FEY

18 jun

Por volta de junho de 2006, eu lecionava em uma faculdade particular no interior paulista, no curso de Ciências Contábeis. Minhas disciplinas eram Metodologia Científica e Cultura Brasileira, e eram oferecidas em semestres alternados, o que me garantia o vínculo empregatício. Não era um curso que tivesse qualquer aspecto em comum com minha área de estudos, mas eram disciplinas que eu gostava de aplicar, por tratar-se do momento de “formação” do ethos estudantil.

 

Quando eu terminei meu doutorado em 1999, as oportunidades de trabalho já estavam minguando, devido às políticas neoliberais do governo Fernando Henrique Cardoso, que interromperam os concursos públicos e incentivaram a precarização cada vez mais medonha do ensino universitário. Quando essa vaga no ensino privado surgiu (semanas após ter depositado a tese e encerrado a bolsa), eu nem mesmo pensei como isso afetaria meu currículo, afinal, nossa vida era um nunca acabar de dificuldades financeiras e qualquer emprego era emprego àquela altura. De certa forma, já tinha plena consciência de que jamais conseguiria uma vaga nos estabelecimentos de primeira linha porque éramos muitos, todos bem formados, e só alguns poucos escolhidos dispunham dos contatos requeridos na minha área de formação.

 

Por isso sempre me dediquei com muito afinco à docência, mesmo quando uma boa parte dos alunos não demonstrava maior interesse pelas disciplinas em questão, ou por aprimorar suas capacidades fora do restrito mundo das disciplinas de Comércio e Cálculo. Eram aulas exaustivas, tentando demonstrar a necessidade de articular o pensamento de modo científico e não apenas aplicar as normas da ABNT como se o formato de um texto fosse mais importante que seu conteúdo; ou destrinchando a História Econômica do Brasil (que era a ementa de Cultura Brasileira) para que os alunos entendessem a quem serviam ao aprender suas trucagens contábeis. Nesse sentido, é sintomático que, dos ex-alunos que me procuraram no Facebook, nenhum tenha vindo dos vários anos que lecionei no curso de Contábeis.

 

Mas, voltando a Junho de 2006, era um sábado após o almoço e eu me dirigia a uma daquelas insuportáveis reuniões de coordenação, em que o Coordenador do curso se pavoneava mês após mês de ter trabalhado nos EUA e ter feito mestrado na USP. No meu caso, a hostilidade dele se travestia de uma falsa cordialidade, sempre permeada por sua insistência em minimizar meu doutorado e valorizar seu mestrado, deixando implícito que profissionais como eu eram um “estorvo” às suas ideias de gestão. Por ser de uma geração anterior, ressentia-se a olhos vistos de que uma mulher mais jovem tivesse mais titulação que ele, mesmo que eu não tivesse interesse algum (ou sequer o menor vestígio de chance) em exercer seu cargo.

 

Mas, naquela tarde ensolarada e com um céu deslumbrante, eu desci do ônibus e atravessei a imensa avenida na entrada da cidade sentindo-me feliz. Parecia que, ao contrário de outros cursos da instituição em que eu já lecionara, Contábeis conseguira estabelecer-se e a cada ano a procura crescia, o que me permitia sonhar com um mínimo de estabilidade e a segurança do recolhimento para a aposentadoria. Nas poucas quadras daquela caminhada, eu me permiti momentos de alívio e de otimismo pela primeira vez em anos.

 

E então, durante a reunião, o Coordenador começou uma narrativa autocongratulatória de sua participação em um encontro de coordenadores de cursos de Contábeis em Brasília e passou a enumerar as mudanças propostas no evento e que pretendia aplicar entre nós. E já de cara estava eufórico porque poderia descartar matérias inúteis como Sociologia e Cultura Brasileira para pode ter mais Matemática e Cálculo, bem como reformular Ética para que passasse a ser apenas o estudo do Código de Ética dos Contabilistas e não precisaria ser mais aplicada por filósofos ou advogados, o que abriria vaga para alguém de sua própria área lecionar. Esse senhor acreditava, como “gestor” que nunca tivera a mínima formação em Educação ou qualquer interesse sequer em conhecer o mínimo para ser professor, que seu curso seria mais eficiente e atrativo sem a inutilidade da reflexão proporcionada pelas matérias de Humanas.

 

Ouvindo-o e vendo a felicidade com que destruía meu posto de trabalho, eu fiquei em choque. Custei muito a ter uma reação, parecia que alguém me dera uma “bordoada” bem no meio da testa e eu estava com dificuldade até para respirar. Quando finalmente perguntei o que aconteceria comigo, já que as mudanças só se dariam no ano seguinte, ele sorriu ao dizer que eu seria dispensada, e me deixou com a carga de trabalhar por mais um ano, mesmo sabendo que ao fim desse período estaria na rua.

 

Sobre esse ano torturante e as circunstâncias da minha dispensa, melhor nem falar, basta saber que minha pressão arterial disparou e tive que dobrar a medicação. Desde então, devido à precarização dos cursos superiores privados, que sofreram o “ataque” de instituições novas praticando preços baixíssimos, o que motivou a demissão em massa de professores-doutores e o encolhimento dos currículos, eliminando diversas matérias de Ciências Humanas, eu nunca mais consegui emprego. E os anos lecionando nessa instituição, longe do mundo acadêmico, somados a esta década parada, arruinaram meu currículo para eventuais concursos em universidades públicas.

 

Nunca me esqueço daquele sábado, e agora penso nele mais do que nunca ao comparar a sensação com o período que vivemos a partir de 2013 até o momento. Em maio de 2013 o país estava bem, com reservas em dólares, respeito internacional, emprego em expansão, e a possibilidade concreta de que os royalties do pré-sal fossem revertidos para a saúde e a educação, realizando um resgate das classes populares, jamais sonhado ou previsto. E, então, a ação implacável de uma imprensa sórdida, de uma súcia de congressistas mercenários e de um Judiciário inútil e conivente, somados a meia dúzia de passeatas cheias de gente saltitante vociferando imbecilidades, acabaram com nosso país.

 

A felicidade e a esperança que nos rodeavam até maio de 2013, hoje são apenas lembranças nostálgicas em meio ao caos e à barbárie. A entrega covarde de nossas divisas, nossas terras e nosso patrimônio mineral ao capital estrangeiro, as reformas neoliberais destinadas a arruinar as classes populares e provocar o extermínio sistemático de largas faixas da população, bem como a abjeta guinada conservadora que nos esmaga, são o legado de junho de 2013 e suas passeatas nada inocentes. O Golpe de Estado, que rasgou nossa Constituição e nos transformou em um simulacro de país, parece preparar uma ignomínia maior a cada dia, como se os detentores do poder estivessem testando quanto podem nos humilhar até que sejamos totalmente silenciados.

 

Em Morte no Nilo, Agatha Christie usa a palavra escocesa fey para definir esse “estado de felicidade exaltada que geralmente prenuncia uma tragédia”. E é essa definição que me vem à mente quando penso em minha caminhada em direção à reunião em 2006 e em maio de 2013, o momento mais feliz antes da queda. Dá até um medo irracional de voltar a ser feliz ou, como diria minha avó Maria Garbonez, de “contar com lós huevos em el culo de la gallina”.

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2 Respostas to “FEY”

  1. Fernando Tassoni 19/06/2018 às 9:03 am #

    Esta precarização dos postos de trabalho na educação é uma das causas de insegurança para recém formados feito eu, e um dos principais motivos para que os licenciados procurem por bacharelados alinhados com os ditames do mercado; enfim, tempos de coaching…

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