JUDITH, MILLIE E OS PAQUIDERMES

28 out

Estava eu ontem pensando em um texto sobre a ambiguidade e a genialidade de Machado de Assis em Dom Casmurro, quando dei de cara com a notícia de que um grupo de intolerantes corria um abaixo assinado virtual para obrigar a cancelar a conferência de Judith Butler. Perdi qualquer vontade de escrever e o peso da amargura acabou tomando conta do meu dia, secundado pelo apodrecido noticiário político nacional e a expectativa por notícias da Catalunha. Ainda mais que as notícias esparsas davam conta de que o lugar que sediará o evento vinha sofrendo agressões e manifestações de um grupinho ruidoso de delinquentes contumazes das liberdades civis.

 

Nestes dias aziagos, que correm rápido demais à medida que envelheço, é frequente minha perplexidade diante da arrogância e da prepotência desses grupos intolerantes, que defendem a ignorância como se fosse uma virtude e fazem da imbecilidade um pressuposto para a aceitação social. Afinal, aplaudem palestras de deputados que incitam ao crime contra os Direitos Humanos, em clara quebra de decoro das suas funções parlamentares, mas querem proibir eventos acadêmicos e encontros de grupos minoritários, em nome sabe-se lá de quê. A hipocrisia e o duplo padrão de moral presentes nesse tipo de atitude beira a canalhice, mas passa em “brancas nuvens” diante da cumplicidade e da covardia das autoridades e dos meios de comunicação.

 

Nesse sentido, escapa a esses tiranetes de vigésima categoria o óbvio do óbvio, a constatação de que não tem o direito de interferir nas atividades de outros grupos e nem de proibir o que quer que seja. E eu me pergunto onde estavam as mães desses infelizes, que não tiveram a capacidade de educá-los para viver em sociedade e demonstrar o mínimo necessário de bons modos. E que não lhes incutiram o menor senso de ridículo ou de autocrítica, para que tivessem a capacidade de perceber a vergonha que passam (e nos fazem passar) quando interpelam palestrantes muito mais inteligentes e preparados do que eles, aos berros e afirmando toda sorte de tolices como se fossem verdades autoevidentes.

 

O festival de imbecilidades que nos assola na boca dessas marionetes não tem fim. “Hitler era de esquerda”; “a Terra é plana”; “não houve ditadura no Brasil”; “só existe macho e fêmea porque deus criou assim”; “Arte Contemporânea não é Arte porque eu não gosto”; e todo um cortejo de afirmações igualmente incorretas, igualmente tolas, igualmente desonestas. Quem os manipula parece ter escolhido a dedo, dentre os mais arrogantes e orgulhosos da própria burrice, para esfregá-los na nossa cara e demonstrar nosso fracasso como professores, enquanto cinicamente nos acusam de “doutrinação”.

 

Judith Butler deverá enfrentar a incapacidade desses grupos de respeitar ou conhecer a praxe protocolar dos eventos acadêmicos, uma vez que interrompem os palestrantes sem qualquer constrangimento, demonstrando claramente sua xucrice e falta de educação. Deverá também enfrentar a completa ignorância sobre qualquer temática teórica vinculada aos Estudos de Gênero e à Teoria Queer (mesmo que sua conferência nem seja sobre esses temas), uma vez que (em sua absoluta maioria) esses indivíduos não tem formação nas áreas que criticam e combatem, ou não tem formação alguma. Afortunadamente, não sendo a primeira vez que a intelectual visita o Brasil e já conhecendo alguns de nossos mais destacados acadêmicos dessas áreas, a impressão que esses energúmenos causarão não se estenderá ao resto de nós.

 

Essa sanha anti-intelectual que toma conta dos movimentos ultradireitistas, e dos oportunistas que os manipulam, acaba gerando uma série de “palavras de ordem” e acusações desonestas visando a criminalização do pensamento e do senso crítico. Embora apoiem abertamente toda sorte de violências contra as mulheres que não se enquadram em seu ideal reacionário de submissão, escolheram os valores de “família” para mascarar seu ódio às liberdades individuais burguesas. Nesse sentido, o constante martelar do argumento de existência de “pedofilia” nos meios artísticos e intelectuais, não passa de uma manipulação cínica da ignorância de seus seguidores.

 

E não estou poupando palavras mesmo, essa caterva de ignorantes descerebrados que sexualiza diariamente crianças e adolescentes, para poder melhor exercer as prerrogativas de sua masculinidade vacilante é a mesma que acusa os outros de “pedofilia” diante do que não entende e nem quer entender.

 

Vivemos em uma sociedade em que muitos desses que se arrogam defensores da família são os mesmos que assediam mulheres nos transportes coletivos e olham cobiçosos para meninas de onze anos nos Shopping Centers. Afinal, família é só a deles mesmos, o resto de nós é pasto para a masculinidade hipervalorizada e o duplo padrão moral que normaliza o abuso e o assédio, desde que as hierarquias sociais vigentes permaneçam inalteradas. É evidente, nesse caldo de cultura, que qualquer tentativa de uma educação mais humanizada e uma construção mais adequada das questões de gênero nas escolas, enfrentará a hostilidade desses indivíduos.

 

E isso não é uma exclusividade tupiniquim. Os Estados Unidos, que são a referência cultural de uma boa parte desses arautos do conservadorismo, com seu neopentecostalismo televisivo agressivo, também são os maiores difusores do abuso e da sexualização de crianças e adolescentes em sua indústria cultural. Basta acompanhar o noticiário de variedades para constatar a que nível os atores mirins são transformados em “produtos” para consumo de um público extremamente predatório.

 

Ainda ontem, ao rolar o mouse pela minha TL do Facebook à procura de notícias sobre a Catalunha, me deparei com uma matéria dos Jornalistas Livres sobre Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things, de apenas treze anos, que é considerada uma das “mulheres” mais “sexies” em terras gringas. Não consigo sequer colocar em palavras o asco que me causa qualquer homem capaz de se excitar sexualmente diante de uma menina púbere (mesmo isso não sendo tecnicamente pedofilia e sim efebofilia) e o cortejo de lembranças horríveis da minha própria adolescência que esse tipo de crápula desperta. Sim, porque meu primeiro assédio ocorreu em um ônibus, quando eu tinha de onze para doze anos e foi algo tão impactante que só consegui verbalizar para minha família há poucos dias, essa masculinidade predatória não é um sinal dos tempos, é algo que existe entre nós desde sempre.

 

Mas vamos continuar fingindo que não existem paquidermes na sala, na cozinha e nos quartos, que elefantes e mamutes não se aglomeram em nossos espaços de convivência, esmagando qualquer possibilidade de autocrítica de uma sociedade que celebra o próprio abuso enquanto vira seu dedo acusador para seus desafetos (qualquer semelhança com a “corrupção” não é mera coincidência).

 

Vamos fingir que é verdade que o ensino da tolerância vai transformar meninos em gays; vamos fingir que a criminalização da violência doméstica vai retirar a autoridade do pater familias; vamos fingir que é normal e aceitável ver homens de mais de setenta anos desfilando com jovens de menos de vinte; vamos fingir que a masculinidade paradoxalmente tão frágil que pode ser ameaçada pela mera existência dos gays e tão predatória que deve atacar qualquer “mulher em potencial” mesmo que esta mal tenha menstruado, é um dado da natureza e não uma construção social; vamos fingir e fingir e fingir, afinal, se não fingirmos, a sociedade pode se esfacelar todinha se os “hômi” não tiverem tudo do jeito que querem…

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