COMPANHEIROS DE VIAGEM

28 abr

Folheando a edição número 1000 de Carta Capital, datada desta semana, encontro a reprodução de dois ensaios sensacionais de Umberto Eco. Em A sociedade líquida (publicado originalmente em 2015), o Mestre afirma “Com a crise do conceito de comunidade, emerge um individualismo desenfreado, onde ninguém mais é companheiro de viagem de ninguém, e sim seu antagonista, alguém contra quem é melhor se proteger.”. E o eco dessas palavras reverbera em mim de uma maneira tão pungente que preciso escrever.

 

Se você que está lendo este texto já foi meu aluno, deve lembrar-se de uma das minhas citações favoritas. Já contei e recontei este trecho de Érico Veríssimo em aulas, formaturas, palestras e mesmo assim continua sendo um dos pontos definidores da minha vida. Se você nunca foi meu aluno, preste atenção com paciência e carinho e quem sabe também se apaixona pelo autor gaucho.

 

Em Olhai os lírios do campo, Eugênio conversa com Olívia na noite de formatura e compara a vida com um transatlântico, afirmando que fará tudo o que estiver ao seu alcance para não passar sua existência na terceira classe. Anos depois, Olívia retoma o assunto em uma carta e lhe diz que a pergunta essencial na vida não é “em que classe eu quero viajar?” e sim “estarei sendo um bom companheiro de viagem?”. Essa resposta epistolar para um diálogo nunca encerrado é meio que o ponto de virada no livro e, ao menos para mim, uma das argumentações mais bonitas sobre a vida e seus assuntos.

 

A expressão companheiro de viagem adquire significados mais profundos para nós comunistas e para mim em particular. E isso porque eu encaro a vida e o próprio comunismo como uma viagem em que, mais importante que o destino, é o processo de crescimento e transformação durante a caminhada. Se isso lembrou a você a concepção de utopia de Eduardo Galeano, então você me entendeu perfeitamente.

 

Muito tenho argumentado neste blog sobre o “ser ou não ser” que acomete as esquerdas planetárias e sobre a incapacidade da “nova” direita para entender quem somos e como pensamos, motivo pelo qual é mais fácil defender nossa eliminação. A triste realidade é que nem a direita mais tradicional e nem mesmo alguns setores que se consideram mais puros da própria esquerda conseguem ir além das analogias primárias com regimes e grupos que já se afirmaram comunistas um dia e se perderam pelos caminhos da vida e seus percalços.  E é por isso que passamos mais tempo discutindo o pensamento raso de quem não nos entende, do que fazendo-nos entender por quem vale a pena.

 

Um dos motivos que me levou a usar na internet o bordão “Stalin matou foi pouco” (e seja quem for o autor, eu rendo minha homenagem à perspicácia dessa síntese) foi exatamente essa fixação da direita e dos trotskistas com estatísticas e contagens de mortes coligidas de maneira obscura e incluindo até intempéries como se até estas fossem responsabilidade do velho bigodudo. Não há uma única vez (nos últimos dez anos) em que eu me reafirme comunista, sem que apareça algum infeliz para jogar na minha cara, nas minhas costas e na minha conta as “mortes do Stalin”. E a cada ano aumentam, de vinte milhões no começo já passaram recentemente a mais de cem milhões, parece que todas as pessoas que faleceram na extinta União Soviética e no Leste Europeu, por ocasião da Segunda Guerra Mundial e nas décadas de 30-40-50 são culpa direta dele, como se as tivesse assassinado com as próprias mãos.

 

Se não fosse anacronismo, até a Peste Negra e a Gripe Espanhola entrariam na conta dos crimes de Stalin…

 

Poucos (bem poucos na verdade) têm um entendimento minimamente aceitável sobre o ideário comunista, tanto teórico quanto pragmático. A maioria repete sem cessar e sem pensar os argumentos de uns poucos críticos, nem sempre honestos. E menos ainda são aqueles capazes de entender que se possa defender uma utopia revolucionária sem necessariamente pregar a morte como única solução de conflitos.

 

A utilização da expressão companheiro de viagem vem de uma época em que o axioma do manifesto “Proletários do mundo, uni-vos!” ainda ecoava nos versos da Internacional e levava várias gerações de idealistas a colocar a mochila no ombro e combater os franquistas na Espanha, os nazistas na guerra europeia e o colonialismo branco nos outros continentes. Eram companheiros de viagem que se reconheciam e se ajudavam na luta, mas com o surgimento de líderes e vanguardas, a viagem virou um saudosismo de militantes velhos e o termo companheiro foi banalizado a ponto de ser aplicado até a amantes não casados. Mas o comunismo autêntico não vem através dos líderes e nem das vanguardas, ele surge da união dos que se dispõem a mudar e a lutar.

 

Em um mundo de possibilidades, quem é comunista escolhe viver percebendo no outro uma identidade passível de união, ao invés de um inimigo que é necessário destruir. Mas, que isso não signifique que nos tornamos carneiros indo para o abate nas mãos das hostes de ignaros com forcados e tochas (e agora com 9mm’s). É necessário que saibam que nos temem pelos motivos errados, mas que ainda assim devem temer-nos.

 

Porque um dia, distante ou não, as pessoas vão compreender o que significa “uma terra sem amos” e aí seremos todos realmente companheiros de viagem. Até lá, cuidado, porque Newton já dizia sobre as forças contrárias equivalentes provocadas quando se exerce pressão. Mesmo quando não estamos dispostos a sair matando, este lastimável cabo de guerra (provocado pela mídia grande e por grupos de interesse e políticos sem escrúpulos) pode acabar arrebentando.

 

E quem despertou estas forças certamente terá motivos para se arrepender.

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