ATHENA

20 jul

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Biscoito foi nosso amigo canino por dezesseis anos. Chegou com quatro meses de idade, um filhote de daschund preto e canela, com uma personalidade peculiar. Acompanhou-nos de casa em casa até que saímos do aluguel e fincamos nossa biblioteca em casa própria.

 

Era uma figura constante em nossas vidas e colecionamos todo tipo de anedotas e fotografias dessa convivência. Mas a maldição dos cães de raça foi se concretizando na forma de problemas na coluna e um sopro gigantesco no coração que o levou a viver apenas com metade do órgão a maior parte de sua vida. E, finalmente, o câncer o levou.

 

Embora longevo, Biscoito teve seu quinhão de sofrimento. Remédios e sessões de acupuntura que faziam um buraco em nosso orçamento doméstico, mas que jamais questionamos eram paliativos que mantinham uma certa qualidade de vida, mas que sabíamos que era uma questão de tempo.

 

Até às vésperas da crise fatal, ainda passeava diariamente na Praça das Pedrinhas. E foi ali que jogamos suas cinzas, quanto finalmente nos deixou. Um pouco em cada pedra e em cada árvore em que gostava de parar.

 

E foi um luto arrasador. Durante meses o quintal era um lugar de lágrimas e a casa parecia vazia sem ele. Todos nós sofremos demais, cada um a seu modo, até conseguir processar a perda e poder pensar nele apenas com nostalgia e menos angústia.

 

Biscoito se foi em 22 de Janeiro de 2016 e somente lá pelo fim de outubro desse ano conseguimos pensar em adotar outro canino. Queríamos uma fêmea, queríamos que fosse vira-lata e começamos a sondar as possibilidades. E foi através de Juliana Martinelli, da Animal Care, que conhecemos a Athena.

 

No dia, havia duas cadelinhas para adoção, Athena e Paçoca. Paçoca era mais jovem e muito hiperativa, Athena tinha dois anos e parecia muito triste e judiada. Foi uma ligação instantânea.

 

Precisamos esperar mais de uma semana para trazê-la para casa porque havia sido esterilizada e ainda estava com os pontos da cirurgia. Espera interminável que aguentamos preparando a casa para recebê-la. Embora tenha herdado alguns dos pertences do Biscoito, por ser de médio porte precisamos comprar uma caminha e outros acessórios que lhe servissem.

 

Sabíamos que fora encontrada vagando pela rua numa noite gelada, esquálida e com verminose. Juliana tratou dela com carinho e quando foi realizada a esterilização, constatou-se que estava prematuramente prenha e foi preciso remover quase uma dúzia de embriões. Era tristonha, desconfiada e ressabiada.

 

E, em novembro de 2016, quando a trouxemos para casa, era um desafio entender seu comportamento. Na comparação com o Biscoito, ela era um enigma: estava sempre com fome e era independente, cheia de inventividade, com astúcia e rapidez mental surpreendente. E alternava momentos de meiga melancolia com uma euforia tosca e delirante.

 

E assim começamos a descobri-la. Aos poucos ganhou confiança e perdeu o ar tristonho. E foi ocupando os espaços da casa e do nosso coração.

 

Ela tem hábitos de gato, mesmo aprontando o dia inteiro está sempre muito limpa porque se lambe e mordisca o tempo todo, tirando até sujeiras imaginárias. Caminha rebolando como gato, silenciosamente e pula tomando impulso com uma graça felina incomparável. Quando vê gatos na rua, chora aflitamente querendo brincar com eles.

 

É uma vira-lata bem comum, de uma cor preta brilhante pintalgada de detalhes brancos. Semelhantes a ela há uma porção aqui no entorno do bairro e nós passamos a chamá-los de atenienses. Pessoalmente acredito que ela é parte da vanguarda de uma invasão alienígena, de tão inteligente, bonita e charmosa.

 

E há as sequelas da rua. Athena tem pavor de água (não é exagero, ela se esconde ao ver mangueiras ou torneiras ligadas), quando passa alguma viatura policial ela se encolhe de medo, e tem muita raiva de moradores de rua. Mesmo com três fartas refeições por dia, ainda fuça cada migalha que cai no chão e precisamos de atenção redobrada para que não procure comida no lixo.

 

E Athena só descansa quando estamos todos em casa. Ela é carinhosa e adora ficar aninhada no sofá e na poltrona, enquanto trabalhamos. Ela é companheira e possessiva, sempre querendo “limpar-nos” e “guiar-nos” por aí.

 

Não foi fácil a adaptação, mas esperamos poder proporcionar-lhe uma vida tranquila e feliz. Pessoalmente, mesmo que leve anos, espero que ela supere a rua e o abandono e perca os cacoetes do desespero e da solidão. E que possamos desfrutar de nossa bela amizade pelo tempo que for.

 

E alguém poderia perguntar: tá maluca, Anna? O país se esvaindo pelos esgotos da corrupção golpista, nossos direitos sendo rifados, o Lula estupidamente condenado e você vem falar da sua cadelinha? Que alienação, companheira!!!

 

Deixem-me responder, então. Fiquei com minha Mãe, que está convalescendo de uma cirurgia de catarata, a semana passada inteira. Logo depois da asquerosa votação no Senado, que jogou nossa situação trabalhista de volta ao século XIX, ensaiei de escrever um texto a respeito. Estava com dois parágrafos cuidadosamente burilados e encetando o terceiro quando minha Mãe me chamou ao quarto para avisar da condenação sem provas do Lula e eu perdi o pique.

 

Fiquei tão passada que perdi a deixa, a vez e a vontade de escrever. Logo depois ainda tivemos que ver o golpista esbanjando nosso dinheiro para comprar a lealdade desses arremedos de deputados, saídos sabe-se lá de onde. E eu cansei desse nunca acabar de desgraças que nos assola desde o golpe.

 

Escrevo sobre a Athena pelo mesmo motivo que me leva a conversar mais com os cachorros do meu bairro do que com meus vizinhos. Os animais não defendem deputados torturadores, não esbravejam por aí querendo a volta da ditadura e não compartilham da hipocrisia cristã que nos cerca. Os animais são o último refúgio da minha sanidade em meio ao caos golpista que a troskaiada e os paneleiros fingem que não veem.

 

E mais não digo.  🙂

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9 Respostas to “ATHENA”

  1. elaine reis 20/07/2017 às 9:59 pm #

    Que post lindo.
    Amei conhecer a história de Biscoito e, agora, um pouquinho de Athena.
    Uma coisa é certa, independente do esteja acontecendo no mundo, ela sempre será uma companheira fiel. Tenho certeza absoluta.
    Um abraço para vocês.

  2. Ruth Miriam Da Natureza 21/07/2017 às 11:15 am #

    Amei o sentimento de amor e saudades de Biscoito! E sou testemunha da beleza e esperteza de Athena! Vejo os cães como Anjos Encarnados, que desceram ao mundo para nos amar de forma incondicional! Tenho 3 cadelinhas vira-latas e são como 3 filhinhas, as amo com todo amor que tenho dentro de meu ser.!

  3. Hortência Nonato 21/07/2017 às 2:40 pm #

    Ahhh minha querida! Também sofri sua perda. Derramei rios de lágrimas com os quadrinhos de sua filha. Acho que essa capacidade de tocar o coração e a alma é genética.

  4. Roseli 25/07/2017 às 10:13 pm #

    Olá Anna! Muito emocionante, lembro me do Biscoito, quero adotar um cãozinho, porém menos sapeca que Athena, hehehe.
    Nosso país… doi no coração… abraços!!

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