A UNIVERSIDADE PÚBLICA EM PERIGO

4 ago

Em fevereiro de 1987, quando fiz minha matrícula na UNICAMP e comecei minha graduação em História, fui informada pelo palestrante que recepcionou os calouros de que, naquele momento, eu passara a fazer parte do um por cento dos estudantes que chegava ao ensino superior. Havia um clima de celebração do privilégio e da meritocracia de destacar-se passando em um vestibular extremamente concorrido. Havia a sensação de que o ensino superior nas universidades públicas estaduais (consideradas centros de excelência) abriria as portas do mundo para todos aqueles estudantes, minoria das minorias.

 

O tempo provou que a meritocracia era relativa e o privilégio absoluto. Provou também que (ao menos nas Ciências Humanas) bem poucos de nós conseguiríamos cursar e perseverar no ensino superior sem algum auxílio. Os sistemas de bolsas (SAE, FAPESP, CAPES, CNPq) foram responsáveis por nossa permanência e nossa sobrevivência.

 

Naqueles tempos, as universidades federais estavam abandonadas e as estaduais permanentemente ameaçadas por cortes orçamentários. Mesmo assim, eram centros de produção de conhecimento e primavam pela formação de profissionais de primeira linha. O abismo no ensino superior, entre as instituições públicas e privadas, era de tal sorte, que as pessoas arregalavam os olhos quando mencionávamos onde estudávamos.

 

E como estudávamos!!!

 

Os cursos eram integrais e a carga horária e a quantidade de leituras eram consideráveis. Mas compensava porque nos abria a mente, transformando nossa maneira de ler, de pensar, de escrever e de argumentar. Entrávamos com uma carga de conhecimentos de almanaque, devido ao estado lastimável do ensino de Humanas durante os anos da ditadura e saíamos desconstruindo qualquer discurso.

 

Imaginem o que foi (no meu caso em particular) sair de uma fábrica e entrar em um ambiente em que todos os meus professores já haviam escrito mais de um livro. Encontrar bibliotecas imensas, com livros em várias línguas e uma carteirinha que franqueava as portas de um mundo de sonhos e acesso infinito à cultura. E as conversas sem fim pelos corredores e escadas, com colegas e professores, em que se ampliavam as discussões das salas de aula.

 

Nunca vou esquecer um episódio que aconteceu durante o meu segundo ano de graduação. Estava naquele ponto em que todos pensamos que aprendemos a escrever em “academiquês” e fiz um texto cheio de mesóclises em narrativa neutra e entreguei orgulhosa para o (logo quem) Sidney Chalhoub. Na devolução, ele me perguntou se eu era parente do Jânio Quadros e meu flerte com as mesóclises terminou ali de uma vez por todas.

 

Já fiz mais de um texto neste blog tecendo loas aos professores maravilhosos que conheci na universidade pública. Já deixei bem claro, em todas as mídias e redes sociais de que participo, a dívida insanável que tenho com os sistemas de financiamento que me permitiram sobreviver enquanto estudava. E já devolvi socialmente muito do que recebi, socializando o conhecimento que obtive para ajudar jovens estudantes em suas caminhadas.

 

Mas nem tudo foram flores nessa trajetória. Nos anos 90, o projeto de desmonte das universidades públicas deixava os sistemas de financiamento à míngua. À exceção da FAPESP, todas as outras bolsas demoravam e falhavam no atendimento aos estudantes, com uma frequência assustadora.

 

Os anos FHC foram de penúria para o ensino público em todas as instâncias. Mas a determinação de não abrir concursos penalizou sobremaneira as universidades, impedindo novas contratações quando a morte ou a aposentadoria levava algum docente. Houve casos de acúmulo de disciplinas para manter o calendário, com os professores lecionando na graduação e na pós, orientando alunos e ainda tendo que produzir publicações diante das exigências descabidas dos “novos paradigmas” de avaliação.

 

Foi nesses tempos que se institucionalizou a prática de chamar alunos de pós para ministrar disciplinas, para aliviar a pressão dos titulares e ganhar tempo enquanto se esperava a liberação de novos concursos. O sucateamento que já atingia as universidades federais acabou por alcançar as estaduais e nunca mais as abandonou, especialmente em estados em que o projeto de gestão neoliberal prosperou. E mesmo assim as universidades resistiram.

 

A década de expansão progressista que propiciou a abertura de novos campi federais pelo Brasil afora, acolhendo uma geração inteira de alunos ávidos, cujas famílias jamais sonharam com tais oportunidades, foi um período de otimismo e esperança. Os sistemas de financiamento socializaram o acesso à universidade pública e transformaram os perfis demográficos dessas instituições. Parecia que o Brasil finalmente era o que poderia ser.

 

Mas a ameaça sempre permaneceu latente. Os meios de comunicação, que pregam o neoliberalismo desde que seja para os outros, passaram os últimos quinze anos defendendo a privatização do ensino superior no Brasil. Como se já não bastasse a demonização dos professores, “eternos grevistas”, a universidade passou a ser vista como um custo, e não o investimento que ela realmente é.

 

A pressão constante dos discursos distorcidos criou uma imagem esquizofrênica de elitização do ensino superior, no primeiro momento em nossa História em que realmente a universidade adquiria uma feição mais plural e democrática. Neste momento, em que deputados recebem benesses e afagos para manter os golpistas no poder, as universidades têm seus orçamentos reduzidos. Enquanto os quadros da casta judiciária acumulam auxílios e penduricalhos, os professores e os alunos são considerados como uma carga para o Estado.

 

O sucateamento sistemático das universidades segue o roteiro neoliberal que desemboca (cedo ou tarde) na ruína dos interesses nacionais e na privatização acéfala dos maiores patrimônios materiais e imateriais que o país tem a oferecer. E essa é uma saga que vem se desenvolvendo implacavelmente à revelia das nossas lutas e das nossas contribuições à construção de um pensamento científico respeitável e respeitado. Nas mãos de tecnocratas, apadrinhados políticos medíocres e funcionários de capacidade duvidosa, as secretarias, ministérios e agências reguladoras responsáveis pelo ensino, mais destroem do que ajudam, com poucas e honrosas exceções.

 

Sim, a universidade pública está em perigo como nunca antes esteve. E muitos não percebem porque passaram tanto tempo com a navalha na jugular, que se acostumaram a viver sob ameaça. Especialmente aqui no “Tucanistão”, aonde uma sucessão de governos inimigos vem sucateando sistematicamente as maiores universidades estaduais do país.

 

Não podemos aceitar o fechamento das federais como se fosse uma coisa normal. A UERJ, as federais em Sergipe, na Paraíba e pelo Brasil afora estão diariamente pedindo socorro para sobreviver e a mídia parece querer transformá-las em exemplo para subjugar as outras, enquanto o governo golpista rifa nossos direitos, nosso futuro e nossas esperanças. E a sociedade nem sequer tem capacidade de avaliar o que se perde com isso.

 

Devemos lembrar que houve ao menos uma década em que o Brasil foi o que poderia ser. Abrindo as portas da pesquisa científica e da produção de conhecimento a uma geração social e racialmente diversa, que oxigenou as universidades federais e começou a romper o cerco da classe média nas estaduais. Levando esses conhecimentos de volta a suas comunidades como professores, cidadãos e profissionais mais completos e ajudando a pensar um futuro mais auspicioso.

 

E essa década provocou tal pânico nas hostes do obscurantismo dominante, que hoje pululam por aí projetos de lei para amordaçar e destruir professores. A construção de um ensino plural e diverso acena para uma sociedade mais igualitária e menos injusta, e isso apavora os conservadores, os religiosos, os racistas, os homofóbicos, os machistas e os detentores de benesses e privilégios públicos. E a sociedade está sucumbindo a esse canto de sereia da intolerância porque não consegue avaliar o aspecto positivo das mudanças sociais.

 

Delenda brasilis eu escrevi recentemente neste blog. E a destruição do ensino público é parte determinante da realização do projeto neoliberal de destruir a nossa sociedade, para moldá-la à feição solicitada pelo Grande Irmão do Norte. Resta saber até quando as universidades conseguirão resistir.

 

A concretização do golpe de Estado e das reformas que nos anulam como cidadãos correm soltos, em parte, porque as classes populares querem consumir como classes médias, mas não querem abrir mão da mentalidade tacanha e tosca inoculada por seus padres, pastores, pela mídia e por um sistema de crenças que nos quer mais consumidores que cidadãos. Não me levem a mal, é claro que casas, geladeiras e fogões são muito mais do que necessários, mas nenhum governo (ou escola) até hoje conseguiu fazer com que as pessoas (em geral) valorizassem os tesouros da mente, do mesmo modo como perseguem a prosperidade material. E a cidadania só se concretiza quando se aprende a valorizar os patrimônios materiais e imateriais, tanto pessoais quanto sociais e nacionais.

 

Eu devo demais à universidade pública para assistir ao seu desmonte calada e escondida. Mas só posso oferecer palavras porque a gasolina está cara demais para os “molotovs”. Então que sejam palavras:

 

Giordano Bruno disse que os mundos eram infinitos,

E foi queimado na fogueira com lenha verde,

Tendo sua língua cortada para que o povo não o ouvisse,

Mas os mundos continuaram sendo infinitos.

 

Galileu disse que a Terra girava em torno do Sol,

E foi reduzido ao silêncio e à penitência,

E mesmo assim a terra é redonda, se move,

E gira em torno do Sol.

 

Darwin disse que as espécies evoluem por seleção natural,

E professores têm sido impedidos de ensinar sobre isso

Pelo mundo afora e perseguidos e silenciados,

E mesmo assim a evolução é um fato.

 

O conhecimento persiste, subsiste, sobrevive e se multiplica,

Mesmo sob a ameaça das fogueiras, dos calabouços,

Da miséria e da tortura, porque o conhecimento somos nós,

E não podem silenciar-nos ou matar-nos a todos infinitamente.

 

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2 Respostas to “A UNIVERSIDADE PÚBLICA EM PERIGO”

  1. Rachel Carvalho 04/08/2017 às 9:05 pm #

    Perfeito… tudo que não podemos deixar é que roube nossos cérebros (agora entendo esse discurso cubano), a cada dia que passa temos mostrado que temos competência e perseverança para mesmo com as migalhas produzirmos tanto. As universidades brasileiras são os Davis (Bíblicos) e temos vencido os gigantes.

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