tem como realizar seu desejo.

 

E eu nem consigo expressar o tamanho da minha tristeza por ter que presenciar impotente este espetáculo de insensibilidade, arrogância e prepotência cruel.

ATHENA

20 jul

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Biscoito foi nosso amigo canino por dezesseis anos. Chegou com quatro meses de idade, um filhote de daschund preto e canela, com uma personalidade peculiar. Acompanhou-nos de casa em casa até que saímos do aluguel e fincamos nossa biblioteca em casa própria.

 

Era uma figura constante em nossas vidas e colecionamos todo tipo de anedotas e fotografias dessa convivência. Mas a maldição dos cães de raça foi se concretizando na forma de problemas na coluna e um sopro gigantesco no coração que o levou a viver apenas com metade do órgão a maior parte de sua vida. E, finalmente, o câncer o levou.

 

Embora longevo, Biscoito teve seu quinhão de sofrimento. Remédios e sessões de acupuntura que faziam um buraco em nosso orçamento doméstico, mas que jamais questionamos eram paliativos que mantinham uma certa qualidade de vida, mas que sabíamos que era uma questão de tempo.

 

Até às vésperas da crise fatal, ainda passeava diariamente na Praça das Pedrinhas. E foi ali que jogamos suas cinzas, quanto finalmente nos deixou. Um pouco em cada pedra e em cada árvore em que gostava de parar.

 

E foi um luto arrasador. Durante meses o quintal era um lugar de lágrimas e a casa parecia vazia sem ele. Todos nós sofremos demais, cada um a seu modo, até conseguir processar a perda e poder pensar nele apenas com nostalgia e menos angústia.

 

Biscoito se foi em 22 de Janeiro de 2016 e somente lá pelo fim de outubro desse ano conseguimos pensar em adotar outro canino. Queríamos uma fêmea, queríamos que fosse vira-lata e começamos a sondar as possibilidades. E foi através de Juliana Martinelli, da Animal Care, que conhecemos a Athena.

 

No dia, havia duas cadelinhas para adoção, Athena e Paçoca. Paçoca era mais jovem e muito hiperativa, Athena tinha dois anos e parecia muito triste e judiada. Foi uma ligação instantânea.

 

Precisamos esperar mais de uma semana para trazê-la para casa porque havia sido esterilizada e ainda estava com os pontos da cirurgia. Espera interminável que aguentamos preparando a casa para recebê-la. Embora tenha herdado alguns dos pertences do Biscoito, por ser de médio porte precisamos comprar uma caminha e outros acessórios que lhe servissem.

 

Sabíamos que fora encontrada vagando pela rua numa noite gelada, esquálida e com verminose. Juliana tratou dela com carinho e quando foi realizada a esterilização, constatou-se que estava prematuramente prenha e foi preciso remover quase uma dúzia de embriões. Era tristonha, desconfiada e ressabiada.

 

E, em novembro de 2016, quando a trouxemos para casa, era um desafio entender seu comportamento. Na comparação com o Biscoito, ela era um enigma: estava sempre com fome e era independente, cheia de inventividade, com astúcia e rapidez mental surpreendente. E alternava momentos de meiga melancolia com uma euforia tosca e delirante.

 

E assim começamos a descobri-la. Aos poucos ganhou confiança e perdeu o ar tristonho. E foi ocupando os espaços da casa e do nosso coração.

 

Ela tem hábitos de gato, mesmo aprontando o dia inteiro está sempre muito limpa porque se lambe e mordisca o tempo todo, tirando até sujeiras imaginárias. Caminha rebolando como gato, silenciosamente e pula tomando impulso com uma graça felina incomparável. Quando vê gatos na rua, chora aflitamente querendo brincar com eles.

 

É uma vira-lata bem comum, de uma cor preta brilhante pintalgada de detalhes brancos. Semelhantes a ela há uma porção aqui no entorno do bairro e nós passamos a chamá-los de atenienses. Pessoalmente acredito que ela é parte da vanguarda de uma invasão alienígena, de tão inteligente, bonita e charmosa.

 

E há as sequelas da rua. Athena tem pavor de água (não é exagero, ela se esconde ao ver mangueiras ou torneiras ligadas), quando passa alguma viatura policial ela se encolhe de medo, e tem muita raiva de moradores de rua. Mesmo com três fartas refeições por dia, ainda fuça cada migalha que cai no chão e precisamos de atenção redobrada para que não procure comida no lixo.

 

E Athena só descansa quando estamos todos em casa. Ela é carinhosa e adora ficar aninhada no sofá e na poltrona, enquanto trabalhamos. Ela é companheira e possessiva, sempre querendo “limpar-nos” e “guiar-nos” por aí.

 

Não foi fácil a adaptação, mas esperamos poder proporcionar-lhe uma vida tranquila e feliz. Pessoalmente, mesmo que leve anos, espero que ela supere a rua e o abandono e perca os cacoetes do desespero e da solidão. E que possamos desfrutar de nossa bela amizade pelo tempo que for.

 

E alguém poderia perguntar: tá maluca, Anna? O país se esvaindo pelos esgotos da corrupção golpista, nossos direitos sendo rifados, o Lula estupidamente condenado e você vem falar da sua cadelinha? Que alienação, companheira!!!

 

Deixem-me responder, então. Fiquei com minha Mãe, que está convalescendo de uma cirurgia de catarata, a semana passada inteira. Logo depois da asquerosa votação no Senado, que jogou nossa situação trabalhista de volta ao século XIX, ensaiei de escrever um texto a respeito. Estava com dois parágrafos cuidadosamente burilados e encetando o terceiro quando minha Mãe me chamou ao quarto para avisar da condenação sem provas do Lula e eu perdi o pique.

 

Fiquei tão passada que perdi a deixa, a vez e a vontade de escrever. Logo depois ainda tivemos que ver o golpista esbanjando nosso dinheiro para comprar a lealdade desses arremedos de deputados, saídos sabe-se lá de onde. E eu cansei desse nunca acabar de desgraças que nos assola desde o golpe.

 

Escrevo sobre a Athena pelo mesmo motivo que me leva a conversar mais com os cachorros do meu bairro do que com meus vizinhos. Os animais não defendem deputados torturadores, não esbravejam por aí querendo a volta da ditadura e não compartilham da hipocrisia cristã que nos cerca. Os animais são o último refúgio da minha sanidade em meio ao caos golpista que a troskaiada e os paneleiros fingem que não veem.

 

E mais não digo.  🙂

O ANÃO GEDDEL

7 jul

Eu tenho verdadeira ojeriza da História do Tempo Presente e concordo inteiramente com Eric J. Hobsbawm quando afirma que este é um domínio impossível. Na maior parte do tempo, quando evocamos tempos que nos são contemporâneos, a memória (funcional e emocional) interfere demais na análise dos fatos. Isso sem contar que as fontes ainda estão muito recentes para sofrer uma crítica e uma análise mais profunda.

 

Respeito muito quem se aventura em um campo de pesquisa tão pantanoso e consegue manter um mínimo de objetividade, sem reproduzir os discursos vigentes ou o senso comum produzido pelos meios de comunicação. E, principalmente, respeito os historiadores que se atrevem a adentrar nessa seara em que qualquer desocupado de bar, padaria ou fila de banco pensa que sabe mais do que nós profissionais. Ainda mais em tempos em que a internet dá voz a todo tipo de fraude, ignorância e má-fé, que são absorvidas como verdades divinas por uma turba ansiosa por frases feitas e “verdades fáceis”.

 

Nesse sentido, quando eu uso meu blog para dialogar sobre os assuntos do momento e dar alguma dimensão histórica ao que nos atropela, não tenho a menor pretensão de estar gerando uma análise crítica essencialmente profissional. Eu prefiro perceber este meio como um ambiente em que posso me expressar como cidadã consciente e relativamente bem informada. E eu despendo uma parte considerável do meu tempo para procurar e selecionar informação de qualidade, que me permita uma visão crítica razoavelmente acurada.

 

Este preâmbulo é muito mais para racionalizar o simples fato de que vivemos em uma dinâmica social em que a seletividade das memórias vem sendo usada sistematicamente para construir “fatos e versões” ao sabor de interesses políticos e econômicos que beiram o criminoso.

 

É deprimente ver a crença quase divina com que os setores conservadores defendem o argumento de que a corrupção começou com o governo do Partido dos Trabalhadores, escolhendo deliberadamente fechar os olhos para tudo que contradiga essa percepção. O silêncio cínico e cúmplice que cerca o governo golpista e seus asseclas e a defesa de políticos espúrios e folclóricos como a solução para o país beira a infantilidade crassa. Em tempos de redes sociais, um dedo médio vulgarmente erguido serve como argumento aos defensores da tortura, da violência e do conservadorismo.

 

Assim, quando vejo uns e outros arregalando ingênuos olhos vazios e se perguntando de onde surgiu Geddel Vieira Lima, tenho vontade de perguntar se essas pessoas passaram a década de ’90 com a cabeça enterrada na areia. Já não bastasse a falácia de ignorar solenemente os escândalos de corrupção que nos acompanham bissextamente desde o Primeiro Reinado, ainda por cima silenciam em uma cumplicidade abjeta em relação aos períodos Sarney, Collor e FHC e suas negociatas escancaradas. E fingem que os notórios “anões do orçamento” nunca existiram.

 

E aqui começa a pesar a questão da ignorância e da desinformação. Quantos de nós sabemos exatamente como funciona o Orçamento da União? O que é uma emenda ao Orçamento e como se encaixa na dinâmica de poder que opõe Executivo e Legislativo?

 

A mídia acostumou o público a encarar a gestão de recursos públicos como algo folclórico e amadorístico, comparando sempre a administração pública com o entorno doméstico, de maneira bem rasa e superficial. Entretanto, o Orçamento da União é um campo de batalha que desafia a habilidade e a capacidade de negociação dos poderes da República. Foi concebido de maneira a impedir um protagonismo excessivo do Executivo e acabou por tornar-se uma fonte de barganhas e negociatas.

 

A capacidade de um presidente e seu ministério para estabelecer o contingenciamento de verbas públicas, a cada ano, deve obedecer às Diretrizes de Regulação Orçamentária e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso quer dizer que existe um protocolo legal destinado a restringir a liberdade do Executivo na hora de destinar verbas à saúde, educação, infraestrutura, dívida pública e gestão de salários. Entretanto, além dessas limitações, o Orçamento ainda tem que ser examinado por uma Comissão no Congresso e aprovado, deixando os planos econômicos do Executivo à mercê das idiossincrasias do Legislativo.

 

Para ter suas verbas contingenciadas sem grande interferência, os presidentes e seus ministros acostumaram-se a recorrer ao expediente das emendas orçamentárias. Destinando uma verba (geralmente bilionária) à negociação com os deputados das comissões, o Executivo conseguia manter minimamente a integridade de seus orçamentos. Essas emendas eram usadas pelos deputados para conseguir lugar no Orçamento da União para obras de infraestrutura destinadas a favorecer governadores e prefeitos de seus estados de origem.

 

Líderes do Congresso como Eduardo Cunha e Michel Temer amealharam suas redes de apoio negociando emendas com os parlamentares mais inexpressivos, mas essa é uma prática de longa data.

 

No início dos anos 90 o escândalo dos “anões do orçamento” sacudiu o país. Eram assim chamados por tratar-se de deputados desconhecidos, provenientes do “baixo clero” da Câmara, que se apropriaram das comissões durante décadas sem chamar a mínima atenção. Esses deputados negociavam propinas dos governadores e prefeitos para incluir as emendas necessárias e ainda desviavam parcelas significativas nas minúcias do orçamento em benefício próprio.

 

O líder desse esquema, que foi apelidado de anão-mor era João Alves de Almeida, deputado eleito pela Bahia, que durante trinta anos transitou por vários partidos até acabar no PPR (hoje PP). João Alves passou duas décadas desviando dinheiro do orçamento e “lavando” esses “ganhos” com prêmios de loteria. Ao ser inquirido pela imprensa se não considerava estranho a mesma pessoa ganhar duzentas vezes na loteria, respondeu que era deus que o abençoava.

 

Os anões do orçamento eram tipinhos lombrosianos no pior sentido do termo, insignificantes politicamente agigantavam-se ao negociar a solvência dos governos. Chegaram a desviar algo em equivalente a cem milhões de reais do orçamento público, em valores de 1993. Ao ser expostos e acabar em uma CPI que varou os noticiários durante semanas, vários renunciaram, outros foram cassados e Geddel Vieira Lima está entre os que foram absolvidos devido a sua rede de relacionamentos políticos.

 

Quando algum ministro do Supremo (aliás mais do que um) do alto de sua empáfia hipocritamente moralista declarou que o “mensalão petista” era o maior escândalo de corrupção da História da República brasileira, esqueceu-se oportunamente dos anões do orçamento. Mas também silenciou sobre as dezenas de escândalos ocorridos durante o período militar e nas primeiras gestões da “Nova República”. Esse exercício de memória seletiva parece ter atacado uma parte considerável das bases de apoio do conservadorismo nacional, que hoje mantém suas panelas em silêncio cúmplice enquanto o grupo golpista dilapida bens e recursos públicos sem qualquer pejo ou pudor.

 

Ofende a inteligência quando os setores “apartidários”, as esquerdas nanicas e uma boa parte dos paneleiros & friends association argumentam de modo simplista e infantil que “se tirar dinheiro da corrupção dá para investir em educação e saúde”. Um orçamento minimamente justo em termos de educação e saúde requer muitos bilhões de reais e a corrupção (sempre exacerbada pelo sensacionalismo dos meios de comunicação) dificilmente alcança os valores (estes sim exorbitantes) das renúncias fiscais, do perdão das dívidas previdenciárias de bancos e grandes empresas, e do repasse dos juros destinados aos rentistas e portadores de títulos da dívida pública. Se de algum lugar se deveria estancar a sangria dos cofres públicos com urgência é exatamente dessa pilhagem promovida pelos setores ligados às altas finanças e ao empresariado tosco que prefere lucrar no mercado financeiro a investir na produção.

 

A corrupção deve ser combatida sem tréguas. Mas deve ser combatida dentro da lei, sem arroubos moralistas, sem vendetas partidárias e sem destruir amplos setores da economia nacional para beneficiar os interesses espúrios dos conglomerados transnacionais. A corrupção se combate começando pelos próprios juízes, ministros e promotores que recebem “salários e penduricalhos” muito acima do teto constitucional e por isso não tem moral e nem decência para acusar ninguém.

 

A longa carreira parlamentar de figuras como João Alves e Geddel Vieira Lima se deu sob as asas da omissão judicial. Ver as cenas patéticas do anão aprisionado somente pode ser catártico para quem pensa pequeno. Mais do que a prisão e a humilhação pública, aqueles que desviam os recursos públicos devem devolver suas fortunas e ressarcir a sociedade pelos prejuízos causados.

 

BALZAC E OS RENTISTAS DO SÉCULO XXI

1 jul

Em algum momento da década de ’90, adquirimos A Comédia Humana de Honoré de Balzac. Era uma promoção com desconto e parcelada, mesmo assim penamos para pagar, mas como recusar uma “oferta irrecusável”? Não consigo sequer lembrar se foi uma oferta de livraria ou da própria editora, mas o resultado é que os dezessete grossos volumes nos acompanham desde então.

 

No ano e meio que se seguiu à chegada dos volumes, passei a ler freneticamente em meu tempo livre (que era pouco) e cheguei até o décimo terceiro antes de enjoar. Na verdade, a palavra correta seria “empapuçar”, mas não sei se todo mundo entenderia. E meu cansaço nada teve a ver com o autor ou o tamanho da obra, foi muito mais uma questão das personagens.

 

Chegou um momento em que aquela profusão de rentistas começou a me incomodar. Eram de todos os tipos, banqueiros, comerciantes, remediados, pequenos e grandes burgueses, todos com uma única ambição: amealhar alguns milhares de francos para consolidar uma renda e depois viver flanando em Paris. O que diferia de um romance para o outro eram os caminhos dessas ambições e se o rentista ou aspirante a essa condição era o herói ou o vilão da trama.

 

Até hoje considero Ilusões Perdidas o melhor concebido dos romances que compõem a Comédia. E Luciano de Rubempré é uma daquelas personagens que poderiam ter saído da pena de Flaubert ou de Dostoievski, em suas ambições frustradas e suas ingênuas ilusões de grandeza. E, evidentemente, a Paris de Balzac é um nunca acabar de salões, salas de visitas, gabinetes, pequeno comércio e restaurantes chics como O Rochedo de Cancale.

 

E talvez seja isso que me incomoda até hoje, em uma Paris efervescente de Arte, de lutas políticas, de revolucionários e intelectuais, as escolhas de Balzac eram aqueles burgueses (pequenos e grandes) absolutamente desprezíveis, em todos os sentidos que esse adjetivo possa ter. Gente procurando casamentos e rendas e vivendo apenas para seus apetites mais primários, ocupando a cidade e seus salões com a mediocridade de suas intrigas e ódios. Heróis e vilões, virtuosos e pervertidos, abençoados e malditos, todos não passavam de burgueses sem remissão (ou ao menos assim me pareciam quando li).

 

Ultimamente, venho repensando essa questão e lembrando com frequência de Balzac e sua obra. Ao ver o governo golpista rifar o país para garantir os lucros dos rentistas e ver gente pobre sonhando com boladas de dinheiro e casinhas de aluguel para viver sem trabalhar. Ao ver tanta gente que se compraz com a miséria social para poder desfrutar de seus privilégios e sentir-se superior, sinto-me de volta às páginas da Comédia.

 

Se há uma coisa que os rentistas de Balzac têm em comum com os atuais é a completa indiferença pelas questões sociais. A ideia de que sua renda só se consolida a partir da exploração sistemática de uma grande porção de seres humanos não apenas nem lhes passa pela cabeça como também não lhes importaria se fossem confrontados com essa realidade. Uma caridade cristã vazia e protocolar substitui a contento qualquer veleidade de justiça social.

 

E todos aspiram a uma sociedade em que os pobres saibam seu lugar, mesmo aqueles que hoje são pobres, mas percebem a si mesmos como milionários em embrião. Talvez porque a mentalidade rentista no Brasil seja herdeira de uma época em que ainda existia escravidão e os “capitalistas” eram listados por seus sobrenomes quatrocentões nos almanaques anuais. Uma época de doutores e bacharéis devidamente enfatiotados com seus fraques e cartolas, se é que vocês conseguem captar de onde vem a empáfia dos nossos atuais.

 

Por definição, um rentista é um parasita. É alguém que entrega seu dinheiro (seja qual for a origem) ou seus bens a um Banco, para que este os administre, invista e lhe retorne os juros em forma de renda. Sua renda se reproduz a partir da especulação financeira e existe em um universo em que a maioria das pessoas mal consegue ter acesso a um salário minimamente decente.

 

Quando um empresário ou um industrial opta por ser rentista, sua empresa passa a ser um aspecto secundário de seus negócios e o lucro que poderia ser investido na produção ou na melhora das condições de trabalho, passa a “turbinar” o mercado financeiro e a custear uma vida de luxos e privilégios, em detrimento do país e da sociedade. Muitos argumentarão que não há nada de errado nisso e que ele merece o dinheiro que ganhou e que a liberdade no capitalismo é a liberdade de consumir e especular. Nada novo, essa é uma discussão que data do século XIX, como também data de mais de cento e cinquenta anos atrás a crítica a essa mentalidade farisaica e predatória.

 

A disputa entre o Capital e o Trabalho é tão injusta, desigual e desonesta, que acaba por desiludir uma boa parte dos trabalhadores de qualquer esperança de um mínimo de equidade ou equilíbrio. Talvez seja por isso que, em uma sociedade em que a indústria cultural vende os mitos do sucesso capitalista, muitos trabalhadores sonhem em tornar-se patrões ou rentistas. Quem poderia culpá-los?

 

A enormidade do que significa hoje a exploração capitalista deixa poucas alternativas. Na iminência de escolher entre o inominável e o inaceitável, talvez a reação mais inteligente (em nome da saúde mental) seja abster-se e sonhar com o que não se pode alcançar. É assim que se fisgam, geração após geração, os sonhos e as esperanças de quem sobrevive no limiar do sistema.

 

Os patéticos rentistas de Balzac pariram várias gerações de parasitas pelo mundo afora. Os nossos, descendem de escravocratas e auferem seus lucros tanto do Estado quanto dos Bancos. O que não muda é o sonho pequeno burguês de viver sem trabalhar, assistindo aos outros trabalharem até a exaustão.

 

A ideia de que o direito dos outros é um privilégio, mas o seu privilégio é um direito de nascença, de “berço”, de casta.

 

Podem me chamar de anacrônica, mas acredito que Karl Marx é tão necessário agora quanto o foi nos tempos de Balzac, considerando que este faleceu dois anos após a publicação do Manifesto Comunista. E não para patrocinar revoluções, mas para ajudar a pensar e entender como esta enorme engrenagem de moer gente funciona. Como se constrói o lucro e para quem vai, como se estrutura o mercado e quem o sustenta.

 

Conhecimento e crítica, sem os quais estamos fadados a viver para sustentar rentistas e outros tantos parasitas.