O INSANO MOVIMENTO ANTI-VACINAS

23 ago

Eu não sou da área de saúde e meus conhecimentos sobre Biologia são incipientes. Eles me valeram para transpor o vestibular há trinta anos e, embora goste de acompanhar os avanços científicos através da imprensa (pouco especializada), falta-me o treino necessário para distinguir afirmações convenientemente embasadas do resto do lixo conspiratório que circula na internet. Evidentemente, algumas das bobagens que leio são fáceis de desmascarar, mas não todas.

 

É por isso que sempre recorro aos poucos médicos em que confio para checar informações e pedir conselhos. E eu não sou de acreditar em qualquer médico, levei décadas para reunir menos de meia dúzia de especialistas a quem confio minha vida e minha sorte. E até hoje isso tem sido satisfatório, afinal, continuo viva.

 

Sou de uma das primeiras gerações que se beneficiou com a aplicação sistemática de vacinas. Tive a sorte de passar a primeira infância em um país em que a medicina parcialmente socializada permitia o acesso às principais vacinas necessárias existentes no momento. E, mesmo quando surgiam novidades ainda não encampadas pelo sistema, tive pais conscientes que se sacrificaram para comprar a vacina do sarampo quando ainda era uma incógnita.

 

Ergo, nunca tive sarampo, meningite, pólio, coqueluche, tétano, difteria ou varíola. Até hoje tomo regularmente as vacinas contra o tétano e a gripe e quando ocorre alguma epidemia maior e o governo libera vacinas, faço questão de estar imunizada. Apliquei a mesma política à minha filha e não tenho arrependimentos.

 

Antes dos governos socialmente conscientes, paguei por várias vacinas que hoje existem regularmente na rede pública (sabe lá por quanto tempo com esse governo golpista que corta os benefícios sociais dia após dia) e, bem orientada pelo pediatra, mantive as margens de segurança para que minha filha tivesse uma infância tão saudável quanto a minha. Por isso mesmo é que não entendo pessoas pretensamente educadas esbravejando na internet sobre vacinas causadoras de autismo. Como se alguém soubesse o suficiente sobre o próprio espectro do autismo para afirmar o que quer que seja sobre suas causas ou mesmo como se artigos esparsos na rede sem confirmação ou contraprova fossem confiáveis.

 

Anda por aí uma tendência paranoica que, desde uma esquerda que não confia em laboratórios até uma direita com sua eugenia inconfessável querendo filhos “normais”, despreza a vacinação e faz amplas campanhas contra. Essa barbaridade começou (que novidade!) nos Estados Unidos, país já notório pela submissão ao fanatismo religioso e pelas amplas parcelas de ignorantes com diplomas. E a internet está servindo de fator de difusão para essas maluquices.

 

Mas não são apenas maluquices, há certamente um componente do individualismo egoísta contemporâneo que chega a assustar. Afinal, pouco importa a muitas dessas pessoas que vivamos em um mundo superpovoado, empilhados em cidades onde nossas crianças estudam em escolas com amplo trânsito de pessoas, ampliando o risco de epidemias de modo superlativo. Desde que seus filhos estejam seguros de males imaginários, pouco lhes importa colocar em risco o resto do planeta.

 

E assim começam a ressurgir doenças já erradicadas e essas pessoas nem sequer entendem porque seus filhos e elas mesmas se tornam um fator de risco. Quem se lembra do pânico causado pelos surtos de gripe, nas últimas duas décadas, é capaz de imaginar o que aconteceria se nos víssemos às voltas com o retorno da varíola ou da difteria. Basta observar como o aumento da miséria no planeta e a complexidade das doenças autoimunes estão promovendo o retorno da tuberculose, que parecia controlada há menos de duas décadas.

 

Quando surgiu a vacina contra o HPV eu corri a consultar minha ginecologista sobre a possibilidade de vacinar minha filha, naquele momento a vacina era caríssima e estava fora da rede pública. A Dra. Vera, em quem confiei por mais de vinte anos, me garantiu que a vacina era segura e que a janela de imunização era longa o suficiente para que eu pudesse esperar o barateamento. Eventualmente o governo liberou a vacina, mas então minha filha já não estava na faixa etária indicada e eu tive que pagar mil e duzentos reais no total pelas três doses.

 

Hoje o governo libera a vacinação, mas tudo bem, agora já foi. Minha filha não sofreu qualquer efeito colateral, nem mesmo a tontura ou soneira que a clínica particular esperava. E eu tirei um peso imenso dos ombros, tão imenso que nem sei se vou conseguir colocar em palavras.

 

Eu venho, pelo lado materno, de uma família em que o câncer é uma sentença. Dos treze irmãos, minha mãe incluída, cinco (ao que eu saiba) já apresentaram a doença, sendo que três vieram a falecer por causa disso; essa conta inclui meu avô, alguns primos próximos e distantes e ao menos uma tia-avó. Minha mãe sobreviveu à doença e eu mesma vivo de preventivo em preventivo, tendo já removido vários pólipos que poderiam ter evoluído para tumores se deixados à própria sorte.

 

A genética já está “presenteando” minha filha com o risco de hipertensão e diabetes dos dois lados da família e com uma vasta possibilidade de câncer do meu lado. Qualquer coisa que eu possa fazer para poupá-la dos riscos envolvidos nessa doença, ainda será pouco e é por isso que fiquei tão eufórica quando essa vacina surgiu e não descansei até que ela tivesse acesso. Porque tudo o que posso fazer é agir ampliando os fatores de prevenção e consciência.

 

Jamais me perdoaria se a minha omissão causasse qualquer doença em minha filha ou em qualquer outra pessoa do meu entorno, seja parente ou não. Acredito que é nossa responsabilidade assumir o cuidado não apenas dos que são nossos pelo sangue, mas de todos com quem dividimos o cotidiano em nosso planetinha superlotado. Considero de um egoísmo atroz negar a imunização a quem quer que seja apenas baseado em estatísticas de internet.

 

Não vou nem entrar no mérito sobre fatores de risco, taxas de mortalidade ou complexidade demográfica. Nem sequer quero discutir sobre o anacronismo de comparar nossas condições de vida com as dos séculos passados, do modo ligeiro e raso que os teoristas de conspiração empregam para semear o pânico. Basta pedir para que vocês imaginem o que poderia ter acontecido se nossos pais fossem tão crédulos e irresponsáveis quando a epidemia de meningite atingiu São Paulo em meados dos anos 70.

 

Quantos de nós ainda estaríamos aqui?

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3 Respostas to “O INSANO MOVIMENTO ANTI-VACINAS”

  1. mario cezar 05/10/2017 às 3:23 pm #

    Mas assim… como que Cuba pode ter medicina avançada se demanda mt dinheiro e cuba n tem dinheiro nem pra repara teto. A senhora costuma dizer q n tem erudisao e sabedoria(mas n fala grego, latim, nem é teóloga e xinga jesus… qq é isso), então por acaso a senhora tem conhecimentos avançados sobre custos financeiros? como pode defender cuba ora essa

    alias estou mt envergonhado por ter apagado o meu outro comentário. a senhora é contra escola sem partido mas sensura quem vc não gosta. isso é perseguição com os seguidores de nazareno

    • annagicelle 06/10/2017 às 5:17 pm #

      Aqui você foi desnecessariamente sarcástico e propôs uma não-questão apenas para provocar. 😦

  2. mario cezar 09/10/2017 às 1:02 am #

    esta vendo como a esquerda e? vc me ofende falando q não sei ler texto mais me rotula de sarcástico msm n querendo ser. me perdoe se haver necessidade, não seja por isso. poxa se eu sou analfabeto como vc deixa implícito da um desconto ne… sou formado em admnistracao e n fico me exaltando aqui so acho a senhora mt ofensiva quando tratarse de religiao e de direita tenho certeza q já deve ter havido varias outras pessoas q ja te diseram isso antes de mim nesse blog alias se bobear ja mandaram palavrao pra voçe aqui ou coisa ate pior, e eu nunca fiz isso, se fui debochado me perdoe

    so n entendo pq vcs comunistas se sentem tao superiores aos cristãos a ponto de omitirem todas as violações de direitos humanos q uniao soviética , coreia do norte etc fizeram com a gente ai aparece algum evengelico exaltado falando bobagem q nois n consideramos um bom líder e vcs ja grifam ele e generalisa a gente tudo. isso e desonestidade intelectual

    eu vendo a senhora defendendo o banimento da fe e algo assustador. para lutar pelos gays q sofrem injustiça social(reconheço) vcs vao por em risco a vida de todo o resto da população? tem q haver outra saida justa para todos pensa bem vc n pode ser ingênua de fingir q comunista n e uma maquina de matar religioso

    e n diga q o capitalismo mata pq eu sei q ele mata mais troca 6 por meia dúzia n muda nada

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