O ESCOLA SEM PARTIDO E A DITADURA DO PENSAMENTO ÚNICO

26 set

Quem acompanha este blog ou meu canal no YouTube há mais tempo, sabe perfeitamente o quanto já me debati contra os projetos do Escola sem Partido. Meus vídeos de 27/04 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=_gVbMik_BdA ) e 31/05 ( https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=8keXEPy9IOQ ) do ano passado já têm vários milhares de visualizações e abordam aspectos inerentes ao objetivo obscurantista dessas iniciativas. O que em um primeiro momento pode parecer apenas banir o pensamento crítico do currículo escolar, a médio e longo prazo implica em trazer a bíblia para dentro da sala de aula e dar-lhe estatuto de autoridade pedagógica.

 

Nesse sentido, há mais de ano e meio que venho denunciando o crescimento dessas iniciativas de censura e repressão ao livre pensamento. É uma pena que só agora alguns setores da sociedade civil começaram a reagir. É muito tarde e é muito pouco.

 

As vereanças de muitas cidades, de perfil conservador, já estão arregimentadas e aparelhadas para aprovar esses projetos. E padres e pastores já passaram mais de um ano martelando essa baboseira nos sermões e cultos, convencendo seus fiéis. E nós professores ficamos sozinhos esse tempo todo.

 

Há dois extremos nesse movimento que precisam ser considerados. Sobre a questão das salas de aula, já me estendi o suficiente em vários textos. Hoje quero falar também sobre a questão da ingerência nas universidades e no pensamento teórico.

 

Quem tem presença nas redes sociais já deve ter visto mais de uma vez o slogan defendido por alguns dos arautos do Escola sem Partido “- Marx e + Mises”. Esse grupo defende que os cursos de Ciências Humanas no Brasil deveriam descartar o pensamento marxista e estudar a obra de um certo Ludwig von Mises, pensador tão obscuro que nem sequer mereceu um volume entre as coleções de pensadores e economistas que adornam as bibliotecas por aí. Sem a mínima noção de como se constrói o pensamento acadêmico, esses vociferantes ignaros, que fecham exposições, querem também ditar cátedra silenciando o que não entendem.

 

Não tenho procuração para falar por outras áreas das Ciências Humanas, mas posso expressar alguns dos princípios da minha área, a História.

 

O pensamento acadêmico em História é estruturado a partir do diálogo historiográfico. Aprendemos Teoria e Filosofia da História para poder realizar a sua escrita, que recebe o nome de Historiografia, essa escrita é o modo como analisamos, catalogamos e narramos os fatos, dentro dos pressupostos teóricos e da nossa própria noção de historicidade. E a Historiografia implica em dialogar com outros autores, inseridos em escolas teóricas e interligados por praxes acadêmicas de escrita e análise.

 

A isso chamamos diálogo porque não se constrói conhecimento sem esse constante interrogar das evidências e sem essa comparação com os achados dos outros autores. Quando um autor escolhe não dialogar com o conhecimento já existente em sua área e deliberadamente renega os métodos necessários para a autenticidade de sua pesquisa, a tendência é que seu trabalho se torne irrelevante, mesmo quando aclamado por um público menos apto. O destino de vários desses aventureiros é engrossar as listas de best-sellers e capturar a imaginação de quem não tem o mínimo conhecimento sobre a área estudada.

 

Academicamente, não há como eliminar o pensamento de Karl Marx do diálogo historiográfico porque a maior parte da produção intelectual dos últimos cento e trinta anos dialoga de algum modo com este autor. Seja para inserir-se na tradição marxista ou para contestá-la, seja nos pressupostos teóricos ou nos paradigmas metodológicos, a presença de Karl Marx é necessária nos currículos universitários para entender uma boa parte da trajetória histórica da nossa disciplina. E isso não torna todos os que estudam Marx, automaticamente, marxistas, ao contrário, em toda a minha trajetória acadêmica sempre estivemos em minoria.

 

E isso certamente não transforma em comunistas todos os que reconhecem a importância de Marx para a História do pensamento intelectual no Ocidente.

 

O que grassa nesses meios do Escola sem Partido é, não apenas, a mais profunda ignorância sobre tudo o que seja pensamento acadêmico, mas também uma raiva acéfala contra o conhecimento em si. Não é senão por isso que bobagens como o criacionismo, a demonização das vacinas e o terraplanismo estão na ordem do dia para grupos que recusam a pesquisa científica como se fosse algo maligno. É uma mistura tosca e explosiva de religião com pseudociência, que redunda em ilhas ou bolhas de ignorância categórica e intolerante e promove o obscurantismo e o ódio.

 

Minha filha costuma argumentar que a rebeldia adolescente, em sua essência mais tosca, é em parte responsável por esse estado de coisas. Em uma sociedade que se encaminha para direções mais progressistas, os adolescentes escolhem pautas conservadoras para diferenciar-se e posar de rebeldes nas redes sociais. Ao contrário da minha geração, que precisou enfrentar o conservadorismo e, por isso mesmo, dirigiu sua rebeldia para defender liberdades e direitos de um espectro mais amplo.

 

No dizer da minha filha, e eu concordo, hippies eram antibelicistas porque conviviam com uma guerra monstruosa, hipsters são esnobes porque estão rodeados pelo consumo massificado e muitos adolescentes, atualmente, se viram para o conservadorismo mais canhestro porque querem chamar a atenção, mas não tem maturidade nem inteligência para admitir as consequências de seus pensamentos e atos. E é com essa massa de manobra que aqueles que estão por trás do cenário contam para servir de “tropa de choque” e intimidar o pensamento crítico. Diante da desinformação reinante e das bolhas criadas pelas redes sociais, até ser neonazi pode ser “descolado” para grupos sociais famintos por protagonismo e pertencimento.

 

Somem-se a isso os rebanhos pentecostais e carismáticos e é uma receita para o triunfo da ignorância e do não-pensamento. O messianismo demonstrado pelos defensores do Escola sem Partido já nos dá uma amostra do que pode vir por aí. Não admira que, nesse cenário absolutamente delirante, o Supremo Tribunal Federal esteja cogitando em liberal o ensino religioso confessional nas escolas públicas, em flagrante desrespeito ao Estado Laico e às mais caras tradições republicanas.

 

Se esse arremedo de Inquisição vingar, teremos em um extremo os professores escolares sendo perseguidos pela emissão de qualquer pensamento crítico e no outro extremo a eliminação de qualquer relevância intelectual de nossas universidades devido à supressão sumária do diálogo acadêmico que nos liga a um vasto grupo de instituições neste e em outros continentes. Em seu lugar entrariam repertórios de almanaque como substitutos ao material didático e obscuros pensadores de guetos intelectuais inexpressivos para obliterar os currículos das nossas universidades. E a presença religiosa seria cada vez mais opressiva e obscurantista, em retorno a estruturas e pensamentos do passado que deveriam ser motivo de constrangimento e não de orgulho.

 

E eu me pergunto: o que aconteceria se, de repente, os anarquistas enlouquecessem e resolvessem exigir a substituição de Marx por Proudhon e começassem a atormentar os meios acadêmicos e as escolas e encontrassem grupos sociais que lhes dessem respaldo nessa insanidade? Seria patético e impossível, não é mesmo? Afinal, mesmo que muitos não gostem, Proudhon fora de seu diálogo com Marx parece um pensador muito menor, mesmo tendo gerado uma tradição de seguidores na academia e fora dela.

 

Guardadas as devidas proporções, os delírios dos seguidores de Mises estão nessa categoria do patético e do impossível. Apenas que, diferente dos anarquistas, que se situam na extrema-esquerda do espectro e não conseguem seduzir o senso comum ou a imaginação dos ignorantes, os seguidores de Mises, por encontrar-se na extrema-direita, acabam por receber o apoio e o beneplácito dos centros de poder. E é por isso que hoje estamos na iminência de mergulhar no caminho irreversível da mais obscurantista teocracia.

 

Nesta altura do campeonato, perdemos tempo e pontos preciosos e não temos uma defesa que impeça a goleada, se me perdoam a metáfora futebolística. É hora de começar a pensar em cautelares para garantir o direito à liberdade de cátedra e em ações coletivas para impedir vereadores de extrapolar suas funções, invadindo salas de aula e violando flagrantemente os direitos dos professores. Se não começarmos a fortalecer nossas defesas, nem adianta cogitar em contratar bons ataques.

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