Arquivo | novembro, 2017

UM BEIJO OU UM ABRAÇO?

23 nov

Pertenço a uma geração que foi atropelada pela tecnologia e obrigada a repensar cada etapa do aprendizado e das sociabilidades formais. Já no início deste milênio não conseguia convencer a mais de um jovem que usar um boné dentro da sala de aula demonstrava grosseria e falta de respeito. O boné havia-se tornado um acessório de moda e não mais a peça utilitária de vestuário que nos protegia do sol.

 

A massificação do vestuário e a glamorização de peças que antes apenas serviam para nos proteger das intempéries criaram toda uma fauna de gente que usa óculos escuros e bonés em ambientes fechados ou mesmo noturnos, sem a menor noção de que apenas alguns anos atrás isso seria considerado uma grosseria atroz em relação ao entorno social que os recebe.

 

Eu nem vou entrar no mérito da internet e do distanciamento humano que ela nos impõe, que permite despertar os piores instintos e assassinar diariamente os poucos pruridos de consideração humana que ainda nos restam. Essa é uma briga que já perdemos porque as pessoas gostaram demais de ser grossas, implicantes, prepotentes e arrogantes, vangloriando-se de seus credos e pavoneando-se dando suas opiniões sobre toda sorte de temas que desconhecem. Uma vez aberta a caixa de pandora, só nos resta conformar-nos com os poucos e ralos aspectos positivos da interconexão mundial.

 

Nesse sentido, não adianta nada lamuriar-se de que as pessoas já não usam “por favor”, “com licença” e “obrigado”, ou lamentar a proliferação de notícias falsas e mentirosas. Estamos diante de uma pseudorrealidade em que as pessoas já não precisam nem da polidez e nem da honestidade, mas apenas da reafirmação reconfortante de suas certezas mais íntimas e de seus medos mais atávicos. E isso porque até seus medos (quem temem e o porquê de seus temores) é parte de sua identidade e a sociabilidade moderna dispensa o coletivo para reforçar identidades, egos e necessidades individuais.

 

O reconhecimento do indivíduo, que deveria liberar-nos de levar uma vida de gado, hoje nos torna pasto para as grandes corporações, enquanto vivemos a armadilha do falso protagonismo social.

 

E a internet, que é maior celeiro de antimarxistas de que tenho conhecimento, é também a maior evidência de que algumas das chaves interpretativas da História, pensadas pelo bom e velho Marx, ainda dão perfeitamente conta da realidade e estão mais vivas que nunca. Como o conceito de modos de produção, que especifica que as revoluções tecnológicas são responsáveis por alterações significativas no processo civilizatório e que impactam a cultura humana de tal modo que chegam ao ponto de definir-nos enquanto sociedades com historicidade e temporalidade específicas. Está acontecendo conosco neste momento.

 

A revolução tecnológica que permitiu essa modificação nos processos de comunicação e interlocução, também permitiu que a economia se transferisse para o meio virtual e que o capitalismo passasse a gerar lucro sem precisar das forças e dos meios produtivos. A concentração brutal de renda, que essa alteração na circulação financeira produziu, hoje impacta os sistemas políticos e ameaça destruir estados nacionais e práticas de cidadania que foram grandes conquistas e permitiram mais de um século de produção e expansão do conhecimento crítico. E a velocidade que transfere fortunas a paraísos fiscais e permite que nações inteiras sejam arruinadas em poucas horas, também se tornou responsável pelo fim iminente da civilidade, uma vez que a premência da vida não dá lugar a gentilezas ou gestos de reconhecimento do outro.

 

Somos ilhas. Ilhas conectadas em rede mundial. Mas pateticamente desabitadas.

 

E o modo como expressamos nossos afetos e amizades diz muito sobre essa pós-modernidade que se abateu sobre nós. Não que eu tenha qualquer simpatia ou interesse por esses fenômenos e seus analistas e defensores, sou um anacronismo que já não tem espaço neste tempo. Pertenço a uma linhagem dialética perdida em um mundo digital, que prescinde da interlocução em favor do protagonismo.

 

E é por isso que este texto é uma espécie de despedida. Da mesma forma que o canal no YouTube, o programa na Rádio Noroeste e a página Cantinho da História no Facebook já cumpriram sua função, este blog também já alcançou seu objetivo e chegou a hora de seguir meu caminho. Outros caminhos me aguardam, mas não posso continuar teimando em uma bolha minúscula com a ilusão de que o ativismo virtual vai evitar a derrocada do Brasil e a extinção da educação como a conhecemos.

 

As hordas da barbárie social estão à porta e é necessário redefinir as ferramentas para a luta e parar de perder tempo nesta bolha egocêntrica da internet.

 

E é aqui que eu explico o título deste derradeiro texto. Eu não gosto de beijos porque a banalização da falsa familiaridade social os transformou em um roçar burocrático que mal expressa qualquer coisa além de um cumprimento protocolar. Também tenho dificuldade de lidar com aquelas pessoas que não sabem apertar as mãos e nos oferecem uma extremidade informe, gelada e úmida que não corresponde ao aperto e ainda nos deixa com a sensação de que estamos constrangendo o interlocutor com a nossa força.

 

Eu sou dos abraços. Dos abraços que envolvem (não daqueles demonstrativos de masculinidade que, embora ruidosos de tapas nas costas, guardam um ou dois centímetros por onde a luz da heterossexualidade escoa em segurança), que estreitam, que confortam. Sou dos abraços que manifestam a presença humana, o carinho a estima e a consideração num simples gesto.

 

E é por isso que, em um mundo em que não me reconheço mais, eu prefiro bater em retirada, deixando a vocês o meu abraço fraterno mais sincero, sentido e carinhoso. Meu trabalho vai permanecer na rede para quem precisar, mas eu não estarei mais tão disponível quanto fiquei nestes últimos anos. Agradeço a todos pela companhia nesta caminhada e espero sinceramente que consigamos superar estes tempos sombrios e aziagos.

 

We shall overcome!

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MULHERES, MEMÓRIAS E IDENTIDADES

8 nov

Este é um texto que tem tudo para desagradar aos poucos que privam da minha companhia neste blog. E digo isso sem qualquer pretensão à polêmica, uma vez que percebo este blog muito mais como um registro do que uma interlocução social, dada a escassa atividade aqui realizada. Assim, aqui vou agora desagradar feministas, religiosos, liberais e alguns setores das esquerdas.

 

Toda essa gritaria histérica sobre os Estudos de Gênero, promovida pelos setores ultraconservadores e encampada por uma parte da sociedade que não tem o acesso necessário à informação para poder avaliar seu sentido, me levou a pensar sobre algumas questões bem pontuais do ser mulher. Foram também a releitura de Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade da filósofa Judith Butler, bem como o debate constante com a minha filha sobre diversos aspectos da Teoria Queer e outras tantas questões da moderna percepção da “mulherice”, que me levaram a querer pontificar esse tema. Muito mais, é evidente, do ponto de vista do historiador (como sempre faço) já que careço das credenciais e da experiência para discutir o tema em termos filosóficos.

 

Nesse sentido, não vou entrar nos aspectos filosóficos do ser, mas restringir-me a alguns aspectos do devir histórico feminino. Selecionar alguns conhecimentos prosaicos e ver como a percepção sobre eles foi mudando de acordo com a temporalidade e a historicidade dos sujeitos. E, como este é o meu blog, e não uma revista científica, pretendo manter o texto inteligível e leve o suficiente para permitir a leitura dos leigos.

 

A divisão de trabalhos e tarefas pode ser considerada uma das marcas da organização social em comunidades humanas desde o paleolítico. Não admira, nesse sentido, que Karl Marx a escolhesse como chave para o entendimento da evolução histórica das sociedades, ao criar o conceito de modo de produção. Para sobreviver, desde sempre, é necessário organizar quem vai caçar, quem vai colher, quem vai tecer e quem vai nos proteger dos predadores.

 

Sociedades assim organizadas, no início, não dividiam as tarefas de acordo com o gênero porque não se entendiam como homens e mulheres, havia uma hierarquia que se baseava na idade e na experiência, além da força e da destreza, que permitia que algumas mulheres caçassem lado a lado com os homens. A lenta transformação que possibilitou a supremacia social masculina nas regiões do Oriente, em que a civilização em termos históricos surgiu, pode ser entendida pensando-se a organização das religiões monoteístas, dos conceitos de propriedade privada e de herança, bem como o estabelecimento das monarquias. Nos setores dominantes dessas sociedades, a necessidade de manter o controle da pureza da descendência, tanto aliado ao exercício do poder quanto à transmissão da propriedade, acabou gerando formas de confinamento doméstico e criando modelos de sociabilidade em que essas tarefas passaram a ser vistas como femininas.

 

Simplista? Não necessariamente, afinal, o parágrafo acima apenas resume radicalmente vários séculos de transformações sociais e culturais. Não é uma análise em profundidade e sim um ponto de partida para pensar sobre tarefas e identidades.

 

A afirmação de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se, que já ninguém questiona academicamente, diz respeito exatamente a esse aprender de tarefas e comportamentos ligados histórica e socialmente ao feminino. Para entender, de um ponto de vista marxista, como esses elementos externos acabaram ligados intrinsecamente à identidade feminina é necessário pensar exatamente como a divisão de trabalhos foi sendo modificada ao migrar de um modo de produção a outro e como as mulheres acabaram perdendo o protagonismo nos mundos do trabalho à medida que as castas e as classes foram definindo-se. É uma tarefa complexa e nada inédita, já existe uma considerável produção acadêmica sobre esses temas, basta pesquisar, o que eu pretendo aqui é refletir um pouco sobre como esses processos nos impactam atualmente.

 

Na Europa pré Revolução Industrial (e em muitos locais no Terceiro Mundo até hoje) às mulheres pobres, camponesas ou citadinas, estavam reservadas tarefas pesadas e complexas de manutenção das condições de sobrevivência da família. Fabricação de sabão caseiro, agricultura de subsistência, fiar, tecer e costurar, dominar um repertório complexo de plantas e sementes usadas tanto na alimentação quanto na medicina caseira, ser as guardiãs dos rituais de passagem do nascimento à morte, ainda quando também acabassem sendo as provedoras do fogo (lar) na ausência ou morte do homem. Seguindo uma hierarquia que reproduzia os modelos primitivos de idade e experiência, essas mulheres pobres eram as guardiãs do que entendemos por cultura no sentido antropológico.

 

A industrialização ocidental redefiniu a maneira de encarar o trabalho e criou a hierarquia produtiva da remuneração. Embora miseravelmente pagos, homens eram valorizados acima das mulheres nesse novo modelo de produção e as tarefas domésticas (por não receberem qualquer remuneração financeira) passaram a ser desprezadas e relegadas ao feminino em um sentido pejorativo. Mesmo quando a exploração descontrolada nas tecelagens, minas de carvão e outros meios de produção obrigou ao trabalho insano de mulheres e crianças em jornadas de até dezesseis horas diárias para sobreviver, a existência de um serviço doméstico porcamente remunerado prestado às classes superiores em alguns locais (e a escravidão em outros) rebaixaram ainda mais a hierarquia das tarefas consideradas femininas.

 

E, mesmo assim, ao longo do século XX, em boa parte dos lares das classes médias ocidentais, a educação das meninas para uma vida de esposas, mães e donas-de-casa era tido como a normalidade social. Entre as mulheres pobres, o imperativo da sobrevivência sobrepunha as mais diversas formas de trabalho remunerado e não remunerado, mas entre os setores médios e altos da população ocidental o ideal de domesticidade implicava no recolhimento e nas tarefas manuais consideradas femininas. A necessidade de quebrar esse modelo impulsionou a organização das primeiras feministas ocidentais, oriundas desses setores médios e altos da população e com reivindicações bem diferenciadas daquelas das mulheres pobres e trabalhadoras.

 

Essencialmente diferentes também da primeira geração de mulheres revolucionárias na Rússia. No período soviético leninista, as mulheres tiveram uma liberdade de organização e protagonismo até então inédita nesse país, mas posteriormente (mesmo com sua participação massiva durante os combates na Segunda Guerra Mundial) sua autonomia acabou solapada durante o stalinismo. E, embora desempenhando cargas de trabalho similares às masculinas, foi o ressurgimento das restrições de cunho moral e comportamental que reduziu o protagonismo das mulheres soviéticas no período pós-leninista.

 

As ativistas ocidentais reivindicavam em um primeiro momento o direito ao voto (sufragistas) e posteriormente a liberdade para trabalhar (dentro dos setores médios e nos países em que o pai ou o marido podiam legalmente impedi-las) e finalmente a equiparação salarial com os trabalhadores masculinos (feministas). Sua lutas eram pontuais e classistas, não podendo ser entendidas como aspirações da totalidade das mulheres, uma vez que ignoravam as necessidades das trabalhadoras pobres, das camponesas e das mulheres não brancas. Ignoravam também as especificidades culturais ligadas à divisão classista da sociedade nos significados de ser mulher.

 

E quem me segue aqui há mais de ano sabe da minha implicância com esse tipo de militância. Passei mais de uma década me considerando pós-feminista, antes de descobrir que a minha defesa da incorporação das lutas classistas, étnicas e raciais se chamava interseccionalidade e tinha seu lugar no feminismo do século XXI. Devo essa percepção à minha filha, que já conhecia e participava desses debates antes de toda essa celeuma em torno de Judith Butler e da falsa interpretação das questões do gênero pelos conservadores.

 

A desvalorização dos saberes culturais femininos dentro dos modelos de produção e exploração capitalistas foi encampada (inadvertidamente) por diversos setores do feminismo devido a esse viés classista. A construção da percepção de uma eventual libertação mediante o abandono da domesticidade demonizou habilidades ancestrais ligadas aos trabalhos manuais e às memórias étnicas e culturais. Rendeiras, bordadeiras, tecelãs e trabalhadoras de todos os tipos de agulhas passaram a ser vistas como artesãs (no afã de monetizar todas as formas de trabalho) e esses saberes, que antes pertenciam a uma boa parte das mulheres, deixaram o cotidiano para radicar-se na periferia dos mundos do trabalho.

 

Do mesmo modo as sociedades médicas do século XIX perseguiram e baniram as remanescentes das curandeiras, herboristas e benzedeiras (que já vinham sendo demonizadas desde as fogueiras das bruxas), para poder promover a imagem do médico de família, que cobrava por consulta. Do mesmo modo os saberes culinários têm sido encampados na profissionalização dos ditos cheffs por homens excepcionalmente bem remunerados para cozinhar como se isso fosse uma grande coisa. Existe uma espécie de gentrificação profissional quando um saber que faz parte das chamadas atribuições femininas passa a ser desempenhado em termos profissionais por homens e seus salários relegam ainda mais a autoimagem feminina a um limbo marginal e desacreditado.

O estigma da submissão acompanha (nos meios politizados) qualquer mulher que sinta prazer nos trabalhos de agulha ou na culinária não remunerada. Da mesma maneira, nos meios populares, homens que façam trabalhos manuais considerados femininos como forma de lazer e sem remuneração são acerbamente criticados e tem inclusive sua sexualidade questionada. Nos modelos de produção e exploração capitalista, quem não “gera valor” (expressão odiosa) com seu trabalho, não tem sua identidade social reconhecida.

 

Se os meus leitores estão habituados às “tretas” das redes sociais, talvez se lembrem do menino crocheteiro, que teve sua página do Facebook denunciada e eliminada por uma dessas patrulhas moralistas. A denúncia afirmava que, sendo menor de idade, ele estava violando as normas do próprio Facebook ao manter uma página pública, mas o que estava por trás da sanha dos binários era o fato de que eles entendiam o crochê como uma atividade feminina e não conseguiam aceitar a felicidade do menino tecendo e ensinando a tecer. Afortunadamente, o menino refez sua página e vai de vento em popa, feliz com suas agulhas e conta com todo o meu apoio, por pouco que isso signifique.

 

As técnicas ligadas ao crochê são percebidas, ainda hoje, como algo feminino. Entretanto, entre as centenas de mulheres com quem tive que conviver em toda a minha vida, posso citar poucas que dominam esse tipo de saber sem ser profissionais. E não é um saber inútil, afinal, além de um excelente lazer é um meio de não depender da indústria têxtil, que explora sem remissão seus trabalhadores desde sempre.

 

Os saberes femininos ao longo da História permitiram a transmissão de meios de sobrevivência, de sociabilidade e de autonomia. A organização da divisão de trabalho capitalista precarizou os ambientes de transmissão desses saberes e usurpou o modo de disseminação do conhecimento mediante a manipulação da remuneração. Os diversos setores do feminismo que não conseguiram perceber esses conhecimentos como instrumentos de poder na luta pela sobrevivência ajudaram a precarizar ainda mais a condição feminina das mulheres pobres.

 

Isso significa que eu quero que todas nós aprendamos a bordar, tecer e cozinhar? Claro que não, do mesmo modo que também não quero correr pelada pelos bosques homenageando a Lua e nem quero estudar medicina ou engenharia. O que defendo aqui é que precisamos entender como se organiza a sociedade que nos alija de uma justa remuneração ao mesmo tempo em que nos rouba saberes ancestrais, enquanto perdemos tempo discutindo o que é ou o que não é ser mulher.

 

Nesse sentido, adorei o pensamento de Judith Butler exatamente porque ela entende que o feminino é uma série de aprendizados performativos e não uma condição inerente às portadoras de vaginas e úteros. Eu quero que ser mulher seja o que eu quiser ser, o que você quiser e o que todas nós imaginarmos, sem ser mediado por padres, pastores ou políticos. E que isso inclua desde uma camponesa do Nepal até uma acadêmica de Oxford, incluindo as mulheres trans e sem que modelos de feminilidade X ou Y sejam impostos de cima para baixo por quem quer que seja.

 

Isso é tão difícil de entender?

 

AS PRINCESINHAS ROMANOV

4 nov

Acabei de ler o trabalho instigante de Marc Ferro A verdade sobre a tragédia dos Romanov e quero deixar registradas algumas considerações que me parecem necessárias. A obra, que é de 2012, recebeu este ano sua primeira edição em português, certamente na esteira da efeméride dos cem anos da Revolução Russa. E tem passado bastante ao largo da grande imprensa, pouco dada a fugir do sensacionalismo e enfrentar um debate historiográfico mais sério.

 

O argumento central de Marc Ferro é de que a czarina Alexandra e seus filhos não foram abatidos em Ecaterimburgo, como reza a lenda das atrocidades atribuídas ao governo bolchevique. Tendo conseguido acesso a alguns documentos inéditos e outros pouco estudados, Ferro constrói uma dúvida sólida e razoável à versão comumente aceita do fuzilamento, mutilação e queima dos cadáveres do último Romanov coroado e sua família. Lançando, também, alguma luz nos acontecimentos ao longo de 1918 tanto no âmbito dos sovietes quanto na situação europeia e seus desdobramentos.

 

É um livro bem modesto, muito mais uma complementação à obra já conhecida do autor sobre a Rússia do século XX. Expoente contemporâneo da escola historiográfica francesa dos Annales, Ferro tem uma vasta e eclética produção que vai do tema em questão à História do Cinema e é bem respeitado, embora não tão conhecido quanto Le Goff e Duby. E, a despeito do título bombástico, provavelmente sugestão editorial, o volume é bem equilibrado ao alinhar as inconsistências das versões existentes sobre o destino dos Romanov.

 

Se há algo que não se pode atribuir ao autor, em sentido algum, historiográfico ou político, é a condição de marxista. Se bem que não seja um entusiasta admirador da monarquia russa como Simon Sebag Montefiore, o tedioso autor do gigantesco Os Romanov 1613-1918, que passa as quase novecentas páginas de texto e notas da edição brasileira seduzido pela autocracia, Ferro também não tem qualquer espécie de admiração pelos revolucionários. Sua análise documental passa longe do sentimentalismo piegas de Montefiore, mas também não cai nas armadilhas do ativismo político inerente a muitos dos contemporâneos que se debruçam sobre a Rússia soviética.

 

E há alguns aspectos de suas inferências que eu quero aprofundar porque isso me parece extremamente importante em uma época em que qualquer autor de repertórios de almanaque ganha alcance televisivo, e se arroga o direito de estabelecer palavras finais sobre fatos à margem e a despeito do conhecimento acadêmico. Há que se pensar sobre como as versões correntemente aceitas para o destino dos Romanov foram estabelecidas e quais os interesses envolvidos para silenciar esta interpretação alternativa. Bem como não se pode deixar de explorar os contextos, os testemunhos e a longevidade das percepções populares sobre o tema, o papel do cinema e a contaminação dessas mídias por interesses muito além da necessidade do conhecimento histórico.

 

Marc Ferro dá ênfase ao cenário geopolítico da Europa de 1918, quando a Alemanha e os países da entente encontravam-se mergulhados em perdas monumentais decorrentes da guerra em curso e a Revolução Russa redefiniu o campo de batalha significativamente. Da mesma forma, preocupa-se em oferecer o cenário confuso e volátil dos primeiros anos da Revolução, quando os sovietes eram relativamente autônomos e o poder ainda não havia sido centralizado em Moscou. Assim como, cuidadosamente mostra que os russos brancos e os Romanov residentes em outros países europeus mantinham interesses bem escusos em relação à eventual eliminação da família alemã de Nicolau II.

 

A Primeira Guerra Mundial, em toda a sua complexidade, em que os impérios se defrontam e sucumbem, também é uma guerra familiar em certa medida, uma vez que a rainha britânica Vitória passara várias décadas estabelecendo alianças dinásticas, acreditando, ironicamente, que se as monarquias estivessem ligadas por laços consanguíneos, seria mais fácil evitar novas guerras. O rei britânico George V, o kaiser Guilherme II e o czar Nicolau II são primos, sendo as mães de Nicolau e George irmãs e o pai de George e a mãe de Guilherme igualmente irmãos, bem como a família da czarina Alexandra proveniente da Alemanha. E se Guilherme e George são netos de Vitória, Alexandra é sua bisneta e Nicolau é sobrinho de sua nora também chamada Alexandra, princesa dinamarquesa, transformando o jogo de interesses políticos e econômicos em uma arena que defronta parentes próximos e será o ocaso desse modelo monárquico.

 

Ferro não se atém a essa minúcia de detalhes, mas deixa claro que o destino da família Romanov era seguido com extremo interesse nas casas reais alemã e britânica. Debruçando-se sobre correspondências pessoais e diplomáticas, chama a atenção para a existência de negociações sigilosas entre os bolcheviques e as outras potências ainda em guerra, tendo como condição atrelada ao armistício, a eventual sobrevivência da família imperial russa. Da mesma forma que se aprofunda no avanço geográfico das diversas tropas sitiando a Rússia em 1918 e mostrando a importância de tchecos, russos brancos, dinamarqueses, alemães e da localização de Ecaterimburgo no cenário desse avanço.

 

Esses movimentos de tropas, tanto quanto os interesses familiares, são essenciais para entender a cronologia dos acontecimentos que precipitaram o fuzilamento de Nicolau II, a despeito das negociações procedidas por Chicherin, comissário soviético das Relações Exteriores, em nome de Lenin. Nesse sentido, a localização das tropas tchecas (associadas aos russos brancos contrarrevolucionários) a poucos dias de Ecaterimburgo, com possibilidades concretas de libertar a família Romanov, deixou os dirigentes do soviete dos Urais diante de um impasse e a autonomia de que desfrutavam nesses albores revolucionários permitiu que algumas deliberações fossem feitas e medidas tomadas, a despeito tanto de Lenin quanto de Chicherin. E a confusão reinante nas semanas que se seguiram à execução gerou versões e testemunhos extremamente diversos e contraditórios, que seriam posteriormente eclipsados na versão homogeneizada comunmente aceita por brancos e vermelhos de que toda a família havia sido eliminada.

 

Para Ferro, era mais conveniente para Lenin, e seus colaboradores mais próximos, passar por assassinos do que por traidores da Revolução Internacional por negociar com Guilherme II. Nesse sentido, baseando-se em escritos dos principais envolvidos, chama a atenção para o fato de que os comissários (e o próprio Lenin) não confiaram sequer em Leon Trotsky e o mantiveram às escuras sobre o destino da família de Nicolau II. À época o próprio Stalin ainda nem figurava nesse cenário de tomada de decisões e o autor nem mesmo o menciona.

 

Da mesma forma, ajudado pelos achados de outros estudiosos, Ferro dá pistas esparsas de que as jovens Romanov teriam sobrevivido, embora nada se saiba sobre o herdeiro. O testamento de Maria Romanov, datado de 1970, uma foto desta com Olga no fim da década de 50 e algumas cartas familiares que admitem que a mulher que se apresentou como Anastácia em 1919 era mesmo a princesa, mesmo que depois a família o tenha negado. Esses são indícios suficientes para levantar dúvidas sólidas e razoáveis sobre a versão oficial.

 

Eu mesma, durante muito tempo, duvidei da veracidade de Anna Anderson e atribuo meu ceticismo ao modo romântico e piegas com que a imprensa a tratou em um primeiro momento e à sucessão de versões em que foi definida desde a princesa esquecida do cinema, à doente mental ou à fraude atribuída por diversos setores envolvidos em analisar suas reivindicações. E, nesse sentido, devo agradecer a Marc Ferro por ser tão honesto ao mostrar que os testemunhos ambíguos e evasivos de Anastácia também contribuíram para dar solidez aos parentes Romanov que a renegaram para não dividir a herança familiar. E me atrevo a ir além do que o autor e pensar sobre algumas dessas contradições e ambiguidades.

 

Ferro usa os documentos para argumentar que Anastácia fugira duas vezes de Ecaterimburgo, falhando na primeira tentativa e sendo brutalmente seviciada, mas tendo sucesso na segunda tentativa e não estando presente quando o pai foi executado e o resto da família evacuado. Quando aparece na Europa, ela não sabe que a mãe e as irmãs sobreviveram e ninguém lhe conta, sendo que sua versão de sobrevivência implica em dizer que foi ferida quando a família foi exterminada, mas salva por alguns guardas. Nesse sentido, o autor fica perplexo sobre a mentira contada pela princesa, uma vez que ela nem estava mais em Ecaterimburgo quando os eventos fatais se deram.

 

E eu me permito analisar essa mentira de uma maneira que incorpora as outras informações sobre esses acontecimentos. Diz Ferro que Anastácia foi violentada por um guarda polonês e engravidou, dando a entender que para sobreviver a princesa se submeteu ao abuso e passou a viver maritalmente com seu salvador. O autor tem muito cuidado em deixar claro que essa não deve ter sido uma escolha e sim uma consequência de suas fugas.

 

Acredito que, ao apresentar-se publicamente e reivindicar seu quinhão monetário e dinástico da família Romanov, Anastácia contrariou profundamente os interesses de seus parentes russos que ainda a viam como alemã. Não apenas isso, o fato de que (para os padrões da época) a jovem constituía “material avariado” devido ao seu relacionamento sexual com o guarda (mesmo que este tenha sido fruto de violência), impedindo que pudesse ser inserida no complexo jogo de alianças matrimoniais que movia a realeza europeia. Do mesmo modo, admitir a sobrevivência de Anastácia constituía um problema dinástico e apaziguava levemente a lenda negra da barbárie bolchevique, o que nenhum de seus parentes russos queria.

 

E por que Anastácia mentiu sobre sua sobrevivência? Bem aí me atrevo a pensar que a culpa por ter fugido e abandonado sua família para morrer deve ter tido um papel importante à medida que os relatos sobre as atrocidades da execução se avolumavam. Como admitir que estivesse viva por que fugira e abandonava as pessoas que mais amava?

 

Certamente era mais fácil forjar uma história que se inserisse na narrativa oficial e lhe permitisse angariar a solidariedade de parentes e amigos. E falhou por não ter calculado que sua família estava longe de ser um exemplo de solidariedade, e que ao menos uma dezena de Romanov (ao longo de mais de duzentos anos) havia derramado o sangue familiar pelos mais diversos motivos ligados ao exercício do poder. Do mesmo modo que sua mãe alemã não era querida na Rússia, sendo motivo de desconfiança, as atitudes imaturas e imprudentes da princesa pesaram para que os parentes a considerassem mais alemã que russa.

 

E penso que nenhum parente (nem mesmo os que a aceitaram em um primeiro momento) lhe contou que as irmãs e a mãe estavam vivas e escondidas porque sabiam que não poderiam confiar em seu silêncio. Quer fosse porque seu estado mental inspirava cuidados ou porque continuava a mesma boquirrota que fora durante a adolescência, as pessoas que a conheceram preferiram silenciar sobre o destino de sua família, uma vez que a segurança das jovens sobreviventes requeria o anonimato. Nesse sentido, suas irmãs jamais vieram a público ou tentaram desafiar os Romanov russos que viviam na Europa desfrutando o luxo advindo da pilhagem imperial.

 

O livro de Marc Ferro abre as possibilidades de repensar a cronologia e os eventos de 1918 e olhar para os primeiros momentos da Revolução Russa com outros olhares. Em boa hora, uma vez que estamos rodeados de basbaques que a cada ano atribuem mais e mais atrocidades e “milhões e milhões” de cadáveres ao comunismo, sem jamais ter sequer consultado arquivos ou fontes soviéticas ou qualquer livro sério. Está mais do que na hora de desmistificar relatos propagandísticos de barbárie e encarar a Revolução Russa como o marco histórico que foi e o processo passível de estudo, que ainda precisamos desvendar.

PERDAS E AUSÊNCIAS

2 nov

Quando se conta a própria vida em décadas, uma das consequências mais naturais é o acúmulo das perdas. Perdemos amigos, parentes, sonhos, projetos, ilusões e até um pouco a nós mesmos. E passamos a lamentar essas ausências como se fossem “buracos” em nossas identidades.

 

No fim dos anos 60, meu finado tio Teodoro morava em Buenos Aires e, em uma de suas esporádicas visitas a Montevidéu, nos contou a seguinte história. O River Plate, eterno rival do Boca Juniors, amargava há um bom tempo uma fase de derrotas e não conseguia vencer jogos, que dirá campeonatos. A torcida, inconformada, cobrava do time a “raça” tão valorizada nas duas margens rioplatenses.

 

Para provocar os brios do time, os torcedores costumavam jogar uma galinha no campo, ao início de cada jogo. De nada adiantava revistar a torcida na entrada do estádio ou aumentar o policiamento, a cada vez que os jogadores se perfilavam para o início da partida, surgia a ave passando de mão em mão até ser arremessada em direção ao campo e desembestar em corrida alucinada entre jogadores a arbitragem. O galináceo apavorado a correr e os ocupantes do campo tentando grotescamente capturá-lo era a afirmação de que a torcida considerava o time “covarde” demais e queria que “acordasse”.

 

Meu gosto pelo futebol é suficiente para não me sentir excluída no ambiente latino-americano que cultua esse esporte de origem bretã. Não sou nem nunca fui fanática e dispenso as conversas intermináveis sobre estratégias e efemérides de cada time. Meu time do coração é o Nacional de Montevidéu porque eu sou Alaniz até o último fio de cabelo, mas tenho simpatias por muitos times brasileiros, incluindo a nossa “macaca” aqui de Campinas, que era o time favorito do Professor Amaral Lapa.

 

Isto posto, devo dizer que uma das perdas periféricas, que me afetou em menor medida ao longo das últimas décadas, é exatamente a que se refere às transformações sofridas pelo futebol. A transformação sistemática dos campeonatos em balcões de negócios e dos jogadores em vitrines de publicidade; o surgimento das “estrelas” com salários obscenos e personalidades execráveis; o abandono do gosto pelo jogo para privilegiar a obtenção de resultados. Todos esses fatores fizeram com que fôssemos obrigados a presenciar mais jogos medíocres e menos momentos de verdadeira “raça” e tiraram o brilho das Copas Mundiais, que foram momentos maravilhosos da minha infância.

 

Às vezes, a soma dessas perdas periféricas pode alcançar níveis insuportáveis e transformar a nossa vida em um inventário de ausências melancólicas e nostálgicas. E nem sempre percebemos o processo enquanto está ocorrendo, como é o caso da nossa população indiferente, que parece não entender que as reformas políticas e econômicas levadas a cabo pelo governo golpista estão perdendo para sempre a possibilidade de futuro e sobrevivência de uma boa parte da população e do próprio país. A soma de todas as perdas, cedo ou tarde, esmagará cada um de nós sem remissão.

 

E não há quem arremesse galinhas em nossa direção para nos “acordar” e exigir que reencontremos nossa “raça”. Como o River Plate que começava a década de 70 acumulando derrotas e amargava sua “mala racha” sem grandes ilusões, presenciamos o sacrifício de nosso país no altar do deus mercado, para benefício de uns e outros. E ruminamos as perdas como se fossem individuais e pessoais, sem a capacidade para sermos solidários e pensar coletivo.

 

E talvez seja o momento, tanto no futebol quanto na vida real, de parar de pensar em trajetórias individuais de sucesso, em “estrelas” e jogar pelo coletivo, pelo time, honrando a camiseta e pensando no futuro. Para evitar perdas maiores, para sair do marasmo, para “acordar” a nossa “raça” e retomar o rumo dos nossos destinos. Talvez.

 

É por isso que hoje, embora meu coração esteja mais para Bernarda Alba e a tentação de dizer os versos sublimes de García Lorca:

“Y no quiero llantos.

La muerte hay que mirarla cara a cara.

¡Silencio!

¡A callar he dicho!

Las lágrimas cuando estés sola.

¡Nos hundiremos todas en un mar de luto!

(…)

¿Me habéis oído?

¡Silencio, silencio he dicho!

¡Silencio!”

 

Prefiro levantar a taça e repetir o belíssimo brinde que Neil Gaiman atribuiu ao imortal Hob Gadling na graphic novel Estação das Brumas:

 

“Aos amigos ausentes, amores perdidos, deuses antigos e à estação das brumas; e que cada um de nós sempre conceda ao diabo o seu quinhão.”

 

Porque os meus mortos são muitos e minhas perdas estão gravadas nas carnes murchas que carrego sobre os ossos cansados. E quando a ausência dói é melhor celebrar quem se foi do que remoer o passado. E porque ainda penso no futuro e quero manter vivas minhas lutas e meus sonhos.