OS NUS E OS MORTOS, DATA VENIA NORMAN MAILER

18 out

Viena e Berlim eram cidades efervescentes de cultura, arte e densos debates intelectuais na alvorada do século XX. E mesmo com todo o conhecimento de História, Filosofia e Literatura, poucos foram (estatisticamente) seus habitantes que perceberam a ascensão da intolerância, do autoritarismo e do perigo iminente para a civilização. Temos uma tendência, derivada da temporalidade judaico-cristã, a considerar que os avanços sociais não podem reverter, mesmo que o estudo dos eventos históricos nos mostre sempre o contrário.

 

E deveríamos prestar muita atenção quando a sanha utilitarista começa a visar aquelas áreas do conhecimento que “aparentemente” não produzem riquezas nos termos capitalistas. Quando as universidades começam a ser sufocadas para que reduzam seus programas de Ciências Humanas e Artes; quando as pífias políticas públicas de promoção cultural passam a ser perseguidas, estigmatizadas e eliminadas; quando museus, teatros, quadros e livros começam a ser censurados. Quando escolas se tornam antros de censura intelectual, à mercê da religião, o autoritarismo já se instalou e a intolerância é uma questão de tempo.

 

E o que vemos aqui, talvez numa imitação tosca do que aconteceu em Viena e Berlim, é o uso sistemático da perseguição pública e do escândalo em relação a artistas e intelectuais para mascarar a ascensão de projetos políticos e legislações destrutivas, visando manter os privilégios das ínfimas castas de posse do poder político e econômico e subjugar a sociedade em relações de trabalho abjetas. Isso significa que devemos parar de lutar pela liberdade de pensamento, expressão e consciência e concentrar-nos nas questões políticas e econômicas? Eu acredito que não e defendo que devemos encarar essa luta de forma sistêmica, uma vez que é tudo parte do mesmo projeto obscurantista e oportunista de tomada do poder.

 

A nudez não é um alvo novo da intolerância dos religiosos e nem dos ignorantes, isso ocorre em parte, porque o pensamento obcecado com pecados e culpas atribui conotação sexual ou erótica a cada centímetro de pele nua exposta publicamente. E não é um fenômeno tupiniquim, uma vez que em países como o Afeganistão, quando da ascensão dos talibãs, o mero uso de sandálias com as burkhas era considerado passível de castigo por provocar a lascívia masculina. É nesse contexto que deveríamos ter lido as atitudes microcéfalas de seguranças e usuários de shopping centers, que perseguiram mulheres por amamentar seus filhos em público.

 

Se uma sandália de camponesa ou um seio materno provocam essas reações entre os usuários do entorpecente religioso, imagine o que um nu artístico pode provocar… Não precisamos mais imaginar, já estamos vendo o festival de boçalidades e violência verbal e física protagonizado por essa massa de manobra dócil à manipulação de padres, pastores e políticos sem escrúpulos, mas violentamente selvagem diante de seus concidadãos que considera não “iguais”. E eu não tenho quaisquer dúvidas de que isso é apenas o começo de tempos obscuros e perigosos.

 

O imperador está nu.

Nua está a corrupção desenfreada desse governo golpista.

Nua está a ambição da bancada latifundiária que quer de volta a escravidão dos trabalhadores do campo.

Nua está a hipocrisia racista dos paneleiros.

Nua está a ambição de poder da bancada religiosa que quer a eliminação física dos que vivem pensam e amam diferente da sua leitura tosca das escrituras.

Nua está a mentalidade entreguista de capachos glorificados do partido que dá sustentação ao golpe.

Nua está a perseguição jurídica e política ao projeto progressista de país.

Nua está a disposição do Judiciário a se perpetuar como casta privilegiada em sua cegueira social impenitente.

 

E toda essa nudez obscena e abjeta nem sequer ofende os defensores da família e da moral. Um artista nu em uma exibição fechada ao público é transformado em “cavalo de batalha”, enquanto malas milionárias e seus carregadores sequer provocam a mínima reação. Simone de Beauvoir, filósofa francesa falecida há décadas, e cuja obra atualmente sequer se contesta mundo afora, recebe moção de repúdio de vereadores campineiros, que chegam ao ponto de qualificá-la como “devassa”, em uma triste demonstração de autocomplacente boçalidade e cafonice jeca.

 

“Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.” Quando Karl Marx iniciava seu 18 Brumário com esta reflexão, mal sabia que mais de um século depois ainda estaríamos sob o jugo de divindades mortas, profetas mortos, mentes mortas e com o cheiro cada vez mais pungente da própria morte em vida rondando nossa sociedade. O autoritarismo e a intolerância que vivemos hoje nos remetem à atualidade de uma parte significativa do pensamento de Marx.

 

Se a guerra e a necessidade física de sobrevivência revelam, com uma crueza desesperada, a nudez atávica de nossas personalidades, não é de estranhar que os momentos de tensão social extrema revelem o que há de mais abjeto em termos de ambições, exercícios de poder e violência real e simbólica. Do prefeito que desativa os programas sociais para oferecer ração aos pobres; dos pais que expulsam, perseguem ou matam os próprios filhos para não ter que lidar com sexualidades que não conhecem nem entendem; dos juízes que não vem problema em absolver um jovem rico que mata bêbado ao volante, mas perseguem gente pobre que rouba comida com uma sanha assassina; dos pobres que oprimem pobres; dos homens que torturam e assassinam mulheres para manter seu ego frágil e sua masculinidade broxa; dos policiais que torturam e matam impunemente, desde que as peles não sejam brancas; aos vendilhões da fé que amealham fortunas manipulando a desgraça e a ignorância alheias; nossa sociedade está vergonhosamente nua e morta em todo o auge da sua crueldade. E nós vivemos catatonicamente a espectacularização midiática desse nunca acabar de desgraças a cada dia em nossos sofás.

 

Com a devida licença a Norman Mailer, não é preciso estar encurralado em uma ilha sob fogo cerrado para trazer a nu os comportamentos extremos do ser humano. Basta que uma sociedade se entregue aos paroxismos do ódio, mascarados em combates morais. Foi assim em Viena, foi assim em Berlim, assim está sendo em muitas cidades do Brasil.

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4 Respostas to “OS NUS E OS MORTOS, DATA VENIA NORMAN MAILER”

  1. Interseções 29/10/2017 às 8:43 pm #

    Excelente reflexão!

  2. Rose Mota 28/03/2018 às 3:24 pm #

    Fiquei sem palavras, somente minha mente foi tão distante, que peguei me atraída por todas suas palavras como se tivesse assistindo ao filme de Martin Luther King, e, torcendo para que no final, fossemos “felizes para sempre”.
    A história sempre se repete a centenas de anos. Parabéns Ana você é encantadora!!

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