CACO ANTIBES NA PREFEITURA

21 jul

Lá pelos anos 90, quando o dinheiro havia sumido e a TV por assinatura era para poucos, assistíamos ao Sai de Baixo por pura falta de opção. Um amontoado de personagens caricatas, como é característico do humor considerado popular, que debochavam abertamente de domésticas, porteiros e quem mais fosse. A programação repetida e pobre ou focada nos esportes das outras emissoras era de acabar com a paciência e, no final, acabávamos assistindo esse “humorístico” mesmo sem grandes entusiasmos.

 

Caco Antibes, vivido por Miguel Falabella, era um aristocrata “venido a menos” (como dizemos em espanhol), decadente, arrogante, sarcástico e que não trabalhava em hipótese alguma, vivendo de golpes e à custa da família da esposa. Nem vou falar da Magda, a esposa, que era um insulto a todas nós mulheres e um estereótipo dos mais vis. O bordão favorito do Caco começava com “pobre” e daí se seguia alguma assertiva crítica, proferida com um esgar de desprezo e raiva.

 

Uma noite de domingo, Caco Antibes disse: “pobre não pode ver um bebê nascendo que já sai fazendo sapatinho de tricô e roupinha de crochê, uma cafonice, odeio pobre”, seguido da mesma ladainha de sempre, desejando a morte ou o sumiço dos pobres que tanto lhe ofendiam e incomodavam. E para mim foi a conta. Nunca mais assisti.

 

Durante uma boa parte da minha vida, tricotei mantinhas e sapatinhos para os bebês que chegavam, quer fossem da família, quer fossem dos amigos mais próximos. Era uma maneira de expressar que aquele bebê era bem-vindo e que seria muito amado por todos nós. Só parei recentemente porque as pessoas hoje são “cool” demais para entender esse tipo de gesto.

 

Quem nunca foi pobre ou viveu essa vida de família que caracterizava as pequenas comunidades do século passado, não tem a capacidade para entender nem imaginar esses nadas. Esses pequenos gestos de compartilhar tradições e costumes. A vizinha que benze as crianças quando estão doentes ou não, os rituais de passagem do nascimento à morte, os casamentos simples com lanchinhos de “boi ralado”.

 

Toda uma realidade de gente simples, mas trabalhadora, de lutas sem fim para pagar as contas, de tristezas e alegrias partilhadas. De comemorar tudo com comida simples e remetendo às nossas origens. De festejar a vida, ora em torno da igreja, ora em torno da família.

 

Para personagens como Caco Antibes, acostumado a ter a Riviera Francesa e Manhattan como referência, a vida suburbana dos pobres era uma cafonice imperdoável. Para alguém obcecado em ter e gastar grandes quantidades de dinheiro em luxos e ostentações, os sacrifícios e as dificuldades dos mais pobres não passavam de material para deboche e sarcasmo. A insensibilidade da personagem não refletia apenas sua ignorância, mas também sua ânsia por algum tipo de eugenia que a livrasse de ter que dividir o planeta com os pobres que tanto abominava.

 

Eu parei de assistir ao programa porque aquele comentário tornou Caco Antibes real. Ele deixou de ser uma personagem caricata de um imbecil decadente para tornar-se um tipo de ser humano que eu já havia encontrado mais de uma vez. E não era engraçado, não para mim.

 

Para quem vive no luxo e na opulência das alturas sociais, todos os pobres são sujos, todos os pobres são bêbados ou vagabundos que devem ser obrigados a trabalhar. Para quem acredita que sua “cultura” é a única possível, torna-se impossível decifrar a riqueza e a variedade de comportamentos, costumes e tradições, vindos de muitas partes do Brasil e do mundo, que os pobres compartilham. Para quem acredita que seu deusinho mesquinho, acostumado com suas hipocrisias de igreja, o colocou no mundo para ser superior aos outros, é fácil acreditar que a solução para as questões sociais é eliminar os pobres.

 

Hoje, Caco Antibes foi instalado na prefeitura da maior cidade do Brasil pelo povo simples que ele sempre abominou. E empreendeu uma cruzada cruel para eliminar os pobres das ruas, tirando-lhes cobertores e colchões, negando-lhes o acesso à comida, acordando-os com jatos de água fria nas geladas manhãs de inverno. Caco Antibes quer que os pobres morram e agora ele tem como realizar seu desejo.

 

E eu nem consigo expressar o tamanho da minha tristeza por ter que presenciar impotente este espetáculo de insensibilidade, arrogância e prepotência cruel.

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4 Respostas to “CACO ANTIBES NA PREFEITURA”

  1. Danilo Vizibeli 24/07/2017 às 3:45 pm #

    Excelente texto, professora. Quando o Sai de Baixo passou na Globo, na sua apresentação original, pois ele é sempre repetido no Canal demodé Viva e também agora aos domingos, eu era ainda criança e não entendia muito bem das ideologias que estavam por trás do humorístico. Hoje entendo que sempre rimos de tipos caricatos que aparecem na TV e nos acostumamos a ver como comum algo que é uma imposição e uma ditadura da elite e da direita. Ao contrário do que fizeram alguns autores com Jorge Amado, ao traçar os seus tipo caricatos, mas com forte denúncia e apelo social, os roteiristas de plantão usam dos tipos caricatos para difundir uma cultura misógina, segregacionista e excludente.

    • annagicelle 24/07/2017 às 6:04 pm #

      🙂 obrigada, é bom saber que mais pessoas concordam 🙂

  2. Roseli 26/07/2017 às 1:31 am #

    Olá Anna! Os Cacos desse país, tem suas vidinhas mediucres tão deprimente, que são incapazes de reconhecer o valor das familias pobres trabalhadoras.
    Que era uma porcaria de programa há isso era. Numa prefeitura, bá… Abraçis Anna!!

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