O EMPODERAMENTO FALACIOSO NO FILME DA MULHER MARAVILHA

2 maio

Sim, vou falar de um filme do ano passado. E deixem-me explicar o porquê desse meu hábito tão anacrônico. Em parte é porque me ressinto dessa tendência dos blogueiros de opinar sobre tudo “em tempo real” (seja lá o que for que essa expressão signifique, afinal, o tempo é uma abstração em todos os seus sentidos e uma convenção em mais alguns) e prefiro respirar fundo e refletir sobre os assuntos após passado o “calor da hora”. Por outro lado, embora eu seja suficientemente adulta para não me incomodar com spoilers, eu respeito quem não quer ver críticas antes de assistir a um determinado filme no cinema, nesse sentido discutir filmes já batidos pode ser útil e não vai estragar o divertimento do leitor.

 

Para além da rivalidade entre Marvel e DC, venho me sentindo bastante frustrada e incomodada com o rumo que os filmes de fantasia de super-heróis tomaram na última década. A breve influência narrativa dos excelentes criadores de quadrinhos britânicos (Alan Moore e Neil Gaiman, principalmente) parece ter-se esvaído e o retorno da moralidade binária estadunidense empobreceu o alcance das tramas atuais. É como se a decadência de Frank Miller tivesse contaminado todo o gênero.

 

Quando o Cavaleiro das Trevas (a graphic novel não o filme) foi lançado no fim da década de ‘80, minhas possibilidades econômicas eram nulas, mas eu acabei lendo a edição brasileira emprestada de um amigo e fiquei apaixonada por aquele Batman maduro e desiludido. Coisas da juventude, eu também cultivava desde a adolescência uma paixão mal resolvida por Poe e seu romantismo gótico e tétrico. Quando o filme homônimo surgiu, eu até gostei, mas não encontrei qualquer vestígio dos quadrinhos e isso me deixou pensando na grande indústria do entretenimento e suas manipulações sórdidas atrás do lucro.

 

Quando finalmente Frank Miller lançou a sequência da graphic novel quase duas décadas depois, minha frustração foi maior ainda porque senti que o crítico da sociedade capitalista havia-se transformado em um libertarian qualquer. Uma moralidade binária e superficial substituíra o impasse civilizatório, e uma choradeira sem fim por um tempo que nunca foi transformava a narrativa em um pastiche da anterior. Se Alan Moore foi ao âmago do Anarquismo em V de Vingança, Frank Miller se perdeu pelo caminho e seu Cavaleiro das Trevas se transformou em um paladino para hypsters e ancaps.

 

E eu parei de ir ao cinema depois que Zack Snyder conseguiu arruinar Watchmen.

 

Então, quando da estreia de Wonder Woman (direção de Patty Jenkins, 2017), não tive de fazer muito esforço para aderir ao boicote e não ir ao cinema. A escolha da atriz principal era francamente ofensiva a todos os meus princípios. E continua sendo.

 

E nem sequer teria assistido ao filme na televisão, não fosse o fato de viver em família e não impor minhas ideias aos que me são caros. Apesar de toda a aversão provocada pela hipocrisia da protagonista, acabei assistindo e me surpreendi ao ver a ignorância dos roteiristas. E vocês provavelmente pensarão que estou maluca ao cobrar coerência desse tipo de entretenimento, mas é o que vou fazer.

 

Nesse sentido, tenho duas críticas a desenvolver neste texto. A primeira diz respeito à questão principal do julgamento da Humanidade pelos deuses; e a segunda remete à ilusão de empoderamento absolutamente cínica e hipócrita na figura da atriz principal. Sei que vou acabar ofendendo e contrariando fãs e interesses, mas o mais provável é que este seja mais um texto apenas lido pela mesma meia dúzia de leitores fiéis deste blog.

 

A batalha entre Diana e Ares e seu “julgamento” da espécie humana é uma das maiores patacoadas que já vi, e olha que os estadunidenses têm o péssimo costume de arruinar a mitologia grega desde os primórdios da indústria cultural. Seja porque não têm profundidade intelectual para entender os mitos gregos, seja porque acreditam que seu público é medíocre demais para apreciar um raciocínio mais sutil, o resultado é que os roteiristas sempre transformam os deuses gregos em cópias baratas de seus heróis de quadrinhos. Mas neste caso em particular, o que ofende qualquer ser pensante é o fato evidente de que nenhum deus grego pensaria em exterminar a Humanidade porque esta se revelou falha e vil.

 

Esse tipo de moralidade maniqueísta e besta de “bem contra o mal” é característico do cerne ideológico da mitologia judaico-cristão e nada tem em comum com o universo grego. Os deuses gregos eram arquétipos dos piores comportamentos humanos; eram lascivos, beberrões, ciumentos, irascíveis e coléricos. Suas vinganças eram desproporcionais às ofensas, mas não eram motivadas por tipo algum de moralidade, antes pelo evoluir de seus desejos e suas paixões.

 

Os deuses gregos se divertiam manipulando os humanos e usando-os como fantoches para promover suas próprias guerras. Quem leu Homero e Heródoto há de concordar que nada mais incongruente que um deus grego chocado e ofendido com guerra química contra crianças, quando o sacrifício de crianças era algo corriqueiro nos tempos mitológicos. Nesse sentido, transformar Diana (assim mesmo com o nome romano), que neste caso é filha de Hypólita, rainha das Amazonas, e não corresponde a Ártemis, filha de Leto e irmã de Apolo, em paladina da justiça é uma suprema tolice.

 

Minha segunda crítica, entretanto, é o que me levou a aderir ao boicote proposto por vários ativistas de direitos humanos, em função da contratação de Gal Gadot para o papel da “heroína”. A ex-miss, com pouco ou nenhum talento artístico, é uma fanática defensora do Estado de Israel e do extermínio do povo palestino. Suas declarações apoiando a detenção e o assassinato de crianças pelos soldados invasores do território palestino são públicas e notórias.

 

Nesse sentido, suas falas antibelicistas no filme soam como um escárnio ao sofrimento do povo palestino. Não existe argumento de empoderamento feminino que justifique a aceitação de uma protagonista sabidamente simpatizante de genocídio. Nem mesmo se ela tivesse um mínimo de talento artístico, o que não é o caso.

 

Eu sou da época em que Lynda Carter era a Mulher Maravilha no seriado de televisão, em uma interpretação sóbria e irreverente, sem histrionismo barato e sem grandes demagogias. E mesmo assim não vejo em que esse tipo de heroína poderia ser positivo para uma menina ou adolescente formando sua visão de mundo. Helen Keller e Valentina Tereshkova foram muito mais importantes para mim do que qualquer infeliz seminua correndo atrás de bandidos patéticos.

 

O empoderamento vem do exemplo e jamais poderá ser auferido da indústria cultural, que homogeneíza e empastela um sucedâneo tanto da realidade quanto da fantasia para acumular fortunas às nossas custas.

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