“I HOPE THE KOREANS LOVE THEIR CHILDREN TOO”

5 set

Ontem dei de cara com esse status lacônico da minha irmã no Facebook. E imediatamente respondi “we share the same biology…” ecoando outro verso de Sting na canção Russians, de 1985. E pensei em quantos de nossos amigos entenderiam a referência.

 

De repente, meus mais de cinquenta anos pesaram ao lembrar que nós fomos crianças de Terceiro Mundo durante a Guerra Fria. Que acompanhamos o pouso na Lua, a Retirada de Saigon, os assassinatos do Che Guevara e de Salvador Allende, a derrubada do Muro de Berlin, a luta contra o apartheid e pela liberdade de Nelson Mandela. E tudo isso com o relógio nuclear pairando sobre nossas vidas.

 

E acompanhamos sim, desde a mais tenra idade, porque o nosso era um lar politizado. E, embora submetidas diariamente ao impacto da indústria cultural estadunidense, sempre tivemos acesso a uma pluralidade maior de autores e artistas, na medida em que nossa condição social permitia. E, claro, torcíamos pelos soviéticos diante da boçalidade constante dos americans e seus marines.

 

Vejam que hoje a eleição de Donald Trump nem chega a surpreender diante do impacto que foi a candidatura, a vitória e a reeleição de Ronald Reagan a partir de 1980. Reagan era um ator de terceira categoria, que teria que aprender muito para chegar a ser um canastrão, por isso se manteve na indústria cinematográfica agindo como informante das agências de inteligência de seu país e perseguindo comunistas reais e imaginários. Os Estados Unidos já tiveram muitos presidentes medíocres ou inexpressivos, mas Reagan era de uma burrice e ignorância atrozes.

 

Era um valentão dado a bravatas e frases de efeito, mas totalmente ignorante em relação à política externa e economia. Sob sua batuta, a tensão nuclear escalou a um ponto que as pessoas construíam bunkers em seu país, considerando a guerra como uma realidade iminente. A cada conflito protagonizado por países do Terceiro Mundo, inseridos na esfera de influência das duas potências, ficávamos esperando quem detonaria a primeira bomba nuclear, e tínhamos certeza que seria ele.

 

E não estou falando apenas de caipiras ignorantes nos grotões do Cinturão da Bíblia, crianças impressionáveis no terceiro mundo ou imprensa sensacionalista que usava a tensão nuclear para desviar a atenção das reformas neoliberais promovidas por Reagan e Margareth Tatcher, que mergulharam o ocidente em uma sucessão de crises, miséria e morte. A paranoia nuclear chegou a tal ponto que E. P. Thompson, um dos mais brilhantes historiadores britânicos, abandonou a pesquisa acadêmica para dedicar-se ao ativismo anti-nuclear, escrevendo livros e protestando nos portões dos silos e bases nucleares no Reino Unido. É nesse clima que a canção de Sting deve ser ouvida e foi todo esse cortejo de lembranças que o status da minha irmã trouxe de volta.

 

Para os jovens nascidos após o desmonte da União Soviética deve ser até estranho esse tipo de lembrança de viver em um mundo em crise permanente. A ideia de que éramos reféns dos cenários de guerra idealizados no Pentágono e no Kremlin e estávamos sempre pensando quem seria o primeiro a apertar o botão vermelho. E que mundo iríamos herdar desses velhos idiotas e encarquilhados.

 

A História se repete? Certamente não, nem como tragédia e nem como farsa, afinal a espirituosa tirada de Marx é muito mais uma provocação política que um axioma teórico, mesmo que seduza os voos retóricos de muita gente ainda. O que temos hoje é um cenário bem diferenciado, guardadas as devidas proporções para não incorrer em anacronismos baratos.

 

A Coréia do Norte não é a União Soviética. Não tem a importância geopolítica de Cuba, do Irã ou do Afeganistão. É um pequeno país miserável e inexpressivo no cenário internacional, que joga sua derradeira cartada nessa reedição barata do clima da Guerra Fria.

 

A Coréia do Norte é uma ditadura que de comunista nem sequer tem a sombra. É o espelho em negativo da Coréia do Sul, também miserável e tão ditatorial quanto, embora tenha o cuidado de camuflar seus governos corruptos em uma aparência de democracia eleitoral. E seus mísseis e bombas são uma tentativa patética de desviar a atenção do mundo da precária posição política e econômica em que se encontra.

 

Os Estados Unidos não tem interesse algum em impedi-la de produzir seus mísseis e bombas porque isso lhes fornece um álibi para ter um inimigo externo demonizado com quem apavorar sua população. Basta ver o caso do Irã, que é muito mais útil à geopolítica estadunidense sofrendo sanções por pretensa produção de armas químicas do que estabelecendo uma paz negociada na região. Haja vista a atitude mesquinha e hipócrita de Barack Obama e Hilary Clinton quando Brasil e Turquia conseguiram negociar com o Irã, indo contra as pretensões imperialistas dos EUA e de Israel.

 

Aos Estados Unidos interessa muito mais que a Coréia do Norte seja uma ameaça constante, do que entrar em uma guerra com que não podem arcar. Afinal, as incursões intermináveis e fracassadas no Oriente Médio cobram seu preço, mostrando que os alvos imediatistas podem tornar-se problemas crônicos a médio e longo prazo. A questão é: Donald Trump sabe disso?

 

Essa é a grande incógnita. Quando o comandante de um navio não tem a menor noção de navegação ou de geografia, torna-se necessário dormir de salva-vidas amarrado. E a essas quantas andamos.

 

Cabe ressaltar que a imprensa brasileira cumpre seu papel sensacionalista, gerando pânico em quem ainda presta atenção, para desviar o foco das nossas próprias mazelas. Afinal, a cada dia fica mais evidente que a emissora líder de audiência e suas concorrentes ajudaram a promover o golpe de estado jurídico-parlamentar e agora tem que lidar com o rescaldo de um país arruinado e loteado por quadrilhas de saqueadores. Nada mais natural que usar o perigo nuclear para escamotear as informações sobre figuras preponderantes da “República” involucradas até o pescoço em escândalos de corrupção, propinas e compra de sentenças.

 

E na esteira desse asqueroso caldo de cultura golpista, nossa política externa deixou de ter qualquer protagonismo ou importância, sacrificada no altar do ego entreguista dos partidos que promoveram e deram suporte à deposição fraudulenta da nossa presidenta legitimamente eleita. Partidos cujos luminares tiram os sapatos diante das alfândegas estadunidenses e falam fino com os poderosos, enquanto desprezam nossos vizinhos da América Latina. A ausência de uma vigorosa política externa pacifista do Brasil e seu alinhamento “capachildo” aos interesses dos EUA me preocupa muito mais em um cenário de guerra do que as bombas norte-coreanas.

 

Como dizia minha avó Maria Garbonez, em um dito popular que dispensa tradução, “al que mucho se agacha, el culo se le ve” e mais não digo.

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