OS CÃES E AS CARAVANAS

2 abr

Este é um daqueles textos com potencial para desagradar a todos e mais alguns e romper amizades contingentes. Dado o momento delicado da nossa vida política, ponderei demais antes de me sentar ao teclado e digitar estas “mal traçadas linhas”. O que tiver que ser, será.

 

Recentemente ouvi de um colega em plena viagem ufanista, que pessoas como eu são “cassandras do apocalipse” porque estão sempre vaticinando o pior dos cenários. Confesso que talvez essa crítica fizesse mais sentido em meus tempos de juventude, quando eu era pouco mais que uma mistura malfeita de Mortícia Adams e Funérea Covarasa. A passagem do tempo me castigou o suficiente para suavizar alguns desses aspectos da minha personalidade, mas não me trouxe a cegueira política que parece caracterizar esse meu amigo.

 

Continuo afirmando, como fiz meses atrás, que a probabilidade de que as eleições deste ano sejam adiadas para 2020 é um dado que está na mesa e que cresce a cada dia. Fingir que estamos vivendo dentro da normalidade institucional não ajuda a superar esta etapa política aziaga, da mesma forma que constatar que o golpe se consolidou parece não ser suficiente para motivar a resistência de amplo espectro. Parece que estamos brincando de política ao invés de nos comportarmos como seres políticos, como cidadãos pensantes e agentes.

 

Estão dados vários fenômenos que o meio acadêmico não nos preparou para perceber e nem para lidar. O ritmo lento da Academia, principalmente entre nós historiadores que precisamos de distanciamento temporal para analisar nosso objeto de estudo, parece ter contagiado a nossa percepção do presente. A velocidade de deterioração da nossa sociedade e das estruturas políticas que a representam, está deixando pelo caminho mais de um analista.

 

Em menos de uma década assistimos impotentes à “futebolização” do espectro político. De repente, alguns poucos setores da população acostumados à indiferença passaram a escolher partidos e candidatos como quem escolhe um time para torcer. E trouxeram para o cenário eleitoral toda a violência, fanatismo e paixões dos convescotes domingueiros regados a testosterona, que são usuais ao esporte bretão.

 

Os partidos políticos, sem exceção, a reboque da mídia, investiram nesse “vestir de camiseta” que afastou qualquer análise madura ou projeto de país possível. As redes sociais pululam de declarações de amor a candidatos (sem discussão alguma de seus projetos) e manifestações de ódio aos que são considerados seus “inimigos”, personalizando da maneira mais lamentável o cenário já caótico que vivemos. É uma armadilha que se fechou sobre nós e da qual está cada dia mais difícil escapar, à medida que o ódio se alastra.

 

Nesse tom de discurso, a função essencial da política que é o diálogo entre adversários para estabelecer a melhor governança da sociedade, passou a ser vista como sinal de fraqueza e de corrupção. A criminalização do diálogo político e sua substituição por uma pantomima de galos de briga estão transformando nosso país em pasto para as grandes potências se refestelarem com nossos recursos e ativos. E enquanto isso a sociedade troca impropérios, ofensas, sopapos e agora tiros.

 

Eu passei o ano de 2016 na rua lutando para impedir o golpe e manter o mandato da presidenta legitimamente eleita. Mesmo quando o campo majoritário do PT já a considerava uma baixa necessária para preservar a candidatura de Lula em 2018. Mesmo quando éramos poucas centenas de pessoas aqui em Campinas, transformando nossas passeatas em esforços patéticos, enquanto a população nos pontos de ônibus nos olhava como se fôssemos malucos.

 

Participei de passeatas, reuniões e livros. Por dois anos publiquei incansavelmente aqui neste blog uma série de análises e defesas do processo democrático republicano, apenas para ver cada estrutura do que identifica uma República esfacelar-se diante dos meus olhos, diante do rolo compressor do dinheiro e da indiferença geral. Da mesma forma que transformei meu canal no YouTube em um foco de resistência ao obscurantismo promovido pela evangelização da política, na forma dos projetos Escola sem Partido.

 

Porque lado a lado com a criminalização da política e a promoção de líderes messiânicos, avança a passos largos a evangelização de nosso Estado, que jamais chegou a ser inteiramente laico, como se espera de uma República. A ingerência de padres e pastores acreditando que podem e devem legislar, a partir de seu pensamento mágico e supersticioso, sobre os costumes da sociedade civil cresceu e se alastrou. E produziu boas teses e dissertações acadêmicas, mas não nos ajudou a resistir e a combater essa avalanche de moralismo barato e farisaico que hoje se abate sobre todos nós e ameaça transformar nosso sistema de ensino em um cemitério intelectual.

 

E essa deterioração sociopolítica não vai mudar porque este ou aquele candidato venha a ganhar as eventuais eleições majoritárias. Enganam-se e são enganados todos aqueles que se deixam embriagar pelas multidões, quer seja de aldeões com tochas e forcados, quer seja de ativistas com bandeiras vermelhas. Porque o desmonte do Estado e da economia, promovidos a partir da politização do Judiciário e das ações do governo golpista, apoiado pelo Congresso mais venal já eleito e com a conivência da grande mídia, não poderá ser revertido na canetada por presidente algum.

 

Da mesma forma que o esgarçamento das relações sociais nos setores médios da população está promovendo momentos de verdadeira barbárie, a ação sem pejo das forças policiais e militares criminalizando a pobreza e reprimindo de maneira violenta crimes cujos mandantes encontram-se alhures, estamos fabricando as bombas-relógio que vão detonar nosso cotidiano e ameaçam transformar-nos em médio ou curto prazo em uma nova Somália.

 

E isso porque acreditamos que nossas bolhas de convivência são representativas da sociedade como um todo, quando não passam de ambientes localizados. A maioria da população permanece indiferente, tocando suas vidas do jeito que dá, esperando o ônibus para casa enquanto nós marchamos pelas ruas. E votará a partir de uma postura contingente e pragmática, não por convicção política e nem empolgada pelo fla-flu dos setores médios, mas pensando em como colocar comida na mesa e garantir sua sobrevivência.

 

Para quem estamos falando quando formulamos nossos belos textos de análise sociopolítica? Para além da vaidade de ver nossos pensamentos formulados na página escrita existe um círculo vicioso de auto-referenciamento que não conseguimos superar. Não alcançamos a população mais simples, aquela que não frequenta comícios nem passeatas e que não vê a rua como sua porque as autoridades não deixam.

 

Nesse sentido, eu tenho plena consciência de que escrevo apenas para registro histórico e de que as minhas palavras são impotentes diante do cenário que me cerca. Venho votando nos candidatos “menos piores” desde que recebi meu título de eleitor e, eventualmente, anulando o voto quando a escolha que se me apresenta é inaceitável. Mas nem por isso considero que a destruição da política ou de suas estruturas seja viável ou um ganho ao processo civilizatório.

 

Não sou mais criança para acreditar em milagre e nem milagreiros ou em sistemas perfeitos ou em pensamentos mágicos de qualquer espécie. Se queremos uma sociedade justa e equitativa precisamos investir em educação radical e manter a sanidade e a racionalidade mesmo em face do inimaginável. Por isso não acompanho os delírios ufanistas desse meu colega que acredita que a vitória de seu candidato na eleição presidencial deste ano irá resolver de forma mágica todos os problemas do país.

 

Talvez eu seja mesmo uma Cassandra do Apocalipse. Se for esse o caso, aqui estarei de olhos abertos encarando a realidade, sem deixar-me seduzir por cantos de sereias mágicas. Foi um longo caminho para chegar a ser quem sou e pretendo seguir caminhando sempre.

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2 Respostas to “OS CÃES E AS CARAVANAS”

  1. Maria Beatriz Vidal de negreiros Paiva 19/04/2018 às 11:39 pm #

    Parabéns pelo texto!! Quantos têm noção dessa cruel realidade?? Ninguém quer saber de ler e aprender. A coisa está complicada demais!

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