AVISO AOS NAVEGANTES

6 ago

Você não precisa ser um mentecapto defensor da eugenia e do genocídio para ser racista. Basta que você considere como natural o estado atual das desigualdades sociais, que você se sinta com direito às benesses sociais enquanto condena os que precisam de auxílios ou que você não sinta um mínimo de empatia sequer perante as tragédias anunciadas que assolam vários países africanos ou perante os jovens negros assassinados pela polícia nas grandes cidades do Brasil e dos EUA. O racismo é um sistema de valores que perpassa a economia, a sociedade e a História, e deixa atrás de si a desigualdade, a miséria e a morte.

 

Do mesmo modo que não precisa ser um agressor de mulheres para ser machista.  Basta que você considere como natural esparramar-se no sofá enquanto sua mulher ou sua mãe se esfalfam para manter arrumada uma casa que você só bagunça ou para preparar sua comida, mesmo que você sequer retire seu prato da mesa. O machismo é um sistema de valores que igualmente perpassa as várias instâncias sociais e históricas deixando seu rastro de desigualdade, miséria e morte.

 

Mas, preste muita atenção, para ser capitalista você precisa de capital. Quer seja cuidadosamente consolidado em uma carteira de investimentos, para que você possa auferir uma renda estável; quer seja em propriedades móveis ou imóveis, ligadas à produção ou ao comércio, mas que lhe permitam auferir rendas consideráveis e não precisar viver ao sabor do acaso. Para ser capitalista é necessário, em qualquer hipótese, dispor do capital que faz o sistema funcionar.

 

Se você toca um carrinho de pipoca ou vende um “dogão” no portão de casa após um exaustivo dia de trabalho, você não é empresário. Se você recicla lixo, revende produtos ou explora alguns pobres coitados oferecendo seus serviços a terceiros, você não é um capitalista. Você micro, pequeno e médio empresário é apenas mais um pobre entre bilhões de pobres descartáveis.

 

Ser capitalista não é uma condição do vir a ser; se você precisa da loteria ou da ilusão de uma vida inteira de trabalho duro, lamento informar, mas a probabilidade de você se tornar um capitalista de verdade é menos que irrisória. Você continuará apoiando e defendendo um sistema que o esmaga, milionários que o desprezam e políticos que tiram o pão da boca dos seus filhos e netos, e mesmo assim morrerá tão insignificante quanto viveu. Porque para ser capitalista não basta compartilhar a ideologia dos que o exploram, é preciso ter acesso ao dinheiro e ao poder que sustentam e impõem essa ideologia.

 

Cuidado, então, com passar sua vida ajoelhando-se, sacrificando aos deuses do mercado seu esforço, sua família, sua consciência e suas ilusões. Cuidado para não ser o palhaço que aplaude vivamente enquanto o sistema engole e regurgita seus irmãos. Cuidado para não ser o pusilânime que festeja as forças policiais espancando e matando negros, gays, mulheres, estudantes, professores ou jornalistas.

 

Porque a Revolução um dia vai chegar. Pode não ser agora, pode não ser a minha revolução comunista ou aquela anarquista que os meus amigos defendem. Pode não ser a milenarista que os cristãos esperam para sentar-se à direita de seu deus. Pode não ser a eugenista que os nazifascistas de plantão preparam para esmagar os diferentes. Mas ela vai chegar.

 

E vai chegar porque existe um limite para a exclusão, para a desigualdade, para a exploração e para o sacrifício. Existe um limite de expansão para essa economia predatória e para essas sociedades de poucos privilegiados e muitos esmagados. E, certamente, existe um limite para sonhar com mobilidade em uma sociedade que elimina a possibilidade de sobrevivência.

 

E quando a Revolução chegar, você que chorou pelas “princesinhas” Romanov, pelos poucos fuzilados da Revolução Cubana ou pelos “gusanos” parasitas vivendo em Miami da exploração da memória, tenha certeza que seu lugar no “paredón” estará garantido. Você que se regozija ao ver jovens negros amarrados em postes, trabalhadores reduzidos a uma condição bovina ou professores espancados em manifestações terá sua devida recompensa. Você que explora quem não pode se defender, enquanto obsequiosamente lambe o chão por onde os capitalistas de verdade passam, não perde por esperar.

 

Porque muito mais asqueroso que o rico explorador é o miserável que lhe inveja a sorte e aspira a tornar-se seu igual, voltando as costas ostensivamente e apoiando todo o mal que a sociedade destina aos seus irmãos de origem.

 

É uma questão de tempo.

 

E, por último, mas não menos importante, este texto tem altas doses de ironia. Se você fugiu da escola nas aulas sobre figuras de linguagem, cuidado. Peça para alguém capacitado ajudá-lo na leitura.

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6 Respostas to “AVISO AOS NAVEGANTES”

  1. elaine reis 06/08/2017 às 10:00 pm #

    Sensacional, sem mais.

  2. Roseli 06/08/2017 às 10:21 pm #

    Olá Anna?! Concordo com vc plenamente.

  3. JCFF 25/08/2017 às 1:22 pm #

    Um texto muito forte, sra., em todos os sentidos. Aliás, eu lamentei (embora não tenha chegado a chorar) pelas princesas Romanov, e principalmente pelo rapazinho hemofílico. Embora, claro, não apenas por eles, e sequer principalmente por eles. Não sei se isso me coloca no “paredão”. Não estaríamos todos nós, dum modo ou de outro, já encostando no “paredão”? De qualquer modo, meus votos de felicidade, e parabéns pelos textos.

    • annagicelle 25/08/2017 às 4:22 pm #

      🙂 Obrigada 🙂 Talvez não no paredão, mas à beira de um abismo profundo certamente estamos.

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