FOI CRIMINOSO

3 set

Em 2002, ao completar seis anos, Débora pediu para ir ao Rio de Janeiro para conhecer o “museu com a preguiça gigante”. Tendo assistido a uma reportagem sobre os fósseis e esqueletos do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, ficara fissurada na ideia de uma preguiça pré-histórica. E não fazia questão de festa ou bolo de aniversário, queria conhecer o Museu.

 

E nós vivíamos em uma pindaíba desgraçada. Contando cada centavo para pagar as contas e parcelando tudo o que podíamos, estourando limites para tentar superar o legado dos anos FHC, que nos custaram sacrifícios dos mais variados. Nunca viajávamos e a cada aniversário fazíamos uma festinha em prestações para que Débora pudesse ter boas lembranças.

 

Nenhum de nós teve sequer a coragem de explicar os custos desse tipo de viagem, afinal, ela estava pedindo para ir a um Museu e isso para nós era a validação de toda uma ideia pessoal de educação. Sentamos e começamos a fazer contas, de onde tirar, como parcelar, aonde ir, uma vez no Rio, considerando que só poderíamos passar um dia lá e que no dia seguinte ela deveria estar de volta à escola. E conseguimos, e levamos nossa filha também ao Paço Imperial e ao Museu de Belas Artes, uma vez que a Biblioteca Nacional (sempre em reformas) não estava aberta ao tour de visitação.

 

E tiramos apenas meia dúzia de fotos em uma daquelas maquininhas de plástico, a pilhas e com filme. Eram outros tempos, as fotos hoje se encontram em álbuns e os negativos em caixas, podendo ser “escaneados” e digitalizados conforme a necessidade. As lembranças se esgarçam com a idade e o tempo.

 

E passamos um dia lindo, jurando voltar sempre que pudéssemos, o que só aconteceu, de fato, em 2010. Ano passado, quando ia ser aberta a cápsula do tempo, estávamos novamente em momentos de aperto financeiro e não tivemos a menor condição de voltar. Agora não mais.

 

 

40685567_276026149671937_4707659562327474176_n

Foto: Eduardo Ramos Dezena, 2002.

 

Haverá na grande imprensa um cortejo de lágrimas de crocodilo e de reportagens sobre como o Museu era importante e do acervo incomensurável que acaba de ser consumido pelas chamas. A mesma imprensa que aplaudiu a PEC do Teto dos Gastos, que condenou à morte não apenas este Museu, mas que fere fatalmente o exercício da Ciência e da Tecnologia e esmaga as Universidades sem compaixão. A mesma imprensa que promoveu e legitimou o golpe jurídico-legislativo, que vem arruinando nosso país e inviabilizando qualquer espécie de futuro, que não seja para aquele um por cento.

 

Neste momento nem tenho cérebro para assimilar a perda do acervo e choro pela minha profissão tão vilipendiada, pelas lembranças que terei que guardar para o resto da vida porque o lugar real não existe mais. Choro porque passei a semana convivendo com um grupo de estudantes maravilhosos e tenho vergonha do mundo que estamos deixando para eles. Da nossa impotência, da nossa insignificância, do país que poderia ter sido nosso e hoje se encontra sequestrado por ávidos congressistas, togados e administradores, que dessangram o Estado com seus salários e penduricalhos de cinco ou seis dígitos, enquanto as instituições realmente necessárias fenecem à míngua.

 

E é por isso que afirmo que foi criminoso. Pode até não ter sido premeditado, mas o descaso, o abandono, a sabotagem e a humilhação pública, a que cientistas e historiadores são submetidos diariamente, para conseguir sobreviver e realizar suas pesquisas, culmina hoje com o incêndio arrasador de nosso museu mais tradicional. Autoridades omissas, ausentes, indiferentes e até (por que não dizer) inimigas do conhecimento, provavelmente contam as horas para poder beneficiar algum “amigo” e construir um shopping onde o Museu funcionou por mais de um século.

 

Simbólico e emblemático. Toda a hipocrisia do mundo não alterará o fato de que o Museu Nacional foi deixado à míngua por dois anos, sem verbas para manutenção e funcionamento. Ao queimar, lançando as labaredas noite adentro, queima também uma parte da nossa esperança de manter a razão e a sanidade em meio ao caos de ódio e ressentimento, que caracteriza os dias atuais.

 

Não faltará, entre aqueles ignaros que consideram os estudos de História uma ameaça a seu mundinho limitado, quem comemore a destruição das perspectivas de pesquisa e do acervo. Temos visto chamados demais à queima de livros, para não perceber o simbolismo presente na própria “queima do saber”. O emblema do fogo parece por demais “adequado” neste presente, que celebra a ignorância e a truculência.

Por isso, permitam-me, no calor do momento, amaldiçoar cada golpista desgraçado, cada defensor do “nazismo de esquerda”, cada “terraplanista”, cada queimador de livros. E amaldiçoar também cada secretário, ministro ou mero burocrata, que do alto de seus cargos e salários auferidos para defender o livre exercício da pesquisa e do conhecimento, se omitiram e permitiram o descalabro em que nos encontramos. E amaldiçoar todo obscurantista, seja fiel, padre ou pastor, que acredita que basta um único livro para matar a sede de conhecimento da Humanidade.

 

Como um dia cantou Violeta Parra: “yo los maldigo de veras”. Que não tenham sequer um segundo de alento ou de descanso nesta vida e nas outras, que eventualmente possam existir (não que eu acredite). Que paguem com seu próprio sangue a tragédia que causaram ao país, da qual este incêndio é um dos tantos desdobramentos.

 

E mais não digo.

Anúncios

14 Respostas to “FOI CRIMINOSO”

  1. Emerson Figueiredo 03/09/2018 às 2:52 am #

    Tudo tem doído nesses tempos obscuros. Meu coração tem chorado, desejoso por novos dias… força professora e obrigado por compartilhar esse texto maravilhoso!!!

  2. Luciana 03/09/2018 às 4:40 am #

    Parabéns belas palavras e dou plena concordância com tudo que escreveu.. é doloroso ver parte da nossa história destruída tão covardemente, digo covarde quando implica os nossos órgãos públicos que recebem e não repassam verbas para manutenção e conservação dos nossos patrimônios.

  3. Alice 03/09/2018 às 6:07 am #

    Professora, é verdade. Lágrimas de crocodilo. Às vezes é muito triste ser historiadora. Acompanho o blog e o canal desde a graduação, amo História, nem um dia da minha vida penso em fazer outra coisa, mas como ser historiador? Tem dias que fico muito triste, completamente impotente. Estou fazendo uma segunda graduação na área de Pedagogia para fugir da linha de frente, confesso. Nós somos vistos como inimigos, doutrinadores…”vamos deixar os historiadores para lá”. Eu queria ser mais didática e calma para reagir aos ataques e ajudar as pessoas a entenderem o valor das ciências humanas mas, na maioria das vezes, só fico com raiva e triste ou ganho inimizades. Parece que só as nossas lágrimas enquanto professores e pesquisadores que são verdadeiras. Temos que nos unir para proteger o que resta de História até a nós mesmos do que vem por aí.
    Mas a História não pode ser destruída, nao é? Queima o Museu e isso é terrível mas é só outro capítulo. Um muito feio.

    • annagicelle 03/09/2018 às 12:18 pm #

      😦 perder memórias é duro, é como perder um pedaço de si 😦

  4. Edson 03/09/2018 às 8:20 am #

    E imaginar que manter este patrimônio cultural e histórico, vivo, custaria menos que manter um ministro do STF.
    Pra mim companheira, incendiar ou esperar pegar fogo, é criminoso do mesmo jeito.

  5. Paulo Pinheiro Machado 03/09/2018 às 1:48 pm #

    Muito triste e revoltante. A comparação com a queima de livros não é só ilustrativa, é real mesmo.

  6. Júlio Filho 03/09/2018 às 9:45 pm #

    Difícil não se emocionar ao ler seu texto. Também estou desolado, sentimento de desgraça no ar.

  7. debora 04/09/2018 às 11:21 pm #

    melhor frase nao traduziria meus sentimentos:
    Por isso, permitam-me, no calor do momento, amaldiçoar cada golpista desgraçado, cada defensor do “nazismo de esquerda”, cada “terraplanista”, cada queimador de livros. E amaldiçoar também cada secretário, ministro ou mero burocrata, que do alto de seus cargos e salários auferidos para defender o livre exercício da pesquisa e do conhecimento, se omitiram e permitiram o descalabro em que nos encontramos. E amaldiçoar todo obscurantista, seja fiel, padre ou pastor, que acredita que basta um único livro para matar a sede de conhecimento da Humanidade.

  8. Rose Mota 05/09/2018 às 1:47 am #

    Eu estava me programando para ir ao Museu Nacional😭sem lalavras…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: