ABSOLUTOS RELATIVOS

30 jul

Ando com preguiça de toda essa “autodesconstrução” moderninha. Estou desenvolvendo um ranço atroz em relação a essa distribuição individualizada de responsabilidades pelos grandes flagelos da Humanidade. E me pego pensando se esses argumentos surgem dos jovens que os defendem ou de uma ofensiva bem organizada para mascarar o niilismo como se fosse pensamento crítico.

 

Momentos atrás, na página de um amigo que respeito muito, assisti a um vídeo oriundo de um desses “institutos” responsáveis por ditar rumos aos debates públicos. Nessa transmissão, uma mocinha muito bem falante discutia sobre o “privilegio” na nossa sociedade e argumentava que qualquer um com uma família estruturada, um prato de comida na mesa e uma renda familiar de dois mil reais era um privilegiado em relação a 66% da Humanidade que não tem nem isso. E instava a todos nós “privilegiados” a tomar consciência de nossa posição nos males do mundo.

 

Confesso que me senti velha e cansada e sem saber nem por onde começar a refutar esse tipo de platitude simplista. Afinal, na linha mais reducionista de raciocínio, o argumento da mocinha até que faz sentido, basta para isso ignorar toda a carga histórica, social e política das relações humanas e concentrar-se no ponto de vista individual. Se eu tenho acesso a X grau de cidadania, tenho que me responsabilizar pelos males do mundo tanto quanto um Fulano que tenha acesso a X elevado à décima potência porque, embora nossos graus de privilégio não sejam nem sequer remotamente comparáveis entre nós, em relação a quem não tem qualquer acesso ambos somos privilegiados.

 

Esse tipo de argumento nem sequer discute as estruturas que determinam quem é que tem acesso a quê. É como se estivéssemos “jogados” para além do tempo e da historicidade e fôssemos responsáveis pelos lugares sociais em que nascemos. Quero acreditar que a tosquice do argumento se devia muito mais à pouca idade da jovem, mas me parece que não, que existe uma tendência no pensamento corrente a promover esse tipo de simplismo.

 

Essas falsas equivalências parecem ter-se tornado a praga constante do modelo de pensamento neoliberal (para muito além da questão econômica), recortando os problemas de suas origens e dos mecanismos de perpetuação para incentivar um protagonismo vazio em cidadãos impotentes. A consciência do meu “privilégio” e a desconstrução do meu “eu” passam a ser mais importantes para a resolução dos males do mundo que a tomada dos meios de produção (para usar um jargão bem batido) e a própria Revolução. Porque essa nova geração é cética demais para os ideais coletivos e prefere as ideologias que pregam ações individuais e a construção de identidades pela negação de si.

 

E é evidente que neste momento eu preciso abrir um parêntese para esclarecer que não considero todos os jovens tão primários e facilmente manipuláveis. O ceticismo nos acompanha há gerações, e o paradoxo de ser cientificamente cético, mas romanticamente idealista no ativismo social, não deveria ser surpreendente. Seres humanos lineares dificilmente existem fora das tramas de ficção, na vida real somos todos contraditórios de um modo ou de outro.

 

Durante a juventude, entretanto, temos a tendência a trafegar entre absolutos à procura de verdades categóricas e definitivas. E cada geração sempre pensa que descobriu a fórmula decisiva para remediar os males do planeta, seja por quais meios for. Ainda bem que depois de algum tempo e muitas decepções, afinal conseguimos crescer.

 

Nesse sentido, posso argumentar que é sumamente necessário pensar fenômenos históricos e diásporas econômicas para entender os mecanismos que perpetuam o machismo, o racismo e as desigualdades. Não é apenas o surgimento do Estado-Nação e sua consolidação a partir de identidades excludentes, nossas sociedades (em termos gerais) se organizam muito mais em função dos grupos sociais que excluem, do que daqueles que incluem. É muita ingenuidade imaginar que ações individuais podem desmontar esse tipo de organização complexa.

 

É claro que eu posso aliviar o cotidiano de muitas pessoas se conseguir perceber as nuances do racismo na educação que recebi e passar a ter um comportamento crítico mais humano. Isso deveria derivar da empatia humana e não de uma pseudoculpa cristã liberal, fomentada por dedos apontados exigindo autocríticas. E ainda assim, minha ação individual não destruirá o racismo, somente atenuará o atrito social.

 

Porque para eliminar os grandes flagelos sociais, políticos e econômicos, que nos assolam há séculos, são necessárias ações coletivas e não voluntarismo sem direção. Estruturas de dominação desenvolvidas e aprimoradas durante um tempo histórico considerável, não ruem envergonhadas porque eu e você ergamos nossa voz crítica. Quando muito, conseguimos que várias pessoas concordem, mas a economia que sustenta os privilégios apenas se profunda mais, à nossa revelia.

 

E existe um efeito perverso: ao chamar o patamar mais essencial da cidadania de privilégio, passamos a relativizar os verdadeiros privilégios que existem bem de cara aos nossos narizes. Se uma renda familiar de dois mil reais (que não garante saúde, moradia e nem educação) deve ser considerada privilegiada meramente porque existe um número muito maior de famílias com uma renda de duzentos reais, jamais chegaremos ao âmago do problema, que são as rendas acima de duzentos mil. Não é a minha vidinha ferrada que sustenta a desigualdade, mas sim a ostentação sem fim daqueles escalões da classe média alta, que servem de tropa de choque aos muito ricos ocupando postos chaves nas estruturas governamentais e mantendo os verdadeiros privilegiados em situações de mando e de poder.

 

E percebam que eu não discuto que precisamos ter consciência crítica e que precisamos lutar. O que eu discuto é essa falsa consciência que leva a arroubos individuais e impede o “uni-vos” de que tanto precisamos. O que me enche de fastio é essa ilusão de que as soluções passam por “pequenos gestos” e não por rupturas sociais radicais.

 

Se eu reciclo meu lixo, economizo água e energia elétrica e ajudo meus semelhantes da melhor maneira que posso, combatendo meus preconceitos pessoais, estou sendo uma boa cidadã, mas isso é risível diante das empresas e dos integrantes da classe dominante que consomem, poluem e discriminam de maneira superlativa e sistemática. Meu gesto é apenas um sucedâneo da caridade religiosa, que não acaba com a pobreza, mas afaga o ego de quem a pratica. Essa cidadania de egos politicamente corretos, que descarta a organização e os movimentos sociais, não passa de maquiagem para que a sociedade continue exatamente a mesma barbárie de sempre, mas agora o camarada diz “a culpa não é minha, eu faço a minha parte”.

 

Essa desgraça de pensamento único, que prolifera institutos, fundações e think-tanks inspirados em ideias gringas, e destinados a neutralizar qualquer ativismo sério e eficaz, ainda vai ser a nossa perdição. Afogados nessa cultura de modelos de “gestão”, empreendedorismo, memes e aforismos falsamente atribuídos, vamos sobrevivendo e provando a nossa “resiliência” à procura do desapego final. E haja paciência para tanta asneira!!!

 

Então, parafraseando (com mil protestos de estima e consideração) os revolucionários franceses, eu sugiro que enforquemos o último formador de opinião com as tripas do último guru de autoajuda.

 

And down with the system, man…

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