“VOCÊ SÓ SE DÁ COM GENTE DE ESQUERDA?”

21 abr

A anedota da primeira metade do século XX começa com um paciente entrando no consultório médico e relatando os sintomas de uma profunda depressão. O médico lhe diz para se animar, que seu problema não é físico e lhe recomenda que vá assistir ao espetáculo de um famoso palhaço que se encontra na cidade. Então o paciente se vira e responde: “o senhor não entende, eu sou o famoso palhaço”…

 

Já vi essa anedota reproduzida várias vezes, desde um diálogo em um romance da Agatha Christie até ser contada por Gil Grissom, o entomologista emblemático que liderou a equipe do C.S.I. Vegas por nove temporadas. Uma variação interessante (e por variação eu entendo quando se usa o mesmo tema de modo inteiramente diferente) relata que Sinatra gostava de contar que ouvira dois caras em um bar se lamentando sobre mulheres, ao som da jukebox tocando uma música dele. Lá pelas tantas, um deles todo emocionado perguntara: “nós temos a ele, mas a quem esse cara ouve quando está na fossa?”.

 

Palhaços que não podem alegrar a si mesmos. Intérpretes que traduzem a angústia de suas gerações, mas que não tem quem lhes traduza. Poetas como Maiakovski, que para animar a um amigo suicida dissera “é preciso arrancar alegria ao futuro” e tempos depois acabara por se suicidar também. É condição dos artistas retratar os mal-estares de suas próprias épocas e refletir a ambiguidade do mundo.

 

Assim como é condição inerente à contemporaneidade este sentimento de que a cada momento estamos sendo deixados para trás, seja pela tecnologia, seja pela História. Os europeus do século XIX sentiam vertigens com a velocidade entre trinta e quarenta quilômetros horários de um trem a vapor ou apavoravam-se diante das imagens animadas de trens em movimento nos primeiros filmes cinematográficos. Que diriam das nossas tecnologias e desse sentimento de obsolescência que nos assalta diariamente diante da deterioração civilizatória que atravessamos?

 

Será que se sentiriam como o palhaço incapaz de encontrar alguém que o faça rir?

 

Conferindo minha TL no Facebook, verifico que foi no passado dia 7 de abril que fechei ao público a página do Cantinho da História. Rolando o mouse e revisando as publicações, descubro que foi em 10 de maio de 2013 que fiz minhas primeiras postagens por lá. Por um momento, meu TOC incipiente me faz desejar que eu tivesse conseguido resistir mais um mês para realizar um ciclo de cinco anos completos, mas me vejo obrigada a concluir que a data do encerramento é emblemática e que a duração da página é um período que fala por si.

 

Embora pessoalmente tenda a acreditar que o golpe de 2016 teve seu verdadeiro início em 2005 com a farsa do “Mensalão”, que permitiu condenações sem provas e distorções grotescas no processo penal (em um julgamento claramente político), as cronologias oficiais dirão que foi com os protestos de 2013 que tudo começou. Então, minha página (que se destinava inicialmente à divulgação dos vídeos do canal) durou o tempo exato que levaram para desestabilizar o governo legitimamente eleito, promover o golpe de estado, consolidar o governo golpista e retirar o candidato favorito às eleições que não acontecerão. E, mesmo não sento petista, assumo essa cronologia exatamente porque ela coincide com o processo de embrutecimento e radicalização da convivência social e a escalada da barbárie.

 

Nesse período, não houve um único dia sem que a página recebesse perguntas ou pedidos de vídeos, de indicações bibliográficas e até de conselhos acadêmicos. E respondi prontamente a todos os que me procuraram, mesmo quando não tinha certeza se algumas perguntas tão absurdas ou tolas eram dúvidas genuínas. E houve haters e trolls sabotando a página, bem como pessoas de todos os tipos, inclusive as interessantes que faziam com que o projeto valesse a pena.

 

Mas eu não podia fazer todos os vídeos que me eram solicitados, fosse por não ter acesso aos livros pedidos, fosse por ser humanamente impossível uma pessoa sozinha produzir tal volume de gravações. E, é claro, deveria ser evidente que não tenho a resposta para toda e qualquer pergunta que possa surgir. Preciso estudar muito e nem sempre as bibliotecas públicas ou os bancos de dados fornecem os materiais necessários.

 

Já reclamei demais neste blog sobre a falta de polidez e de civilidade, sobre a onipresença de gente folgada clamando que se lhes dê tudo pronto, sobre as agruras de estar publicamente na internet, enfim. Neste texto prefiro ir além e pensar na pergunta que lhe dá título e que me foi feita por um habitué do Cantinho, que jamais leu um único texto deste blog, mas que me abordava semanalmente com perguntas pessoais de todos os tipos. No dia em questão, o jovem me abordou para saber se estava triste com a questão do Lula e o diálogo foi avançando até chegar nesse questionamento.

 

Essa pergunta do internauta me fez pensar e refletir sobre o “núcleo duro” da minha vida. E, de fato, meu entorno afetivo mais próximo só tem gente dos vários espectros da esquerda e, embora eu tenha alguns parentes que são sabidamente de direita, não sou de conviver o suficiente para chegar a desenvolver atritos. Da mesma forma que há muito tempo que meu número de amigos de verdade vem sendo reduzido pelas parcas e pelas distâncias, mas ainda assim sua quase totalidade pode ser vista como de esquerda.

 

O Cantinho me trouxe muitos amigos virtuais, mas o tempo e as circunstâncias deixaram que somente aqueles com fatores de afinidade permanecessem. E “ser de esquerda” é um fator preponderante porque amizade (como eu a entendo) requer respeito, mas também requer um nível de afinidade acima das conveniências sociais. Eu não confio em quem diz que tem amigos de todos os matizes e não deixa a política interferir na amizade, isso me soa por demais hipócrita e superficial, a não ser que a amizade derive do respeito profissional porque aí as convenções são outras.

 

E eu encerrei a página do Cantinho no Facebook em parte porque a maioria dos oito mil inscritos não estava nem um pouco interessada nas questões políticas que me inquietam na atualidade. Recebi várias admoestações para me ater às questões históricas e historiográficas e “deixar de bobagens”, como se a minha disposição de ajudar tivesse se transformado em uma obrigação. E recebi também exigências de retirada de conteúdo, por parte de jovens prepotentes que (tenho certeza) jamais teriam sido tão invasivos e descorteses se eu me situasse no espectro do gênero masculino.

 

Considero o Cantinho da História como um projeto encerrado, que se esgotou exatamente porque o público a que era destinado passou a exigir mais do que minha ajuda e passou a querer ter ingerência em minhas ideias e convicções. Comecei o Ponderações movida pela necessidade de abordar o mal-estar contemporâneo do embrutecimento e da manipulação do pensamento por forças sociais situadas alhures de nós. E é um projeto de curta duração, que visa apenas a chamar a atenção para as armadilhas das narrativas hegemônicas e da homogeneização do ensino e do pensamento.

 

É a minha contribuição pessoal para combater os famigerados projetos de sujeição do ensino ao neopentecostalismo e outras aberrações religiosas. É uma afirmação dos ideais republicanos de uma escola laica, universal e gratuita, que hoje estão sendo destruídos pela sanha neoliberal. Existe um excesso de “neo” ideias visando a restauração de uma sociedade antiquada, decrépita e atrasada, baseada no fundamentalismo religioso e na sublimação da ignorância e da mediocridade.

 

E eu sei perfeitamente que não vou mudar o mundo sozinha, mas prefiro contribuir para a manutenção dos valores iluministas, do que me abster e deixar que a barbárie se alastre. Como poderia lutar por meu sonho comunista, se assistisse extática à demolição da nossa sociedade por parte daqueles que querem que regridamos a estruturas arcaicamente pré-modernas? Como poderia ser gentil e educada convivendo virtualmente com os brucutus que desejam a mordaça ou a morte para mim e meus pares?

 

Quando houver por bem de encerrar o Ponderações, outro projeto surgirá. Ainda quero estruturar um podcast para abordar meus autores favoritos, de Marx e Thompson a Le Goff e Sérgio Buarque, sem ser pautada por um público utilitarista que espera que eu os exima de ler e estudar. Só me falta o conhecimento tecnológico para viabilizar esse novo projeto, mas isso é apenas uma questão de tempo.

 

E dedico estas claudicantes e confusas anotações aos meus amigos e parentes de esquerda, que não me deixam desistir nem entregar os pontos. Aos loucos e sonhadores que pensam para muito além deste mundinho besta e sacrificam parte considerável de suas vidas na transformação e na esperança de uma vida melhor para todos, não apenas para os seus. Porque ser “de esquerda” é muito mais que defender um partido como se este fosse a camiseta de um time qualquer, é reivindicar o ser humano com todos os seus defeitos e contradições, mesmo que o preço a pagar seja tão alto que não exista ninguém que nos entenda ou nos defenda.

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