VIVENDO NA RETRANCA

9 abr

Nunca vesti a camisa Canarinho e nem mesmo sou uma torcedora habitual da seleção brasileira. A variedade de jogadores medíocres, mascarados e carentes de cidadania e civilidade, que tenho visto em campo nas últimas décadas também não me entusiasma para torcer por times específicos. Tenho muita simpatia pela Ponte Preta aqui de Campinas e pelo Corinthians, mas abandonei definitivamente o São Paulo na década de ’90 quando ficou coalhado de garotos mercenários que invocavam Jesus em campo e ganhavam fortunas para apequenar o esporte.

 

E aí vai um pouquinho de contexto. Na casa da minha abuela materna nenhum Alaniz que tenha convivido com a tia Noemi poderia sequer cogitar de torcer para o Peñarol. Minha tia era uma mulher baixinha, magra, muito ágil, que ia de bicicleta trabalhar como encadernadora em uma gráfica e jamais recusava mais de um copo de vinho. Morreu solteira, amargando a maldição do câncer que nossa genética guarda, mas deixou uma lembrança muito profunda nos sobrinhos (mesmo aqueles como eu que não conviveram tanto assim com ela) de seus deliciosos bolos de limão com cobertura açucarada, de estar sempre segurando algum livro e de sua torcida fanática pelo Nacional e pela Celeste.

 

A única camisa de clube que já tive (e vesti até virar pijama e por fim sumir) foi uma camisa do Nacional que ganhei nos anos ’70. Ao chegar ao Brasil, demorei um pouco para escolher um time e na época escolhi o São Paulo principalmente por causa do Dario Pereyra, mas também para contrariar meu pai que era corinthiano. Não sou uma pessoa de contar títulos, gosto de ver um bom jogo e não me entrego há muito tempo a essa paixão desbragada que caracteriza muitos torcedores.

 

Nesse sentido, ao mesmo tempo em que não gosto das fanfarronadas das torcidas e das rivalidades fabricadas pelos jornalistas, também não suporto jogos burocráticos em que a alma e a garra dos times somem para privilegiar toda a “economia” gerada pelo futebol. Desde os comerciais ambulantes que se tornaram os uniformes, até as polpudas verbas que determinam se um jogador vai com tudo para uma bola dividida ou vai preservar seu corpo porque tem um contrato a cumprir. Por essas e outras detesto os times argentinos que jogam com a “linha burra”, meu pai costumava dizer que isso “não é coisa de homem”.

 

E que dizer desses moleques metidos a craques que se jogam a cada bola para “cavar” penalidades inexistentes? Que ganham fortunas e mesmo assim sonegam impostos e mantém dinheiro em paraísos fiscais e ainda são tratados como divindades? Ídolos e craques não substituem um bom jogo, com um time jogando com companheirismo e honrando sua camisa.

 

Tenho saudades de Vladimir e Sócrates, de Raí e Leonardo, de Tostão, de jogadores cidadãos, enfim. Mas também tenho saudades de Serginho Chulapa, que nunca enganou ninguém pousando de santo. Talvez por isso na Copa de 2014 torci mais para a Celeste (que contava com um time assim) que para a Canarinho, embora tenha apoiado incondicionalmente a realização da Copa diante do massacre ideológico que as próprias esquerdas promoveram, visando enfraquecer o penúltimo governo legítimo que tivemos. Sobre o 7×1, ainda descobriremos um dia o que realmente aconteceu e as responsabilidades serão cobradas a quem de direito. “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder” diria dona Anunciata, saudosa avó do Duda e grande corinthiana.

 

A partir do golpe de 2016, tenho acompanhado bem ressabiada qualquer manifestação de ufanismo, uma vez que a camisa Canarinho se tornou o uniforme dos patos manipulados que ajudaram a afundar nosso país na desgraça e na miséria. Por isso eu nem pensava em colocar as bandeiras à janela durante a Copa que se aproxima, mas minha família nem me deixou sugerir tal coisa e as bandeiras do Brasil e Uruguay serão penduradas aqui na frente de casa. Mesmo que algum vizinho ignorante pense que a bandeira é da Argentina, mesmo que algum fanático me jogue na cara (como já aconteceu décadas atrás) que eu vivo aqui e tenho que torcer para a seleção brasileira.

 

Tenho sérias dúvidas se veremos jogos bonitos e bem jogados na Rússia. Nem mesmo na época das ditaduras militares aqui na América Latina, o clima de uma Copa foi tão maculado pelo clima político malsão. As sombras de Putin, Trump, Merckel e seus projetos hegemônicos de dominação se sobrepõem às nulidades que ocupam governos por aí afora em outros países, classificados ou não.

 

As guerras derivadas da fome por petróleo e recursos naturais, os golpes brancos, as ofensivas econômicas das gigantescas corporações que controlam governos e meios também influenciam o futebol. Times retranqueiros, que jogam em função de poucos craques e se arrastam pelo campo apenas para cumprir resultados, me dão nos nervos (como se diz popularmente). E me incomodam exatamente porque são símbolos de uma era de sonhos perdidos e opressão sistemática do ser humano pelo capital.

 

Na disputa das narrativas políticas, o futebol sempre se prestou senão às metáforas, à manipulação emocional de servir de cortina de fumaça aos mais espúrios interesses. Muitas vezes dá vontade de nunca mais assistir, nunca mais torcer, nunca mais se deixar levar. Mas, da mesma forma que na política em si, muito mais do que de derrotas, se trata de mudarem as regras do jogo à nossa revelia e isso não podemos deixar.

 

Só porque cedemos o contra-ataque às forças do mal, não precisamos passar o resto da vida na retranca. Melhor seria jogar como um time e não ficar esperando milagres de um único craque. Quem entender, entendeu…

 

E vai Corinthians! J

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