PRECISAMOS REAVALIAR OS LUDITAS

12 jul

Se vocês chegaram à Revolução Industrial no currículo escolar de História, certamente ouviram falar sobre os “quebradores de máquinas”. Dependendo do material didático e da formação do seu professor, esse capítulo do surgimento do Movimento Operário no Reino Unido pode ter sido abordado como uma mera bizarrice cômica ou como uma das tradições derrotadas pelo “socialismo científico”. De qualquer maneira, a minha experiência ao abordar o tema sugere que poucos professores se detêm nele ou ajudam seus alunos a refletir fora da oposição entre modernidade e atraso, deixando a impressão de um quixotismo ingênuo.

 

Em minha trajetória escolar, durante os anos ’70, jamais sequer ouvi falar sobre os luditas e tudo o que vi foi uma apologia, sem qualquer pudor ou sombra de crítica por parte dos professores e do material didático, da Revolução Industrial e do progresso constituído por fábricas e máquinas. Durante o cursinho pré-vestibular, que fui obrigada a fazer em 1986 quando resolvi voltar a estudar, o episódio foi tratado como uma nota de rodapé cômica ilustrando o reacionarismo e a ignorância dos primeiros “operários” e as “dificuldades” vividas pelos primeiros industriais em sua “saga em prol do progresso”. Foi somente durante a minha Graduação, que tive acesso a materiais mais críticos e a uma discussão em profundidade sobre o “fenômeno ludita” e pude avaliar por mim mesma a barbárie que foi a consolidação da industrialização no Ocidente.

 

Tenho uma dívida profunda com meus professores Paulo Miceli (Moderna I e Tópicos sobre Marx e a gênese do Capitalismo), Adalberto Marson (Contemporânea I) e Sidney Chalhoub (Brasil II, Tópicos sobre E. P. Thompson e Tópicos sobre a transição da escravidão para o trabalho livre) por sua abordagem meticulosa, e largamente amparada em copiosa bibliografia, dos processos de acumulação de capitais, exploração de mão de obra e constituição dos movimentos operários na Europa e no Brasil. Bem como do papel intrínseco da escravidão e do tráfico nas Américas, para a compreensão do surto de industrialização no Reino Unido do século XIX. Aulas, discussões e leituras dirigidas maravilhosas, que ainda guardo com muito carinho na memória, e que contribuíram para o tipo de professora e de pessoa que me tornei, muito mais do que qualquer diploma.

 

Paulo Miceli nos apresentou a Étienne de La Boétie e seu Discurso da Servidão Voluntária, a documentos com listas de reivindicações das primeiras greves modernas, ao capítulo de Marx sobre a Acumulação Primitiva e à abordagem de Fernand Braudel sobre a Cultura Material na Europa dos séculos XVI a XVIII. Com o Miceli aprendemos (ou ao menos eu aprendi) como os camponeses foram gradativa e implacavelmente expulsos das terras comunais e sua cultura arrasada, no momento em que a produção de tecidos e lã intensificou-se e os grandes criadores de ovelhas avançaram sobre a estrutura fundiária para expandir seus negócios e prover de materiais e mão de obra barata a indústria nascente. A estruturação do tráfico negreiro como provedor de capitais de rápida obtenção e a escravidão nos regimes de plantation como garantia de rentabilidade no fornecimento de matérias primas, riquezas naturais e produtos alimentícios a uma Europa de ávidas metrópoles.

 

Com Adalberto Marson nos aproximamos da estrutura da fábrica, da operação das máquinas e da longa luta do Movimento Operário nascente para não ser tragado e moído por esse sistema sem escrúpulos e sem controles. Um novo olhar sobre as Workhouses vitorianas e a “benemerência” de um sistema em que os pobres deixaram de ser uma “carga” para as paróquias interioranas e se transformaram em “excedente” de reposição aos mutilados em fábricas e minas de carvão e uma garantia de manutenção de salários de fome. Amontoados nos insalubres cortiços londrinos, em cidades industriais como Manchester e portuárias como Bristol e Liverpool, os miseráveis explorados garantiam o sucesso da revolução tecnológica nascente, mas tornavam-se um problema quando explodiam em violência e sucumbiam à degradação urbana.

 

Com Sidney Chalhoub (o mais eclético desses incomparáveis professores) transitamos do estudo político do Segundo Reinado, pelas fontes judiciais para o estudo da escravidão no Brasil, pela criminalização dos libertos na virada do século XIX para o XX e por uma leitura pormenorizada dos três volumes d’A Formação da Classe Operária Inglesa, do maravilhoso E. P. Thompson. Sidney foi o único professor (além do Amaral Lapa) com quem fiz mais de duas disciplinas eletivas, além da obrigatória. Sua abordagem crítica das fontes e da bibliografia e suas aulas bem humoradas e impecavelmente esquematizadas ainda me trazem à lembrança alguns dos momentos mais felizes da minha Graduação.

 

E este preâmbulo foi necessário para que se entenda que não basta perguntar por que os luditas quebravam as máquinas. É preciso compreender ao menos três séculos de História Social e Econômica britânica para poder avaliar o impacto da fábrica e da máquina no cotidiano de artesãos e camponeses obrigados a transformar-se em operários da indústria nascente para não morrer de fome, empilhados com suas famílias em cortiços insalubres e malcheirosos. Trata-se de um processo que, visto a posteriori, impressiona pelo caráter implacável do “progresso” promovido à custa da vida e da saúde dos pobres, amparado por um sistema político conivente e secundado por grupos religiosos destinados a promover a obediência e a docilidade entre os novos trabalhadores.

 

Thompson, em mais de uma ocasião, reflexiona sobre o modo como a apropriação do tempo por parte dos patrões, retira a autonomia dos antigos artesãos e os submete a jornadas exaustivas, operando máquinas extremamente perigosas porque desenvolvidas pensando em que o homem deveria adaptar-se a elas e não o contrário. Nesse sentido, hoje é público e notório que a exploração do trabalho infantil nesses ambientes (devido a seu baixo custo e à possibilidade de reposição rápida dos mutilados ou mortos) também passava pela possibilidade de construção de máquinas com espaços tão pequenos que somente uma criança poderia operar. E o modelo (que perdurou até as primeiras décadas do século XX) de empilhar o máximo de máquinas em espaços exíguos, sem iluminação e nem ventilação adequada, transformava essas fábricas em armadilhas sem saída.

 

Expulsos do campo pela apropriação arbitrária das terras comunais e pelo avanço dos pastos para ovelhas em detrimento das lavouras familiares; atropelados pela produção fabril e destituídos dos saberes artesanais que lhes garantiam a sobrevivência; engrossando as periferias urbanas mais medonhas à espera de oportunidades de trabalho; obrigados a jornadas de trabalho de dezesseis horas ou mais em minas de carvão ou fábricas insalubres, em troca de salários aviltantes; atormentados por fanáticos metodistas para transformar-se em rebanho obediente; os “operários” da nascente Revolução Industrial ainda não são uma classe porque não tem consciência de si.

 

E é nesse contexto inicial que os luditas se armam com marretas e porretes e destroem as máquinas. Na impossibilidade de derrotar o processo avassalador de exploração e pauperização a que são submetidos, voltam-se para o símbolo mais aparente da mudança: a famigerada máquina, que amputa dedos e esmaga crianças. Nada há de ingênuo, quixotesco ou patético nisso, é o olhar anacrônico dos arautos do “progresso” que vai transformar os luditas e sua luta fundadora do protesto operário (junto ao movimento cartista) em mera nota bizarra de rodapé na História da industrialização britânica.

 

Isolados no calendário, em um curto período antes das guerras napoleônicas, os luditas foram rapidamente neutralizados e destruídos por um Estado já atrelado aos interesses da industrialização e por um império em expansão. Anos depois, Karl Marx ressaltaria que a destruição das máquinas não era suficiente, que a consciência dos operários como classe em si era o começo necessário, mas que somente a tomada, expropriação e socialização dos meios de produção (fábricas, máquinas, minas e equipamentos) levariam à emancipação da exploração capitalista. Argumento que, diante do acirramento atual da exclusão social e da exploração do trabalho, permanece relevante.

 

Duzentos anos nos separam dos luditas. As máquinas, as fábricas, os desenvolvimentos tecnológicos e os meandros do sistema econômico financeirizado estão mais sofisticados, mas seu objetivo ainda é o mesmo: subjugar o excedente de mão de obra e manipular a miséria para manter os salários baixos e extrair lucro em cima de lucro, através da exploração massiva. Sem escrúpulos, sem controles, sem tréguas.

 

Precisamos reavaliar e recuperar os luditas como referência, mas precisamos mais ainda recolocar o socialismo (comunista, anarquista ou democrático) na sua devida importância como ferramental para o enfrentamento a esse sistema de moer gente que nos impõe uma hegemonia de sangue. Mais que destruir ou boicotar, precisamos ser donos do nosso próprio destino e não conseguiremos isso se estivermos fragmentados em nacionalismos xenófobos ou identidades individualistas.

 

Também não o conseguiremos renegando as tecnologias e abraçando utopias campestres. Precisamos renovar nossas convicções éticas e aplicá-las no cotidiano, despindo a tecnologia de sua violência excludente e de seu avanço predatório aos recursos finitos de nosso planetinha azul. E nada disso virá dos meios virtuais, com seu narcisismo jeca.

 

Será que estamos minimamente conscientes e preparados?

 

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