UM CROATA

13 jul

No próximo domingo, 15 de julho, a Copa do Mundo chega ao fim. E a partida final será disputada entre França e Croácia, para decepção de meio mundo (inclusive eu mesma, que parei de torcer nas quartas de final, mas continuei assistindo aos jogos) e para delírio das redes sociais. E dá o que pensar.

 

Desde os argumentos anacrônicos sobre colonialismo, das patrulhas que se ofendem com quem torce pelos times europeus, até a visível acrobacia mental dos que vão ignorar o neonazismo na hora da final. E eu fico só acompanhando, sem querer entrar em polêmicas vazias, uma vez que nenhum time da Europa me fala ao coração (nem mesmo aqueles dos países de que tenho ascendência como Itália, Espanha e Portugal) e nem me sinto à vontade para rebater patrulhas pernósticas. O caso da Croácia, entretanto, é uma questão bem diferente.

 

Não estamos falando de massacres, invasões pilhagens ou ingerências culturais ocorridas entre cento e cinquenta e quinhentos anos atrás, nem mesmo sobre impérios que já foram e hoje nem contam. No caso da Croácia, estamos diante de uma opção cidadã pelo neonazismo, uma opção que se reflete no resultado das urnas e nos comportamentos de uma parte considerável dos croatas em seu próprio país e no exterior. E é um pacote que vem acompanhado das usuais atitudes chauvinistas, xenófobas e racistas de praxe aos que defendem esse tipo de ideologia.

 

Então, é evidente que eu vou assistir à partida final porque ainda considero as Copas como eventos emocionantes, mas também deveria ser evidente que não pretendo torcer por qualquer dos dois finalistas. Não são meus times de modo algum e não preciso torcer fanaticamente para apreciar o espetáculo, da mesma maneira que não preciso fechar meus olhos ao racismo francês apenas porque sua seleção está cheia de descendentes de imigrantes de suas ex-colônias (da mesma forma que o Brasil não deixa de ser um país hipocritamente racista só porque nossa seleção inclui jogadores negros). Mas a Croácia…

 

Na segunda metade da década de ’80, eu conheci pessoalmente um nativo da Croácia. Não vou entrar em detalhes como nomes ou lugares, basta-me com dizer que a filha desse senhor frequentava a mesma escola que a minha irmã e que essa família vinha da Argentina. Estavam aqui por motivos profissionais (o pai era contratado de uma multinacional), mas não queriam ficar e voltaram à Argentina assim que ele se aposentou e a economia ajudou.

 

Em um dado momento, ao saber que vínhamos do Uruguay e ainda falávamos espanhol, a mãe se aproximou e acabou por “convidar-se” a passar o final de ano conosco. “Vamos juntar nossas solidões” foi o argumento usado sem parar para pensar que talvez nós gostássemos do recolhimento e da paz da nossa própria companhia, mas vá lá… A partir daí começa um daqueles “micos” que viram anedotas com o passar do tempo.

 

Em algum momento a jovem dissera à minha irmã “meu pai é nazista” e, naqueles tempos pré-colapso da União Soviética, pensamos que se tratava de uma metáfora. Mas assim que tivemos o primeiro contato e fomos descobrindo a vida pregressa desse senhor, as “coisas” foram se complicando. Descobrimos que, ainda adolescente, fora abduzido pela Juventude Hitlerista e acabara sendo capturado (menor de idade) pelos aliados durante a Guerra e conduzido a um campo de prisioneiros, de onde saiu no pós-guerra como refugiado para a Argentina.

 

E isso não era tudo. Diferente de muitos sobreviventes, que assumem uma atitude crítica, esse senhor ainda admirava Hitler e demonstrava um preconceito discreto pelos brasileiros, que considerava todos como “negros”. Mais discreto que a esposa, esta sim mais agressiva, reduzia seus preconceitos a piadas e anedotas indigestas.

 

Logo ao chegar à casa dos meus pais, o retrato do Che Guevara (que voltara à parede com o fim da ditadura) deve ter-lhes avisado que éramos de esquerda. Isso e o fato de que minha mãe lhes ofereceu emprestados (para o caso de que quisessem gravar) os nossos discos da Mercedes Sosa, a quem a jovem e sua mãe se referiram como “essa índia gorda ridícula”. And so on and so on…

 

Ao saber que o senhor vinha da Iugoslávia, meu pai elogiou o Marechal Tito, de quem, tanto ele quanto eu, éramos admiradores declarados: silêncio glacial. Mas sobrevivemos e tivemos que engolir nossa perplexidade em nome da boa educação. E começamos a “bater em retirada” logo ali (e creio que eles também) de modo discreto, para evitar incidentes.

 

Ainda nos encontramos umas três ou quatro vezes, pagamos a visita e trocamos gentilezas sociais banais. Numa dessas ocasiões, ao referir-me ao irmão de uma amiga, que eu paquerava discretamente, ficou um clima daqueles que só quem viveu consegue avaliar. Ao ficar claro que o rapaz era negro, a mãe me disse “eu não sou a favor que as raças se misturem, você não vê os passarinhos fazendo isso, um pardal não se junta com um rouxinol” e eu sorri amarelo, na falta de uma resposta adequada.

 

Nunca mais nos vimos. Eventualmente o Facebook trouxe a filha (agora já não mais jovem) de volta ao nosso contato. Nos poucos meses em que figurou entre os meus contatos, acabou revelando-se um “combo” de reacionarismo e preconceito. Quando começou a divulgar fotos falsas de fetos “abortados”, eu desfiz a amizade e nem olhei para trás, o benefício da dúvida tem limites.

 

Um croata não define a Croácia, eu concordo. Mas somado aos criminosos da limpeza étnica dos anos ’90, aos neonazistas das torcidas organizadas, aos políticos que negam acesso aos refugiados e aos adoradores da suástica, aí temos um padrão bastante presente, mesmo que todos não sejam assim. A presença das ideias execráveis prospera e alcança os altos cargos governamentais, não é preciso esperar a que se torne política de Estado para admitir que existe um problema.

 

Não sou eu quem vai dizer para quem quer que seja “não torça pela seleção X ou Y”, cada um sabe de si. Só não digam depois que não sabiam. Na era da informação na ponta dos dedos, isso fica feio.

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2 Respostas to “UM CROATA”

  1. Fernando Tassoni 13/07/2018 às 9:19 pm #

    Não me lembro de outra copa do mundo em que as questões ideológicas se tornaram motivo de debate na sociedade brasileira. Um amigo meu voltou da França tempos atrás e me relatou situações escabrosas de preconceito que, segundo este colega, é uma característica intrínseca da sociedade francesa. Na Rússia, a homofobia é praticamente uma política de estado, na Alemanha há neonazistas eleitos para o parlamento via AFD; eu espero que estas manifestações sejam expressões de indivíduos pouco instruídos ou com desvios de caráter (Modric´ é acusado de perjúrio, Lovren publicou vídeo cantando “Bojna Cavoglave”, Vida aparece noutra gravação dizendo “Queime Belgrado”!) todavia penso que o movimento social nos arrasta para uma realidade onde os valores de direita despertam a simpatia de parte significativa da população. Antigamente eu não torcia para os times cujos jogadores usavam aquelas faixas escritas “100% Jesus”; hoje, me parece que este era um mal menor…

    • annagicelle 13/07/2018 às 10:19 pm #

      Concordo com você e fico muito cismada com o que nos aguarda com essa escalada da simpatia popular por preconceitos e violências genocidas 😦

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