OS NOVOS LOMBROSIANOS

14 ago

(alerta: texto com doses consideráveis de ironia e sarcasmo, leia com cuidado e atenção e procure ajuda se necessário)

 

Cesare Lombroso (1835-1909) é referência obrigatória não apenas para os estudiosos do século XIX, mas também para quem efetua recortes temáticos nas áreas de Direito, Medicina e História. Tido como o criador da Antropologia Criminal, exerceu e lecionou diversas disciplinas especializadas como Psiquiatria, Cirurgia, Criminologia e foi também higienista e alienista. Suas pesquisas e experiências, nos sistemas prisional e manicomial, influenciaram a Escola Positiva do Direito e causam sérios problemas sociais até hoje.

 

As teorias lombrosianas sobre o “homem criminal nato” e a “desigualdade das raças” alimentaram o “racismo científico” e dele se alimentaram em uma rara simbiose de cegueira e preconceito, que ainda encontra ecos nos códigos penais no Ocidente. O período passado exercendo o papel de antropólogo forense e seus estudos em cadáveres de criminosos, pacientes de hospício e internos do sistema prisional, deu lugar a uma série de tentativas de reduzir a delinquência a uma manifestação de doença mental. Não apenas patologizando comportamentos, mas também procurando no aspecto físico dos indivíduos as marcas que poderiam significar a propensão para a doença mental e para o crime.

 

Nós de Humanas brincamos muito e impiedosamente com essa ideia ridícula de que seria possível reconhecer um ladrão, um assassino ou uma adúltera pelo formato de suas orelhas, sobrancelhas ou pelo espaço entre seus olhos. Mesmo que Lombroso tenha passado décadas de sua vida medindo crânios, orelhas, frontes, narizes e criando tabelas e repertórios de “faces criminosas”, não existe qualquer vestígio de acuidade científica em suas teorias. Não passam de um empolado palavrório racista, historicamente datado e com um endereço classista muito bem demarcado.

 

Não sem ironia, Umberto Eco dedica um lugar em sua História da Feiura a Lombroso, reproduzindo algumas de suas sandices mais venenosas no que se refere à percepção da raça. Porque desde Leonardo e seus apontamentos sobre a perfeição da face até os modelos atuais de beleza, é no estabelecimento de um estereótipo de feiura que se nutre de preconceitos de raça e classe, que devemos ler as tolices lombrosianas. A rigor, podemos deduzir que este autor (sob toda a verborragia pseudocientífica) associa a bondade e a nobreza a um ideal de “beleza normalizada” e atribui aos que considera feios, toscos e animalescos o estigma da doença mental, do crime e da maldade.

 

Hoje, chamar qualquer indivíduo de lombrosiano implica em dizer que é feio, tosco ou bruto, daquelas feiuras que são consideradas quase atávicas. É uma daquelas brincadeiras que nós de Humanas utilizamos para caracterizar aquela fauna lastimável de políticos, pastores e milicos de ultradireita, sempre tão ignorantes, truculentos e intransigentes na própria intolerância. Ironias à parte, jamais nos ocorreria debochar desse modo de alguém realmente em situação periclitante, doente ou pertencente à vasta parcela da Humanidade que é tratada como minoria apenas porque não é identificada como “branca”.

 

Mas se você pensou que eu faria um texto para debochar da milicada tosca aspirante ao Planalto, sem querer ofender, como diria o Rogerinho do Ingá: “achou errado, otário”. Existe gente demais dando ibope e palanque para essas tristes nulidades, apologistas da violência e dos instintos mais primitivos do ser humano. Este texto é para refletir sobre outros setores à Direita e ao Centro, lombrosianos por convicção e não por aparências.

 

Os novos lombrosianos nada têm de novo, ao contrário, são figurinhas carimbadas na política nacional há décadas. Alguns se locupletaram durante o período ditatorial e sobreviveram à redemocratização parasitando partidos (tanto os sem qualquer expressão, que ganham na baciada ao unir-se a nulidades partidárias similares, quanto os grandes partidos de transição e polarização ao Centro e à Direita) e outros são membros de oligarquias regionais de várias gerações. Em comum, todos se consideram “brancos, cristãos, heterossexuais” e são velhos e ricos.

 

Desde cedo já preparam filhos, sobrinhos, netos, genros e até cunhados para atrelar ao Estado seus interesses pessoais e garantir rendas nababescas, enquanto rapinam sem piedade o erário público, tudo “dentro da lei” bem entendido. E quando a lei não ajuda, o Judiciário se encarrega de “aplainar e lixar arestas e calombos”, uma vez que juízes e promotores pertencem ao mesmo grupo social e se identificam com suas regalias e privilégios. E são todos “cidadãos de bem, tementes a deus e defensores da tradicional família brasileira”. E, claro, em sua grande maioria são homens.

 

Eles são lombrosianos porque compartilham com o “mestre” o pavor da aparência dos setores empobrecidos e marginalizados da população. Enquanto Lombroso patologizava os pobres com o estigma da doença mental e da criminalidade, seus atuais discípulos discutem às escondidas suas estratégias de extermínio e formulam leis e políticas destinadas a mergulhar a pobreza no crime e depois punir exemplarmente esse crime. Vivem em sua “bolha” de prosperidade meritocrática e relegam o resto da Humanidade aos lixões e periferias, na esperança de que desapareçam para que seu mundo seja melhor.

 

Os novos lombrosianos defendem radicalmente a vida quando esta não passa de um embrião ou um esfregaço de poucas células, mas são radicalmente contra toda e qualquer política social que possa garantir um mínimo de dignidade à sobrevivência dessas vidas e seu futuro. Acreditam que tem direito a todo tipo de regalia do Estado, mas acusam de populismo quando o mínimo necessário à sobrevivência é estendido ao resto de seus compatriotas. Defendem liberdades e valores abstratos quando se trata de discursar em público, mas adoram ser servidos e explorar a mão de obra barata até um nível análogo à escravidão.

 

Seus anódinos trajes sociais cinzentos e gravatas genéricas são a moldura perfeita para suas feições imobilizadas pelo botox e seus olhos arregalados depois da cirurgia estética para retirar pele e gordura das pálpebras. Alguns colecionam diplomas de cursos que não honram e outros são oriundos dos meios empresariais, mas o número de médicos e juristas entre eles chega a ser assustador. Todos legítimos herdeiros de seu “mestre” quando se trata de impingir aos pobres a culpa da própria pobreza e de lutar por seus elevadores sociais, seus aeroportos e seus shoppings centers livres de qualquer presença que possa empanar seu sonho burguês de prosperidade e sucesso.

 

Os novos lombrosianos se consideram superiores à fauna medonha de pastores e milicos arbitrários, que hoje infesta a política nacional. Sentem-se ameaçados pelo crescimento desse fundamentalismo nazifascista, que se alastra até mesmo em suas fileiras, mas flertam com esse ideário autoritário como única maneira de manter seu estilo de vida egresso dos tempos coloniais. Compensam sua falta de carisma e sua arrogância natural com o dinheiro proporcionado por sua vasta rede de apoio no meio bancário e empresarial.

 

Estes senhores se apresentam professorais, condescendentes, enfatuados e impecáveis ao consumir vinhos de três e quatro dígitos e discorrer sobre os destinos do país. Querem privatizar universidades, fechar cursos, demitir professores e controlar o que se diz em sala de aula, manipulando para isso seus sequazes daquela fauna nazifascista e atirando-os sobre nós como se fossem cães acossando a caça. Mas querem conservar o poder e não aceitam dividi-lo com seus cães de guarda e caça e por isso estão em pânico diante do quadro eleitoral que ora se apresenta.

 

Os novos lombrosianos oscilam entre o um por cento mais rico do planeta e o primeiro escalão de seus apaniguados. Quando meros burocratas a serviço da oligarquia podem ser muito mais perigosos do que quando realmente ricos e poderosos. Você que me lê deveria saber do que estou falando, afinal, nós os vimos depor uma presidenta legitimamente eleita e destruir o país ao longo dos últimos dois anos.

 

E os veremos recorrer às medidas mais desesperadas nos próximos meses para conservar o poder que acreditam lhes pertencer por direito divino. Não nos iludamos com discursos de espécie alguma, esses senhores não soltarão o osso que sua matilha tão duramente conquistou. E quem pagará o preço por isso seremos nós, como sempre.

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