AS PRINCESINHAS ROMANOV

4 nov

Acabei de ler o trabalho instigante de Marc Ferro A verdade sobre a tragédia dos Romanov e quero deixar registradas algumas considerações que me parecem necessárias. A obra, que é de 2012, recebeu este ano sua primeira edição em português, certamente na esteira da efeméride dos cem anos da Revolução Russa. E tem passado bastante ao largo da grande imprensa, pouco dada a fugir do sensacionalismo e enfrentar um debate historiográfico mais sério.

 

O argumento central de Marc Ferro é de que a czarina Alexandra e seus filhos não foram abatidos em Ecaterimburgo, como reza a lenda das atrocidades atribuídas ao governo bolchevique. Tendo conseguido acesso a alguns documentos inéditos e outros pouco estudados, Ferro constrói uma dúvida sólida e razoável à versão comumente aceita do fuzilamento, mutilação e queima dos cadáveres do último Romanov coroado e sua família. Lançando, também, alguma luz nos acontecimentos ao longo de 1918 tanto no âmbito dos sovietes quanto na situação europeia e seus desdobramentos.

 

É um livro bem modesto, muito mais uma complementação à obra já conhecida do autor sobre a Rússia do século XX. Expoente contemporâneo da escola historiográfica francesa dos Annales, Ferro tem uma vasta e eclética produção que vai do tema em questão à História do Cinema e é bem respeitado, embora não tão conhecido quanto Le Goff e Duby. E, a despeito do título bombástico, provavelmente sugestão editorial, o volume é bem equilibrado ao alinhar as inconsistências das versões existentes sobre o destino dos Romanov.

 

Se há algo que não se pode atribuir ao autor, em sentido algum, historiográfico ou político, é a condição de marxista. Se bem que não seja um entusiasta admirador da monarquia russa como Simon Sebag Montefiore, o tedioso autor do gigantesco Os Romanov 1613-1918, que passa as quase novecentas páginas de texto e notas da edição brasileira seduzido pela autocracia, Ferro também não tem qualquer espécie de admiração pelos revolucionários. Sua análise documental passa longe do sentimentalismo piegas de Montefiore, mas também não cai nas armadilhas do ativismo político inerente a muitos dos contemporâneos que se debruçam sobre a Rússia soviética.

 

E há alguns aspectos de suas inferências que eu quero aprofundar porque isso me parece extremamente importante em uma época em que qualquer autor de repertórios de almanaque ganha alcance televisivo, e se arroga o direito de estabelecer palavras finais sobre fatos à margem e a despeito do conhecimento acadêmico. Há que se pensar sobre como as versões correntemente aceitas para o destino dos Romanov foram estabelecidas e quais os interesses envolvidos para silenciar esta interpretação alternativa. Bem como não se pode deixar de explorar os contextos, os testemunhos e a longevidade das percepções populares sobre o tema, o papel do cinema e a contaminação dessas mídias por interesses muito além da necessidade do conhecimento histórico.

 

Marc Ferro dá ênfase ao cenário geopolítico da Europa de 1918, quando a Alemanha e os países da entente encontravam-se mergulhados em perdas monumentais decorrentes da guerra em curso e a Revolução Russa redefiniu o campo de batalha significativamente. Da mesma forma, preocupa-se em oferecer o cenário confuso e volátil dos primeiros anos da Revolução, quando os sovietes eram relativamente autônomos e o poder ainda não havia sido centralizado em Moscou. Assim como, cuidadosamente mostra que os russos brancos e os Romanov residentes em outros países europeus mantinham interesses bem escusos em relação à eventual eliminação da família alemã de Nicolau II.

 

A Primeira Guerra Mundial, em toda a sua complexidade, em que os impérios se defrontam e sucumbem, também é uma guerra familiar em certa medida, uma vez que a rainha britânica Vitória passara várias décadas estabelecendo alianças dinásticas, acreditando, ironicamente, que se as monarquias estivessem ligadas por laços consanguíneos, seria mais fácil evitar novas guerras. O rei britânico George V, o kaiser Guilherme II e o czar Nicolau II são primos, sendo as mães de Nicolau e George irmãs e o pai de George e a mãe de Guilherme igualmente irmãos, bem como a família da czarina Alexandra proveniente da Alemanha. E se Guilherme e George são netos de Vitória, Alexandra é sua bisneta e Nicolau é sobrinho de sua nora também chamada Alexandra, princesa dinamarquesa, transformando o jogo de interesses políticos e econômicos em uma arena que defronta parentes próximos e será o ocaso desse modelo monárquico.

 

Ferro não se atém a essa minúcia de detalhes, mas deixa claro que o destino da família Romanov era seguido com extremo interesse nas casas reais alemã e britânica. Debruçando-se sobre correspondências pessoais e diplomáticas, chama a atenção para a existência de negociações sigilosas entre os bolcheviques e as outras potências ainda em guerra, tendo como condição atrelada ao armistício, a eventual sobrevivência da família imperial russa. Da mesma forma que se aprofunda no avanço geográfico das diversas tropas sitiando a Rússia em 1918 e mostrando a importância de tchecos, russos brancos, dinamarqueses, alemães e da localização de Ecaterimburgo no cenário desse avanço.

 

Esses movimentos de tropas, tanto quanto os interesses familiares, são essenciais para entender a cronologia dos acontecimentos que precipitaram o fuzilamento de Nicolau II, a despeito das negociações procedidas por Chicherin, comissário soviético das Relações Exteriores, em nome de Lenin. Nesse sentido, a localização das tropas tchecas (associadas aos russos brancos contrarrevolucionários) a poucos dias de Ecaterimburgo, com possibilidades concretas de libertar a família Romanov, deixou os dirigentes do soviete dos Urais diante de um impasse e a autonomia de que desfrutavam nesses albores revolucionários permitiu que algumas deliberações fossem feitas e medidas tomadas, a despeito tanto de Lenin quanto de Chicherin. E a confusão reinante nas semanas que se seguiram à execução gerou versões e testemunhos extremamente diversos e contraditórios, que seriam posteriormente eclipsados na versão homogeneizada comunmente aceita por brancos e vermelhos de que toda a família havia sido eliminada.

 

Para Ferro, era mais conveniente para Lenin, e seus colaboradores mais próximos, passar por assassinos do que por traidores da Revolução Internacional por negociar com Guilherme II. Nesse sentido, baseando-se em escritos dos principais envolvidos, chama a atenção para o fato de que os comissários (e o próprio Lenin) não confiaram sequer em Leon Trotsky e o mantiveram às escuras sobre o destino da família de Nicolau II. À época o próprio Stalin ainda nem figurava nesse cenário de tomada de decisões e o autor nem mesmo o menciona.

 

Da mesma forma, ajudado pelos achados de outros estudiosos, Ferro dá pistas esparsas de que as jovens Romanov teriam sobrevivido, embora nada se saiba sobre o herdeiro. O testamento de Maria Romanov, datado de 1970, uma foto desta com Olga no fim da década de 50 e algumas cartas familiares que admitem que a mulher que se apresentou como Anastácia em 1919 era mesmo a princesa, mesmo que depois a família o tenha negado. Esses são indícios suficientes para levantar dúvidas sólidas e razoáveis sobre a versão oficial.

 

Eu mesma, durante muito tempo, duvidei da veracidade de Anna Anderson e atribuo meu ceticismo ao modo romântico e piegas com que a imprensa a tratou em um primeiro momento e à sucessão de versões em que foi definida desde a princesa esquecida do cinema, à doente mental ou à fraude atribuída por diversos setores envolvidos em analisar suas reivindicações. E, nesse sentido, devo agradecer a Marc Ferro por ser tão honesto ao mostrar que os testemunhos ambíguos e evasivos de Anastácia também contribuíram para dar solidez aos parentes Romanov que a renegaram para não dividir a herança familiar. E me atrevo a ir além do que o autor e pensar sobre algumas dessas contradições e ambiguidades.

 

Ferro usa os documentos para argumentar que Anastácia fugira duas vezes de Ecaterimburgo, falhando na primeira tentativa e sendo brutalmente seviciada, mas tendo sucesso na segunda tentativa e não estando presente quando o pai foi executado e o resto da família evacuado. Quando aparece na Europa, ela não sabe que a mãe e as irmãs sobreviveram e ninguém lhe conta, sendo que sua versão de sobrevivência implica em dizer que foi ferida quando a família foi exterminada, mas salva por alguns guardas. Nesse sentido, o autor fica perplexo sobre a mentira contada pela princesa, uma vez que ela nem estava mais em Ecaterimburgo quando os eventos fatais se deram.

 

E eu me permito analisar essa mentira de uma maneira que incorpora as outras informações sobre esses acontecimentos. Diz Ferro que Anastácia foi violentada por um guarda polonês e engravidou, dando a entender que para sobreviver a princesa se submeteu ao abuso e passou a viver maritalmente com seu salvador. O autor tem muito cuidado em deixar claro que essa não deve ter sido uma escolha e sim uma consequência de suas fugas.

 

Acredito que, ao apresentar-se publicamente e reivindicar seu quinhão monetário e dinástico da família Romanov, Anastácia contrariou profundamente os interesses de seus parentes russos que ainda a viam como alemã. Não apenas isso, o fato de que (para os padrões da época) a jovem constituía “material avariado” devido ao seu relacionamento sexual com o guarda (mesmo que este tenha sido fruto de violência), impedindo que pudesse ser inserida no complexo jogo de alianças matrimoniais que movia a realeza europeia. Do mesmo modo, admitir a sobrevivência de Anastácia constituía um problema dinástico e apaziguava levemente a lenda negra da barbárie bolchevique, o que nenhum de seus parentes russos queria.

 

E por que Anastácia mentiu sobre sua sobrevivência? Bem aí me atrevo a pensar que a culpa por ter fugido e abandonado sua família para morrer deve ter tido um papel importante à medida que os relatos sobre as atrocidades da execução se avolumavam. Como admitir que estivesse viva por que fugira e abandonava as pessoas que mais amava?

 

Certamente era mais fácil forjar uma história que se inserisse na narrativa oficial e lhe permitisse angariar a solidariedade de parentes e amigos. E falhou por não ter calculado que sua família estava longe de ser um exemplo de solidariedade, e que ao menos uma dezena de Romanov (ao longo de mais de duzentos anos) havia derramado o sangue familiar pelos mais diversos motivos ligados ao exercício do poder. Do mesmo modo que sua mãe alemã não era querida na Rússia, sendo motivo de desconfiança, as atitudes imaturas e imprudentes da princesa pesaram para que os parentes a considerassem mais alemã que russa.

 

E penso que nenhum parente (nem mesmo os que a aceitaram em um primeiro momento) lhe contou que as irmãs e a mãe estavam vivas e escondidas porque sabiam que não poderiam confiar em seu silêncio. Quer fosse porque seu estado mental inspirava cuidados ou porque continuava a mesma boquirrota que fora durante a adolescência, as pessoas que a conheceram preferiram silenciar sobre o destino de sua família, uma vez que a segurança das jovens sobreviventes requeria o anonimato. Nesse sentido, suas irmãs jamais vieram a público ou tentaram desafiar os Romanov russos que viviam na Europa desfrutando o luxo advindo da pilhagem imperial.

 

O livro de Marc Ferro abre as possibilidades de repensar a cronologia e os eventos de 1918 e olhar para os primeiros momentos da Revolução Russa com outros olhares. Em boa hora, uma vez que estamos rodeados de basbaques que a cada ano atribuem mais e mais atrocidades e “milhões e milhões” de cadáveres ao comunismo, sem jamais ter sequer consultado arquivos ou fontes soviéticas ou qualquer livro sério. Está mais do que na hora de desmistificar relatos propagandísticos de barbárie e encarar a Revolução Russa como o marco histórico que foi e o processo passível de estudo, que ainda precisamos desvendar.

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