A MÁGICA, OS NEM-NEMS E A FUGA DA MODERNIDADE

19 maio

Você já se perguntou por que integrantes de uma geração que não lê fariam filas imensas para adquirir um volume de Harry Potter em seu lançamento? Afinal, os livros dessa série não passam de pastiches glorificados de uma boa parte do que já foi escrito ou pensado em termos de ficção e fantasia. Redimensionam os órfãos heroicos de Dickens em um mundo de mágica e oferecem às crianças e adolescentes um sucedâneo de escapismo da realidade, na mesma medida que as religiões e mitologias o fizeram em outros tempos.

 

Uma das minhas maiores frustrações com o meio acadêmico, nos meus tempos de estudante, advinha de ter que participar de discussões pós-modernas. Abomino do fundo do meu ser toda essa literatura vã sobre representações e abstrações, que traz em seu bojo uma interpretação blasé da vida e da História, em que os seres humanos são joguetes impotentes de superestruturas gigantescas e onipresentes. Em parte porque esse é um debate bem ao gosto de alguns setores das Ciências Sociais, que interpretam a realidade a partir de conceitos e categorias, e de alguns historiadores que conseguiram a proeza de inventar a “História Sem Gente”.

 

Mas a minha maior crítica vem do efeito paralisante que toda essa literatura produziu no “fazer” das esquerdas ao longo dos últimos cinqüenta anos. A pós-modernidade nos dividiu, pulverizou nossas identidades e nossas lutas e nos transformou em fanáticos de discursos e narrativas. E impediu que percebêssemos que a modernidade nem sequer chegou.

 

Os Enciclopedistas do século XVIII, fanáticos defensores da Razão e das Luzes, ficariam extremamente surpreendidos ao saber que em pleno século XXI, uma parte significativa da Humanidade ainda nega a modernidade. O sonho de compartilhar o conhecimento e combater a ignorância e o obscurantismo (que gerou a invenção da enciclopédia, veículo que pretendia transformar todos e cada um em detentores de um repertório variado e abrangente de conhecimentos, bastando apenas saber ler) não gerou um modelo de escola inclusiva (laica e plural) nem conseguiu neutralizar a reação das forças sociais obscuras. Ainda lutamos contra o mesmo fascínio que as interpretações mágicas da vida e do mundo exercem naqueles que tem medo da realidade.

 

O que diria Diderot se fosse defrontado com os terraplanistas? O que diria Bakunin dos anarco-capitalistas? O que diria Marx dos que acreditam que o nazismo é de esquerda? O que diria Pasteur dos que recusam as vacinas? O que nós podemos dizer?

 

Neste mês de Maio de 2018, quando comemoramos o segundo centenário do nascimento de Karl Marx, o ferramental marxista permanece relevante para interpretar a evidência histórica e para pensar e dimensionar nossas mazelas muito além dos delírios abstratos dos pós-modernistas. Afinal, parece que precisamos refazer nossos caminhos para entender como foi que a reação religiosa auxiliou os Estados e os Mercados a esmagar o sonho Iluminista e, de quebra, demorou cem anos, mas conseguiu pulverizar toda a pauta de organização e conquistas dos trabalhadores. Vitórias das minorias étnicas e da diversidade de gênero em direção à igualdade real, que considerávamos consolidadas, estão sendo demolidas sem quartel e sem trégua por movimentos surgidos espuriamente e apoiados por largas parcelas dos meios populares.

 

A Razão fracassou em tornar-se inteligível aos mais simples porque esbarrou no pavor de ter que viver em um mundo sem mágica. E não se trata apenas de ter que lidar com a incerteza e a indefinição enquanto a Ciência avança palmo a palmo na compreensão da vida e do Universo. Trata-se, acima de tudo, de ter que viver em um mundo em que não se pode esperar e nem pedir nada a deuses mágicos e em que é preciso enfrentar cada desafio contando apenas com a realidade nua e crua das nossas limitações.

 

Nada além desse pavor atávico, responsável pela invenção das religiões, poderia explicar a alegria e o alívio com que largas parcelas da sociedade abraçam o anticonhecimento, e defendem a censura de todo e qualquer pensamento que ameace sua frágil segurança mental.

 

E, nesse sentido, a sensação de exílio e estranhamento vivida por uma parte considerável dos jovens (que na minha época era considerada apenas como uma parte normal da adolescência, e em outras épocas sequer era considerada) hoje encontra na indústria cultural vasto material de escapismo para uma realidade hostil. A incerteza na escolha dos caminhos para a própria vida, as pressões sociais para ser perfeito, bonito e feliz (e magro mesmo quando a oferta de comida podre promete aliviar a angústia com açúcar e gordura) podem levar a procurar refúgio em Harry Potter e outros fenômenos de consumo mais complexos. Da mesma forma que, entre alguns setores da população, podem superlotar as igrejas neopentecostais que prometem barganhas com deus como se fossem aqueles vendedores estereotipados de carros usados retratados nas séries e filmes dos Estados Unidos.

 

A primeira vez que ouvi falar dos nem-nems foi através das reclamações dos meus primos do Uruguay (lá são chamados de ni-nis) e a expressão denomina um tipo de jovem que não estuda e nem trabalha porque não quer, vivendo às custas dos pais ou do Estado. Oriundos das classes médias e remediadas, esses jovens não vêm uma perspectiva de realização social para seus sonhos exacerbados de consumo e preferem desistir de estruturar suas vidas nos modelos oferecidos pela suposta meritocracia, para viver parasitando o sistema. Nesse sentido, os estatísticos brasileiros não entendem esse fenômeno e quando fazem suas estimativas da nossa juventude incluem erradamente nelas aqueles que não conseguem estudar nem trabalhar porque a sociedade lhes nega essa oportunidade, deturpando a principal identidade dos nem-nems , que é a escolha.

 

Talvez seja necessário, para entender a abrangência desse fenômeno, pensar o caso japonês. O Japão é um dos países em que o capitalismo quase conseguiu esmagar totalmente qualquer iniciativa da população que não o seja o trabalho e o consumo. É nesse país que surgem alguns dos presságios mais assustadores do que nos ameaça.

 

KAROSHI é um termo que significa “morrer de tanto trabalhar” e que denomina um fenômeno crescente em uma sociedade em que não existe mobilidade social e nem garantia de sobrevivência ou seguridade. E quando um pai de família morre nessas circunstâncias, muitas vezes a família não tem como se responsabilizar por sua viúva que não encontra meios para sobreviver, o que vem aumentando o número de senhoras que cometem pequenos crimes para ter teto e comida na cadeia. O que assusta é que esse tipo de morte está acometendo pessoas cada vez mais jovens.

 

HIKIKOMORI designa aquele que se isola da sociedade. Que se tranca em casa e passa a viver sustentado por seus pais, ou desempenhando tarefas através da internet, mas que rejeita qualquer convívio ou contato humano. Talvez venha daí a sofisticação de brinquedos sexuais disponíveis atualmente na sociedade japonesa.

 

Voltando às nossas latitudes, é preciso compreender esses fenômenos e o papel da indústria cultural como paliativo, mas também como fator de alienação na vida de quem faz essas escolhas. Da mesma forma que o gordinho que sofre assédio na escola pode procurar refúgio no mundo mágico de Harry Potter ou das RPG’s, ele pode escolher ser um nem-nem e abandonar de vez a pressão para passar no vestibular e ser bem sucedido na vida. Ou entrar para um culto e abdicar da racionalidade para deixar que o espírito de manada comande sua vida.

 

O desafio de ser professor em uma época e em um mundo que oferece todas essas possibilidades de alienação, enquanto somos perseguidos por aqueles que querem determinar os limites do aprendizado e do conhecimento, são imensos. Como chegar às mentes dos alunos quando o assédio do consumo e da ignorância é tão intenso e desproporcional? Como defender valores positivos e inclusivos em uma encruzilhada em que o ódio espreita a cada canto?

 

Como defender a Razão, quando as Luzes da modernidade parecem cada vez mais fracas e distantes?

 

Certamente não será aderindo ao cada um por si pós-moderno.

 

Talvez seja a hora de dar por perdido mesmo o século XX, com seus extermínios e suas ideias extravagantes e retomar o bom e velho Karl Marx e recomeçar do zero. Ou Diderot. Ou William Morris.

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