Arquivo | abril, 2018

COMPANHEIROS DE VIAGEM

28 abr

Folheando a edição número 1000 de Carta Capital, datada desta semana, encontro a reprodução de dois ensaios sensacionais de Umberto Eco. Em A sociedade líquida (publicado originalmente em 2015), o Mestre afirma “Com a crise do conceito de comunidade, emerge um individualismo desenfreado, onde ninguém mais é companheiro de viagem de ninguém, e sim seu antagonista, alguém contra quem é melhor se proteger.”. E o eco dessas palavras reverbera em mim de uma maneira tão pungente que preciso escrever.

 

Se você que está lendo este texto já foi meu aluno, deve lembrar-se de uma das minhas citações favoritas. Já contei e recontei este trecho de Érico Veríssimo em aulas, formaturas, palestras e mesmo assim continua sendo um dos pontos definidores da minha vida. Se você nunca foi meu aluno, preste atenção com paciência e carinho e quem sabe também se apaixona pelo autor gaucho.

 

Em Olhai os lírios do campo, Eugênio conversa com Olívia na noite de formatura e compara a vida com um transatlântico, afirmando que fará tudo o que estiver ao seu alcance para não passar sua existência na terceira classe. Anos depois, Olívia retoma o assunto em uma carta e lhe diz que a pergunta essencial na vida não é “em que classe eu quero viajar?” e sim “estarei sendo um bom companheiro de viagem?”. Essa resposta epistolar para um diálogo nunca encerrado é meio que o ponto de virada no livro e, ao menos para mim, uma das argumentações mais bonitas sobre a vida e seus assuntos.

 

A expressão companheiro de viagem adquire significados mais profundos para nós comunistas e para mim em particular. E isso porque eu encaro a vida e o próprio comunismo como uma viagem em que, mais importante que o destino, é o processo de crescimento e transformação durante a caminhada. Se isso lembrou a você a concepção de utopia de Eduardo Galeano, então você me entendeu perfeitamente.

 

Muito tenho argumentado neste blog sobre o “ser ou não ser” que acomete as esquerdas planetárias e sobre a incapacidade da “nova” direita para entender quem somos e como pensamos, motivo pelo qual é mais fácil defender nossa eliminação. A triste realidade é que nem a direita mais tradicional e nem mesmo alguns setores que se consideram mais puros da própria esquerda conseguem ir além das analogias primárias com regimes e grupos que já se afirmaram comunistas um dia e se perderam pelos caminhos da vida e seus percalços.  E é por isso que passamos mais tempo discutindo o pensamento raso de quem não nos entende, do que fazendo-nos entender por quem vale a pena.

 

Um dos motivos que me levou a usar na internet o bordão “Stalin matou foi pouco” (e seja quem for o autor, eu rendo minha homenagem à perspicácia dessa síntese) foi exatamente essa fixação da direita e dos trotskistas com estatísticas e contagens de mortes coligidas de maneira obscura e incluindo até intempéries como se até estas fossem responsabilidade do velho bigodudo. Não há uma única vez (nos últimos dez anos) em que eu me reafirme comunista, sem que apareça algum infeliz para jogar na minha cara, nas minhas costas e na minha conta as “mortes do Stalin”. E a cada ano aumentam, de vinte milhões no começo já passaram recentemente a mais de cem milhões, parece que todas as pessoas que faleceram na extinta União Soviética e no Leste Europeu, por ocasião da Segunda Guerra Mundial e nas décadas de 30-40-50 são culpa direta dele, como se as tivesse assassinado com as próprias mãos.

 

Se não fosse anacronismo, até a Peste Negra e a Gripe Espanhola entrariam na conta dos crimes de Stalin…

 

Poucos (bem poucos na verdade) têm um entendimento minimamente aceitável sobre o ideário comunista, tanto teórico quanto pragmático. A maioria repete sem cessar e sem pensar os argumentos de uns poucos críticos, nem sempre honestos. E menos ainda são aqueles capazes de entender que se possa defender uma utopia revolucionária sem necessariamente pregar a morte como única solução de conflitos.

 

A utilização da expressão companheiro de viagem vem de uma época em que o axioma do manifesto “Proletários do mundo, uni-vos!” ainda ecoava nos versos da Internacional e levava várias gerações de idealistas a colocar a mochila no ombro e combater os franquistas na Espanha, os nazistas na guerra europeia e o colonialismo branco nos outros continentes. Eram companheiros de viagem que se reconheciam e se ajudavam na luta, mas com o surgimento de líderes e vanguardas, a viagem virou um saudosismo de militantes velhos e o termo companheiro foi banalizado a ponto de ser aplicado até a amantes não casados. Mas o comunismo autêntico não vem através dos líderes e nem das vanguardas, ele surge da união dos que se dispõem a mudar e a lutar.

 

Em um mundo de possibilidades, quem é comunista escolhe viver percebendo no outro uma identidade passível de união, ao invés de um inimigo que é necessário destruir. Mas, que isso não signifique que nos tornamos carneiros indo para o abate nas mãos das hostes de ignaros com forcados e tochas (e agora com 9mm’s). É necessário que saibam que nos temem pelos motivos errados, mas que ainda assim devem temer-nos.

 

Porque um dia, distante ou não, as pessoas vão compreender o que significa “uma terra sem amos” e aí seremos todos realmente companheiros de viagem. Até lá, cuidado, porque Newton já dizia sobre as forças contrárias equivalentes provocadas quando se exerce pressão. Mesmo quando não estamos dispostos a sair matando, este lastimável cabo de guerra (provocado pela mídia grande e por grupos de interesse e políticos sem escrúpulos) pode acabar arrebentando.

 

E quem despertou estas forças certamente terá motivos para se arrepender.

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A NEGATIVA POLIDA E O MACHISMO NOSSO DE CADA DIA (MESMO ENTRE NÓS QUE SOMOS DE ESQUERDA)

24 abr

Uma boa parte das mulheres da minha geração sabe o que é uma negativa polida, embora nem sempre a denominem assim, esse é o modo como eu me refiro àqueles momentos em que não queremos fazer o que nos pedem, mas não temos a capacidade de perder a cortesia. Talvez as mais jovens e a maior parte dos homens não entendam o mecanismo, por isso vou tentar explicar como funciona, neste meu modo intimista e pessoal que caracteriza este blog. Então, não esperem um tratado acadêmico ou um panfleto político, apenas as minhas mal ajambradas memórias.

 

Quando alguém sugere ou pede algo com que não concordo, eu me expresso de maneira polida com um “eu preferiria não fazer isso” ou “não acredito que essa poderia ser a melhor atitude (ou solução ou abordagem)” esperando que a pessoa entenda que eu não pretendo atender a seu pedido ou sugestão. Nove entre dez mulheres da minha idade ou mais velhas entendem de primeira, mas nunca conheci homem de geração alguma que entendesse, e com as companheiras mais jovens ainda é preciso um certo diálogo, mas no fim acabamos nos entendendo. A maior parte dos homens que conheci jamais percebeu a polidez como uma negativa e aqueles que a percebem assim, acreditam que eu farei o querem (mesmo não querendo) porque eles me pediram e a sociedade exige que eu os atenda.

 

Em parte é por isso que eu considero risíveis algumas dessas campanhas de “não significa não” porque a nossa programação social não nos permite a emissão de um não rotundo sem nos rotular como “grosseiras” e os meninos são educados para pensar que devem sempre nos convencer (não importa por quais meios) a aquiescer a suas vontades, mesmo quando isso nos humilha ou nos violenta. E, nesse sentido, o machismo é onipresente na nossa sociedade mesmo entre as hostes mais “libertárias” no seio das esquerdas mais radicais, com a diferença que estes não se veem como machistas (alguns porque se pensam superiores aos outros homens, outros porque nem sequer consideram o assunto como uma questão relevante) e não importa o quanto se lhes explique o absurdo de várias atitudes. São aqueles que, em momentos de ironia e sarcasmo, chamamos de esquerdomachos na falta de um substantivo melhor, para diferenciá-los daqueles elementos fundamentalistas de centro e de direita que consideram a opressão de gênero como sinônimo da normalidade da vida.

 

E comecei a pensar nesse tema há muito tempo, mas foi somente a experiência do Cantinho da História e deste blog que me proporcionou um conjunto de elementos para verbalizar o que tanto me incomodava desde a primeira juventude. Na internet conheci um interminável cortejo de jovens (e outros nem tanto) que não sabiam interpretar uma negativa polida para suas sugestões e passavam a cobrar por um conteúdo que eu não poderia ou não desejaria produzir, bem como aqueles que exigiram (e ainda exigem) que eu remova diversos conteúdos apenas porque não concordaram com a minha abordagem ou minhas opiniões. E olha que até mesmo relatando aqui algumas abordagens mais grosseiras que sofri, ainda uso o verbo no condicional para manter a polidez, haja pressão social nas questões do gênero!

 

Nos últimos três ou quatro anos aprendi na internet (e com minha filha também), com pensadoras e ativistas do feminismo interseccional, a identificar conceitualmente as violências sofridas desde menina. O mansplaining, o gaslightning e a anulação até me tornar invisível talvez sejam os mais frequentes, os outros ainda estou aprendendo a identificar. E é um processo doloroso de descompressão social, e muito solitário, ruminando e rememorando etapas inteiras da minha vida.

 

E, para muitos dos meus amigos tudo isso pode parecer um amontoado de lamúrias insignificantes de meia-idade, sempre percebo isso quando abordo a questão publicamente. São os mesmos que me cortavam a palavra até mesmo quando era eu quem estava proferindo a palestra no “Expressões Anarquistas” ou nas reuniões e eventos do CCS (Centro de Cultura Social de São Paulo). Com a desculpa de que os anarquistas não toleram hierarquias e praxes opressivas, fui sistematicamente interrompida por homens de todas as idades, que passaram a discorrer sobre assuntos que nem sequer eram pertinentes ao tema da palestra e não viram a grosseria e a misoginia de suas atitudes.

 

Por essas e outras (além do fato de jamais ter surgido um único vivente que dissesse “cala a boca e deixa que ela continue com sua fala”) é que eu me afastei dos eventos anarquistas. Isso e o fato de que sempre surpreendia um ou outro olhar dirigido ao meu marido quando eu tomava a palavra (como dizendo “você traz essa comunista aqui no nosso meio e nem é capaz de mantê-la calada”). E levei quase cinco anos para dimensionar esse mal-estar e ver o quanto precisava me afastar para manter a integridade, tanto no sentido físico (da saúde cardiovascular) quanto psíquico (da saúde mental e do equilíbrio pessoal).

 

Mas não são apenas as interrupções grosseiras, que aconteciam mesmo quando eu lecionava e que nunca vi um professor do gênero masculino ser o alvo. Existe aquele fenômeno insuportável da explicação condescendente (mansplaining), quando um sujeito qualquer (e pode até mesmo ser um adolescente) resolve nos explicar com um tom ofensivamente paternal e repleto de paciência, qualquer assunto que nós conhecemos muito melhor que ele. Já vi isso acontecer com professoras sexagenárias, que olhavam com ironia para o impertinente e preferiam nem responder, porque é assim que nós somos orientadas a reagir a esse tipo de grosseria invasiva, com paciência e resignação.

 

A resignação tão louvada pelos poetas que nos reputam nada além do amor.

 

E sempre me perguntei o porquê dentre os mais diversos setores da esquerda, o anarquismo ser um dos mais misóginos, podendo ser equiparado aos partidos comunistas mais tradicionais da primeira metade do século XX. E sempre recebia como resposta (de mais de meia dúzia de amigos) a certeza arrogante de que eu estava ficando “louca” ou “histérica” e que os homens da esquerda são companheiros e nos respeitam como nenhum outro. De louca a feminazi a fronteira ficou por demais tênue e ambos “substantivos” passaram a exemplificar uma longa trajetória de segregação e anulação social.

 

E eu continuaria ruminando minhas memórias em silêncio, não fosse um mero acaso. No passado domingo resolvi “caçar” na minha TL do Facebook alguns poemas antigos e comecei a rever minhas atividades e postagens a partir de 2011 e não gostei do que vi. Encontrei comentários sarcásticos, agressivos e sem noção em muitas das minhas postagens, por parte de dois “anarquistas” veteranos, que deletei em 2013, quando seu despudor e irresponsabilidade política ficou patente. E comentei com meu marido e passamos dois dias “descascando” a misoginia de vários dos nossos amigos e chegando a um denominador comum: Proudhon.

 

Pierre Joseph Proudhon (1809-1865) é considerado um dos fundadores do Anarquismo do século XIX, frequentemente citado e incensado por muitos de meus amigos (até os mais queridos) e tido pelos mais jovens como um crítico inteligente de Marx, o que já por si só seria risível. E digo isso porque Proudhon escrevia muito mal, construindo seu fraseado com a prolixidade daqueles autodidatas que escondem a falta de capacidade “empolando” a linguagem. Igualmente indigesto em francês e em espanhol, em português esse autor foi “melhorado” por diversos tradutores com interesse próprio na construção de seu mito fundador.

 

Diferente de Edgar Rodrigues, que aliava a simplicidade de uma prosa inteligente a uma honestidade intelectual rigorosa (motivo pelo qual uma geração inteira de “jovens anarquistas” nunca o suportou), Proudhon se escondia em mesquinharias e preconceitos, que travestia de “saber” e “filosofia”. E os amigos que o defendem escamoteiam os textos mais desonestos e desconversam quando tentamos estabelecer um diálogo sobre eles. É o caso de Filosofia del Matrimonio (estudio de filosofia practica), um texto absolutamente asqueroso que se encontra em francês na internet, e que recebeu uma edição em espanhol (Editorial Tor, Buenos Aires, sem datação), mas que jamais vimos em português.

 

Nesse sentido, embora se encontre uma alusão ou outra a essa obra na internet, tive dificuldades para conseguir uma datação exata e por isso nem me atrevo a afirmar de quando seria sua publicação original. Se alguém mais versado nos alfarrábios do autor puder fornecer essa informação, agradeço muito. Assim como adoraria que o livro em questão recebesse uma tradução honesta para o português e fosse divulgado com o mesmo afinco que se divulgam suas divagações sobre a propriedade e suas críticas a Karl Marx.

 

Nesse livro, Proudhon discorre da maneira mais pernóstica analisando a inferioridade física, moral e intelectual da mulher em relação ao homem. Chega ao desplante de atribuir porcentagens de valor matemático a essa inferioridade, afirmando o valor masculino em várias vezes o valor feminino. Usa textos de escritoras de sua época para comprovar suas afirmações e ignora totalmente seus contemporâneos com outras ideias que não as próprias.

 

Não apenas o autor reduz a mulher a suas funções reprodutivas como única função de relevância social, como defende o argumento de que as mulheres que se destacam somente o fazem porque assim foram ensinadas e instruídas por seus pais, irmãos ou maridos, o que daria o mérito de seu sucesso a eles e não a elas. Critica as noções de igualdade jurídica e reputa como impossíveis as reivindicações femininas e usa argumentos que não destoam de padres e pastores ao criticar as noções emergentes de “amor livre” de sua época. Em suma, um arrazoado de misoginia patriarcal por parte do patrono dos que hoje se dizem libertários.

 

Estou sendo anacrônica nesta crítica? Não creio, e digo mais, chamar alguém do século XIX de machista seria anacrônico, mas o caso de Proudhon é de uma misoginia tão miasmática e venenosa, que deve ter escandalizado alguns de seus próprios contemporâneos. É o silêncio sepulcral de seus atuais admiradores sobre isso que mais me assusta e choca.

 

Sinto uma saudade imensa de Edgar Rodrigues, que sintetizou de maneira magistral seu ideário anarquista no axioma “cada um vale um” e sempre me tratou com integridade e respeito. E não estou dizendo que exijo perfeição dos meus amigos (seja qual for sua coloração política), o que digo realmente é que espero e torço para encontrar coerência ao invés de autocomplacência hipócrita. Como o próprio Edgar, eu só atribuo a alguém a denominação de anarquista depois que as parcas impedirem qualquer “virada de casaca”, afinal, enquanto vivo o ser humano sempre tem potencial para renegar seu passado e cometer os desatinos mais variados.

 

E ainda sonho com o dia em que vou abrir minha boca de mulher em público e não vou ver mais revirar de olhos algum. E não vou ser interrompida, atropelada, “ensinada” e nem reduzida por homem algum. Nesse dia talvez eu me convença de que conquistamos algum tipo de paridade, até lá a luta continua, mesmo nas nossas fileiras mais próximas.

“VOCÊ SÓ SE DÁ COM GENTE DE ESQUERDA?”

21 abr

A anedota da primeira metade do século XX começa com um paciente entrando no consultório médico e relatando os sintomas de uma profunda depressão. O médico lhe diz para se animar, que seu problema não é físico e lhe recomenda que vá assistir ao espetáculo de um famoso palhaço que se encontra na cidade. Então o paciente se vira e responde: “o senhor não entende, eu sou o famoso palhaço”…

 

Já vi essa anedota reproduzida várias vezes, desde um diálogo em um romance da Agatha Christie até ser contada por Gil Grissom, o entomologista emblemático que liderou a equipe do C.S.I. Vegas por nove temporadas. Uma variação interessante (e por variação eu entendo quando se usa o mesmo tema de modo inteiramente diferente) relata que Sinatra gostava de contar que ouvira dois caras em um bar se lamentando sobre mulheres, ao som da jukebox tocando uma música dele. Lá pelas tantas, um deles todo emocionado perguntara: “nós temos a ele, mas a quem esse cara ouve quando está na fossa?”.

 

Palhaços que não podem alegrar a si mesmos. Intérpretes que traduzem a angústia de suas gerações, mas que não tem quem lhes traduza. Poetas como Maiakovski, que para animar a um amigo suicida dissera “é preciso arrancar alegria ao futuro” e tempos depois acabara por se suicidar também. É condição dos artistas retratar os mal-estares de suas próprias épocas e refletir a ambiguidade do mundo.

 

Assim como é condição inerente à contemporaneidade este sentimento de que a cada momento estamos sendo deixados para trás, seja pela tecnologia, seja pela História. Os europeus do século XIX sentiam vertigens com a velocidade entre trinta e quarenta quilômetros horários de um trem a vapor ou apavoravam-se diante das imagens animadas de trens em movimento nos primeiros filmes cinematográficos. Que diriam das nossas tecnologias e desse sentimento de obsolescência que nos assalta diariamente diante da deterioração civilizatória que atravessamos?

 

Será que se sentiriam como o palhaço incapaz de encontrar alguém que o faça rir?

 

Conferindo minha TL no Facebook, verifico que foi no passado dia 7 de abril que fechei ao público a página do Cantinho da História. Rolando o mouse e revisando as publicações, descubro que foi em 10 de maio de 2013 que fiz minhas primeiras postagens por lá. Por um momento, meu TOC incipiente me faz desejar que eu tivesse conseguido resistir mais um mês para realizar um ciclo de cinco anos completos, mas me vejo obrigada a concluir que a data do encerramento é emblemática e que a duração da página é um período que fala por si.

 

Embora pessoalmente tenda a acreditar que o golpe de 2016 teve seu verdadeiro início em 2005 com a farsa do “Mensalão”, que permitiu condenações sem provas e distorções grotescas no processo penal (em um julgamento claramente político), as cronologias oficiais dirão que foi com os protestos de 2013 que tudo começou. Então, minha página (que se destinava inicialmente à divulgação dos vídeos do canal) durou o tempo exato que levaram para desestabilizar o governo legitimamente eleito, promover o golpe de estado, consolidar o governo golpista e retirar o candidato favorito às eleições que não acontecerão. E, mesmo não sento petista, assumo essa cronologia exatamente porque ela coincide com o processo de embrutecimento e radicalização da convivência social e a escalada da barbárie.

 

Nesse período, não houve um único dia sem que a página recebesse perguntas ou pedidos de vídeos, de indicações bibliográficas e até de conselhos acadêmicos. E respondi prontamente a todos os que me procuraram, mesmo quando não tinha certeza se algumas perguntas tão absurdas ou tolas eram dúvidas genuínas. E houve haters e trolls sabotando a página, bem como pessoas de todos os tipos, inclusive as interessantes que faziam com que o projeto valesse a pena.

 

Mas eu não podia fazer todos os vídeos que me eram solicitados, fosse por não ter acesso aos livros pedidos, fosse por ser humanamente impossível uma pessoa sozinha produzir tal volume de gravações. E, é claro, deveria ser evidente que não tenho a resposta para toda e qualquer pergunta que possa surgir. Preciso estudar muito e nem sempre as bibliotecas públicas ou os bancos de dados fornecem os materiais necessários.

 

Já reclamei demais neste blog sobre a falta de polidez e de civilidade, sobre a onipresença de gente folgada clamando que se lhes dê tudo pronto, sobre as agruras de estar publicamente na internet, enfim. Neste texto prefiro ir além e pensar na pergunta que lhe dá título e que me foi feita por um habitué do Cantinho, que jamais leu um único texto deste blog, mas que me abordava semanalmente com perguntas pessoais de todos os tipos. No dia em questão, o jovem me abordou para saber se estava triste com a questão do Lula e o diálogo foi avançando até chegar nesse questionamento.

 

Essa pergunta do internauta me fez pensar e refletir sobre o “núcleo duro” da minha vida. E, de fato, meu entorno afetivo mais próximo só tem gente dos vários espectros da esquerda e, embora eu tenha alguns parentes que são sabidamente de direita, não sou de conviver o suficiente para chegar a desenvolver atritos. Da mesma forma que há muito tempo que meu número de amigos de verdade vem sendo reduzido pelas parcas e pelas distâncias, mas ainda assim sua quase totalidade pode ser vista como de esquerda.

 

O Cantinho me trouxe muitos amigos virtuais, mas o tempo e as circunstâncias deixaram que somente aqueles com fatores de afinidade permanecessem. E “ser de esquerda” é um fator preponderante porque amizade (como eu a entendo) requer respeito, mas também requer um nível de afinidade acima das conveniências sociais. Eu não confio em quem diz que tem amigos de todos os matizes e não deixa a política interferir na amizade, isso me soa por demais hipócrita e superficial, a não ser que a amizade derive do respeito profissional porque aí as convenções são outras.

 

E eu encerrei a página do Cantinho no Facebook em parte porque a maioria dos oito mil inscritos não estava nem um pouco interessada nas questões políticas que me inquietam na atualidade. Recebi várias admoestações para me ater às questões históricas e historiográficas e “deixar de bobagens”, como se a minha disposição de ajudar tivesse se transformado em uma obrigação. E recebi também exigências de retirada de conteúdo, por parte de jovens prepotentes que (tenho certeza) jamais teriam sido tão invasivos e descorteses se eu me situasse no espectro do gênero masculino.

 

Considero o Cantinho da História como um projeto encerrado, que se esgotou exatamente porque o público a que era destinado passou a exigir mais do que minha ajuda e passou a querer ter ingerência em minhas ideias e convicções. Comecei o Ponderações movida pela necessidade de abordar o mal-estar contemporâneo do embrutecimento e da manipulação do pensamento por forças sociais situadas alhures de nós. E é um projeto de curta duração, que visa apenas a chamar a atenção para as armadilhas das narrativas hegemônicas e da homogeneização do ensino e do pensamento.

 

É a minha contribuição pessoal para combater os famigerados projetos de sujeição do ensino ao neopentecostalismo e outras aberrações religiosas. É uma afirmação dos ideais republicanos de uma escola laica, universal e gratuita, que hoje estão sendo destruídos pela sanha neoliberal. Existe um excesso de “neo” ideias visando a restauração de uma sociedade antiquada, decrépita e atrasada, baseada no fundamentalismo religioso e na sublimação da ignorância e da mediocridade.

 

E eu sei perfeitamente que não vou mudar o mundo sozinha, mas prefiro contribuir para a manutenção dos valores iluministas, do que me abster e deixar que a barbárie se alastre. Como poderia lutar por meu sonho comunista, se assistisse extática à demolição da nossa sociedade por parte daqueles que querem que regridamos a estruturas arcaicamente pré-modernas? Como poderia ser gentil e educada convivendo virtualmente com os brucutus que desejam a mordaça ou a morte para mim e meus pares?

 

Quando houver por bem de encerrar o Ponderações, outro projeto surgirá. Ainda quero estruturar um podcast para abordar meus autores favoritos, de Marx e Thompson a Le Goff e Sérgio Buarque, sem ser pautada por um público utilitarista que espera que eu os exima de ler e estudar. Só me falta o conhecimento tecnológico para viabilizar esse novo projeto, mas isso é apenas uma questão de tempo.

 

E dedico estas claudicantes e confusas anotações aos meus amigos e parentes de esquerda, que não me deixam desistir nem entregar os pontos. Aos loucos e sonhadores que pensam para muito além deste mundinho besta e sacrificam parte considerável de suas vidas na transformação e na esperança de uma vida melhor para todos, não apenas para os seus. Porque ser “de esquerda” é muito mais que defender um partido como se este fosse a camiseta de um time qualquer, é reivindicar o ser humano com todos os seus defeitos e contradições, mesmo que o preço a pagar seja tão alto que não exista ninguém que nos entenda ou nos defenda.

Ponderações 5: As figuras de Linguagem e a linguagem das figuras.

19 abr

VIVENDO NA RETRANCA

9 abr

Nunca vesti a camisa Canarinho e nem mesmo sou uma torcedora habitual da seleção brasileira. A variedade de jogadores medíocres, mascarados e carentes de cidadania e civilidade, que tenho visto em campo nas últimas décadas também não me entusiasma para torcer por times específicos. Tenho muita simpatia pela Ponte Preta aqui de Campinas e pelo Corinthians, mas abandonei definitivamente o São Paulo na década de ’90 quando ficou coalhado de garotos mercenários que invocavam Jesus em campo e ganhavam fortunas para apequenar o esporte.

 

E aí vai um pouquinho de contexto. Na casa da minha abuela materna nenhum Alaniz que tenha convivido com a tia Noemi poderia sequer cogitar de torcer para o Peñarol. Minha tia era uma mulher baixinha, magra, muito ágil, que ia de bicicleta trabalhar como encadernadora em uma gráfica e jamais recusava mais de um copo de vinho. Morreu solteira, amargando a maldição do câncer que nossa genética guarda, mas deixou uma lembrança muito profunda nos sobrinhos (mesmo aqueles como eu que não conviveram tanto assim com ela) de seus deliciosos bolos de limão com cobertura açucarada, de estar sempre segurando algum livro e de sua torcida fanática pelo Nacional e pela Celeste.

 

A única camisa de clube que já tive (e vesti até virar pijama e por fim sumir) foi uma camisa do Nacional que ganhei nos anos ’70. Ao chegar ao Brasil, demorei um pouco para escolher um time e na época escolhi o São Paulo principalmente por causa do Dario Pereyra, mas também para contrariar meu pai que era corinthiano. Não sou uma pessoa de contar títulos, gosto de ver um bom jogo e não me entrego há muito tempo a essa paixão desbragada que caracteriza muitos torcedores.

 

Nesse sentido, ao mesmo tempo em que não gosto das fanfarronadas das torcidas e das rivalidades fabricadas pelos jornalistas, também não suporto jogos burocráticos em que a alma e a garra dos times somem para privilegiar toda a “economia” gerada pelo futebol. Desde os comerciais ambulantes que se tornaram os uniformes, até as polpudas verbas que determinam se um jogador vai com tudo para uma bola dividida ou vai preservar seu corpo porque tem um contrato a cumprir. Por essas e outras detesto os times argentinos que jogam com a “linha burra”, meu pai costumava dizer que isso “não é coisa de homem”.

 

E que dizer desses moleques metidos a craques que se jogam a cada bola para “cavar” penalidades inexistentes? Que ganham fortunas e mesmo assim sonegam impostos e mantém dinheiro em paraísos fiscais e ainda são tratados como divindades? Ídolos e craques não substituem um bom jogo, com um time jogando com companheirismo e honrando sua camisa.

 

Tenho saudades de Vladimir e Sócrates, de Raí e Leonardo, de Tostão, de jogadores cidadãos, enfim. Mas também tenho saudades de Serginho Chulapa, que nunca enganou ninguém pousando de santo. Talvez por isso na Copa de 2014 torci mais para a Celeste (que contava com um time assim) que para a Canarinho, embora tenha apoiado incondicionalmente a realização da Copa diante do massacre ideológico que as próprias esquerdas promoveram, visando enfraquecer o penúltimo governo legítimo que tivemos. Sobre o 7×1, ainda descobriremos um dia o que realmente aconteceu e as responsabilidades serão cobradas a quem de direito. “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder” diria dona Anunciata, saudosa avó do Duda e grande corinthiana.

 

A partir do golpe de 2016, tenho acompanhado bem ressabiada qualquer manifestação de ufanismo, uma vez que a camisa Canarinho se tornou o uniforme dos patos manipulados que ajudaram a afundar nosso país na desgraça e na miséria. Por isso eu nem pensava em colocar as bandeiras à janela durante a Copa que se aproxima, mas minha família nem me deixou sugerir tal coisa e as bandeiras do Brasil e Uruguay serão penduradas aqui na frente de casa. Mesmo que algum vizinho ignorante pense que a bandeira é da Argentina, mesmo que algum fanático me jogue na cara (como já aconteceu décadas atrás) que eu vivo aqui e tenho que torcer para a seleção brasileira.

 

Tenho sérias dúvidas se veremos jogos bonitos e bem jogados na Rússia. Nem mesmo na época das ditaduras militares aqui na América Latina, o clima de uma Copa foi tão maculado pelo clima político malsão. As sombras de Putin, Trump, Merckel e seus projetos hegemônicos de dominação se sobrepõem às nulidades que ocupam governos por aí afora em outros países, classificados ou não.

 

As guerras derivadas da fome por petróleo e recursos naturais, os golpes brancos, as ofensivas econômicas das gigantescas corporações que controlam governos e meios também influenciam o futebol. Times retranqueiros, que jogam em função de poucos craques e se arrastam pelo campo apenas para cumprir resultados, me dão nos nervos (como se diz popularmente). E me incomodam exatamente porque são símbolos de uma era de sonhos perdidos e opressão sistemática do ser humano pelo capital.

 

Na disputa das narrativas políticas, o futebol sempre se prestou senão às metáforas, à manipulação emocional de servir de cortina de fumaça aos mais espúrios interesses. Muitas vezes dá vontade de nunca mais assistir, nunca mais torcer, nunca mais se deixar levar. Mas, da mesma forma que na política em si, muito mais do que de derrotas, se trata de mudarem as regras do jogo à nossa revelia e isso não podemos deixar.

 

Só porque cedemos o contra-ataque às forças do mal, não precisamos passar o resto da vida na retranca. Melhor seria jogar como um time e não ficar esperando milagres de um único craque. Quem entender, entendeu…

 

E vai Corinthians! J

TRAGÉDIA E FARSA

6 abr

Lá pelo fim dos anos 80, quem foi meu contemporâneo na graduação há de lembrar, a disciplina de Brasil III (que contemplava o período republicano) foi oferecida no IFCH da UNICAMP por Maria José Trevisan, conhecida como Mara. Era uma professora com um perfil não tão brilhante e assertivo quanto as estrelas que brilhavam na constelação do nosso curso de História, mas sempre foi muito querida por nós alunos. Guardo até o hoje o exemplar de seu livro com dedicatória, que ela ofertou a cada um de nós por ocasião de nossa formatura.

 

Ao abordar a disciplina, como era costume no IFCH, a ementa contemplava os principais debates intelectuais e historiográficos pensando o Brasil do período republicano. E não era pouca a expectativa, afinal a minha turma tivera Brasil I com Silvia Hunold Lara e Brasil II com Sidney Chalhoub. Mara, nesse sentido, me deixou uma lembrança muito honesta de alguém que sabia das próprias limitações e estava ali aprendendo junto conosco, o que (no final) possibilitou uma das disciplinas mais livres e proveitosas que já cursei.

 

Um dos debates mais interessantes que fizemos foi sobre a “polêmica das ideias”. Para quem não é da área vale uma rápida explicação, na década de ‘70 Roberto Schwartz, que na época era um dos maiores especialistas em Machado de Assis, publicou uma série de ensaios intitulada Ao vencedor as batatas, alusão evidente ao romance Quincas Borba. Ali se encontra o texto As ideias fora do lugar, que suscitou a polêmica.

 

Schwartz argumentava que no Brasil as ideias eram retiradas de contexto e absorvidas pelos grupos sociais dominantes para adaptar-se aos seus interesses. Tomava como exemplo o ideário liberal do século XIX, que considerava absolutamente desvirtuado ao ser pervertido nas argumentações tanto de liberais quanto de conservadores, ao sabor da ocasião ou das expectativas. E enveredava por uma análise que localizava o Brasil como um lugar exótico e sui generis fora do tempo e fora da História, onde as coisas aconteciam de modo bizarro (ao menos essa foi a nossa conclusão).

 

Maria Sylvia de Carvalho Franco respondeu a ele com um texto primoroso, alegando que as ideias não apenas estavam no lugar, mas também eram absolutamente coerentes com a vocação predatória das elites brasileiras. Mudando a perspectiva de análise, a autora conseguiu dar sentido e desconstruir a interpretação exótica de Schwartz, que era muito mais literária que histórica. E isso rendeu uma das polêmicas mais interessantes na nossa disciplina, dividindo os que concordavam com Schwartz (e identificavam “jabuticabas” em tudo o que acontecia no Brasil) e os que concordávamos com a Maria Sylvia e não alimentávamos nenhuma ilusão quanto ao caráter histórico das elites locais.

 

Elites perfeitamente enquadradas no mais selvagem capitalismo predatório, que aceitavam com alegria o papel de subalternos “capachildos” auxiliares do neocolonialismo europeu e estadunidense, desde que pudessem rapinar à vontade o país e entregar seu povo à própria sorte, sumido na miséria e na ignorância.

 

Lembro a vocês que este é um blog e não uma publicação acadêmica, então quem estiver interessado nas referências deve pesquisar por si mesmo. Neste momento, ao descrever de memória tanto ideias como eventos, torço para que meus leitores se interessem e vão ler os textos em questão. E vou além, adoraria ver as novas gerações apreciando devidamente Quincas Borba e Memorial de Aires, dois maravilhosos romances de Machado de Assis, que dissecam sem piedade (e com porções generosas de ironia) a elite brasileira do século XIX, tanto do meio rural quanto urbanizado.

 

Volta e meia, quando o grau de bizarrice do noticiário atinge níveis alarmantes, como é o caso dos últimos quatro anos, relembro com saudades os debates nas aulas da Mara, do Sidney, da Silvia, do Paulo Miceli, da Maria Helena Capelato e de tantos outros professores inesquecíveis nos meus treze anos de graduação e pós. Foram momentos épicos, quando pensávamos a construção da historiografia e, ao mesmo tempo, acompanhávamos o desenrolar da redemocratização. Afinal, para quem não percebeu, minha graduação se deu entre os governos Sarney e Collor e acompanhou a tristemente célebre eleição presidencial de 1989, bem como a vitória de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, e meu mestrado acompanhou o período de derrocada e o impeachment de Fernando Collor.

 

De certa forma, este blog e meus vídeos são uma maneira de manter vivo um espaço de discussão que já não existe mais em minha vida, uma vez que estou definitivamente fora do meio acadêmico. Uma maneira imperfeita porque a internet promove muito mais o monólogo que o diálogo, mas vá lá. Uma maneira de continuar pensando a sociedade brasileira e seus paradoxos, seus enigmas e suas aberrações.

 

Nesse sentido, o insight que temos para hoje, nesta semana triste e vergonhosa em que o golpe de Estado de 2016 se consolida (graças à pantomima judiciária ora em curso) é meio que uma homenagem tardia à lucidez sem par de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Porque nestes quatro anos de destruição sistemática de nossas estruturas democráticas, o Brasil conseguiu a proeza de viver a História como tragédia e farsa ao mesmo tempo. Na melhor tradição que nos irmana ao velho barbudo, podemos afirmar que as elites brasileiras não são “jabuticabas” (como afirmam uns e outros), mas um bizarro e asqueroso bando de carniceiros e rapinadores, que se alimenta com volúpia dos restos deixados pelas grandes potências, enquanto subjuga o resto de nós sem qualquer senso de decência.

Ponderações 4: Ativismo de hora marcada, narrativas hegemônicas y otras cositas más…

5 abr

 

Ponderações é um novo projeto, depois do Cantinho da História, do programa Noroeste em Ação Especial de Literatura e do meu blog – http://www.compartilhandohistorias.wordpress.com – este é um projeto mais reflexivo. Tento usar meu conhecimento de História para traçar a genealogia de algumas ideias atuais e de muitos dos nossos problemas e dificuldades. Liberdade de pensamento é essencial, mas aprender a pensar também.

Este é o link para o vídeo do canal História Recente para entender como funcionam os golpes de Estado na atualidade:

Este é o link para o meu blog e a postagem em que deixei o PDF com meus textos:

https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2017/12/12/um-registro-deste-blog/