MANUSCRITO ENCONTRADO EM UMA GARRAFA ENTERRADA

3 ago

Saudações a você que resgatou esta mensagem desesperançada. Seja qual for o ano em que se encontra, receba um alô de agosto de 2018, de um país que quase foi, e que se chamava Brasil. É provável que quando esta mensagem for desenterrada, nada mais reste do que ruínas e desolação.

 

Por uma breve década, este país quase conseguiu aliviar as agruras da miséria constante a que vinham sendo submetidos muitos de seus habitantes. Meia dúzia de políticas não muito dispendiosas, mas bem dirigidas, encheram de esperanças toda uma geração, muito embora os apaniguados da classe dominante não parassem de vociferar e ranger os dentes de despeito e ódio. Por essa breve década diminuiu consideravelmente o número de crianças mendicantes, as universidades se coloriram em todos os sentidos e houve uma expansão da cidadania nunca vista nestes tristes trópicos.

 

Mas, e sempre existe um mas (ou dois ou três ou mais), o partido que promoveu esse surto progressista esqueceu-se (ou nunca parou para pensar) que a desigualdade não se abole por decreto. Se assim fosse, a princesa que assinou a lei extinguindo a escravidão teria com isso promovido uma sociedade mais justa já desde aquele então, o que jamais ocorreu. Leis e decretos podem ser destruídos tanto com sua supressão via parlamento, quanto com a indiferença dos que deixam de cumpri-los e os transformam em letra morta.

 

O ilustre partido e seus próceres, devidamente embriagados com o súbito prestígio internacional, deixaram de prestar atenção aos evidentes sinais de frustração dos estratos médios da população, que viam na ascensão social dos mais humildes uma séria ameaça e não um motivo de orgulho. Permaneceram cegos ao caráter conservador da população, que só os votava em função da prosperidade econômica, mas que não apresentava qualquer simpatia pelas pautas progressistas de seu programa. Confundiram resultados eleitorais com mudanças ideológicas e perderam a oportunidade dourada de realmente promover o progresso intelectual de largas parcelas da população.

 

É claro que suas políticas eram etapistas: pensaram primeiro em forrar os estômagos para depois alimentar os cérebros. Acreditavam que teriam todo o tempo do mundo para esse projeto tão louvável. Esqueceram-se de combinar com os outros sujeitos políticos do país.

 

E quando a reação chegou, foi esmagadora. Um Golpe de Estado engendrado nas entranhas dos três poderes da Nação, apoiado por uma mídia subserviente aos interesses mais escusos do capital estrangeiro e por uma súcia de vendilhões travestidos de pastores e padres. O país tomado de assalto por uma corja de abutres brancos, velhos, machos e sem escrúpulo algum.

 

E o desmonte… Você que me lê nem pode imaginar a amargura de ver dia após dia os direitos dos cidadãos sendo eliminados, as riquezas do país sendo rifadas por valores irrisórios e o sonho da soberania sendo imolado no altar do deus mercado para beneplácito dos basbaques e júbilo das corporações do Hemisfério Norte. Você, que encontrou esta garrafa enterrada, será que consegue sentir a dor de ver seu país se transformar em uma mixórdia amorfa de gente indiferente e sem futuro?

 

Quem escreve esta mensagem é uma professora sem cátedra, habitante de uma unidade da federação em que mais de vinte anos de desmando dos governantes destruiu a escola pública e colocou as universidades de joelhos. Crise após crise, vi o mercado de trabalho se fechando para pessoas como eu e a violência da repressão do governo estadual supliciando meus colegas de profissão. E agora, dois anos depois do golpe, essa política de terra arrasada se estendeu às escolas e universidades de todo o país.

 

É apenas uma questão de tempo para que mergulhemos de vez na mais absoluta e abjeta dissolução do ensino público nestas plagas brasilis. Tal estrago nos arremessará duzentos anos no passado e eliminará qualquer possibilidade de um novo surto progressista. As trevas da ignorância e do fanatismo já nos envolvem da maneira mais perigosa.

 

Professores são agredidos por alunos.

Professores são agredidos por seus superiores hierárquicos.

Professores são agredidos pelas forças de segurança.

Professores são censurados para que não ensinem.

Professores são obrigados a calar-se perante forças religiosas.

Professores são demitidos sem motivo justo.

Professores adoecem.

Professores se suicidam…

 

E a sociedade doente avança entre a miséria e a desesperança. Os desempregados se multiplicam, os miseráveis tomam as ruas, os abonados abandonam o país e os saqueadores se refestelam em cargos públicos bem remunerados. E o futuro que quase foi, já não é mais.

 

Você perguntará: por que não lutamos? O que posso dizer? Os partidos da esquerda (e não alivio e nem perdoo partido algum) cometeram a temeridade de acreditar mais na aparência da democracia do que em sua essência. Perderam tempo demais tentando vencer eleições, enquanto a democracia propriamente dita se esvaia diante de nossos olhos, um pouco a cada dia.

 

O grosso da população (e tratava-se de duas centenas de milhões) estava mais preocupado em sobreviver e cuidar de si. Delegando aos dirigentes políticos a tarefa de “salvar” o país e eximindo-se de qualquer esforço em prol da comunidade, pensando que já faziam mais que a obrigação depositando seus votos em urnas a cada dois anos. A maioria nem sequer percebeu o que estava acontecendo, apenas sentiam seus efeitos e dirigiam seu ressentimento e suas expectativas a quem a televisão e o pastor mandavam.

 

E quem seria louco de culpá-los? Trezentos anos de colonização sangrenta, duzentos anos de independência relativa e desigualdade constante não ajudam a formar uma Nação. Apenas grupos de interesses diversos que se digladiam em volta das miragens de poder e fortuna.

 

Mas…

 

Em parte foi essa idealização dos pobres (e essa infinita capacidade para condoer-se e evitar atribuir responsabilidades) que imobilizou as esquerdas. Sempre que um de nós erguia a voz para chamar o Povo às falas, dúzias de dedos nos apontavam como arrogantes, prepotentes e intolerantes. E então chegamos aonde chegamos, com um povinho que espera “salvadores” e não assume responsabilidade nem sequer por limpar os dejetos que seus cães deixam nas ruas, quanto mais por lutar pela sociedade que deseja.

 

Talvez você que me lê já saiba de tudo isso através dos livros de História e considere este manuscrito apenas como um documento interessante. Torço muito para que a sociedade brasileira tenha reencontrado seus caminhos e que você possa considerar este manifesto desesperado apenas como o eco de um passado triste, que já não é mais. Desejo de todo coração que quem me desenterrou ao menos saiba ler e dar voz à minha tristeza, dando sentido a este apelo do passado, em nome da sanidade e da Razão.

 

Um abraço a você do Futuro, desta que um dia sonhou com uma sociedade ferozmente justa e igualitária e uma Educação laica, universal e gratuita.

 

Uma professora.

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