OS SÍMBOLOS DA VIOLÊNCIA

15 mar

Hoje é 15 de Março de 2018 e lá se vão dois mil e sessenta e dois anos da execução de Júlio César às portas do Senado Romano. O assassinato político “para o bem de Roma” foi revestido de um forte caráter simbólico e ritualístico. Cada senador aplicando uma punhalada para que não fosse considerado um crime individual ou pessoal e sim uma execução política em todo seu sentido simbólico e real.

 

Não que se tratasse do primeiro assassinato político no mundo Greco-romano, afinal naquele ano de 44 a.C. já lá se iam mais de trezentos anos da condenação de Sócrates, filósofo e professor. Acusado, entre outras coisas, de “perverter a juventude com sua filosofia”, Sócrates foi obrigado a envenenar-se para o bem da Hélade. Morte menos violenta pela ausência de sangue, mas não menos bárbara pela imposição de um “bem comum” que só se realiza com a morte de seus críticos.

 

Por mais anacrônico que possa parecer, os detentores do poder político e econômico de nosso país ainda pensam como gregos e romanos, mas não no melhor sentido. Ignorando sistematicamente a sofisticação do pensamento filosófico grego e as sutilezas linguísticas romanas, a classe que nos domina reproduz apenas a truculência cruel e sem escrúpulos do exercício nu do poder. E o faz com uma eficiência de dar arrepios.

 

Não se enganem pensando que seja um acidente do destino ou uma triste coincidência. Sofremos um golpe de estado que era para ser “branco” ou “brando”, mas que vai se consolidando com uma violência inaudita tomando nossos dias de horror e aflição. Haverá mais corpos a serem reivindicados, uma vez que as hostes de basbaques conhecidas como “cidadãos de bem” clamam e clamam por mais sangue, devidamente protegidos pelas barreiras eletrônicas de computadores e celulares.

 

Não é por acaso que os professores de Ciências Humanas estamos sofrendo uma perseguição sistemática, não apenas na forma de projetos de leis estapafúrdios, mas também com a criminalização do ato de ensinar a reflexão inerente à condição humana. Nossas competências e reputações são deturpadas por qualquer desqualificado (jornalista, político, ator, intérprete, taxista ou até mesmo o Zé da esquina) que tenha acesso a uma plataforma social, mesmo que não tenha formação nem capacidade para avaliar nosso trabalho. Nossas matérias estão sendo descartadas dos currículos escolares e já se cogita inclusive banir nossos cursos das universidades públicas.

 

Induzida por uma mídia tendenciosa, a multidão “cidadã” parece acreditar que a formação de um professor é coisa pífia e que bastaria que o docente reproduzisse literalmente os manuais previamente aprovados por essa súcia de aldeões com tochas para que as nossas escolas se transformassem em paraísos de harmonia. Ignoram, como ignorantes que são, as mais essenciais funções da educação e do ensino, bem como os custos de formação de um bom professor. Descartam, como se fracassados fossem, todos aqueles que escolheram a docência como profissão, mesmo sabendo que disso não teriam sequer o mínimo retorno financeiro ou status social.

 

E é por isso que em diversos estados e cidades da federação, comandados pelos arautos do projeto neoliberal, professores são perseguidos, assediados, espancados e eventualmente assassinados. A grande maioria nem sequer é assassinada pelas próprias mãos de seus algozes: stress, complicações da saúde cardiovascular, depressão, resultado de duas décadas de descaso e assédio, matam e a mídia silencia. Como Sócrates, a carne dos mestres permanece barata.

 

Mas não é apenas a deles. Jovens negros das periferias (e outros nem tão periféricos assim) morrem assassinados todos os dias, em meio ao caos urbano. Indígenas e camponeses, ativistas e sindicalistas são imolados em um ambiente de violência fundiária que dura mais de um século. E mulheres, mulheres e mais mulheres (héteros, lésbicas e trans) sofrem violências inauditas e são assassinadas todos os dias para manter intacta a ilusão de autoridade de homenzinhos irrisórios que, esmagados pelo sistema, precisam do machismo para “ser”.

 

E, nesse sentido, a execução bárbara e dantesca de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes é uma entre muitas, mas isso não a torna menos importante ou significativa. Vem carregada de símbolos ao ter acontecido com quem aconteceu, nas circunstâncias em que se deu e sendo quem são os suspeitos naturais. É a voz do poder dizendo “só vive quem nós deixamos, quem não nos desafia, quem não nos questiona, quem se cala e obedece”.

 

Desde Dilma Rousseff, deposta através de uma farsa por uma quadrilha de deputados e senadores brancos, velhos, héteros e cristãos (com a conivência da mídia e do judiciário), passando por todas as professoras (anônimas nas fotos ensanguentadas) espancadas ou perseguidas por policiais, alunos e sabe-se lá mais quem, até Marielle Franco, vereadora negra do PSOL e ativista em defesa dos Direitos Humanos, executada por forças que ninguém se atreve a nomear, salta aos olhos o caráter da violência social praticada pelos detentores do poder, seus prepostos e seus sequazes.

 

Misoginia, racismo, homofobia e preconceito social estão presentes no cerne dessa violência toda e os símbolos para interpretar esses significados estão escancarados e nos são esfregados diariamente na cara. Só não percebe quem escolhe a cegueira confortável ou quem se deixa manipular com alegria. Os detentores do poder consideram nossa carne barata e não se cansam de descartar vidas (como se nada fossem) em nome de seus projetos escusos e suas negociatas sórdidas.

 

E nos vendem a ilusão de que estão agindo em prol do “bem comum”. Como Brutus…

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