IDEOLOGIA DE GÊNERO

1 set

Você já parou para pensar que todo pensamento articulado em torno de uma visão de mundo estanque é ideologia? Nesse sentido, religiões são tão ideológicas quanto partidos políticos e teorias econômicas. As pessoas apenas não percebem porque todos nós somos educados para perceber nossas próprias ideias como “verdadeiras” e as dos outros como equívocos.

 

É por isso que muitas pessoas não tem dificuldade alguma em perceber os deuses gregos e egípcios como mitológicos, mas se ofendem profundamente quando colocamos os deuses judaico-cristãos na mesma categoria. Ao se deixar seduzir por uma ideologia religiosa, o fiel precisa acreditar cegamente que aquela visão de mundo é uma verdade absoluta e inquestionável para que sua vida faça sentido. Nessa, como em qualquer outra instância da vida, o autoengano preserva o ego frágil dos ignorantes.

 

Nesse sentido, para qualquer pessoa minimamente pensante, quando se fala em ideologia de gênero imediatamente vem à mente os hábitos ultrajantes de vestir meninas de rosa e meninos de azul, de oferecer bonecas às meninas e brinquedos complexos aos meninos, de restringir o acesso profissional às mulheres e privilegiar os homens com salários e oportunidades melhores. Isso sem nem nos aprofundarmos no duplo padrão de moral que permite aos homens uma liberdade sexual que é negada às mulheres, transformando os espaços de convívio em uma constante ameaça de assédio para mulheres e meninas. Essa é uma ideologia no sentido mais palpável do termo, que permitiu à sociedade organizar-se para o trabalho capitalista, manter a dominação das religiões mais ignorantes e ainda, de quebra, supervalorizar o ego masculino em detrimento da realidade objetiva e material.

 

E a realidade objetiva e material, conforme já vem sendo estudado de maneira sistemática nas grandes universidades ocidentais por mais de cinquenta anos, indica que os papéis sociais são construídos ideologicamente ao longo do processo de educação e socialização. Meninas não nascem gostando de bonecas, nem de lavar pratos, nem de cozinhar e nem tem a biologia como destino no papel de mães, isso é inculcado a elas pelos modelos educacionais arcaicos. Meninas podem ser engenheiras, pedreiras, astronautas, astrofísicas ou cientistas nucleares se assim desejarem e se a sociedade tiver um mínimo de senso de justiça.

 

Elas podem e elas são quando isso é permitido, e mesmo quando não o é, elas lutam e conseguem viver de acordo com seus próprios termos, mesmo que para isso tenham que enfrentar a hostilidade, o sarcasmo e a violência do mundo masculino. A ideia de que a biologia é um destino, ao invés de um mero componente de um conjunto muito maior de circunstâncias, conserva-se no imaginário popular porque isso convém a diversos interesses na organização sistêmica da nossa sociedade. E a educação reflete lastimavelmente esses interesses.

 

E isso não é de hoje. O pensamento moderno iluminista, que colocou a república laica como única opção política viável, foi incapaz de gerar um sistema de educação que superasse essa armadilha do gênero. Basta ler Jean Jacques Rousseau e sua nouvelle Heloise de 1761, que preconizava uma educação feminina apenas para que as mulheres se tornassem mães melhores que educariam seus filhos como homens modernos.

 

Essa visão de que a maternidade é um instinto nato, uma realização em si do ethos feminino e um destino biológico inescapável é uma ideologia construída como qualquer outra. E beneficia uma visão ordenada e confortável de mundo em que cada um conhece seu lugar e seu destino, e as religiões e o estado patriarcal podem prosperar à custa da submissão feminina. É por isso que os direitos reprodutivos ficam à mercê de bancadas parlamentares majoritariamente masculinas e com perfil religioso conservador, ao invés de serem discutidos e viabilizados pelas principais interessadas que somos nós, as mulheres vivas, pensantes e agentes de seu próprio destino.

 

Os estudos universitários sobre gênero têm mostrado com volumosos dados demográficos, judiciários e educacionais, que esse modelo é responsável pelas altas taxas de violência no trato social, que a cada ano vitimam centenas de milhões de mulheres no planeta. E essa violência que vai da mera intimidação ou cerceamento de direitos humanos, passando pelas altas taxas de estupros e desembocando no assassinato propriamente dito é naturalizada a ponto de parecer inerente ao convívio social para muitos. Nesse sentido, uma discussão aprofundada sobre essa ideologia de gênero nas escolas ajudaria a combater a violência e criar novas gerações mais saudáveis do ponto de vista psicológico.

 

Educar o cidadão para respeitar os direitos humanos significa, nestes dias obscuros e odientos, ter que lutar com unhas e dentes para defender a humanidade dos não-brancos, das mulheres, dos homossexuais, transexuais e dos pobres em geral, em uma sociedade que nos vê como cidadãos e cidadãs de segunda classe e estorvos ao equilíbrio político e econômico. Porque a ideologia de gênero em que estamos mergulhados desde priscas eras é parte de um conjunto muito maior de medidas restritivas que garantem a cidadania atuante e a humanidade reconhecida aos privilegiados pela cor, pela biologia e pela fortuna. E isso fica bem claro ao ver a demografia prisional, a estratificação nas administrações públicas e nas empresas e, evidentemente, os números da violência social.

 

Vejam vocês que esses números esmagadores da violência social são solenemente ignorados ou, quando muito, apreendidos como a ordem natural das coisas nessa visão deturpada de mundo que também considera o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial como algo muito mais chocante que a escravidão africana na colonização das Américas. Isso porque claramente existe uma hierarquia no sofrimento humano, que faz com que as tragédias vitimando alguns mereçam mais destaque, empatia e solidariedade do que as que atingem a todos nós outros. Uma avaliação desapaixonada, despolitizada e irreligiosa da História seria capaz de identificar na opressão feminina, na escravidão africana e no holocausto judeu, as diferentes etapas da disputa por uma hegemonia narrativa do destino humano, que privilegia a minoria branca dominante.

 

A ideologia de gênero, presente em todas as instâncias de nossa sociedade, aprofunda os abismos de desigualdade que atingem também outros grupos igualmente marginalizados. Mas como não nos dão a oportunidade de estudá-la nas escolas, novas gerações de machinhos prepotentes estendem seus preconceitos contra gays, lésbicas, transexuais, estrangeiros não-brancos e portadores de saberes alternativos e ideias políticas diferentes. No cerne da visão de mundo hierárquica, desigual e cruel que viabiliza a constante violência social no mundo, a ideologia de gênero reinante tem papel preponderante.

 

Nesse sentido, não admira que grupos religiosos ligados a interesses econômicos escusos tentem criminalizar os estudos e os números do gênero e viabilizem legislações para impedir que a ideologia dominante seja criticada nas escolas e na sociedade. Eles estão lutando para preservar o caldo de cultura que permite que suas fortunas prosperem em detrimento da sociedade e dos cidadãos. Uma sociedade preponderantemente justa, radicalmente igualitária e livre das opressões ideológicas por eles promovidas certamente nem precisaria de religiões para mediar o convívio e seria muito mais humana.

 

 

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