TRAGÉDIA E FARSA

6 abr

Lá pelo fim dos anos 80, quem foi meu contemporâneo na graduação há de lembrar, a disciplina de Brasil III (que contemplava o período republicano) foi oferecida no IFCH da UNICAMP por Maria José Trevisan, conhecida como Mara. Era uma professora com um perfil não tão brilhante e assertivo quanto as estrelas que brilhavam na constelação do nosso curso de História, mas sempre foi muito querida por nós alunos. Guardo até o hoje o exemplar de seu livro com dedicatória, que ela ofertou a cada um de nós por ocasião de nossa formatura.

 

Ao abordar a disciplina, como era costume no IFCH, a ementa contemplava os principais debates intelectuais e historiográficos pensando o Brasil do período republicano. E não era pouca a expectativa, afinal a minha turma tivera Brasil I com Silvia Hunold Lara e Brasil II com Sidney Chalhoub. Mara, nesse sentido, me deixou uma lembrança muito honesta de alguém que sabia das próprias limitações e estava ali aprendendo junto conosco, o que (no final) possibilitou uma das disciplinas mais livres e proveitosas que já cursei.

 

Um dos debates mais interessantes que fizemos foi sobre a “polêmica das ideias”. Para quem não é da área vale uma rápida explicação, na década de ‘70 Roberto Schwartz, que na época era um dos maiores especialistas em Machado de Assis, publicou uma série de ensaios intitulada Ao vencedor as batatas, alusão evidente ao romance Quincas Borba. Ali se encontra o texto As ideias fora do lugar, que suscitou a polêmica.

 

Schwartz argumentava que no Brasil as ideias eram retiradas de contexto e absorvidas pelos grupos sociais dominantes para adaptar-se aos seus interesses. Tomava como exemplo o ideário liberal do século XIX, que considerava absolutamente desvirtuado ao ser pervertido nas argumentações tanto de liberais quanto de conservadores, ao sabor da ocasião ou das expectativas. E enveredava por uma análise que localizava o Brasil como um lugar exótico e sui generis fora do tempo e fora da História, onde as coisas aconteciam de modo bizarro (ao menos essa foi a nossa conclusão).

 

Maria Sylvia de Carvalho Franco respondeu a ele com um texto primoroso, alegando que as ideias não apenas estavam no lugar, mas também eram absolutamente coerentes com a vocação predatória das elites brasileiras. Mudando a perspectiva de análise, a autora conseguiu dar sentido e desconstruir a interpretação exótica de Schwartz, que era muito mais literária que histórica. E isso rendeu uma das polêmicas mais interessantes na nossa disciplina, dividindo os que concordavam com Schwartz (e identificavam “jabuticabas” em tudo o que acontecia no Brasil) e os que concordávamos com a Maria Sylvia e não alimentávamos nenhuma ilusão quanto ao caráter histórico das elites locais.

 

Elites perfeitamente enquadradas no mais selvagem capitalismo predatório, que aceitavam com alegria o papel de subalternos “capachildos” auxiliares do neocolonialismo europeu e estadunidense, desde que pudessem rapinar à vontade o país e entregar seu povo à própria sorte, sumido na miséria e na ignorância.

 

Lembro a vocês que este é um blog e não uma publicação acadêmica, então quem estiver interessado nas referências deve pesquisar por si mesmo. Neste momento, ao descrever de memória tanto ideias como eventos, torço para que meus leitores se interessem e vão ler os textos em questão. E vou além, adoraria ver as novas gerações apreciando devidamente Quincas Borba e Memorial de Aires, dois maravilhosos romances de Machado de Assis, que dissecam sem piedade (e com porções generosas de ironia) a elite brasileira do século XIX, tanto do meio rural quanto urbanizado.

 

Volta e meia, quando o grau de bizarrice do noticiário atinge níveis alarmantes, como é o caso dos últimos quatro anos, relembro com saudades os debates nas aulas da Mara, do Sidney, da Silvia, do Paulo Miceli, da Maria Helena Capelato e de tantos outros professores inesquecíveis nos meus treze anos de graduação e pós. Foram momentos épicos, quando pensávamos a construção da historiografia e, ao mesmo tempo, acompanhávamos o desenrolar da redemocratização. Afinal, para quem não percebeu, minha graduação se deu entre os governos Sarney e Collor e acompanhou a tristemente célebre eleição presidencial de 1989, bem como a vitória de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, e meu mestrado acompanhou o período de derrocada e o impeachment de Fernando Collor.

 

De certa forma, este blog e meus vídeos são uma maneira de manter vivo um espaço de discussão que já não existe mais em minha vida, uma vez que estou definitivamente fora do meio acadêmico. Uma maneira imperfeita porque a internet promove muito mais o monólogo que o diálogo, mas vá lá. Uma maneira de continuar pensando a sociedade brasileira e seus paradoxos, seus enigmas e suas aberrações.

 

Nesse sentido, o insight que temos para hoje, nesta semana triste e vergonhosa em que o golpe de Estado de 2016 se consolida (graças à pantomima judiciária ora em curso) é meio que uma homenagem tardia à lucidez sem par de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Porque nestes quatro anos de destruição sistemática de nossas estruturas democráticas, o Brasil conseguiu a proeza de viver a História como tragédia e farsa ao mesmo tempo. Na melhor tradição que nos irmana ao velho barbudo, podemos afirmar que as elites brasileiras não são “jabuticabas” (como afirmam uns e outros), mas um bizarro e asqueroso bando de carniceiros e rapinadores, que se alimenta com volúpia dos restos deixados pelas grandes potências, enquanto subjuga o resto de nós sem qualquer senso de decência.

Anúncios

2 Respostas to “TRAGÉDIA E FARSA”

  1. Maria Beatriz Vidal de negreiros Paiva 19/04/2018 às 10:29 pm #

    Gosto demais dos seus textos. Triste demais tudo o que está acontecendo no país!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: