O PARADOXO DA LEGALIDADE

17 set

Um dos elementos mais paralisantes da crise atual das esquerdas no Brasil é a obsessão por manter-se sempre nos princípios da legalidade. Talvez isso resulte, em parte, das feridas não cicatrizadas do período ditatorial, quando “pegar em armas” ocasionou o efeito oposto ao desejado, resultando em morte, tortura e prolongando a sobrevida de um regime asqueroso, ao invés de libertar o país como se desejava. No processo de redemocratização, as lideranças dos mais variados setores das esquerdas vêm porfiando em manter suas atividades dentro da mais estrita legalidade, mesmo que isso nos custe o país e a sobrevivência.

 

E não estou dizendo que, enquanto militante, eu mesma seja muito diferente do comportamento que ora critico. Está aí meu texto defendendo A Justiça Burguesa, por motivos históricos, mesmo em face do golpe de estado, postado aqui em Março de 2016. Existe na maioria de nós, por motivos dos mais variados, uma paixão cega pela excelência moral e comportamental, que nos leva a afundar com o navio, mesmo quando os botes ainda nos acenam com lugares suficientes para salvar a todos.

 

E sei que o massacre midiático sofrido na última década criou a impressão de que a esquerda é tão corrupta quanto a direita, senão mais. Sobre isso é quase impossível dialogar com a maioria dos defensores de mitos e mercados, uma vez que estão dispostos a acreditar na nossa demonização, para além de qualquer racionalidade ou sanidade mental. Um magote irrisório de corruptos foi o bastante para que toda a militância ficasse marcada, sabe-se lá até quando.

 

Nesse sentido, é preciso que o leitor deste texto tenha a sofisticação de raciocínio suficiente para distinguir a que me refiro quando uso o termo legalidade. É à defesa do Estado Democrático de Direito sejam quais forem as circunstâncias, que vimos consolidar-se no processo de democratização nos últimos trinta anos, sacrificando no altar da governabilidade, as memórias dos supliciados pela ditadura e os princípios mais caros ao ideário progressista, quando não socialista. É a defesa da estabilidade, mesmo em face de um golpe de estado que atropelou a própria Democracia e rasgou a Constituição, mas que recebeu por parte das estruturas dos poderes da República uma “maquiagem” tosca para se travestir de legalidade.

 

É nesse sentido que devemos ler o comportamento do ex-presidente Luis Inácio da Silva, o Lula, ao entregar-se feito cordeiro do sacrifício a um Judiciário parcial e classista. E ao continuar interpondo recurso após recurso, sabendo que serão negados porque esse poder está tão involucrado no golpe de estado quanto os outros dois, a ponto de desconhecer a Constituição e desrespeitar toda sorte de tratados internacionais, dos quais o Brasil é um signatário histórico. Ao tentar manter-se estritamente na legalidade, a defesa de Lula e ele mesmo alimentam a ilusão de que as instituições democráticas continuam funcionando, quando basta uma olhada superficial para constatar que perdemos nossas liberdades e direitos diariamente e sem remissão.

 

Nesse sentido, o processo eleitoral ora em curso apresenta-se como uma farsa, marcada pela mais escancarada desfaçatez com que os setores golpistas se dispõem a legitimar seu crime contra a democracia através das urnas. Não é apenas a prisão sem crime de Lula e a supressão sistemática de seu nome pelos meios de comunicação, muito embora fosse o franco favorito nesse pleito, é também a maneira insidiosa como esse funcionamento farisaico e “meia-boca” das instituições democráticas se destina a manter os imbecis na ilusão de que está tudo sob controle. E a esquerda disputa essas eleições como se realmente houvesse qualquer possibilidade de retomar o Executivo.

 

Há sinais de sobra no ar de que se as eleições não consolidarem o golpe e o projeto neoliberal, a escalada da repressão e do cerceamento político e social retomarão níveis ditatoriais. A saber, o flerte descarado da emissora líder de audiência com o candidato protofascista, a crescente presença de discursos militaristas e de militares pronunciando-se sobre temas que não lhes concernem, em suma, um total desrespeito à Constituição e ao Estado de Direito. De nada adianta a ONU cumprir seu papel, se os EUA e seus puxadinhos estão apoiando não apenas o golpe, mas a redução sistemática da América Latina a um grande “favelão” sem expressão política ou econômica.

 

E eu insisto que essa obsessão moral com a legalidade, que nos paralisa e nos leva a confiar nossas vidas a nossos algozes, é uma consequência direta do saneamento dos nossos discursos revolucionários, em prol de uma sociedade pacífica e estável. Sacrificamos nossos sonhos de Revolução para aceitar o possível oferecido por políticas de conciliação e reformismo, não percebendo que somos o elo frágil da corrente e seremos sempre sacrificados no altar dos mercados. Os partidos que conservaram o discurso incendiário transformaram-se em caricaturas nanicas e irrelevantes de uma voz social que deveria ser tratada com mais carinho e respeito.

 

O anacronismo das poucas vozes revolucionárias, que continuam dialogando com o século XIX, ao invés de ir ao encontro do século XXI, permitiu que o reformismo se consolidasse como a única política possível. O que fazer, então, quando o reformismo se transforma em uma camisa de força, que nos impede de enfrentar a realidade nua e crua? Essa é a pergunta que deveríamos estar discutindo e não as opções eleitorais furadas que ora se oferecem.

 

Quero dizer com isso que devemos pegar em armas? Claro que não, seria patético e fadado à derrota, nesta altura do campeonato, um bando de intelectuais barrigudos, estudantes sem preparo e movimentos sociais dispersos e pontuais enfrentando todo o aparato repressor e o sistema econômico mundial. Sem preparo, sem armas, sem projeto e sem acordo seríamos a presa fácil e quem diz o contrário deveria “maneirar” nas bravatas e respeitar mais a vontade popular.

 

Nesse sentido, a retomada do discurso revolucionário (proponho) deve passar por uma releitura das conjunturas sociais, econômicas e históricas e adequar-se ao momento em que vivemos. Deve propor ações factíveis, dentro dos limites possíveis, mas que sejam ações que perdurem, que não possam ser desmontadas sem mais por algum Congresso venal e traiçoeiro. E mais, ainda, deve sair dos ambientes universitários resguardados (por quanto tempo ainda?) e ganhar as ruas no cotidiano, não em passeatas, mas no diálogo com o resto da população.

 

Precisamos abandonar as “igrejinhas” em que se transformaram certos partidos à esquerda e formar uma grande frente progressista, se quisermos permanecer relevantes. Mas, no cotidiano, precisamos retomar os sonhos de Revolução e atualizá-los de maneira que possam ser compreendidos por qualquer cidadão minimamente pensante. Estamos órfãos de um ideário atualizado e continuamos pensando nos termos dos líderes de “antes de la guerra”, o que nos torna anacrônicos e solitários.

 

A onda reacionária da ultradireita, que varre o hemisfério Norte neste momento e nos ameaça com décadas de autoritarismo racista, xenófobo, misógino, homofóbico e intolerante é uma ameaça tangível, não se trata de mero alarmismo. E vem sendo “martelada” em maior ou menor medida em todos os países da América Latina, não apenas no Brasil, trazendo ao palco político o que existe de mais execrável e asqueroso em termos de liderança social e religiosa. Esses “talibãs” do cristianismo, que defendem a morte, a tortura e a sujeição da diversidade social, preferem o país massacrado e falido a diverso e livre.

 

Diante da minha própria experiência, considero esta a “crise das crises”, uma vez que a paralisia que toma conta das esquerdas, em níveis planetários, ameaça dissipar-se em discursos e narrativas, com vista aos livros de História e não à realidade da vida. Nunca fomos tão conscientes da nossa historicidade, o que faz com que lideranças e movimentos sociais joguem “para a galera”, “para ficar bem na fita”, para deixar suas narrativas impressas nos livros do futuro. E, enquanto isso, a sociedade se esfacela a olhos vistos e caminhamos direto para um tipo de barbárie cibernética desconhecida.

 

Este blog tem sido o único lugar em que consigo dimensionar minha perplexidade e meus medos com relação à nossa sobrevivência enquanto espécie pensante. À medida que as minhas perguntas se adensam, as respostas fogem e me abandonam à deriva. Um bote sem remo diante do navio que afunda sem remissão.

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