UM BEIJO OU UM ABRAÇO?

23 nov

Pertenço a uma geração que foi atropelada pela tecnologia e obrigada a repensar cada etapa do aprendizado e das sociabilidades formais. Já no início deste milênio não conseguia convencer a mais de um jovem que usar um boné dentro da sala de aula demonstrava grosseria e falta de respeito. O boné havia-se tornado um acessório de moda e não mais a peça utilitária de vestuário que nos protegia do sol.

 

A massificação do vestuário e a glamorização de peças que antes apenas serviam para nos proteger das intempéries criaram toda uma fauna de gente que usa óculos escuros e bonés em ambientes fechados ou mesmo noturnos, sem a menor noção de que apenas alguns anos atrás isso seria considerado uma grosseria atroz em relação ao entorno social que os recebe.

 

Eu nem vou entrar no mérito da internet e do distanciamento humano que ela nos impõe, que permite despertar os piores instintos e assassinar diariamente os poucos pruridos de consideração humana que ainda nos restam. Essa é uma briga que já perdemos porque as pessoas gostaram demais de ser grossas, implicantes, prepotentes e arrogantes, vangloriando-se de seus credos e pavoneando-se dando suas opiniões sobre toda sorte de temas que desconhecem. Uma vez aberta a caixa de pandora, só nos resta conformar-nos com os poucos e ralos aspectos positivos da interconexão mundial.

 

Nesse sentido, não adianta nada lamuriar-se de que as pessoas já não usam “por favor”, “com licença” e “obrigado”, ou lamentar a proliferação de notícias falsas e mentirosas. Estamos diante de uma pseudorrealidade em que as pessoas já não precisam nem da polidez e nem da honestidade, mas apenas da reafirmação reconfortante de suas certezas mais íntimas e de seus medos mais atávicos. E isso porque até seus medos (quem temem e o porquê de seus temores) é parte de sua identidade e a sociabilidade moderna dispensa o coletivo para reforçar identidades, egos e necessidades individuais.

 

O reconhecimento do indivíduo, que deveria liberar-nos de levar uma vida de gado, hoje nos torna pasto para as grandes corporações, enquanto vivemos a armadilha do falso protagonismo social.

 

E a internet, que é maior celeiro de antimarxistas de que tenho conhecimento, é também a maior evidência de que algumas das chaves interpretativas da História, pensadas pelo bom e velho Marx, ainda dão perfeitamente conta da realidade e estão mais vivas que nunca. Como o conceito de modos de produção, que especifica que as revoluções tecnológicas são responsáveis por alterações significativas no processo civilizatório e que impactam a cultura humana de tal modo que chegam ao ponto de definir-nos enquanto sociedades com historicidade e temporalidade específicas. Está acontecendo conosco neste momento.

 

A revolução tecnológica que permitiu essa modificação nos processos de comunicação e interlocução, também permitiu que a economia se transferisse para o meio virtual e que o capitalismo passasse a gerar lucro sem precisar das forças e dos meios produtivos. A concentração brutal de renda, que essa alteração na circulação financeira produziu, hoje impacta os sistemas políticos e ameaça destruir estados nacionais e práticas de cidadania que foram grandes conquistas e permitiram mais de um século de produção e expansão do conhecimento crítico. E a velocidade que transfere fortunas a paraísos fiscais e permite que nações inteiras sejam arruinadas em poucas horas, também se tornou responsável pelo fim iminente da civilidade, uma vez que a premência da vida não dá lugar a gentilezas ou gestos de reconhecimento do outro.

 

Somos ilhas. Ilhas conectadas em rede mundial. Mas pateticamente desabitadas.

 

E o modo como expressamos nossos afetos e amizades diz muito sobre essa pós-modernidade que se abateu sobre nós. Não que eu tenha qualquer simpatia ou interesse por esses fenômenos e seus analistas e defensores, sou um anacronismo que já não tem espaço neste tempo. Pertenço a uma linhagem dialética perdida em um mundo digital, que prescinde da interlocução em favor do protagonismo.

 

E é por isso que este texto é uma espécie de despedida. Da mesma forma que o canal no YouTube, o programa na Rádio Noroeste e a página Cantinho da História no Facebook já cumpriram sua função, este blog também já alcançou seu objetivo e chegou a hora de seguir meu caminho. Outros caminhos me aguardam, mas não posso continuar teimando em uma bolha minúscula com a ilusão de que o ativismo virtual vai evitar a derrocada do Brasil e a extinção da educação como a conhecemos.

 

As hordas da barbárie social estão à porta e é necessário redefinir as ferramentas para a luta e parar de perder tempo nesta bolha egocêntrica da internet.

 

E é aqui que eu explico o título deste derradeiro texto. Eu não gosto de beijos porque a banalização da falsa familiaridade social os transformou em um roçar burocrático que mal expressa qualquer coisa além de um cumprimento protocolar. Também tenho dificuldade de lidar com aquelas pessoas que não sabem apertar as mãos e nos oferecem uma extremidade informe, gelada e úmida que não corresponde ao aperto e ainda nos deixa com a sensação de que estamos constrangendo o interlocutor com a nossa força.

 

Eu sou dos abraços. Dos abraços que envolvem (não daqueles demonstrativos de masculinidade que, embora ruidosos de tapas nas costas, guardam um ou dois centímetros por onde a luz da heterossexualidade escoa em segurança), que estreitam, que confortam. Sou dos abraços que manifestam a presença humana, o carinho a estima e a consideração num simples gesto.

 

E é por isso que, em um mundo em que não me reconheço mais, eu prefiro bater em retirada, deixando a vocês o meu abraço fraterno mais sincero, sentido e carinhoso. Meu trabalho vai permanecer na rede para quem precisar, mas eu não estarei mais tão disponível quanto fiquei nestes últimos anos. Agradeço a todos pela companhia nesta caminhada e espero sinceramente que consigamos superar estes tempos sombrios e aziagos.

 

We shall overcome!

Anúncios

14 Respostas to “UM BEIJO OU UM ABRAÇO?”

  1. Amaury Machado 23/11/2017 às 6:22 pm #

    Professora, você fará falta!

    Espero poder continuar a acompanhar a sua lucidez de alguma outra forma. Artigos científicos, livros, palestras…

    Obrigado e um abraço fraterno,

    Amaury

  2. Hortência Nonato 23/11/2017 às 7:44 pm #

    Brava guerreira! Fique bem e desfrute da vida.

  3. Paulo Pinheiro Machado 23/11/2017 às 7:54 pm #

    Sua ausência fará muita falta. Os novos meios de divulgação precisam de inteligência, de reflexão e de experiências. Compreendo o ceticismo, mas pelo menos há meios de comunicação à nossa disposição. Teus vídeos do “Cantinho da História” são muito assistidos por estudantes de História de todo o Brasil. Sinal claro que há necessidade de materiais e debates com maior reflexão e profundidade.

  4. Gustavo Bruzarosco 23/11/2017 às 11:00 pm #

    Enquanto eu lia esse texto uma mistura de sentimentos ia tomando conta de mim, na cabeça ouvia Freddy Mercuri e a lendária Queen cantando ” The show must go on ” contrastando com uma tremenda inveja da sua coragem , coragem em entender que os tempos são outros , e que a gente não ensina quem não quer aprender. O texto me ótimo saiba que você encerra este ciclo em grande estilo e sai aplaudida pela porta da frente .

  5. Danilo Vizibeli 24/11/2017 às 10:36 pm #

    Esclareceu minha pergunta que fiz no Face na página do Cantinho. É uma pena. Porque a blogosfera ainda é uma salvação da internet se soubermos filtrar. E vc faz parte dela. Mas ao mesmo tempo como é dito pelo Karnal que sei que a senhora odeia e eu também odeio o estrelismo desses pseudointelectuais, “a internet deu voz aos idiotas” (nisso é verdade). Que você possa ser feliz nesse novo caminho que pretende traçar. E que bom que vai deixar deu trabalho por aqui o que tem muito a contribuir com todos nós

    • annagicelle 24/11/2017 às 10:38 pm #

      🙂 quero testar arquivos de áudio e abrir outros canais de comunicação 🙂

  6. Pablo 02/12/2017 às 10:17 pm #

    Professora,

    Seus vídeos, textos e entrevistas no noroeste foram de um importância imensurável para abrir-me outros horizontes. Não sou da área de História, mas da área jurídica, que, hà algum tempo necessita passar por reflexões profundas de humanidade, assunto que a Senhora tão bem nos apresentou.

    Desejo tudo bom para uma pessoa boa como vc.

    Sucesso na sua nova empreitada.

    Abraço.

    • annagicelle 03/12/2017 às 3:37 pm #

      Agradeço muito suas palavras tão gentis 🙂 fico muito feliz 🙂

  7. Beatriz Corcini 03/01/2018 às 5:59 pm #

    Professora Querida,

    Mandei uma mensagem sincera à página do Cantinho da História, pelo messenger. Espero que qualquer hora a senhora leia e sinta a gratidão que despejei ali.

    Que você continue trazendo luz a esse mundo tão fosco. Boa trajetória, muita Força e Luz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: