DÍVIDAS HISTÓRICAS

26 ago

Ontem morreu John McCain e, com ele, talvez um dos últimos lembretes constantes da atrocidade que foi a Guerra do Vietnã. O longevo congressista conservador foi abatido em 1967 ao bombardear civis e permaneceu durante cinco anos e meio sendo torturado pelos vietcongues até finalmente ser liberado. Por ter quebrado sob tortura e ter gravado retratações de propaganda de guerra, ao voltar para casa afastou-se das Forças Armadas dos EUA, quebrando uma tradição familiar de várias gerações.

 

Vivo, McCain era (ao mesmo tempo) um símbolo de vergonha e derrota. Morto, a imprensa e as redes sociais enterram com ele todo o embaraço das atrocidades cometidas em uma guerra covarde, empreendida contra um país muito mais pobre e muito mais fraco, e mesmo assim perdida. Enterram com ele qualquer possibilidade de retomar a discussão dos crimes contra a Humanidade cometidos pelos ianques no Vietnã.

 

É tabu falar mal dos mortos e por isso não pretendo falar da atuação individual de McCain e sim de todo o processo histórico de que ele fez parte e de como é pertinente a discussão sobre as dívidas históricas.

 

Tribunais revolucionários são acusados constantemente de parcialidade por personalizar dívidas históricas e permitir ajustes de contas entre setores da sociedade em guerra civil. Mas raramente se questiona a parcialidade e os interesses envolvidos nos tribunais de guerra do século XX. Se houve Nuremberg para os alemães, por que não houve um similar com o mesmo alcance e a mesma publicidade para os japoneses, responsáveis por toda sorte de atrocidades no Pacífico, na China e na Coréia? Por que os EUA não foram punidos por suas duas bombas atômicas? Por que a carnificina do Vietnã permanece impune?

 

Você poderia argumentar que são os vitoriosos em uma guerra que estabelecem o caráter dos tribunais que se lhe seguem. Assim, Nuremberg aconteceu (dizem) por instância e insistência do exército soviético, enquanto o interesse econômico dos EUA em ocupar o Pacífico permitiu que poupassem o Japão das humilhações a que a Alemanha foi submetida. E isso pode ser verdade em termos, mas a situação é muito mais complexa e requer todo um estudo geopolítico que não é o objetivo deste texto.

 

No caso de Hiroshima e Nagasaki, o armistício que se seguiu e a consequente vitória obtida na guerra parecem justificar as centenas de milhares de cadáveres de civis inocentes. Não se discute com a mesma intensidade dos campos de extermínio (nem em termos judiciais e nem entre os crimes contra Humanidade) o fato de que se a bomba atômica era para ter um caráter dissuasório, a segunda bomba não se justifica do ponto de vista estratégico. Não que a primeira bomba se justifique em hipótese alguma, mas ainda existem os infelizes que argumentam que, dando fim à guerra, essas bombas pouparam as vidas de milhares de soldados.

 

Pessoalmente, não apenas me recuso a “comprar” essa argumentação, mas também não considero que as vidas dos soldados fossem mais significativas e importantes que as dos habitantes de Hiroshima e Nagasaki. Para mim, o bombardeio permanece como um crime contra a Humanidade e um crime impune, que nenhuma vantagem comercial ou política pode sanar. E abriu um precedente para a impunidade de guerra que nos persegue e assombra até os dias atuais.

 

Nesse sentido, quando os EUA se abateram sobre o pequenino e miserável Vietnã (usando seu arsenal de bombas convencionais e agentes químicos, seus marines movidos a entorpecentes e toda a parafernália da indústria cultural martelando os argumentos da Guerra Fria contra o comunismo) esperavam uma vitória acachapante e por isso não tiveram pudores em cometer todos os crimes de guerra imagináveis. Usaram os desfolhantes químicos em florestas e plantações, contaminando a população, o solo e os rios; queimaram aldeias cheias de idosos, mulheres e crianças; bombardearam alvos civis com armas convencionais e químicas e deixaram um legado de morte, invalidez e miséria totalmente monstruoso. E ninguém foi responsabilizado ou punido nos termos minimamente necessários.

 

Durante duas décadas os vietcongues resistiram (com o apoio soviético) à coalizão de países anticomunistas, e quando finalmente conseguiram expulsar os estadunidenses de seu território, não eram significativos o bastante (em termos de geopolítica) para punir aos derrotados por seus crimes. Não houve tribunais internacionais para os marines, nem sanções para seu país. Sem sombra de dúvida, o poder econômico falou mais alto e o mundo manteve suas censuras apenas no âmbito literário ou documentário.

 

Nesse sentido, John McCain leva para o túmulo um dos últimos lembretes de que os vietcongues foram mais poderosos em sua luta do que o país mais poderoso do planeta. Que, apesar de todo o poderio e da “tradição”, os ianques foram escorraçados de um país asiático quase que apenas pela resistência sobre-humana de um povo que se recusou a ser esmagado. E que não recebeu reparações nem físicas e nem morais para tudo o que sofreu e ainda assim sobreviveu.

 

A recusa em discutir o papel de combatentes como McCain, desde a covardia da luta desigual e do uso de armas químicas, passando pela própria ação política dos EUA de esmagar qualquer tentativa de redimensionar seus mitos sobre essa guerra, está na categoria das dívidas históricas que perseguem a Humanidade até aqui e daqui para o futuro. Em vida, McCain chegou a ser perseguido e ridicularizado em seu próprio partido por ter “quebrado” sob tortura, mas jamais foi questionado por bombardear civis. Parece que quando as vítimas não são brancas, também não são vítimas.

 

Para nós, aqui no Brasil, o sentido de dívida histórica adquire um significado ainda mais premente. As sequelas hediondas de trezentos anos de escravização de africanos são vistas apenas como “mimimi” ou “vitimização” por amplos setores da nossa sociedade. Da mesma forma que as raízes patriarcais que construíram os papéis de gênero em nosso cotidiano são normalizadas e qualquer questionamento combatido com veemência.

 

O patriarcado e a escravidão não foram apenas heranças malditas do colonialismo, mas constituíram a identidade na construção da nação independente por mais de seis décadas após 1822. E são responsáveis pelos índices inauditos de violência que nos acompanham no cotidiano e que ultrapassam o espaço público e invadem a privacidade das relações familiares. Violência social, violência policial, violência de gênero, violência doméstica, violência institucional são faces da mesma dívida histórica, que hoje os setores dominantes da nossa sociedade escamoteiam e ridicularizam.

 

Redimensionar as dívidas históricas e propor reparações deveria ser prioridade em todo o planeta se queremos superar o limiar da nossa própria destruição. Que se respeitem os mortos, vá lá, mas que se respeitem TODOS os mortos. E que se discuta, se areje e se jogue a luz da razão em toda essa mixórdia maldita que nos rodeia.

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