OS BLOGS NÃO FINANCIADOS E O GOLPE DE 2016

9 ago

Quando eu me formei em História, no final de 1990, ainda usávamos computadores 286 e XT, em que a CPU ficava “deitada” sob o monitor e os disquetes eram uma novidade. CD’s e outros suportes tanto quanto equipamentos foram aparecendo nos anos que se seguiram. E a internet, até mesmo a discada, demoraria ainda um tempo a tornar-se disponível para a maioria dos pesquisadores.

 

Assim, a quase totalidade das minhas pesquisas de Graduação, Mestrado e Doutorado foi feita presencialmente, bloco e lápis à mão, em arquivos documentais, emerotecas e bibliotecas. O máximo de sofisticação daqueles tempos era ter acesso a material microfilmado no CEDHAL da USP e na Biblioteca Nacional. Os bancos de teses e periódicos de hoje são incríveis quando comparados com a nossa peregrinação pelas bibliotecas das universidades, consultando fichários e fotocopiando teses e periódicos científicos, acionando amigos e bibliotecários em outros estados e países para que nos enviassem materiais e usando mecanismos de empréstimo entre instituições.

 

E não é que fossemos “caipiras” em meio a uma revolução tecnológica, a velocidade das mudanças é que quase tornou nossa maneira de pesquisar obsoleta. Embora ainda acredite que usar o bloco e o lápis para copiar documentos é muito mais saudável (por exercitar partes do corpo e do cérebro que previnem uma vasta gama de males cardiovasculares) que andar com tablets e outras parafernálias, não posso negar que a internet é uma ferramenta fabulosa. Inimaginável Mundo Novo, que jamais sequer sonharíamos em 1981 quando concluí o Colegial (Ensino Médio).

 

Enquanto pesquisadores, temos a tendência de pensar a vida virtual pelo que ela pode oferecer como fonte de pesquisa e levamos mais tempo para perceber que estamos produzindo as fontes do futuro. Outros setores da sociedade, dedicados ao marketing e à formação de opinião, já perceberam há muito mais tempo as potencialidades da produção de conteúdo virtual. O alcance, a facilidade e os meios de interferência social, quer seja de modo educativo, quer seja de maneiras negativas ou meramente diletantes, que a rede permite.

 

Não pretendo aqui listar um repertório dos formatos e meios de produção de conteúdo virtual. Como o próprio título do texto indica, são os blogs que me interessam, enquanto veículo de transmissão de informações, ideias, análises e tutoriais. E são aqueles que não recebem financiamento algum de partidos políticos, fundações ou instituições que oferecem uma pluralidade maior e mais interessante para explorar.

 

E o que é um blog?

 

Blog ou blogue (forma aportuguesada menos popular) é aquele tipo de página que mais parece um diário virtual, podendo ser pessoal ou temático e com conteúdos variados como textos, vídeos, tirinhas ou fotografias. Você pode ter um blog dedicado a estudar o período Tudor na Inglaterra ou a divulgar receitas culinárias. Eles também podem ser políticos, jornalísticos ou artísticos.

 

O que não varia é a necessidade de uma plataforma onde hospedá-lo e que acaba determinando seu formato. Você está lendo este texto em meu blog www.compartilhandohistorias.wordpress.com e aqui você pode encontrar textos críticos sobre História, Política e Cotidiano, mas também clipes das minhas bandas favoritas e desenhos da minha filha ilustradora. Porque este é um blog pessoal não financiado, a propaganda que você vê é postada pelo WordPress e assim eu não tenho que pagar para ter este espaço de discussão.

 

Este formato de disseminação de informações, opiniões, ideias e análises se tornou tão popular, que as agências de notícias e os sites da mídia mais tradicional passaram a “hospedar” blogueiros mais afinados a seus perfis e ideologias. A crise que se abateu sobre os jornais impressos e revistas, que vem demitindo funcionários aos montes na última década, multiplicou a incidência de jornalistas independentes que se tornaram blogueiros. Alguns são realmente independentes e conseguem anunciantes que lhes permitem alguma autonomia financeira, outros nem tanto e ficam à mercê dos interesses das agências que os hospedam ou dos partidos que os financiam.

 

Mas é nos formatos pessoais, não financiados e raramente divulgados, que reside a diversidade maior desse meio. Feministas, ativistas de minorias, professores, historiadores, poetas e artistas oferecem seu trabalho e seus pontos de vista a quem estiver interessado em obter informações para além da “telinha”. E o acesso é absolutamente democrático.

 

E aqui, desculpem a prolixidade da exposição, chegamos ao objetivo descrito no título. Enquanto historiadora, os acontecimentos a partir de 2013 começaram a soar todo tipo de alarme na minha percepção do real e comecei a produzir cada vez mais textos críticos por aqui. Diminuí radicalmente as postagens mais bucólicas e até a confecção de vídeos sobre historiografia e passei a tentar “destrinchar” as notícias que se sucediam da maneira mais agourenta.

 

Embora não me considere foucaultiana em hipótese alguma, uma “arqueologia” dos fundamentos e origens de ideias e falas (que pareciam surgir espontaneamente no cenário social, mas só pareciam) tornava-se premente e necessária. Não fui a única, vários colegas de profissão passaram a denunciar, analisar, classificar os acontecimentos e a divulgar materiais críticos, para contrapor-se aos meios de comunicação solidamente alinhados (salvo raríssimas exceções) ao lado dos golpistas. Na tentativa democrática de produzir senso crítico que pudesse enfrentar o discurso único e hegemônico da grande mídia, passamos também a produzir fontes para o futuro.

 

E afirmo isso sem arrogância ou cabotinismo (embora nem todos vão acreditar) porque eu mesma só fui perceber o que estava fazendo quando um dos meus textos foi selecionado para fazer parte do livro Historiadores pela Democracia. Até então eu me sentia uma Cassandra clamando no deserto contra um golpe de Estado que se tornava cada vez mais iminente, uma vez que não sendo famosa e nem popular, o número de leitores dos meus textos mal passava de algumas centenas. Reconhecer que não estava só, e que minhas avaliações poderiam ajudar algum futuro pesquisador, ajudou a organizar meu pensamento e consolidar meu estilo mais coloquial de abordagem textual.

 

E se você, que ora me lê, se interessou por acompanhar essa trajetória, aqui vai o link para a publicação realizada no fim do ano passado, em que disponibilizei uma seleção em PDF das postagens no blog de 2012 a 2017:

https://compartilhandohistorias.wordpress.com/2017/12/12/um-registro-deste-blog/

 

Nesse sentido, caberá aos estudantes e historiadores do futuro (talvez nem tão distante) “peneirar” entre nossa imensa produção material, as fontes necessárias para compreender os acontecimentos e os discursos gerados durante o Golpe de 2016. Utilizar a diversidade de vozes proporcionada pela blogosfera para contrapor aos discursos oficiais e ao consenso fabricado pela grande mídia. Sem perder de vista, evidentemente, o alcance restrito de cada uma dessas vozes, mas salientando seu caráter crítico em relação às interpretações do real.

 

Muitos de nós, longe de apenas constituir observadores passivos do processo, saímos às ruas, promovemos o diálogo em comunidades, divulgamos internacionalmente as denúncias sobre o processo arbitrário e fatídico que levou nosso país ao abismo em que ora se encontra. Não conseguimos impedir o golpe e muito menos conscientizar o número necessário de pessoas para articular uma resistência eficiente, mas isso já era esperado, bastava observar, para tanto, a tendência internacional e os humores da geopolítica. Mas não fizemos feio e ainda estamos aqui denunciando e discutindo os rumos da luta cotidiana.

 

A revolução tecnológica que nos isolou do espaço público e nos aprisionou frente aos teclados também nos deu (de uma maneira bem thompsoniana) a hospedagem necessária para produzir e registrar as vozes e os discursos que identificarão nossas lutas para as futuras gerações.

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