A ONIPRESENTE QUESTÃO DO HUMOR EM TEMPOS DE INTOLERÂNCIA

21 mar

Em algum momento entre 1969 e 1974, durante a existência do programa exibido pela BBC Monty Phyton Flying Circus, foi ao ar o sketch do papagaio morto. John Cleese enfrenta uma série de peripécias tentando obter uma reparação da loja de animais que lhe vendeu um papagaio morto. Em uma sucessão de diálogos absolutamente absurdos, com um sotaque esnobe medonho que opõe duas pessoas de classes sociais diferentes, o sketch avança e você nem imagina como vai terminar (e eu também não vou contar).

 

O sketch tornou-se um clássico daquele humor britânico nonsense que encontra na linguagem falada mais do que na corporal o tempo da piada. Foi votado diversas vezes como o melhor de todos os produzidos pelo grupo e ainda é relembrado décadas depois e permanece como referência para atores como Stephen Fry e Hugh Laurie. Conheço fãs que são capazes de declamar trechos inteiros da fala de John Cleese quando tenta convencer o atendente que o papagaio está obviamente morto.

 

Mas, sendo os Phytons quem eram, em um dado momento resolveram anarquizar o próprio sketch. Em um teatro lotado, aparece o cenário da loja e os fãs ficam eletrizados, John Cleese entra e faz sua reclamação, que Michael Palin acata de primeira e devolve o dinheiro. E então Cleese volta-se para a plateia e diz “para alguma coisa a Era Tatcher serviu” e encerra o sketch perante os fãs estarrecidos.

 

E esse é o humor anárquico porque subverte expectativas, clichês, modelos ou bordões e tira o espectador da área de conforto. Nunca se sabe o que pode acontecer ou qual o rumo da piada, nada é previsível, nada é esquemático. A fórmula é que não existe uma fórmula fechada e sim um desenrolar de absurdos que nunca se sabe até onde vai levar.

 

O humor estadunidense só tem um fenômeno similar e é a trupe dos Irmãos Marx, liderada pelo inesquecível e imprevisível Groucho. Usamos a palavra “anárquico” para definir esse tipo de humor exatamente porque não aceita os cânones e modelos amplamente difundidos no teatro e na televisão. É um humor sem bordão, sem escada no sentido clássico do termo (aquele que prepara o clima para que outro arremate a piada), sem personagens fixos e imutáveis, sem o timing previsível e esperado.

 

E é anárquico mesmo. Não é anarquista porque não existe um humor anarquista (ou comunista ou socialista), quando grupos ideológicos tem seu senso de humor este se restringe a piadas internas apenas compreensíveis por quem compartilha o mesmo conjunto de referências (como aquele “humor nerd” de físicos, químicos ou matemáticos, que apenas eles entendem e mais ninguém). É anárquico por ser iconoclasta e demolir as certezas da sociedade e da própria comédia, mas sem fazer do discurso uma plataforma panfletária.

 

Em tempos de intolerância social e política precisamos mais do que nunca de mentes como as dos Phytons e dos Irmãos Marx, que chacoalhem as certezas estabelecidas e destruam os modelos que engessam o humor e a vida. E precisamos deles porque o humor popular, aquele celebrado em circos e programas de TV de auditório ou de bordão, tende a tornar-se agressivo e reproduzir as tensões sociais estereotipando quem não tem como se defender. E o humor político e crítico nem sempre dá conta de desconstruir a sociedade e seus preconceitos e está sempre a um passo de tornar-se panfletário.

 

Humoristas sem talento passam a vida agredindo grupos sociais já estigmatizados e reclamando quando são criticados por isso. Do stand up racista ao tiozão do pavê, passando pelo machista das piadas de loira, esse é um mundo referências que acredita que o humor não deve ter limite algum. O que é uma falácia porque no limite de qualquer manifestação artística estão o ultraje e a ofensa que se tornam crime.

 

Não se trata de uma questão de gosto pessoal ou suscetibilidade classista, trata-se de um ganho civilizatório que permite respeitar os direitos dos seres humanos e impedir que grupos majoritários zombem daqueles a quem oprimem. É o que separa o riso do escárnio, a crítica da calúnia e o próprio humor de tornar-se uma sucessão de agressões gratuitas a quem não gostamos ou não aceitamos. É a necessidade de resgate da nossa humanidade pelo riso que iguala e não pelo riso que humilha.

 

É o talento de retratar um negro machista com ênfase no machista e jamais no negro, permitindo que o público perceba que aquela personagem poderia ter qualquer outra procedência étnica. Para que o adjetivo não cole jamais em um único sujeito porque isso poderia levar a sociedade a ver esse sujeito apenas como aquele adjetivo. Para que quando a crítica social seja feita, qualquer um de nós possa vestir a carapuça e aprender mais sobre si e melhorar como ser humano.

 

E isso porque inserida em todo aquele palavrório nonsense dos Pythons estava uma crítica devastadora ao sistema de classes britânico, à religião, à monarquia, ao sistema financeiro e todo e qualquer meio de opressão, até mesmo a um lojista trambiqueiro que vendeu uma ave morta a um incauto.

 

E é assim que humor deveria ser. Uma manifestação do riso anárquico que iguala e emancipa. Não uma sucessão de escatologias e agressões gratuitas aos grupos mais estigmatizados e oprimidos da sociedade.

 

Achou que humor vive sem política? Achou errado, otário!  😀

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2 Respostas to “A ONIPRESENTE QUESTÃO DO HUMOR EM TEMPOS DE INTOLERÂNCIA”

  1. Rose Mota 28/03/2018 às 2:51 pm #

    Anna, só você para fazer me refletir e dar risada com suas ideias geniais, você é fantástica parabéns!!

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