AS MENINAS DO LAPA

22 jul

Amaral Lpa

 

Eu não sabia que era uma “menina do Lapa” até o dia em que Raquel Glezer entrou porta adentro da sala de Eni de Mesquita Samara e deu de cara comigo e Cristiane Fernandes Lopes (hoje Cristiane Veiga) recebendo orientações. E disse “ah, você está com as meninas do Lapa, precisamos enviar uma carta a esse homem, agradecendo a qualidade das orientandas que nos manda”. E aí a Eni soltou aquela gargalhada sonora e inesquecível e nós ficamos ali meio constrangidas, meio orgulhosas de saber como nos viam na USP.

 

Até então, o que eu mais adorava na “fefelech” (FFLCH – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) era o anonimato, poder andar pelos corredores com a impressão de que ninguém ligava ou sabia quem eu era. Diferente do “ifich” (IFCH – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da UNICAMP, onde foucaultianos e thompsonianos rosnavam uns para os outros pelos corredores, como troçara um dia do Paulo Miceli. Sempre pensei na USP como muito menos claustrofóbica que a UNICAMP e a comparação das duas experiências me fazia sentir mais afortunada e completa.

 

Conheci o Professor José Roberto do Amaral Lapa no segundo semestre de graduação, em 1987, era um homem simples, com um senso de humor delicioso e uma vocação e capacidade para a docência como poucos. Jamais o vi dizendo a alguém “você está errado” ou “esse seu texto é fraco”, ele lia com paciência qualquer besteira que nós escrevíamos e depois dizia algo como “que interessante, isso me lembra o texto tal de (e aí se seguia alguma referência), por que você não dá uma olhada? pode ser que ajude a organizar suas ideias”. E essa era a deixa para que nós fossemos estudar mais, qualquer aluno com um mínimo de inteligência corria para o texto indicado e percebia o quanto ainda tinha que aprender.

 

Nós, que éramos as “crias” de seu Centro de Memória, costumávamos referir-nos a ele apenas como “o Professor”. E todos sabíamos de quem se tratava, aos outros docentes chamávamos familiarmente por seus nomes, mas o Lapa era toda uma instituição. Suponho que ele devia achar muita graça em toda aquela deferência, sendo a pessoa despojada que era.

 

E tivemos muitos professores incríveis. Leila Algranti, Silvia Lara, Célia Marinho e “Mara” Trevisan, tão seguras e dominando vastas bibliografias que eu me sentia minúscula em sua presença. Sidney Chalhoub, Paulo Miceli, Michael Hall e Bob Slenes, que nos ensinaram a destrinchar textos e classificar autores, enquanto nos encantavam com suas aulas. Denise Bottmann e Marco Aurélio Garcia (que perdemos esta semana), cuja erudição e aulas impecáveis marcaram minha memória para sempre. Por sorte, em todo o tempo de graduação, encontramos apenas três professores autenticamente medíocres e dois verdadeiros picaretas.

 

Mas o Lapa era um caso único. As lições mais marcantes para a profissão e para a vida, que aprendi com ele, eu nem percebi que estava aprendendo. Ele moldou meu perfil de pesquisadora ao dosar as responsabilidades que me passava como bolsista de pesquisa e ao confiar em meu trabalho, sempre incentivando meu aprimoramento.

 

Era um senhor baixinho, com uma voz rica de simpatia humana, que nos acolhia sob suas asas paternais e nos brindava com suas histórias e experiências. E era um pária no “ifich”, visto pelos outros acadêmicos como uma figura folclórica de conteúdo local e sempre preterido (ele e seus orientandos) nas seleções de mestrado e doutorado. Mas não perdia o pique e não nos abandonava, e foi por isso que tantos de nós acabamos fazendo a pós-graduação na USP.

 

Quando eu terminei a graduação e prestei a seleção de mestrado na UNICAMP, minha pesquisa já tinha dois anos e um cadastro na FAPESP, mas a politicagem do departamento fez com que as duas vagas na linha de pesquisa de Escravidão e Trabalho Livre fossem para duas pessoas que mal tinham projeto, mas que tinham os orientadores “certos”. Depois de formada, essa não foi a última vez que o “ifich” me bateu com a porta na cara, das mais recentes prefiro nem comentar. Mas diante da recusa do departamento, o Professor me encaminhou imediatamente à USP e em seis meses eu já estava matriculada no programa de mestrado da “fefelech”.

 

Regina Célia Galante Spagnol e eu fomos as primeiras. Nos anos que se seguiram acredito que o Professor Lapa encaminhou mais meia dúzia de pesquisadores recusados pela UNICAMP que a USP aproveitou e acolheu. Sabe-se lá o porquê, a maioria de nós éramos mulheres, daí o “meninas do Lapa” que a Raquel Glezer usou com a pontinha de malícia de seu humor peculiar.

 

Nos anos que se seguiram, continuei frequentando o Centro de Memória e sendo incluída nos eventos, graças à deferência que o Professor dedicava ao meu trabalho. Quando concluí o mestrado, foi através dele que publiquei minha dissertação na coleção Campiniana. E tive a honra de ter minha pesquisa mencionada em seus últimos livros.

 

Numa das últimas vezes que o vi, íamos do Centro de Memória à Faculdade de Educação para um evento e eu estava ansiosa para contar sobre os avanços da minha pesquisa de doutorado, mas o conversa tomou um rumo inteiramente diferente. O Professor me perguntou preocupado se eu tinha babá e eu fui obrigada a rir, afinal não tínhamos nem onde cair mortos, quanto mais esses luxos, contei-lhe sobre as peripécias de revezamento que incluíam meu marido, minha mãe e até minha sogra, para que eu pudesse “tocar” o doutorado. E ele me falou do netinho pequeno, que morava em sua casa e que a esposa cuidava, estava escandalizado por uma série de reportagens sobre uma babá flagrada espaçando um bebê.

 

Depois disso, o contato ia e vinha esporadicamente porque eu estava subjugada pelo trabalho, a casa e a tese. Um dia, o telefone tocou cedo demais e o recado na secretária eletrônica me informava que o Professor se fora repentinamente. Tanta coisa ficou por dizer…

 

Nunca lhe agradeci o suficiente por tudo o que fez por mim. Por sua acolhida generosa, suas lições inestimáveis e a grandeza com que me encaminhou na carreira docente. Suponho que as palavras que eu não disse ficaram implícitas no trato das nossas conversas e que ele entendia, a seu modo, o meu constrangimento e a minha admiração.

 

Hoje, depois que o mercado me descartou e a internet me proporcionou a experiência de ter mais alunos em quatro anos do que teria em décadas de docência formal, ainda me sinto (com muita honra) uma “menina do Lapa” e ainda quero ser como ele quando crescer.

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2 Respostas to “AS MENINAS DO LAPA”

  1. Roseli 25/07/2017 às 9:48 pm #

    Olá Anna! Me encanto com seu carinho, quando leio seus trabalhos, parece que estou lendo um dicionário em quadrinhos animado, suas palavras são muito bonitas e criativas. Pena as portas fexarem a vc, uma pessoa inteligente e amável.
    Meninas do Lapa. Amei, parabéns!!

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