OS RESTOS MORTAIS DE MARIELLE

19 mar

Remains é a palavra em inglês para restos mortais, mas também é a conjugação em terceira pessoa para o verbo permanecer, reforçando (muito mais do que seus equivalentes em português) a noção de que quando alguém falece não deixa apenas um cadáver para trás, mas também uma série de memórias e significados que permanecem. Nesse sentido, pode parecer natural que quando alguém se vai, em quaisquer circunstâncias, pessoas e grupos sociais inteiros reivindiquem para si suas memórias e seus legados. É uma das maneiras que nossa espécie encontrou para lidar com a morte, as perdas e os lutos decorrentes de tragédias ou de ausências.

 

A brutal e escancarada execução da vereadora Marielle Franco está sendo repercutida pela sociedade brasileira e revelando o esgarçamento de nosso tecido social de um modo como toda sua vida de ativista jamais conseguiu. Oriunda da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, e portadora de vários signos de identidade social (negra, LGBT, intelectual, socialista, ativista em prol dos Direitos Humanos), era também uma completa desconhecida para uma boa parte de nós do resto do país. As emissoras que hoje disputam como urubus os restos de suas memórias jamais lhe deram sequer um segundo de destaque em suas lutas políticas quando em vida.

 

Do mesmo modo que muitos dos meus contatos que hoje se dizem seus “amigos e companheiros de luta” jamais compartilharam sequer um post seu nas redes sociais que frequento. E olha que a minha TL no Facebook é majoritariamente esquerdista e diversa. Esse é um sintoma de que a luta pela reivindicação de sua memória já começou e não está sendo uma luta bonita.

 

Lado a lado com os abjetos detratores e inventores de mentiras caluniosas, demagogos que usam o ativismo para promover seus próprios egos também ofendem ao reivindicar uma solidariedade que não praticam. A morte domesticou mais uma mulher que em vida não podia ser controlada, e possibilitou que ela coubesse nos discursos de uns e outros e pudesse virar carne de palanque. Em meio a uma comoção justa e verdadeira, os oportunistas pululam e se apropriam de discursos que não lhes pertencem.

 

E a mídia?

 

A grande mídia corporativa e oficial está promovendo um festival de manipulação emocional e sensacionalismo barato encobrindo uma agenda intervencionista nada louvável. As mesmas emissoras que silenciam o extermínio da população jovem negra, que já dura mais de uma década aqui no Sudeste, querem transformar sua morte em tema central para impor a agenda da Segurança Pública nas eleições que se aproximam. E, nesse sentido, não tem pudor algum de desfilar hipocrisia e falso moralismo nas telas que adentram nossos domicílios diariamente.

 

A “emissora líder de audiência” tem o desplante de fazer crer que legitima a família de Marielle, ao exibi-la em sua justa indignação em busca de reparação judicial, quando na verdade está usando cada um de seus parentes enlutados para mandar recados à nossa sociedade daltônica. E eu apoio inteiramente que a família use todos os meios de visibilidade possível para estancar de vez a campanha caluniosa e abjeta promovida pelos bolsominions nos últimos dias. Mas que não se perca de vista que a emissora em questão também quer distância agora do extremismo que ajudou a promover e usará todos os meios possíveis para isso, inclusive reivindicar uma porção da memória de Marielle, que não lhe pertence.

 

O simbolismo desses urubus midiáticos e políticos disputando os despojos da memória de Marielle dói. Dói tanto quanto a realidade brutal de sua execução política sumária e escancarada, que ceifou mais uma jovem promessa negra e reforçou o caráter excludente de nosso meio social. Mas não podemos permitir que os signos que ela portava sejam homogeneizados e higienizados para caber no discurso dominante, precisamos manter viva sua diversidade perante aqueles que querem domesticá-la na morte.

 

Marielle não pode ser um álibi para a intervenção militar, mas também não pode ser uma bandeira para os sonhos eleitorais megalômanos de partidinhos nanicos. Que se respeite a família e se permita que eles mesmos decidam a quem pertencem suas memórias. E que se respeite sua vida parando de usar sua morte.

 

Finalmente, o que fica dessa série de reportagens sensacionalistas e manipuladoras é um recado aos coxinhas, pixulecos e o povinho do mbl: vocês nos foram úteis na hora de promover o golpe, agora contentem-se em ser apenas um “puxadinho” do DEM ou do PSDB. Dada a repercussão internacional dessa execução bárbara e desnecessária, a “emissora líder de audiência” quer distância dos esbirros sedentos de sangue que ajudou a promover. Cabe a nós não deixar que isso caia no esquecimento.

 

E cabe a nós não deixar que Marielle vire carne de palanque.

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4 Respostas to “OS RESTOS MORTAIS DE MARIELLE”

  1. jorge de souza santos 19/03/2018 às 2:15 pm #

    Olá professora, bom dia! Desculpe-me pelo comentário que pode aparecer como insignificante, mas o objetivo é apenas contribuir. Adoro o blog, suas observações etc. apenas sugiro que no layout dos textos, onde fica registrado o dia e o mês da publicação, fosse inserido também o ano. Pode parecer bobagem, mas a navegação pelos textos do blog, na dinâmica da web (hipertextos), somos levados de um texto a outro, mas sem a noção do ano da publicação. Acho que auxiliaria M U I T O s a informação do ano fosse adicionada. Obrigado e parabéns!e

  2. elaine reis 19/03/2018 às 9:43 pm #

    Você é maravilhosa, Professora!
    Alcançar o cerne da questão sem esfacelar nenhuma camada é uma habilidade de poucos.
    Adoro ler seus artigos.
    Um grande abraço!

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