TODOS FOMOS IGNORANTES NA JUVENTUDE

27 set

Em algum momento de 1989, Carlo Ginzburg apresentou uma palestra no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Eu estava no terceiro ano de graduação e, acompanhando outros colegas e alguns professores do departamento de História, juntei-me ao pequeno público que presenciou esse momento épico. Naqueles tempos, Ginzburg ainda não era uma unanimidade nos currículos universitários e poucos dos nossos professores estavam aptos a analisar o paradigma indiciário por puro desconhecimento, era uma abordagem documental relativamente recente.

 

E devo dizer que para nós, orgulhosos estudantes do IFCH e profundamente ignorantes sobre a estrutura de qualquer curso que não fosse o nosso, era quase um absurdo pensar que aquele historiador maravilhoso estivesse apresentando-se para os alunos de Letras e não no nosso instituto. Eu mesma nada sabia sobre Linguística e devo à posterior convivência profissional com Émerson de Pietri, e outros professores dessa área, o meu “desasnamiento” e a minha compreensão sobre morfologia. À época de graduação, olhávamos para os alunos de Letras com uma implicância carinhosa, mas implacável.

 

E eis que, estando na plateia, entra Carlo Ginzburg, um homem alto e imponente, e uma professora já idosa do IEL procede à sua apresentação. Toda emocionada ela menciona ser fã da mãe do historiador, Natalía Ginzburg, e quase vai às lágrimas citando um trecho de memórias em que se refere a “i bambini” e ela, vendo-se diante de uma das crianças, gagueja uma apresentação que para nós foi absolutamente constrangedora. Ginzburg, que parece uma pessoa bem contida, agradece e começa sua palestra (que foi proferida em inglês porque os descendentes de italianos éramos minoria e fomos voto vencido).

 

Era um tempo em que não existia internet, pesquisávamos nas bibliotecas frequentemente defasadas e nossos professores completavam nossa formação com cópias de textos que traziam de volta de suas viagens para participar de eventos no exterior. As apresentações nas orelhas dos livros acadêmicos eram, geralmente, atinentes apenas ao meio profissional, citando idade e procedência dos autores e mais nada. Tudo o que sabíamos sobre os historiadores vivos que estudávamos era o que nossos professores nos contavam.

 

Então, evidentemente, eu não sabia quem era Natalía Ginzburg, uma vez que não fazia parte das minhas referências literárias e pouco sabia do próprio Carlo, apenas que vinha da Universidade de Bolonha. Algum tempo depois até encontrei um livro dessa autora na livraria, mas era tão caro e eu tão “remediada” que nem pude comprar. E com o tempo essa referência me fugiu à memória e ficou sepultada por quase três décadas de uma vida de referências.

 

Também superei a pessoa que era naqueles tempos. A pessoa jovem e ignorante que olhou para aquela professora (que não conhecia) e julgou-a uma “pata choca” que nada sabia sobre a importância historiográfica de Carlo Ginzburg. E é maravilhoso poder constatar que a idade, a experiência, os dissabores e os sofrimentos da vida têm a capacidade de expurgar nossa persona dessas arrogâncias e ignorâncias juvenis.

 

Ginzburg não foi o único historiador que pudemos assistir durante a graduação. Seymour Drescher, Dale Tomich, Thomas Holt, Christopher Hill e, pasmem, Eric J. Hobsbawm passaram pela UNICAMP naqueles quatro anos gloriosos. E hoje penso que foi um desperdício ser tão jovem a ponto de entregar-me à tietagem, mas não ter leitura suficiente para fruir de suas conferências e palestras como seria devido.

 

Vez por outra, ao reler algum ensaio do Ginzburg, pensava naquela palestra no IEL, mas não me detinha demais nas lembranças que começavam a ficar embaçadas. Nunca mais pensei naquela professora e sua apresentação informal e “desajeitada” do “nosso” historiador. Até ontem.

 

Ontem abri o exemplar da Carta Capital da semana passada e comecei a ler uma resenha sobre um documentário a respeito dos intelectuais italianos que resistiram ao domínio fascista durante a guerra. E, de repente, lá estava Leone Ginzburg, casado com Natalía Levi (e pai de Carlo Ginzburg), ensaísta, professor universitário e tradutor de literatura russa, que foi assassinado pela GESTAPO em 1944, aos trinta e quatro anos. E todo o contexto e o sentido do gaguejar emocionado sobre “i bambini” daquela idosa professora me atingiu como um soco no peito.

 

E eu chorei também. E tive a certeza de que também estaria aos prantos diante de uma história de vida como essa, fosse eu quem estivesse lá para apresentar Carlo Ginzburg a uma plateia que nada sabia. E, sem pretender, cresci mais um pouco.

 

E cresci não apenas por poder prestar uma homenagem tardia àquela professora que nunca conheci, mas também por poder pensar sobre a juventude que me rodeia e que repete meus mesmos erros em direção à maturidade. Esses que com frequência eu considero como não passando de meros pirralhos arrogantes e ignorantes são, em parte, um espelho da minha própria juventude. É claro que um espelho um tanto distorcido porque eu não tinha a liberdade, a informação e a tecnologia que eles desfrutam hoje.

 

Mas ainda assim um espelho.

 

E, se há algo que posso afirmar com conhecimento de causa, é que um dos aspectos preponderantes do meu processo de amadurecimento foi que os adultos da minha juventude não tinham pena nem escrúpulos de esfregar todos e cada um dos meus erros na minha cara. Naqueles tempos, palavras como autoestima nem sequer existiam e, para cada professor maravilhoso como o Amaral Lapa, havia ao menos dois sarcásticos que não perdoavam chances. Devo a esse conjunto de circunstâncias e de pessoas do meu entorno a capacidade de ainda me maravilhar e aprender a esta altura da vida, de saber que humildade pessoal não equivale a submissão e que respeito implica sempre em empatia e solidariedade humana.

 

E tenho consciência de que ignorar fatos básicos da vida é inerente a todo aquele que não viveu, a informação de segunda mão não basta e é preciso a experiência para entender muito do que nos rodeia. A arrogância juvenil é sempre um empecilho nesse aprendizado, mas ela passa, é preciso que passe para alcançar a idade adulta e a maturidade que vai nos presenteando com a compreensão da complexidade e da completude da vida. É um processo em constante construção e nunca cessamos de aprender.

 

Agora só preciso mesmo é de mais e mais paciência…

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